JURA EM PROSA E VERSO

POESIAS E TROVAS POPULARES

COLEÇÃO DE TROVAS POPULARES - II

Casada nem um só dia

solteira duzentos anos;

casada cheia de filhos

solteira cheia d'enganos.

 

Cunhada, tanta má vida

que me dá o vosso irmão;

de dia tanta pancada,

de noite tanta paixão!

 

Aqui tens a minha mão,

cinco dedos, cinco unhas;

se queres casar comigo,

vai chamar as testemunhas...

 

Alegria dos casados

são os três dias primeiros;

depois andam só chorando

pela vida de solteiros.

 

Casadinha de há três dias

mandou trabalhar o home;

trabalha, homem, trabalha,

quem não trabalha não come.

 

Casadinha há três dias,

ela aí vai a chorar,

pela vida de solteira

que já não torna a alcançar

 

Não te dou chá,

Porque não tem.

Queres um beijo?.

Vem cá, meu bem!

 

- Até no alto

Eu vou contigo,

Do alto pra lá,

Não tem perigo!

 

- Serviço bonito

É o da mulhé:

Sentada na porta,

A fazê croché.

 

Choquei galinha,

Nasceu peru:

Vendi mestiço,

Comprei zebu.

 

- A porta abre,

A janela cai;

A cabra morre,

A morena sai.

 

Este mundo nasceu à toa,

Deste oco ninguém sai.

Minha mãe morreu sem dentes,

De tanto mordê,meu pai.

 

O padre foi dizer missa,

Na capela de Belém.

Em vez de dizer: - Oremus,

Disse: - Maricas, meu bem!

 

O padre, quando namora,

Passa logo a mão na c’roa.

Namora, padre, namora,

Que Roma tudo perdoa!

 

Quem tivé fia bonita,

Não mande apanhá café

Si fô minina, vem moça;

Si fô moça, vem muié.

 

Meiga forma abandonada

que merece amor e estudo

No espaço de um quase nada

pode dizer quase tudo

Não botes lencinho branco

Para o lado donde ando

Bate o vento, sacode o lenço

Penso que me estás chamando

O surdo ouviu

o mudo dizer

que o cego viu

o aleijado correr

Vi teu rasto na areia

E pus-me a considerar...

Que mimo será teu corpo...

Se teu rasto faz sonhar?

Caminho de tua casa

tem morro que sobe e desce

no dia que não te vejo

teu retrato me aparece

Quantas vezes, junto a um jazigo,

alguém murmura...de leve:

- Adeus para sempre, amigo!

E o morto diz: -Até breve!!!

Porque tanto pesa o morto

fechado no seu caixão?

Não pesa o morto querido,

pesa é a saudade da vida

fechada no coração.

Duas vidas todos temos

muitas vezes sem saber:

A vida que nós vivemos

e a que sonhamos viver

Saudade - mágoa gostosa

ninguém sabe donde vem.

Vive num botão de rosa,

morre nos olhos de alguém.

Careca, sem um cabelo

Percorreu o restaurante.

Diz a menina, ao vê-lo,

-Mamãe! Um queijo ambulante!

Açucena quando nasce

Longe do pé bota flor

Na ausência se conhece

Quem é firme no seu amor

 
Fui à praia comprar peixe

Comprei um pampo dourado

Dentro do pampo encontrei

O teu coração retratado

 

 

Bananeira, chora, chora

Pelos filhos que tem

Cortam o cacho, chora a mãe

Ficam os filhos sem ninguém

 

O meu amor foi embora

Pra banda que o sol entrou

O sol já foi, já veio

Meu amor foi e ficou

 

Perguntei ao sol se viu

À lua se conheceu

Às estrelas se encontraram

Amor firme como o meu

 

Menina não se encoste

Que a parede tem pó

Só encoste nos meus braços

Que o amor é um só

 

Tu andas te gabando

Que tens muito "aonde" escolhas

Toma cuidado, não fiques

Como a figueira sem folhas

 

