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TUDO SOBRE...  FORMIGAS

FORMIGAS: UM HOBBY FASCINANTE

Metódicas, disciplinadas e incansáveis, as formigas conquistaram espaço no reino dos bichos de estimação

FormigasAcredite se quiser. Não é de hoje que as formigas fazem o maior sucesso como mascotes. Os Estados Unidos que o digam. Lá - imagine só - há até empresas que nasceram e cresceram voltadas à fabricação dos viveiros de formiga, os ditos formigários. A maior delas, a Uncle Milton Industries Inc., na Califórnia, existe há mais de meio século. Desde a sua fundação, em 1946, estima ter vendido número superior a 15 milhões de formigários - uma média anual de 280 mil ou de quase 800 ao dia.
"Nossa empresa teve início quando os fundadores Milton Levine e Joe Cossman foram a um pique-nique e ficaram reparando no incessante trabalho das formigas que andavam pelos gramados", conta o assessor de imprensa da empresa, Greg Walsh. "Aquela cena os fez lembrar da infância, quando gastavam horas observando as formigas e, assim, concluíram que fabricar formigários seria um negócio interessante."
 

A aposta não poderia ter sido mais feliz. Hoje nos Estados Unidos há vários modelos de formigários, também chamados de ant farms, em português, fazendas de formigas. Coloridos, retratam ambientes diferentes e podem ser ampliados, acoplando-se uns aos outros. Alguns possuem cenários em três dimensões ou fosforescentes e até dispõem de lentes de aumento, instaladas nas extremidades para que os proprietários vejam melhor os detalhes das formigas. Lançados no ano passado, os dois modelos mais recentes surgiram da parceria da Uncle Milton com a empresa Disney/Pixar, a responsável pela animação gráfica do filme Vida de Inseto (veja foto ao lado). "O design desses formigários é inspirado nos cenários e nos personagens do filme da Disney", informa Walsh. "Com essa parceria, as vendas deste ano devem aumentar em pelo menos 50%", estima o gerente de vendas da empresa, Scott Rubenstein.

Formiga

BRASIL

Aqui, o hobby dos formigários está apenas começando. Há pouquíssimas pessoas fabricando-os e, mesmo assim, artesanalmente. Mas tanto os pioneiros na fabricação como os pioneiros na revenda testemunham o grande interesse das pessoas pelo assunto. No pet shop paulistano Mondo Sommerso, uma das primeiras lojas a revender formigários, os clientes se aglomeram em torno deles. "As pessoas ficam hipnotizadas com a movimentação das formigas", conta Tereza Di Giorgio, uma das sócias da loja. "Recebemos pelo menos um telefonema por dia de gente querendo informações sobre os formigários", conta um dos primeiros fabricantes nacionais, Fernando Ribeiro, que, junto com os filhos e o amigo Geraldo Magela, está apostando no negócio. "Há poucos meses, meus dois sócios e eu começamos a colocar formigários em dois pet shops e, até agora, os 15 que colocamos foram vendidos", diz Samuel Dal Porto, de Piracicaba, SP, outro dos raros fabricantes brasileiros.

 

INÍCIO

Como o hobby aqui é muito incipiente, os fabricantes têm capacidade limitada de produção e de distribuição. "Por enquanto, o processo é artesanal e conseguimos fazer no máximo dez formigários por semana; mas se arrumarmos máquinas poderemos chegar a cem", estima Magela.
"Além de nossa produção ser em pequena escala, não decidimos de que forma enviaremos os formigários para outras cidades e Estados brasileiros", fala Fernando que, até o momento, só vende os formigários na cidade de São Paulo. Samuel está em situação semelhante.
"Além de Piracicaba, onde moro, já vendi formigários em Campinas e em São Paulo, mas eu mesmo fui levá-los, o que nem sempre será possível." Quanto ao design dos formigários, também há planos de melhoria. Por enquanto, são simples, feitos com três potes de plástico ou acrílico, interligados por pequenos tubos. "Pretendemos torná-los mais atraentes, construindo outros andares e compartimentos", projeta Mário Ribeiro, um dos filhos de Fernando. "Tenho a intenção de produzir 'kits de ampliação' para gerar novos ambientes, simulando melhor a realidade de um formigueiro", planeja Samuel.
 

A GRAÇA DE TER

Quem durante a vida não ficou pelos menos alguns instantes observando a fascinante atividade das formigas? Esse é o barato que um formigário oferece. A organização de uma colônia de formigas é fabulosa. Trata-se, no reino dos insetos, de uma sociedade exemplar. Incansáveis, as chamadas formigas operárias, executam diversas tarefas. Carregam e cortam as folhas, transportam ovos, larvas e ninfas (fase posterior à das larvas), alimentam-nas, ampliam o abrigo, retiram os dejetos, instituem a área-lixo, defendem o território.

No caso das formigas Saúvas (Atta sexdens rubropilosa) - a espécie encontrada nos formigários nacionais - as muitas funções desempenhadas na comunidade são divididas de acordo com o tamanho do exemplar. Das mínimas, com cerca de apenas 2 milímetros, até as grandes, com cerca de 2 centímetros, todas as Saúvas têm a sua tarefa específica. As menorzinhas da turma cuidam do berçário, situado em uma região do abrigo cujo acesso, bastante estreito, é viável apenas por elas. Outras, um pouco maiores, são as chamadas "jardineiras", responsáveis por cavar, carregar as folhas e retirar o lixo. Já as maiorzonas são as "guerreiras".
Possuem grandes mandíbulas e, como missão, defendem o formigueiro de inimigos ousados, como outros insetos. "Diferente do que se pode pensar, as Saúvas menores não são filhotes mas, sim, adultos que apresentam tamanho reduzido para desempenhar melhor alguma atividade específica", explica Fernando. O conceito de filhote da maneira como estamos mais acostumados não se aplica aos insetos. O que ocorre são "etapas de vida". No caso das formigas são quatro: ovo, larva, ninfa (já tem aspecto de formiga, mas é esbranquiçada e o corpo é dobrado) e, enfim, formiga. O processo todo leva cerca de dois meses.

