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GRIPE (Sinônimo: Influenza) (Também: Gripe asiática e Gripe do Frango)

O que é?

É uma infecção respiratória causada pelo vírus Influenza. Ela pode afetar milhões de pessoas a cada ano. É altamente contagiosa e ocorre mais no final do outono, inverno e início da primavera. Também é responsável por várias ausências ao trabalho e à escola, além de poder levar à pneumonia, hospitalização e morte.

Existem três tipos deste vírus: A, B e C. O vírus Influenza A pode infectar humanos e outros animais, enquanto que o Influenza B e C infecta só humanos. O tipo C causa uma gripe muito leve e não causa epidemias.

uma maneira geral, o vírus influenza ocorre de maneira epidêmica uma vez por ano. Qualquer pessoa pode se gripar. Contudo, as pessoas com alguma doença respiratória crônica, com fraqueza imunológica, imunidade enfraquecida e idosos têm uma tendência a infecções mais graves com possibilidade de complicações fatais.

Os sintomas da gripe são freqüentemente mais graves do que os do resfriado.

O vírus Influenza tem uma “capa” (revestimento) que se modifica constantemente. Isto faz com que o organismo das pessoas tenha dificuldade para se defender das agressões deste microorganismo, ficando também difícil desenvolver vacinas para proteção contra a infecção causada por ele.

Por isso, a gripe é um dos maiores problemas de saúde pública.

Como se desenvolve?

Diferentemente do resfriado que, na maioria das vezes, se dissemina pelo contato direto entre as pessoas, o vírus Influenza se dissemina, principalmente, pelo ar. Quando a pessoa gripada espirra, tosse ou fala, gotículas com o vírus ficam dispersas no ar por um tempo suficiente para ser inaladas por outra pessoa.

No revestimento do nariz da pessoa que foi contaminada, ele se reproduz e se dissemina para a garganta e para o restante das vias aéreas, que inclui os pulmões, causando os sintomas da gripe.

Menos freqüentemente, a doença se dissemina pelo toque (mão contaminada com o vírus) do doente na mão de um indivíduo sadio que, ao levar a mão à boca ou ao nariz, se contamina.

Um dia antes da pessoa experimentar os sintomas da doença, ela já pode contagiar outras. Poderá contaminar por até 7dias após início dos sintomas – crianças até mais que isso.

O que se sente?

Gripe não é resfriado. A gripe é uma doença com início súbito e mais grave que o resfriado comum. O período de incubação – tempo entre o contágio e o início dos sintomas da doença – é de 1-2 dias.

Sintomas:

febre

calafrios

suor excessivo

tosse seca - pode durar mais de duas semanas

dores musculares e articulares (dores no corpo) - podem durar de 3 a 5 dias

fadiga - pode levar mais de duas semanas para desaparecer

mal-estar

dor de cabeça

nariz obstruído

irritação na garganta

Alguns ou todos os sintomas supracitados podem estar presentes.

A doença costuma ceder completamente dentro de uma ou duas semanas. A febre pode durar 3-8 dias.

Nos idosos, a fraqueza causada pela gripe poderá durar várias semanas.

Como complicação possível da gripe está a pneumonia – normalmente, não pelo vírus Influenza, mas por uma bactéria (pneumococo ou estafilococo, geralmente).

Além da pneumonia, outras infecções como sinusite, otite e bronquite (infecção dos brônquios – “canos” que espalham o ar nos pulmões) também são complicações possíveis. As pessoas com mais de 65 anos, de qualquer idade com alguma doença crônica e as crianças muito pequenas tem uma probabilidade maior de desenvolver complicações de uma gripe. Por outro lado, a gripe pode também desencadear uma piora na asma em pessoas asmáticas e piora da condição de uma pessoa com insuficiência do coração, por exemplo.

Como o médico faz o diagnóstico?