Vou escrever uma carta

Com a pena do quero-quero

Pra te mandar dizer

Que não te ligo nem te quero

 

Quem zombou do meu amor

Foi a minha namorada

Pensa que eu tenho paixão

Paixão, não tenho nada

 

Num copo de salsa verde

Num copo de verde salsa

Mais vale uma feia firme

Que uma bonita falsa

 

Da minha casa pra lá

Todo mundo me quer bem

Só a mãe do meu amor

Não sei que raiva me tem

 

Atirei um cravo n'água

De teimoso foi ao fundo

Os peixinhos responderam

Vida dom Pedro II

 

Eu plantei a cana verde

Lá em baixo, na baixada

Me chuparam a cana toda

Só deixaram a bagaçada

 

Quem é amarelo não dança

Só dança quem é vermelho

O melhor dos dançadores

Dança dobrando o joelho

 

Quem quiser cantar comigo

Lave a boca com sabão

Olha que eu tiro cantigas

Da palma da minha mão

 

Não tenho medo de homem

Nem do ronco que ele tem

O besouro também ronca

Vai-se ver não é ninguém

 

Eu sou cabra cantador

Canto uma semana inteira

Canto como gaturamo

Na ponta da laranjeira

 

Sou cantador de fama

E canto como um tié

Desafio cantador

Venha de onde vier

 
Amar-te-ei, nunca ou sempre

Sempre ou nunca te hei-de amar

Mas não me peças medidas

Que o crer não sabe contar

 
Eu escondi-me e de mansinho

Fiquei a ouvir-te falar

Aprendi num bocadinho

Mais do que estava a contar

 
Desfiz as tranças, cortei-as

Já não sou rapariguinha

Tu preferias-me como eu era

Co'as tranças como eu as tinha

 
Agora vou-te amar sempre

Ou nunca te vou amar

Traiçoeira me tornaste

Farei como me agradar

 
Coração louco a sofrer

Mãos sensatas a fiar

Fios alvos de algodão

Que acolhem o meu penar

 
Oh! Solidão, solidão...

Que enches o meu peito a arder

Espetei o fuso num dedo

E nem o sinto a doer

 
Coração louco a sofrer

Num quieto e mudo pranto

E as mãos calmas a tecer

Lençóis de linho tão branco

 
O meu avental branquinho

Leva tanto que contar

Quando à tardinha no rio

For como sempre a lavar

 
Leva lágrimas redondas

Que se vão enfim soltar

Rio abaixo até às ondas

As ondas do nosso mar

 
Depois disseste-me adeus

Que não te quisesse mal

E as lágrimas dos olhos meus

Sequei-as ao avental

 
DISSE O JUCA NA POLÍCIA:

- LADRÃO SABE O QUE QUER,

QUEM TEM GARRA, TEM MALÍCIA,

NUNCA ROUBA UMA MULHER.

 
VEJAM QUE GRANDE BESTEIRA,

NESTA MINHA CAMINHADA:

TRABALHEI A VIDA INTEIRA

PARA HOJE NÃO FAZER NADA.

 
BEM MAIS DO QUE MEUS AMORES,

MENOS QUE NOSSO SENHOR,

O CLUBE DOS TROVADORES

FOI QUE ME FEZ TROVADOR!

 
DO TEJO PARTIU A ARMADA

DE PEDRO ÁLVARES CABRAL

E FEZ DO MAR UMA ESTRADA

DO BRASIL A PORTUGAL!...

 
BUSCANDO AS GLÓRIAS DO MAR

FOI QUE EL REI DOM JOÃO SEGUNDO

FEZ PORTUGAL NAVEGAR

E ABRIU AS PORTAS DO MUNDO!...

CELSO FURTADO DE MENDONÇA

 
QUE BEM A VIDA ME FAZ,

NUMA EMOÇÃO DOCE E LINDA,

AO VER QUE ME AMAS DEMAIS

E QUE EU TE AMO MAIS AINDA!

