JURA EM PROSA E VERSO

MINHAS REFLEXÕES

O QUE FIZERAM DA MEDICINA?

Todas as profissões são necessárias. Todas as atividades humanas contribuem para o progresso, o desenvolvimento das nações e do planeta, à organização das sociedades, a satisfação de suas necessidades; todas as atividades fazem parte do processo evolutivo e de aperfeiçoamento do homem. Todos são importantes, desde o que exerce a função mais humilde e que não requer conhecimentos maiores, até aqueles que atuam em áreas mais complexas, que exigem anos e às vezes décadas de estudo, para a formação o aperfeiçoamento e a atualização constante dos profissionais.

No atual estágio da evolução do ser humano, a igualdade é uma utopia. Serão necessários talvez mais alguns milhões de anos de evolução permanente para que o ser humano  atinja um grau de perfeição, física, mental e espiritual que permita  a existência de agrupamentos humanos homogêneos, onde a perfeita igualdade, liberdade e fraternidade impere.

Mas, mesmo neste estágio atual de evolução, em que vivemos, é possível notar algumas disparidades que são absurdas. Uma dessas disparidades é a questão do poder econômico, conseqüência quase sempre de altos salários (absurdos, se comparados ao menor salário legal admitido no país) ou de rendimentos obtidos através de lucros exorbitantes em atividades produtivas ou de prestação de serviços, para falar apenas de atividades legais. Ora, não precisa ser economista para se chegar à conclusão de que, se o país cresce, segundo às estatísticas, cerca de 3% em um ano, qualquer atividade que tenha lucro muito superior a isso está praticando preço abusivo, roubando o povo, daí o absurdo dos lucros que alguns balanços demonstram. Fala-se muito no salário mínimo, mas ele não é , nunca foi, nem será problema. A própria lei da oferta e da procura é suficiente para impor este salário, bastando que as leis combatam os abusos, evitando o trabalho escravo e a exploração dos ricos contra os pobres.

A questão é a distribuição das riquezas do país. São os altos salários e os lucros exorbitantes que minam a economia do país. Um só brasileiro ganha às vezes, por mil. Esta proporção não é justa e gera o desequilíbrio. Até que se fala sobre isso;  no Legislativo,  no Judiciário, e até no Executivo, ouvimos discursos inflamados sobre redistribuição de renda, mas nem uma palavra sobre  diminuir os altos salários, sobre desapropriação verdadeira de bens improdutivos para redistribuição a quem deseja produzir riqueza, nem sobre limitar os ganhos das empresas, obrigando-as a baixar os preços para ganhar menos. A causa da pobreza do povo de uma nação tão rica  é a desproporção na divisão da riqueza do país.

É claro que as considerações que faço aqui sobre a medicina e os médicos, podem ser aplicadas também, em menor escala, a outras profissões e profissionais liberais, mas é que a medicina trata da saúde do ser humano, não deveria ter  seus princípios humanitários tão desvirtuados pelo poder econômico, pela sanha do ganho fácil, pela exploração desenfreada, imensurável e sem limites, do povo e do país. Também ao generalizar, devo ressaltar que acredito que existem, ainda, raríssimas exceções de médicos que não se enquadram nos meus comentários (Eu não conheço nenhum, mas acredito que existam). Peço antecipadamente desculpas a estes profissionais, se de fato eles existirem. Tudo que digo aqui se aplica apenas, àqueles a quem a carapuça couber.

Um homem se forma profissionalmente visando o seu engrandecimento pessoal, adquirir e manter uma melhor qualidade de vida.

Algumas profissões entretanto, pela própria natureza, deveriam ser exercidas apenas, por vocacionados, pessoas abnegadas, verdadeiros humanistas, pessoas desprovidas de ambição maior que a de viver com dignidade e servir ao próximo. A profissão de médico, que no passado se enquadrava nesta definição, sofreu com o tempo profunda e maléfica transformação.

O relacionamento médico/paciente/familiares, hoje estritamente profissional e distante, desprovido de humanidade, torna a pessoa do médico quase inacessível aos seus clientes, tornam-no insensível aos problemas que afligem a humanidade. A ambição desenfreada de riqueza e poder não permite que o médico envolva-se mais e torne mais humana sua relação com seus pacientes. Para grande parte dos médicos de hoje a medicina é apenas um trampolim para um salto maior de opulência, acúmulo de bens materiais e distanciamento do homem comum.