O médico faz o diagnóstico através dos sinais e sintomas referidos pelo paciente e com o auxílio do exame físico. Contudo, isto não é fácil já que os sintomas iniciais da doença podem ser similares àqueles causados por outros microorganismos em outras doenças. Por isto, existem exames que podem ser feitos – só são usados em casos de epidemias ou quando o médico julgar importante para o manejo da situação – para confirmar a doença. Estes exames podem ser realizados com a análise da secreção respiratória (um “raspado” da garganta feito com um cotonete ou uma secreção do nariz) nos 4 primeiros dias da enfermidade ou através de exame de sangue. Existem também os chamados testes rápidos que podem confirmar a doença dentro de 24 horas.

Se o médico suspeitar de complicações causadas pelo vírus influenza, também poderá solicitar estes testes complementares.

A radiografia do tórax também auxiliará o médico quando este suspeitar de uma pneumonia como complicação da gripe ou de outro diagnóstico.

Como se trata?

Caso os sintomas da doença tenham se apresentado a menos de dois dias, o doente poderá discutir com o seu médico a possibilidade de se usar um tratamento anti-viral.

O indivíduo enfermo deverá fazer repouso, evitar o uso de álcool ou fumo, procurar se alimentar bem e tomar bastante líquidos, além de usar medicações para a febre e para a dor – aspirina(se tiver 18 anos ou mais), acetaminofen ou ibuprofeno. Outros medicamentos podem ser usados para a melhora dos sintomas do nariz, como a coriza (corrimento do nariz) ou congestão nasal.

Retorno às atividades normais somente após os sintomas terem ido embora.

Para combater e prevenir a gripe pelo vírus influenza do tipo A, a amantadina poderá ser empregada em crianças com mais de 1 ano de idade. A rimantadina é outra opção nestes casos. Entretanto, para tratamento ela só poderá ser usada em adultos. Estes dois medicamentos anti-virais podem ajudar no processo de cura desde que utilizados nas primeiras 48 horas da doença.

Dois novos anti-virais eficazes chamados de inibidores da neuraminidase – o zanamivir e o oseltamivir – tem a vantagem de, além de combater o vírus A, tratar a doença causada pelo vírus B.

Como se previne?

A melhor maneira de se proteger da gripe é fazer a vacinação anual contra o Influenza antes de iniciar o inverno, época em que ocorrem mais casos. Ela pode ajudar a prevenir os casos de gripe ou, pelo menos, diminuir a gravidade da doença. Sua efetividade entre adultos jovens é de 70-90%. Cai para 30-40% em idosos muito frágeis – isso porque estes têm pouca capacidade de desenvolver anticorpos protetores após a imunização (vacinação). Contudo, mesmo nesses casos, a vacinação conseguiu proteger contra complicações graves da doença como as hospitalizações e as mortes.

VACINAR

todas as pessoas com 50 anos ou mais

pessoas adultas ou com mais de 6 meses de idade portadoras de doenças crônicas do coração, pulmões ou rins

diabéticos e pessoas com doenças da hemoglobina (do sangue)

pessoas imunocomprometidas: com câncer, infecção pelo HIV, transplantados de órgãos ou que receberam corticóides, quimioterapia ou radioterapia

trabalhadores da área da saúde

familiares e pessoas que lidam com indivíduos com alto risco de ficarem doentes

gestantes no segundo ou terceiro trimestre durante época do ano em que a gripe é freqüente ou grávidas que tenham alguma condição médica que represente um maior risco de complicação após uma gripe

crianças entre 6 meses e 18 anos que fazem uso de ácido acetilsalicílico a longo prazo (têm uma chance de apresentar uma complicação grave chamada Síndrome de Reye após uma gripe)

NÃO VACINAR

pessoas que tiveram uma reação prévia a esta vacina contra a gripe

pessoas que já tiveram uma reação alérgica a ovos de galinha

indivíduos que tiveram uma desordem caracterizada por paralisia chamada de Síndrome de Guillain-Barré, em que se suspeitou que tivesse sido após uma vacina anti-Influenza

pessoas com alguma doença febril atual.