COR QUE MUDA

 

A alimentação das formigas varia com a espécie. As Saúvas se alimentam principalmente de um fungo que consome folhas (veja quadro Como manter um formigário de Saúvas). Elas levam a folha para dentro do quente e úmido abrigo, recortam-na e liberam sobre ela uma substância líquida, favorecendo a produção de um fungo que, por sua vez, consome praticamente a folha toda. Por mais incrível que pareça, o abrigo das Saúvas - que muitos de nós pensamos ser feito de terra ou de areia - é construído inteiramente de pequeninos pedaços de folhas que logo se transformam em fungo. Pedacinho de folha por pedacinho de folha, as formigas vão erguendo o seu formigueiro, rapidamente transformado em uma complexa estrutura esponjosa de fungo. Depois, diária e literalmente, vão comendo a casa - e a reconstruindo também. Como a tonalidade do fungo muda de acordo com a cor das folhas sobre as quais vive, basta mudar a cor das folhas deixadas à disposição das formigas para que o abrigo, em poucos dias, também mude de tom. Folhas vermelhas ou verdes, abrigo escuro. Folhas amarelas, abrigo claro.

COM OU SEM RAINHA

 

Com cerca de 3 centímetros de comprimento e encorpadíssima, a formiga rainha é a essência da vida na colônia. Sua única e exclusiva função é botar ovos, garantindo a sobrevivência da comunidade. Na natureza, ela gera três tipos de formigas: operárias, que não têm sexo, machos e fêmeas, que serão as futuras rainhas. Machos e fêmeas nascem com asas. Assim, todo verão, durante alguns poucos dias, ambos saem em revoada. É o acasalamento.
A fêmea, uma vez fecundada, aterrissa, perde as asas, procura um bom lugar, cava o solo, constrói uma câmara subterrânea e, graças à sua primeira e única cópula, forma uma nova colônia, botando ovos até o fim de seus dias. Final menos feliz, mas de certo igualmente romântico, é o dos machos: após garantirem a perpetuação da espécie, morrem sem direito a bis.
"Não sabemos a razão, mas em cativeiro, a experiência demonstra que as rainhas de Saúva só originam operárias", observa Fernando. "Morrendo a rainha, seja na natureza ou em cativeiro, não há mais ovos sendo colocados e o formigueiro fica com seus dias contados, sobrevivendo apenas pelo tempo de vida das operárias", completa.

Os formigários norte-americanos, montados com a espécie de formiga californiana Pogonomyrmex californicus, não têm rainha. No Brasil há as duas opções. Samuel os fabrica com rainhas. Fernando, sem. "Montamos os formigários sem rainhas, mas, além de operárias colocamos ovos, larvas e ninfas, permitindo que se assista ao ciclo completo da vida", informa ele. "O formigário sem rainha dura de seis meses a um ano, que é, aproximadamente, o tempo de vida das operárias", estima ele. "Já a rainha tem vida longa, estimada em 20 anos."

PEDAGÓGICO

A organização de uma colônia de formigas é tanta que, nos EUA, os fomigários são considerados ótimos brinquedos pedagógicos. "As crianças assistem ao trabalho das formigas, vêem cada uma desempenhando a sua tarefa obstinadamente, e entendem o que é uma sociedade organizada", considera Greg. Não é à toa que, além dos pet shops, os grandes clientes da Uncle Milton são lojas de brinquedos.
"Há anos, os formigários são um dos brinquedos pedagógicos mais vendidos no país", informa Greg. "A mídia chegou a classificá-los como um dos raros 'brinquedos' que se tornaram ícone da cultura pop americana, ao lado do ioiô e do bambolê."

É fato que crianças e jovens são os principais interessados nos formigários. Mas não se pode deixar os adultos de fora. "Há empresários que mantêm formigários em seus escritórios porque os acham interessantes", fala Greg. "Alguns os adotam como recurso de motivação, usando o exemplo das formigas a fim de estimular um melhor desempenho dos funcionários."

COMO MANTER UM FORMIGÁRIO DE SAÚVAS

 

Manipulação: a Saúva não tem veneno. Mas sua picada dói. Por isso, ao abrir o formigário, se preferir use luvas.
Modelos: os formigários nacionais possuem três compartimentos com tampas em cima. Um serve para armazenar as folhas. O segundo é o abrigo, onde as formigas "moram". E o terceiro, serve de área-lixo.
Alimentação: no compartimento de armazenagem de folhas, coloque cerca de cinco delas - podem ser de roseira, de árvores frutíferas ou de qualquer outra desde que não soltem leite e que as formigas as peguem.
Quando as folhas acabarem, o que deve ocorrer em dois ou três dias, reponha-as.
Forneça também uma colher de sobremesa rasa de quirera de milho e a reponha quando terminar.

Limpeza: quando a área-lixo estiver cheia até a metade, retire os dejetos.
Fugas: algumas formigas costumam fugir quando o formigário é aberto. É difícil recolocá-las no formigário, sem que mais formigas saiam. Infelizmente, as fujonas, longe da comunidade, morrerão em poucos dias.