JURA EM PROSA E VERSO

TEXTOS DE CONTEÚDO MORAL OU EDUCATIVO

Como diminuir progressivamente o orgulho (Por Hubrert Benoit em seu livro: “A Realização Interior”.)

A primeira idéia do homem que compreendeu que a humildade perfeita era a chave da Realização foi cultivar a humildade em si mesmo. Mas, como o amor-próprio do homem comum existia nele de forma constante e um comportamento verdadeiramente humilde ainda era algo impossível, ele não sabia como encarar a questão. Enquanto a Realização não ocorre o ser humano, desde seus primeiros anos de vida, a partir do momento em que aparece seu intelecto, considerase como se fosse seu Eu; e a compreensão do Ele, (Eu Superior ou a essência divina presente na natureza humana) mesmo se a explicássemos a uma criança, seria impossível. Somente na adolescência a noção do Ele, exposta por um professor ou por um livro, podia ser entendida de uma forma evidentemente teórica. Assim, o Eu está sempre presente e constantemente ativo a partir do momento em que o intelecto desperta no bebê e no momento em que este se manifesta na linguagem. Em suma, antes da Realização o homem nunca vive um verdadeiro momento de humildade. Como, conseqüentemente, cultivá-la em si mesmo se não existe a menor semente?

O que acabei de dizer pode surpreender e até mesmo revoltar. Poderão pensar em alguma pessoa conhecida que não demonstra nenhum orgulho ou amor-próprio. O homem educado, cortês, 'civilizado', não evidencia seu amor-próprio; mas a não-manifestação do orgulho, que julga os outros sem considerá-los com benevolência, não é humildade. Quando eu era criança (lembro-me desse episódio), costumava passear no colo de uma parente adulta; naquele dia, ela deteve-se diante de uma granja e começou a conversar com uma velha camponesa desdentada. Eu disse de repente: "Mas a senhora não tem mais dentes!" e a pobre velha respondeu: "Como as crianças são cruéis!" Eu ainda não era bem-educado, 'civilizado'.

A vida social seria impossível, cheia de lutas e ódios, se cada um de nós dissesse aos outros o que pensa a seu respeito. Mas essa discrição destinada a preservar alguma paz não tem nada a ver com humildade. Ela mostra antes de tudo que cuidamos do orgulho do outro, que evitamos constrangê-lo para não ganharmos um inimigo que às vezes pode ser perigoso. Quantas amáveis intenções! Quantas mentiras piedosas! Mas é o amor-próprio do homem bem educado que propicia essa atitude, não a verdadeira humildade.

Em suma, o amor-próprio, o desejo primordial de si desde o início da vida, está tão profunda e solidamente implantado na psique que é impossível uma humildade pura enquanto não ocorrer a morte espiritual do Eu. Só a Realização faz aparecer essa humildade pura, a única verdadeira.

O homem não pode reforçar pouco a pouco uma verdadeira humildade que não possui. Ele deve focalizar seu amor próprio para procurá-lo, reconhecê-lo, com a certeza de que é ele mesmo quem provoca tantos sofrimentos em sua vida alternados com momentos de felicidades precárias provenientes do contentamento consigo mesmo.

No entanto, se a humildade perfeita, a única verdadeira, pode invadir o ser humano (a Realização) através da confusão total e instantânea de sua psique, isso não significa a impossibilidade de que esta confusão seja precedida pela progressão de uma humildade parcial, imperfeita.

Aquele que compreendeu diversas vezes e profundamente que a humildade é o único objetivo a ser atingido, que seu amor-próprio e manifestações são estúpidos, vulgares e o afastam da Felicidade Absoluta, passa a não dar importância às lisonjas e as críticas. Amar a humildade porque só ela nos leva à felicidade e detestar o orgulho porque ele tem conseqüências opostas, essa é a atitude correta.

Esta compreensão teórica se transformará gradualmente em conhecimento vivido quando o homem, no decorrer da vida, ficar atento às manifestações (externas ou internas) de seu orgulho, reprovando-as por considerá-las desagradáveis e prejudiciais.

É impossível observar em si mesmo o aparecimento de uma humildade parcial, pois ela não pode ser observada. Mas podemos constatar que, numa ocasião normalmente lisonjeira e bastante agradável, o homem que progrediu vangloria-se menos e sente-se menos prazeroso desse fato. Mas essa observação não é recomendável, pois poderia suscitar orgulho por ter progredido na humildade. Esse 'orgulho de ser humilde' me faz lembrar uma anedota divertida na qual um bispo afirmava: 'Quanto à humildade, não receio que ninguém me vença'. São Francisco de Assis é um exemplo típico do 'orgulho de ser humilde'.