Perguntas que você pode fazer ao seu médico

A pessoa gripada deverá ficar afastada de suas atividades normais por quanto tempo?

O indivíduo que se vacinou contra a gripe poderá apresentar a doença no mesmo ano?

O adulto sadio com menos de 60 anos pode se beneficiar do uso da vacina anual?

Quais os anti-virais disponíveis no Brasil e por quantos dias deverão ser utilizados?

GRIPE - MAIS INFORMAÇÕES

 

A gripe (influenza) é uma doença infecciosa aguda causada pelo vírus influenza, transmissível de uma pessoa para outra por via respiratória. A gripe ocorre em todos os países do mundo e, há pelo menos 400 anos, o vírus influenza vem causando epidemias a cada 2-3 anos e, eventualmente, pandemias (epidemias que afetam um grande número de países). As pessoas idosas e as portadoras de doenças crônicas que desenvolvem gripe têm maior risco de complicações como a pneumonia bacteriana, o que pode tornar necessário a internação hospitalar.A vacina contra a gripe reduz o risco de adoecimento causado pelo vírus influenza e, em razão disto, o de complicações bacterianas.

Transmissão

O virus influenza é facilmente transmitido de uma pessoa para outra através de gotículas eliminadas através da tosse ou do espirro. A penetração do vírus no organismo ocorre através da mucosa do nariz ou da garganta e a aglomeração de pessoas em ambientes fechados facilita a disseminação da gripe.

Riscos

O risco de transmissão da gripe existe em todos os países do mundo. Condições como aglomeração de pessoas em ambientes fechados, principalmente durante o inverno, facilitam a disseminação do vírus influenza. Em razão disto, as viagens para grandes centros populacionais durante o inverno aumentam o risco de aquisição da doença.

O vírus influenza, pertence à família Orthomyxoviridae e é classificado de acordo com o material genético em três tipos diferentes (A, B e C). Os vírus influenza A são capazes de infectar diversas espécies de animais (pássaros, galinhas, patos, porcos, cavalos, baleias etc). Os vírus influenza B e C, basicamente, infectam seres humanos. Os vírus influenza A e B são capazes de causar epidemias. O vírus influenza C não tem potencial epidêmico e, em geral, causa doença de menor gravidade.

O vírus influenza A é classificado em subtipos, que são determinados por glicoproteínas (hemaglutininas e neuraminidases) presentes na sua superfície. Pelo menos 15 hemaglutininas (H1 a H15) e 9 neuraminidases (N1 a N9) já foram descritas. A infecção de seres humanos a partir de vírus influenza A originados de aves ou de outros animais é pouco comum. Em seres humanos, geralmente, a infecção ocorre pelos subtipos contendo as hemaglutininas H1, H2 ou H3 e as neuraminidases N1 ou N2 (atualmente estão circulando o H1N1, H1N2 e o H3N2). O vírus influenza B não é dividido em subtipos e, basicamente, é capaz de infectar apenas seres humanos.

A infecção pelos vírus influenza resulta em uma produção de anticorpos capazes de eliminar o agente infeccioso, porém um mesmo indivíduo pode ter vários episódios de gripe ao longo da vida. Isto ocorre porque os vírus influenza A e, em menor grau, o influenza B sofrem, constantemente, pequenas alterações em sua composição antigênica. Em razão disto, em uma nova infecção, os vírus influenza não são reconhecidos, pelo menos completamente, pelo sistema imune. Além disto, o vírus influenza A pode, eventualmente, sofrer alterações drásticas em sua composição antigênica e produzir um novo subtipo com alto potencial patogênico, para a qual as populações humanas não teriam nenhuma imunidade prévia. Estas grandes alterações antigênicas podem ocorrer quando estão presentes condições favoráveis, que envolvem o contato entre seres humanos, aves domésticas (influenza aviária ou "gripe do frango") e porcos (influenza suina), possibilitando infecções simultâneas (co-infecção) e a troca de material genético entre subtipos do vírus influenza A de origem humana e animal.

