JURA EM PROSA E VERSO

RECEITAS DE DAR ÁGUA NA BOCA

A CHINA - Restaurante medicinal

A China de hoje é um gigante em ebulição. O país de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes muda rapidamente. Mas a velha China que povoa nossos sonhos ainda está lá. Naquele imenso território é sempre possível encontrar intactas as tradições milenares que tanto nos atraem. A mais misteriosa delas é a tradicional medicina chinesa, que mantém com saúde uma população sete vezes maior do que a do Brasil.

Os chineses sabem que para manter esse equilíbrio é preciso fazer do culto aos hábitos saudáveis uma forma de vida. Não que eles passem o dia todo pensando nisso, mas está tão presente na cultura que é mais ou menos como andar de bicicleta: quem sabe nunca mais esquece.

A saúde não como oposto de doença, mas um conceito de viver bem. Um corpo sadio, segundo os chineses, se conquista, primeiro, comendo bem. Saber que toda a comida pode ser veneno ou remédio faz parte da cultura chinesa. É um conhecimento que todo mundo adquire naturalmente. Quando uma criança na China aprende que o nome de berinjela é "qieza", também aprende que a berinjela pode ser boa para controlar a pressão alta. E isso acontece com todos os alimentos.

O passeio pelo mercado é uma aula de saúde. Um pepino mais fino e mais longo do que o que nós conhecemos é bom, segundo os chineses, para acabar com a dor de garganta. Diabéticos devem comer o chamado melão de inverno, que reduz o açúcar no sangue.

Um cogumelo é chamado de "orelha de pau" ou "orelha de árvore" porque nasce colado nos troncos. Os chineses comem muito desse cogumelo para prevenir câncer. Esse uso nunca foi comprovado, mas um estudo recente publicado na respeitada revista “Nature” comprovou que cogumelos podem prevenir infecções e gripes.

Uma jovem faz compras com cuidado e alguma metodologia. O segredo é mesa colorida. Ela diz que escolhe os alimentos com mais vitaminas e outras propriedades porque a saúde da família é o mais importante.

Uma dona de casa, que também dá preferência aos legumes e verduras, conta que segue os conselhos dos pais e dos avós na hora de comer. Compra melão amargo, que, segundo ela, é refrescante e ajuda a reduzir o calor forte desta época do ano.

A China tem comida de inverno e comida de verão. Um conceito que até os brasileiros que foram para a China estudar medicina aprenderam a valorizar.

“Eles sabem que o alimento amargo tira o calor. Com isso, a medicina chinesa passa a ser medicina popular”, comenta a estudante de medicina Karine Calligaris.

Na cozinha do médico brasileiro Ahmed Youssif Eltassa, o peso dessa sabedoria popular se aliou ao conhecimento adquirido nos 15 anos vivendo na China. O cardápio segue à risca os hábitos alimentares chineses. Em um almoço, os alimentos eleitos são berinjela e uma mini-acelga, cheia de vitamina C e fibras. Alimentos que o próprio médico ajuda a preparar.

O paranaense formado pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) foi o primeiro estrangeiro aceito pela Academia de Filosofia Chinesa. Ele e a família aprenderam que a saúde também depende de pequenos hábitos.

“Aqui na China, no Oriente em geral, existem hábitos excelentes, que deveríamos copiar. Tomar muita água durante o dia, por exemplo. Água quente, na temperatura de chá, a 37 graus”, ensina o médico. “Água um pouquinho mais do que morna é excelente, faz uma depuração do sangue. É uma água que entra diretamente na circulação e vai para o rim. Assim, o sangue vai sendo limpo”, explica.

Em busca dos preciosos segredos de uma sabedoria milenar, a equipe do Globo Repórter chegou a Hangzhou, a mil quilômetros de Pequim. Capital do império em duas dinastias, Hangzhou usou sua riqueza para desenvolver a medicina. Numa antiga rua da cidade encontra-se um restaurante diferente: um restaurante medicinal.

O cardápio tem 50 pratos quentes e mais 14 pratos frios. Todos são comida que também é remédio e remédio preparado em forma de comida. O chef Chang elege quatro iguarias do cardápio e faz questão de mostrar os pratos prontos e os ingredientes separados.

O primeiro é o “arroz dos oito tesouros”. O prato é feito com arroz preto, ginseng, minilaranjas, sementes de lótus, raiz de lírio, feijão branco, tâmara chinesa e frutinha de lobo. O chef explica que o arroz dos oito tesouros fortalece o sangue e é bom também para o baço.

Outro prato é feito com um peixe de água doce – pode ser de rio ou de lago –, ervilhas, flor de crisântemo e a frutinha de lobo. O chef garante que é bom para a visão e para fortalecer o fígado.

Aparência surpreendente e nome poético: “dragão sob o céu enluarado”. Comida para homem. O chef diz que o cavalo-marinho é ótimo para a potência masculina, que os homens devem comer, mas que o gosto é horrível. Então, eles preparam com ovo e ovo de codorna, tentando disfarçar o gosto ruim que o cavalo-marinho tem. O repórter cinematográfico Paulo Zero foi convencido a provar. E confirma que o gosto realmente não é lá essas coisas.

Mas o último prato que o chef mostra é uma verdadeira delícia – até para olhar! Uma folha de ouro muito fina cobre o prato, preparado com carne de porco. O chef diz que o ouro é bom para quem tem medo, seja do que for, ou anda assustado com alguma coisa. Ele garante que o ouro acalma e relaxa os nervos.

O porco é servido com pequenos pãezinhos e acompanhado de vegetais em conserva, que diminuem a gordura. A carne é preparado antes com ervas medicinais calmantes. Então, é um prato calmante.

A experiência de 20 anos do chef aliada a um sócio farmacêutico atrai gente de toda parte. Muitos vão em busca de alívio para doenças.

Jovens contam que pediram abóbora porque ela ajuda a reduzir o açúcar no sangue e, por isso, evita o diabetes. O aspargo, segundo eles, previne o câncer. E o peixe faz bem para a pele. Há comida para pressão alta e até para falta de apetite. Mas, diz uma moça, mesmo para quem está saudável é importante se alimentar bem.

Alimentos equilibrados, corpo em harmonia. E esse é só um dos segredos da sabedoria chinesa.