JURA EM PROSA E VERSO

POESIAS E TROVAS POPULARES

LAMÚRIAS DE UM MOLEQUE DE RUA

Eu sou o moleque de rua

que vive vagando ao relento,

o meu lar é o meio da rua

e carinhos, só tenho os do vento

 

frio, batendo em meu rosto

me fazendo tiritar e tremer,

esfriando ainda mais meu corpo

tão jovem, mas já cansado de sofrer.

 

Eu sou criança prostituída,

às vezes até por um naco de pão.

Eu já sou estuprado pela vida

sem amor, carinho, habitação;

 

não tenho família, escola, então,

“dou” para alguém, por quê não?

Eu sou pasto dos tarados

lascivos, de mente insana.

 

Mas, que não diferem dos abastados

que fingem ser gente bacana,

fazendo demagogias, fingindo medidas bruscas,

com isso gastando grana

 

e se elegendo às minhas custas.

É! E muita gente não vê

e até nem pensa assim.

Mas, veja comigo você:

 

eles se locupletam em mim.

E isso, também é estupro!

E pra mostrar o que fazer,

formam Comissão ou Grupo

 

de trabalho, só eu não sei: pra quê?

“...OH! É A COMISSÃO DA CRIANÇA

ABANDONADA E CARENTE!...”

Aí, nos enchem de esperança,

mas só vem é ferro nagente:

 

aumenta o extermínio e a matança.

Tanto faz, com Código ou Estatuto;

pois pra mim é tudo mesmo só falação.

Mas, o que me deixa mais “puto”

 

é que se eu não morrer de inanição,

sarampo, verminose ou bexiga,

não escaparei da mão

do malandro, da polícia ou da briga

 

numa roda de fumo.

Pois isso, no começo me dão,

depois, quando eu me acostumo

é que me torno ladrão

 

pra poder sustentar o meu vício,

que agora, é coisa cara

e não mais, o “presente” do início.

Vejam só gente, que barra!?

 

Alguém a quem peço esmola

me acusa de dedo em riste

dizendo que eu cheiro cola,

mas, não sabe da realidade triste:

 

se eu cheiro cola, “bacana”,

é pra acalmar minha fome.

Mas, isso não é motivo

pra que você me abandone.

 

E apesar disto tudo, minha gente,

ainda sou muito temido.

Sou sempre culpado, jamais inocente,

sou miniatura de bandido

 

à margem da sociedade, acuado como animal ferido.

Então, me embruteço desde tenra idade,

vou me tornando atrevido

e vou devolvendo à sociedade

tudo aquilo que ela me tem impingido.

 

Quando é que isso vai acabar...?

Fico a pensar e não sei,

pois se com educação eu não posso contar,

muito menos com o cumprimento da lei.

 

Isto vai é acabar em sangue;

talvez, eu seja o próximo “presunto”.

Vai acontecer, eu já sei: Bang..! Bang..! Bang..!

Aí...! Terminou meu assunto.

 

Pivete

 

Autoria: Altair T'Ògún