A introdução de um vírus influenza modificado em uma região onde os indivíduos sejam susceptíveis pode desencadear uma epidemia, principalmente se as condições forem favoráveis. Em paises de clima temperado, o ambiente frio e seco durante o inverno favorece a sobrevivência e a disseminação do vírus, razão pela qual as epidemias ocorrem, geralmente, nesta estação. Durante uma epidemia, cerca de 5 a 15% da população é infectada, resultando em aproximadamente 3 a 5 milhões de casos graves por ano no mundo com 250 a 500 mil mortes, principalmente entre idosos e portadores de doenças crônicas.

No século 20 ocorreram três pandemias, todas causadas pelo vírus influenza A. A primeira ocorreu em 1918-19 pelo subtipo H1N1 (gripe espanhola), a segunda em 1957-58 pelo H2N2 (gripe asiática) e a última em 1968-69 pelo H3N2 (gripe Hong-Kong). A gripe espanhola, a mais devastadora, causou a morte de um número de pessoas estimado entre 20 e 40 milhões.

Medidas de proteção

A vacina contra a gripe mais comumente utilizada é a injetável, que é elaborada a partir de vírus influenza cultivados em ovos de galinha. A vacina tem componentes de vários subtipos do vírus influenza, inativados e fracionados. Além disto, existem na sua composição pequenas quantidades de timerosal (Mertiolate®) e de neomicina (um antibiótico). A vacina, por ser produzida com vírus inativados, pode ser administrada com segurança em pessoas com deficiência do sistema imunológico e, se administrada em gestantes, não representa risco para o feto.

A vacina contra a gripe pode ser bastante útil para os idosos e para as pessoas de qualquer idade com doenças de base (pulmonares, cardíacas, hematológicas e imunodeficiências). A vacina, contudo, não protege contra o vírus influenza C. Além disto, não atua contra outros vírus respiratórios (adenovírus, rinovirus, vírus parainfluenza) que, principalmente durante o inverno, podem causar doença semelhante à gripe, embora de menor gravidade. Também não protege contra o resfriado comum (rinovírus, coronavírus). Nos casos em que estiver indicada, a vacina contra gripe deve ser utilizada anualmente para incluir as últimas alterações antigênicas ocorridas com o vírus influenza.

Manifestações

As manifestações clínicas da gripe aparecem entre 1 e 7 dias após a infecção (período de incubação médio de 2 dias). As manifestações da gripe têm início súbito com febre, dor no corpo, dor de cabeça e tosse seca e, evolutivamente, dor ocular e coriza. A doença, em geral, tem duração de 2 a 3 dias. A ocorrência de pneumonia bacteriana, uma complicação comum da gripe que é mais freqüente em crianças até um ano, idosos e indivíduos com doenças pré-existentes (pulmonares, cardíacas, renais, hematológicas e deficiências imunológicas), pode tornar necessária a internação hospitalar. O resfriado comum, comumente confundido com a gripe, em geral produz coriza intensa e não é acompanhado de febre ou causa febre baixa.

Tratamento

Existem quatro drogas liberadas para o tratamento da gripe (amantadina, rimantadina, zanamivir e oseltamivir). Apenas as duas últimas drogas têm ação contra os dois tipos de vírus que habitualmente causam a doença em seres humanos (influenza A e B). A eficácia destas medicações, que têm alto custo, depende do início precoce do tratamento (até o segundo dia das manifestações).

Os antitérmicos e analgésicos podem ser utilizados para controlar as manifestações, principalmente a febre e a dor, porém são destituídos de ação contra o vírus da gripe. A utilização de medicamentos que contenham em sua formulação o ácido acetil-salicílico (AAS®, Aspirina®, Doril®, Melhoral® etc) não é permitida em crianças com gripe, pela possibilidade de Síndrome de Reye. Esta síndrome, rara e de alta letalidade, está associada ao uso do ácido acetil-salicílico durante infecções virais em crianças e é caracterizada por comprometimento hepático e neurológico.