Em suma, todo o trabalho de auto-observação e observação alheia deve se referir ao orgulho e suas diversas moda li. dades: o amor-próprio, a vaidade, a pretensão, a presunção, a suscetibilidade, a complacência ou elogio de si mesmo.

Por que o justo conhecimento nos torna capazes de espreitar nosso orgulho congênito e não uma humildade parcial? Porque infelizmente o orgulho é uma regra 'normal' nas agitações do Eu para, pelo menos, simular a Realização. Digo 'normal' no sentido de 'habitual', generalizado na totalidade dos seres humanos que sofrem as conseqüências do 'erro original'. Como o orgulho é a regra, o homem é perfeitamente capaz de reconhecer suas manifestações por estar acostumado a elas. Como a humildade é apenas uma brecha momentânea na atitude habitual de amor-próprio ou uma diminuição geral dessa atitude, o homem enxerga facilmente o amor-próprio constante que lhe resta e não as provas de sua diminuição. No fundo, a humildade poderia ser definida como uma diminuição do amor-próprio habitual, ou o desaparecimento no homem liberto.

Outra maneira de afetar o orgulho são as humilhações. É preciso grandes esforços para aceitá-Ia, reconhecendo de forma irrestrita que a circunstância humilhante era totalmente merecida. Por outro lado, é preciso esforçar-se para não ruminar esse sofrimento e sua causa fixando a atenção em qualquer outra coisa, sem esquecer porém que recebemos uma informação benéfica muito importante. Essa forma de acolher uma humilhação e de lembrá-la como algo precioso não é habitual. Freqüentemente tenho dito aos meus pacientes: "Aborrecido? De jeito nenhum, só sinto muito pesar". Essa resposta é tão banal que sempre a espero. Às vezes, aquele que deseja o desaparecimento de seu orgulho percebe que estã incomodado por alguma atitude de outra pessoa; tem a vantagem de realizar assim um trabalho de aceitação que exige muita paciência.

A humildade perfeita é uma das características do homem Realizado. Na verdade seu Eu está espiritualmente morto, e esse homem aceita com simplicidade o que outrora poderia magoar esse Eu, mas que agora lhe é totalmente indiferente.

O que acabei de dizer sobre uma possível diminuição do orgulho exige um complemento. Poderíamos pensar que, à medida que o orgulho diminui a humildade progride, porém não é isso que acontece. Podíamos imaginar um diagrama para esclarecer essa questão. Vimos que a humildade perfeita é um zero de orgulho; eu a imagino como o ponto inferior em meu desenho. Acima desse ponto, traço uma linha vertical que representa, em seu conjunto, a diminuição do orgulho. Esse traço desce para o ponto zero, porém um pequeno intervalo representa aquilo que o Zen chama de abismo, situado sobre a dualidade e a unidade. Ja falei a esse respeito, bem como sobre o salto instantâneo que o despertar do Ele realiza no homem que chegou a essa etapa. Efetivamente, tudo o que o homem pode fazer para obter a diminuição de seu orgulho pertence ao mundo da dualidade dos fenômenos e não poderia, portanto, exercer nenhuma ação sobre o salto sobre o abismo para chegar à unidade. O ser humano não pode conquistar a Realização mas, através da humildade quase perfeita, pode abrir-se para o despertar do Ele.

O que acabamos de ver nos esclarece sobre a chamada 'via negativa'. Efetivamente, se fôssemos conscientes do nosso grau de humildade colocado á margem do amor-próprio constantemente presente em nós, poderiamos nos esforçar para aumentar essa humildade parcial. Essa seria uma 'via positiva'. Mas, como vimos, isso é impossível. Só podemos obter um aumento progressivo da humildade através da destruição, mediante uma lenta corrosão do nosso orgulho. Quero lhes propor um exemplo: Imaginemos um conjunto de construções (que simbolizam o orgulho) erguido sobre um terreno; por uma razão qualquer, desejo ardentemente desfrutar apenas do terreno (que simboliza a humildade). Não posso fazer nada para realizar meu desejo, pois o espaço está repleto de construções. Com um enorme esforço, teria de destruí-la, retirar o entulho e então chegaria à conclusão de não ter feito nada; meu terreno estaria vazio, porque não me preocupei com ele. Pois bem, demolir é negativo, e o caminho seguido por mim deve ser chamado de 'via negativa' .

Conclusão: "Destruam progressivamente seu orgulho. Quanto à humildade, que é o seu verdadeiro objetivo, não se preocupem; deixem-na crescer sem tentar percebê-la".