As palavras do juramento de Hipócrates, que o médico recita ao se formar, são na verdade palavras vãs e até caricatas se comparadas com a realidade da maneira de trabalhar dos médicos. São palavras decoradas e declamadas apenas como parte  do cerimonial de formatura. Juramento vão, nunca cumprido, também nunca exigido, juramento que não regula, não limita a ação, nem acompanha a vida do médico, como deveria.

Quando você vai a um determinado médico pela primeira vez, o início da primeira consulta é uma avaliação feita pelo médico, com olho crítico, a seu respeito. Estão pensando que eu estou falando de avaliação das condições visíveis da sua saúde?  Nada disso. O médico primeiro avalia  suas condições financeiras. Qual o seu Plano de Saúde? Até quanto você pode pagar? Essa avaliação inicial é que vai ditar o seu comportamento no restante da consulta.

A ética na medicina hoje pode ser definida como conjunto de medidas e procedimentos usados para proteger os interesses dos médicos.

Médico e dinheiro, hoje, são sinônimos. Plano de saúde, também, e dinheiro, são sinônimos. Daí, médico, plano de saúde e dinheiro são a mesma coisa.

Planos de saúde, na verdade são apenas artifícios usados por médicos mais ricos, para ganhar ainda mais dinheiro com a exploração da mão-de-obra de outros médicos mais jovens ou ainda não tão ricos. Estes, por sua vez, sentindo-se explorados, tudo fazem para burlar a exploração, incluindo acordos com Indústrias farmacêuticas para prescrever medicamentos e ganhar dinheiro por fora, com laboratórios para prescrever sempre grande quantidade de exames, vários deles desnecessários, em troca também de participação nos ganhos destes laboratórios. 

Um medicamento tradicional, já publicamente conhecido, testado e comprovado pela sua eficácia em um determinado tratamento, nem importa que seja mais barato ou não, nunca é prescrito por um médico, se não estiver recomendado pela mídia do momento, imposto pelos laboratórios, a quem deve os médicos obediência incondicional. Aliás, os grandes magnatas da indústria farmacêutica, não podem ser outros, senão médicos marajás.

É revoltante se constatar que uma pessoa que chegar a um hospital ou clínica necessitando de hospitalização para um procedimento médico, para ter acesso, precisa depositar antecipadamente,  importância  sempre exagerada e incompatível com o real valor do serviço que você vai receber (a regra lá é que, em princípio, você é caloteiro). Hospital só lhe aceita, se você provar que é rico, ou seja, se você pagar antecipadamente qualquer importância que lhe seja exigida, sem reclamações. Como os hospitais e clínicas pertencem, em quase sua totalidade, aos médicos, cada um de nós pode chegar à conclusão de como é exercida a medicina hoje.

A medicina é na verdade, um mercado, onde o que impera é a lei do mercado, onde o dinheiro é a mola que impulsiona a atividade. A vida e a saúde das pessoas são os objetos do comércio repugnante da medicina, por parte dos médicos, suas empresas, seus planos de saúde e outras formas de extorsão.

No nosso país, por exemplo, o único Plano de Saúde que honra este nome é o SUS. Pena que a avareza dos médicos os levem a roubar até o dinheiro do povo empregado no SUS,  e a usar todo tipo de fraude  para desviar para si próprios os recursos que deveriam ajudar a minimizar o sofrimento das pessoas enfermas. Quando a imprensa divulga um caso de fraude em um hospital ou clínica, provavelmente devido a algum lapso dos médicos marginais, que não ocultaram devidamente a fraude, deixando uma ponta da falcatrua aparecendo, é porque existem centenas, talvez milhares de outras fraudes, bem feitas por médicos marginais profissionais, que roubam com mais eficiência, e que nunca serão descobertos.