As complicações bacterianas, quando ocorrem, devem ser tratadas com antibióticos apropriados. O Staphylococcus aureus, uma das principais causas de infecção secundária na gripe, deve ser sempre incluido entre as causas prováveis da pneumonia bacteriana, até que se demonstre (Gram de escarro, hemoculturas) com segurança o agente etiológico.

GRIPE ESPANHOLA - A gripe assassina

No Rio de Janeiro, morreram 17 mil pessoas em dois meses. Os familiares, desesperados, jogavam seus mortos na rua com medo de contrair a doença.

Os cemitérios não tinham lugares para tantos corpos

A Primeira Guerra Mundial iniciou em 1914 e terminou no final de 1918. O saldo foi de oito milhões de mortos e 20 milhões de mutilados. Nessa mesma época, o mundo assistiu estarrecido e impotente a uma outra máquina de matar: a gripe espanhola. Ela atacou, entre setembro e novembro de 1918, o planeta inteiro e deixou mais de 20 milhões de mortos - 1% da população. Só nos Estados Unidos, 500 mil pessoas morreram, mais do que o número de soldados mortos no campo de batalha durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia e Guerra do Vietnã juntas.

O vírus espalhou-se rapidamente e atingiu em maior número moradores das cidades e os mais jovens. O sintomas de uma gripe normal são dores de cabeça e no corpo e congestão nasal. Pois os atacados pela espanhola sofriam bem mais. Os pulmões, congestionados e enrijecidos, tornavam o ato de respirar numa tarefa quase impossível. Relatos da época dão conta de que os corpos ficavam tão arroxeados que distinguir um cadáver de um branco do de um negro não era nada fácil.

A gripe tomou o mundo por causa das idas e vindas dos soldados da Primeira Guerra Mundial. Para o front vinham homens de todos os lugares do planeta. Doentes, voltavam para sua terra natal e infectavam mais gente. Pode-se dizer que a Primeira Guerra, além de matar nas trincheiras, espalhava a morte para todos os cantos, inclusive o Brasil.

A primeira notícia do vírus da gripe espanhola no país foi de setembro de 1918, logo depois da chegada de um navio com imigrantes vindos da Espanha. Vários deles apresentavam sintomas da gripe. Outro relato dizia que alguns marinheiros sentiram estranhos sintomas a bordo de um navio que ancorou em Recife. O fato é que no início de novembro de 1918 a doença já tinha alcançado vários pontos do Brasil. As cidades portuárias foram as que mais sofreram.

No Rio de Janeiro, morreram 17 mil pessoas em dois meses. Os familiares, desesperados, jogavam seus mortos na rua com medo de contrair a doença. As avenidas ficaram cheias de cadáveres e presidiários foram obrigados a trabalhar como coveiros. Os bondes circulavam abarrotados de corpos. Na frente das principais igrejas, milhares de famílias se reuniam para pedir ajuda a Deus. Em São Paulo, foram mais de 8 mil mortes.

Entre as vítimas da gripe estava o presidente da República, Rodrigues Alves. Eleito para o cargo pela segunda vez, não pôde tomar posse e morreu no dia 16 de janeiro de 1919. Os médicos, também alarmados, não sabiam o que receitar e indicavam canja de galinha. O resultado foram saques aos armazéns atrás de frangos. Os jornais afirmavam que o tratamento deveria ser feito à base de pinga com limão ou uísque com gengibre. No Rio, o sanitarista Carlos Chagas comandou o combate à enfermidade. Em Porto Alegre, foi criado um cemitério especialmente para as vítimas da gripe espanhola. Em todo o país foram cerca de 300 mil mortos.

Hoje, já se sabe que a epidemia surgiu nos Estados Unidos e não na Espanha. O primeiro caso foi registrado no estado do Kansas, em março de 1918. Pesquisadores acreditam que o vírus teria saído de um cercado com porcos. O vírus da gripe quase sempre está presente nos corpos de aves. Os humanos não são infectados por eles mas animais domésticos sim. Provavelmente os suínos do Kansas comeram dejetos das aves da região e passaram o vírus para seu dono.