 
MEU AMOR É UM FURACÃO,

BOTA A MÃO ONDE NÃO DEVE,

POR MAIS QUE ELA DIGA NÃO,

EU LHE DIGO É SÓ DE LEVE!...

 
NO TELEFONE, O MARIDO

MANDA CHAMAR A LEONOR

E O CRIADO DISTRAÍDO:

- TÁ NO QUARTO COM O SENHOR!

 

MINHA TERRA - DEU UM BERRO

O CANDIDATO CAPIAU -:

- TERÁ UMA ESTRADA DE FERRO

MESMO QUE SEJA DE PAU.

 

GORDO ASSIM EU NUNCA VI:

É UM SUJEITO TÃO PESADO

QUE, SE ELE CAIR EM SI

PODE MORRER ESMAGADO...

 

SENDO UM "PAU D'ÁGUA"ACUSADO

DE UM AUTOMÓVEL ROUBAR:

- ROUBEI NÃO, SEU DELEGADO.

PODE ATÉ ME REVISTAR!

 

A MULHER É COMO A ROSA:

ESBANJA AMOR E CARINHO,

MAS QUANTO MAIS É FORMOSA,

MAIS ESPETA SEU ESPINHO!

 

ESSE AMOR, QUE POR MAGIA,

FÊZ-SE ETERNO EM SEU INSTANTE,

VIVE AGORA DE ALEGRIA

DE SER SAUDADE CONSTANTE.

 

NÃO ME CHAMES DE SENHOR

QUE NÃO SOU TÃO VELHO ASSIM.

E A TEU LADO, MEU AMOR,

NÃO SOU SENHOR NEM DE MIM.

 

AMIGOS, SÃO TODOS ELES

COMO AVES DE ARRIBAÇÃO:

- SE FAZ BOM TEMPO, ELES VÊM...

- SE FAZ MAU TEMPO, ELES VÃO...

 

BUSQUEI NO AMOR, NÃO ME ILUDO,

A DESVENTURA QUE QUIS.

-NESTA VIDA AMAR É TUDO:

É MAIS DO QUE SER FELIZ!

 

É NOSSA ALMA UMA CRIANÇA,

QUE NUNCA SABE O QUE FAZ,

QUER TUDO O QUE NÃO ALCANÇA,

QUANDO ALCANÇA, NÃO QUER MAIS.

 

NO DIA EM QUE TU QUISERES

SER MEU SENHOR E MEU REI

SEREI TODAS AS MULHERES

NA MULHER QUE TE DAREI.

 

FIZ NA VIDA O MEU ESCUDO

DESTA VERDADE SAGRADA:

O NADA COM DEUS É TUDO,

O TUDO SEM DEUS É NADA!...

 

NUNCA IREI JAMAIS CASAR

VOU FICAR CELIBATÁRIO,

PARA EU NÃO OUVIR FALAR:

- OLHA LÁ. LÁ VAI O OTÁRIO...

 

NESTA CASA TÃO SINGELA

ONDE MORA UM TROVADOR

E A MULHER QUE MANDA NELA

PORÉM NOS DOIS MANDA O AMOR.

 

AOS DOMINGOS ELE ODEIA

ESTAR EM CASA PARADO

MARIDO DE MULHER FEIA

TEM RAIVA DE FERIADO.

 

SÃO LUZES, DECERTO, OS SONHOS

CHEIOS DE GRAÇA INFINITA

A ILUMINAR-NOS RISONHOS

NA ESCURIDÃO DA DESDITA.

 

DEI-TE UM BEIJO PRIMEIRO

PARA O SEGUNDO EU PARTO

ASSIM QUE DERMOS O TERCEIRO

IREMOS LOGO PARA O QUARTO.

 

MINHA CASA TEM FACHADA

BONITA E UM JARDIM NO CENTRO,

MAS NELA O QUE MAIS AGRADA

É A MORENA QUE TEM DENTRO.