É cada dia mais raro encontrarmos um Médico que possamos qualificá-lo como idealista, que exerça a profissão com dignidade e sem a avareza que identifica estes profissionais, que valorize o ser humano, que torne sua profissão num verdadeiro sacerdócio, que se sinta feliz e realizado com a justa remuneração do seu trabalho, e que se dedique apenas a minorar os sofrimentos dos seres humanos, sem distinção de cor, classe social, poder econômico ou qualquer outra influência.

Quando um médico se forma e resolve ir para o interior, é ingenuidade pensar-se que ele procura ficar mais próximo da gente mais sofrida, que mais precisa da assistência à saúde. Por trás do gesto, quase sempre está a ganância de enriquecer mais depressa explorando as pessoas ricas do lugar, ou o que é cada vez mais flagrante, quer projetar-se politicamente. O interior está repleto de casos de pessoas que usaram a medicina como escada para atingir fins meramente políticos, satisfazendo suas ambições de riqueza e poder. O Congresso Nacional, as Câmaras de Deputados Federais e Estaduais estão repletas de médicos que, ao invés de estarem exercendo a medicina, para a qual foram formados, lá estão se locupletando de dinheiro público, roubando descaradamente a nação através da prática da corrupção, de acordos para apoios políticos, de todo tipo de transação nojenta de que está transbordando as esferas dos três poderes que nos governam, enganando a todos. Quase todos esses falsos médicos iniciaram suas vidas políticas em cidadezinhas do interior, exercendo, ou melhor abusando da medicina como instrumento de ascensão política.

A classe médica tornou-se numa casta de privilegiados. Os médicos são pessoas endeusadas, muito mais importantes do que deveriam ser. Um médico hoje, não conversa com os pacientes ou com seus parentes. Não dá satisfação dos seus atos. Uma pessoa internada passa por apenas uma visita diária do médico, que o olha com aquele ar superior, quase sempre nada diz e se afasta rápido como a fugir da sua doença.

Quando um médico erra (o que acontece com grande freqüência) faz disparar um dispositivo que aciona a verdadeira "máfia" que se apressa a disfarçar, esconder, minimizar e socorrer o faltoso. Se a vítima do erro morreu ou ficou inutilizado não importa. O que importa é esconder ao máximo o erro, preservar e defender o errado. Será que podemos imaginar o número de erros médicos graves, com conseqüências sérias para os pacientes em nosso país, e que ficam sem a devida averiguação e sem qualquer divulgação?

Observem os amigos leitores que não faço alusão à medicina de antigamente, ao médico de família, que nela conhecia os segredos e tratava da saúde de todos e era quase um membro de cada família que cuidava. Isto é saudosismo, coisa do passado, não se coaduna com o momento, com a tecnologia e com as condições de vida da população do nosso país. Queremos, isso sim, uma medicina avançada, moderna, sempre renovada e atualizada, que use os recursos da tecnologia em benefício da saúde do povo.

Esta crônica é apenas uma constatação da realidade.

O que fazer? Respondo que não sei. 

Estou me referindo à medicina e aos médicos em particular, mas o problema é cultural, o país está podre.  Não vejo como um governo possa resolver, a curto prazo, esta grave deturpação dos elevados objetivos do exercício da medicina.

A solução não poderá ser democrática. Não será elegendo sempre os mesmos  que resolveremos o problema da distribuição da renda e em conseqüência os ganhos exagerados dos médicos, dos políticos, etc...

Acredito que mais para a frente, em algum momento, um governo de força, de exceção, terá necessariamente, para o bem do povo, que violar os princípios democráticos atualmente em vigor, impondo novas leis mais drásticas, limitando a valores razoáveis os ganhos e rendimentos dos ricos, abaixando até os limites de normalidade os altos salários atualmente sem controle (sobem até em proporções maiores que o salário mínimo, sem que ninguém reclame, ninguém proteste).

Aí a medicina, assim como outras atividades que passam pelo mesmo processo de deformação, poderá se enquadrar e ser exercida, como no passado, por profissionais humanistas, pessoas vocacionadas, verdadeiros servidores do povo, amados e  respeitados por todos, reconhecidos pelo seu valor, com o padrão de vida adequado à sua cultura e ao seu valor profissional, mas sem os absurdos exageros e erros de hoje.

Este será o caminho para uma sociedade mais justa, próspera e fraterna.