A classe científica nunca esqueceu a tragédia da gripe espanhola e tenta ainda hoje descobrir os motivos de tanta mortandade. Tanto é que pesquisadores da Escola Willian Dunn de Patologia de Oxford pretendem reconstruir o vírus da gripe espanhola. Os cientistas querem descobrir as razões que levaram o vírus a ser tão letal e, a partir dessas informações, desenvolver métodos de proteção contra futuras pandemias. O vírus poderá ser reconstruído, pelo menos em parte, porque pesquisadores norte-americanos já pesquisaram seqüências de dois dos mais importantes genes de 1918.

Trechos de jornais da época

"O que se está passando na Saude do Porto da nossa capital é simplesmente assombroso. Os navios entram infeccionados, os passageiros e tripulantes atacados saltam livremente contribuindo para contaminar cada vez mais a cidade, não sofrendo os navios o mais rudimentar expurgo! A Saude do Porto não tem condução, não tem o pessoal necessário para as emergencias do momento e o material preciso para as desinfecções. Telegramas chegados ha dias de Estados do Norte, anunciaram detalhadamente dezenas de casos de "influenza hespanhola" occoridos a bordo da "Itassucê"." - Rio Jornal, 11 de outubro de 1918

"A molestia transmitte-se, propaga-se assim precipitadamente. As repartições publicas, as escolas, os escriptorios de empresas de toda a especie, as officinas dos jornaes, os estaleiros, as estradas de ferro estão ficando enormemente desfalcados de pessoal. Em todas as ruas, e a todas as horas, vemos cahir subitamente, tombar sobre a calçada victimas do mal estranho. A Assistencia tem multiplicado o seu serviço, os hospitais estão repletos. (...)" - Rio Jornal, 14 de outubro de 1918

"Ha tres semanas que a mortandade no Rio de Janeiro vem orçando por aquella terrivel cifra, cuja somma dá um total aproximado de 12.000 obitos, o sufficiente para tornar bem negro o peso de consciência dos culpados de tamanha desgraça publica. Pelas estatisticas officialmente auctorizadas hontem o numero de mortos é superior a 10.000. Não é temerario adduzir um pouco esse algarismo para ter o obituario real e effectivo, supprimindo o que se occulta e nega. Temos pois perto de 12.000 casos fataes sobre os 600.000 accommettidos da peste reinante ou "simples grippe" como dogmatisa a pretensão da medicina official. (...) A A Razão visitou hontem todos os cemiterios do Rio de Janeiro, para obter uma estatistica exacta e completa de todo o obituario desde o dia 12 a 31 de outubro, primeira phase da grande calamidade que nos assola. damos abaixo o quadro geral do obituario e a seguir o resultado da nossa reportagem:

Caju ... 6.312, S. João Baptista ... 1.587, Penitencia ... 49, Carmo ... 75, Catumby ... 30, Inglezes ... 7, Paquetá ...6 , Ilha do Governador ... 54, Campo Grande ... 132, Inhauma ... 1.793, Irajá ... 579, Santa Cruz ... 143, Realengo ... 382, Jacarépaguá ... 224 - Total: ... 11. 373 (...)" - A Razão, 2 de novembro de 1918

GRIPE DO FRANGO

A Ásia sofre com seguidas epidemias de doenças mortais. Depois de conter o surto de pneumonia asiática, agora o continente tem de se preocupar com uma gripe transmitida ao ser humano pelos frangos, cuja exportação tem grande peso na balança comercial daqueles países. Por isso, todo cuidado é pouco para acabar com esse novo vírus, que está derrubando índices estatísticos de algumas economias locais.

Pelo menos 20 milhões de aves já foram exterminadas na Ásia, e o exército dos países afetados está de máscara, pistolas de vacina e esguicho na mão para derrotar um inimigo comum: o vírus da influenza aviária, popularmente conhecida como gripe do frango. Ele já se espalhou por dez países asiáticos: Japão, China, Coréia do Sul, Camboja, Indonésia, Laos, Paquistão, Tailândia, Taiwan e Vietnã. Por enquanto, foi comprovada a transmissão da gripe do frango a humanos somente no Vietnã e na Tailândia, países onde o vírus causou a morte de quase 20 pessoas.

Pelo menos 20 milhões de aves já foram exterminadas na Ásia, região onde a exportação de frango e derivados é muito importante para a economia.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) advertiu que a gripe do frango poderá matar milhões de pessoas se esse vírus, que avança pela Ásia, combinar-se com uma forma de gripe humana que também se desloca, atualmente, para o continente. No Vietnã, já existe um caso em que se suspeita que o vírus tenha sido transmitido de uma pessoa para outra, e não por meio das aves, como é o contágio tradicional.

Barreiras

Frangos, patos, papagaios e até águias: nada pode transpor as barreiras sanitárias que os países montaram para conter a doença. O Japão fechou as fronteiras e não deixa nenhuma ave exótica passar. A Austrália colocou cães farejadores nos aeroportos e controla a carga de embarcações. Cingapura redobrou os cuidados está verificando qualquer gaiola e proibindo a importação de aves.

Mesmo assim, o vírus já chegou até o continente americano, tendo sido também registrados casos da doença em frangos nos EUA. Na Tailândia, centenas de cegonhas foram encontradas mortas contaminadas pela gripe, que mostra que a enfermidade não se restringe apenas ao frango. O governo do país disse que não vai destruir as aves restantes dessas áreas para conter o problema. No Japão, o vírus da gripe também foi encontrado em aves domésticas.

Brasil

No caso brasileiro, pelo menos na economia, a gripe do frango tem ajudado. A Associação Paulista de Avicultura (APA) estima um crescimento de 10% nas exportações brasileiras de frango e derivados este ano. Em 2003, nosso país já assumiu a liderança entre os exportadores desses produtos (em volume financeiro), ultrapassando os EUA. Em quantidade exportada, ainda é o segundo.

Além de ocupar o espaço deixado pelos asiáticos, os produtores brasileiros acreditam no aumento do consumo de frango também por causa do aparecimento de casos do mal da vaca louca no rebanho bovino norte-americano.

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A tão comentada gripe do frango, que há três meses tem preocupado não só o continente asiático como todo o mundo, tem como causador o vírus Haemophilus influenza, que é o mesmo da gripe humana comum. A diferença entre as duas formas de manifestação está no tipo de vírus e no animal afetado. O vírus influenza apresenta os tipos A, B e C. Os dois últimos são parasitas infectantes exclusivamente de humanos, e o tipo A, além de humanos, afeta vários outras espécies animais. O vírus caracteriza-se pela transmissão aérea, em gotículas de expectoração. Após o contágio, se manifesta por meio de febre, dificuldade respiratória, mal-estar e dores musculares e ósseas.

O tipo A apresenta inúmeras linhagens.

O atual surto de gripe do frango é causado pela H5N1.

A gripe aviária foi primeiramente identificada na Itália no início do século XX. No entanto, a espécie causadora da atual epidemia foi identificada e isolada somente no ano de 1997 em Hong Kong. Além do tipo H5N1, também já são conhecidas outras cepas causadoras da doença em aves, como a H9N2, que provocou, no início de 2003, um surto nos Países Baixos, e a H7N7, responsável pela doença em 1999 e fevereiro de 2003 também em Hong Kong. Essas linhagens são comuns entre aves migratórias e acredita-se que elas sejam as principais disseminadoras da doença, o que dificulta também um controle efetivo sobre o vírus. O influenza aviário é facilmente transmitido de ave a ave, pois é eliminado pelas fezes de animais infectados, além de via oral. A transmissão ao homem é principalmente do tipo ocupacional, e a maioria dos casos de contaminação e mortes ocorridos até o momento na Ásia é de pessoas que mantinham contato direto com os animais doentes. O contágio entre humanos ainda não é comprovado. Profissionais de saúde que mantiveram contato com pessoas contaminadas não apresentaram nenhum sinal de infecção.

No homem, a gripe se manifesta como a gripe humana comum e evolui para uma doença respiratória aguda, podendo levar à morte. Já nas aves os sintomas são perda de peso por falta de apetite; interrupção do crescimento, o que provoca um grande prejuízo econômico; sonolência; respiração ruidosa, realizada com dificuldade e com a boca ao invés de com as narinas; e perda de penas.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) agora possui uma nova preocupação. Além de tentar erradicar a doença nos países que apresentam o problema, está prestes a se deparar com o encontro do vírus de linhagem H5N1 com o de H3N2, responsável pela gripe humana comum. O contato poderia provocar uma mutação de alta patogenicidade em alguns indivíduos virais. Isso poderia ter um resultado ainda mais devastador do que o observado no continente asiático, transformando uma epidemia numa pandemia — como ocorreu no encontro do agente da gripe espanhola com o da gripe de Hong Kong, o que causou a morte de cerca de 49 mil pessoas em 1968. Esse temido supervírus, segundo cientistas da OMS, reuniria características como a capacidade de provocar a doença do H5N1 e o grande potencial infeccioso do H3N2.

Para afastar essa iminente pandemia, a OMS publicou algumas medidas preventivas, que podem minimizar os riscos à saúde pública em todo o mundo. Entre essas medidas, estão:

- Prioridade na interrupção do desenvolvimento do vírus entre as aves domésticas, o que requer, infelizmente, o sacrifício de todas as que tiverem possibilidade de contaminação;

- Vacinação das pessoas que apresentam alto risco de exposição ao vírus com vacinas contra a influenza humana existentes;

- Fornecimento de equipamento e roupas adequados, assim como tratamento preventivo com antivirais aos trabalhadores que lidam diretamente com aves;

- Isolamento imediato das áreas afetadas, com rápida avaliação dos animais e dos vírus em circulação para que as medidas preventivas sejam adequadas a cada tipo de vírus da influenza;

- Alerta das vigilâncias sanitárias e epidemiológicas de todos os países para qualquer caso suspeito e inspeção e controle de algumas amostras de sangue das aves migratórias que visitam a região anualmente.

 

Grandes epidemias de gripe

Gripe Asiática

A Europa conheceu a primeira epidemia continental em 1510 e a primeira pandemia de que se tem notícia ocorreu entre 1889-92 e foi conhecida como 'Gripe Asiática', que progrediu em três ondas sucessivas. Acreditava-se que fosse causada (e levada) pelo vento.

Gripe espanhola

A Primeira Guerra Mundial iniciou em 1914 e terminou no final de 1918. O saldo foi de oito milhões de mortos e 20 milhões de mutilados. Nessa mesma época, o mundo assistiu estarrecido e impotente a uma outra máquina de matar: a gripe espanhola. Ela atacou, entre setembro e novembro de 1918, o planeta inteiro e deixou mais de 20 milhões de mortos - 1% da população.

Gripe asiática

A eclosão de uma nova pandemia levaria quase 40 anos, mas de novo pegou os médicos e as autoridades de saúde de surpresa. Em 1957, a gripe asiática foi responsável pela morte de 1 milhão de pessoas, número que se repetiria 11 anos depois, com a gripe de Hong Kong (1968).

Gripe de Hong Kong

Rápida e destruidora, ela foi causada por um vírus transmitido pelas aves para os seres humanos. Aconteceu em 1968, em pouco tempo ganhou o mundo e matou mais de 46 mil pessoas.

O Vírus HSN1

Em 1997, um surto da doença foi causado pelo vírus HSN1. O primeiro caso foi registrado em maio e causou quatro mortes em Hong Kong. O vírus já era conhecido, mas só nos casos de infecção em aves. Quando uma mutação genética tornou-o transmissível também aos seres humanos, o governo foi obrigado, para evitar tragédias maiores, a sacrificar 1,4 milhão de aves.