JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS DO JURANDI

O DUELO

(Autor: José Jurandi Brito dos Santos)

A curiosidade é a minha principal característica.

Também não primo por ser discreto, nem por obedecer a princípios ou regras sociais. Não me prendo no cumprimento de normas de conduta, nem cultivo limites de educação ou de respeito.

Quando me insiro numa fofoca ou intriga qualquer, seja ela de ordem profissional, pessoal ou mesmo familiar, vou a fundo sem qualquer escrúpulo. Adoro a maledicência, o mexerico e a bisbilhotice. Realizo-me quando sou o primeiro a contar, numa roda de amigos, as novidades sobre a vida dos outros e ainda mais feliz fico, se estas novidades empanam a honra e a integridade moral dos outros.

Outro dia, andava eu pela praça principal de minha cidade, distraído e despreocupado, quando ao passar defronte uma casa vizinha a uma igreja evangélica ouvi vozes; apesar de se tratar da residência de um estimado amigo, não titubeei: parei imediatamente próximo à janela para escutar e sondar se conseguia algum assunto que me interessasse.

- É hoje! - dizia DELBA.

- Eu sei. – respondeu JURA, meu amigo, seu marido.

Em seguida fez-se um silêncio que imediatamente rotulei de pesado e misterioso; minha curiosidade foi aguçada e não resisti: Cheguei-me ainda mais próximo à janela e colei o ouvido à mesma para poder escutar melhor.

- Você pode adiar, se preferir.

- Não. Não posso mais voltar atrás. Trata-se agora de uma questão de honra e amor próprio. Tenho que enfrentá-lo. Será hoje e agora.

Exultei!

Minha inata visão detetivesca se alvoroçou! Que sorte a minha! Sem dúvida estava diante de uma trama séria e se fosse esperto e eficiente, o meu dia, que até então estivera insípido, sem nenhuma novidade, nada para comentar, ninguém de quem falar mal, nenhuma indiscrição, nenhuma fofoca, seria finalmente, coroado de ação.

Vou tirar isso a limpo – pensei – e serei o primeiro a divulgar o resultado, aos quatro ventos.

A esta altura, ouvir só, já não era suficiente, tal a minha ansiedade e agitação. Fiquei na ponta dos pés e olhei pela greta da janela.

O ambiente era tenso.

Meu amigo JURA, com cara de vítima, colocava a camisa preparando-se para sair.

- O JURANDI sempre demonstrou ser seu amigo – disse DELBA. Foi você quem o incitou. Lembre-se, na casa do BENTO você provocou-o na frente de todos; você até aceitou a data que ele marcou; a culpa é sua; você bem podia ter evitado este desfecho; podia te-lo deixado quieta, esquecido, no seu canto, mas não, teve que obriga-lo a aceitar seu desafio.

Novo silêncio se fez. Silêncio espesso, compacto, quase palpável; silêncio escuro e amedrontador.

Eu conhecia o JURANDI. Homenzarrão musculoso, mestre em artes marciais, pessoa de gênio forte e decidido. O JURA estaria louco ? Como pôde ele, pacato e doméstico, calmo e comedido, de fala mansa, ordeiro e tranqüilo, desafiar o brutamontes do JURANDI? Seria certamente trucidado. O enredo tornava-se cada vez mais emocionante e me fazia mergulhar de cabeça, cada vez mais, no intrigante mistério.

- Você quer me acompanhar? – disse JURA. Talvez me desse mais coragem, me fizesse sentir mais forte, mais confiante.

- Não. Eu não conseguiria vê-lo sofrer. Sei que você tem medo de enfrenta-lo; por isso ele vencerá. Além do mais ele é mais forte, forte o bastante para fulminá-lo e você sabe disso.

Jura retrucou:

- Mas... eu não tenho medo. Ou tenho? Acho que você está certa. No fundo eu tenho receio. Nunca lhe falei mas desde que a causa de tudo se agravou já encontrei-o várias vezes na rua e não tive coragem de lhe falar. Outras vezes cheguei até próximo à sua casa, inquieto, sentindo grande desconforto, desejoso de enfrentá-lo logo, acabar com tudo aquilo de vez, mas não pude. Ele é, de fato, mais forte do que eu. Empalideci, as pernas tremeram e eu fui adiando este embate que, interiormente, eu sabia que seria inevitável. Mais dia menos dia aconteceria. Precisou que estivéssemos numa festa, após ingerir algumas cervejas, e com a causa geradora viva e fazendo-me corar, para que eu o pegasse pelo braço, e a sério, diante de todos, o provocasse.

- Eu esperava que ao ouvir meu desafio, ele risse de mim, – continuou JURA – e desprezasse aquele meu rompante. Despertei para a realidade quando ele, além de aceitá-lo publicamente e diante de todos, ainda marcou, em voz alta, dia, hora e local. Aí eu já não podia recuar. Se recusasse seria o reconhecimento público de uma vergonhosa covardia. Meus brios agora, falam mais alto que o meu medo. Terei que ir até o fim. Seja o que Deus quiser.

- Vá, querido! Eu ficarei aguardando ansiosa o desfecho e estarei desejando-lhe boa sorte. Mas... é bom que eu seja sincera e lhe diga o que penso. Reconheço que neste caso ele está com a razão.

Beijaram-se e JURA, com andar não muito firme dirigiu-se à porta.

Tratei de correr e esconder-me num jardim existente na praça, antes que a porta se abrisse e ele me surpreendesse em plena ação bisbilhoteira.

Por um instante fiquei indeciso.

O que deveria fazer?

Interceptar o meu amigo JURA? Aconselhá-lo a não enfrentar o brutamontes do JURANDI? Evitar que num duelo, alguém se machucasse ou até morresse? Chamar a Polícia? Pedir a intervenção de amigos comuns?

Qualquer das atitudes indicadas por minha consciência, certamente frustraria meu incontrolável desejo de ir até o fim, de tudo ver, ouvir e saber para depois tudo contar. Se interrompesse o curso dos acontecimentos ficaria privado de assistir à emocionante ação cujo desfecho salvaria meu dia, seria a minha glória, me alimentaria de assunto para as rodas de fofoca por longo tempo.

Isso nunca!

Já me via entre os desocupados da cidade relatando a aventura até o final, que só eu presenciara, deixando a todos boquiabertos e perplexos! Já me ouvia, tingindo com tintas vivas os diálogos que acabava de escutar, tornando-os ainda mais misteriosos; mantendo a atenção da platéia que, em silêncio escutava, aplaudindo-me freneticamente no final. Sem dúvida seria a minha maior glória.

Vou em frente, decidi.

Meu amigo JURA chegou à porta, respirou fundo após olhar para os lados, ratificou a sua decisão e, com passo agora firme dirigiu-se ao seu destino.

Qual finório e ladino detetive de conto de suspense, escondendo-me atrás das árvores, postes e muros, eu o segui a curta distância.

Algumas quadras adiante ele parou diante de uma casa. Bateu à porta e sem esperar resposta girou a maçaneta, abriu a porta e entrou.

Como um raio, tratei de apanhar um pequeno caixote de madeira, subir, esgueirar-me qual homem-borracha e observar o que se passava, através de uma pequena abertura existente na janela, trêmulo de incontida curiosidade e excitação.

Numa sala ampla, os dois estavam frente a frente, JURA e JURANDI, e se encaravam sérios.

- Eu vim.

O outro, frio e impassível, olhar fixo, demonstrando um ar de mal disfarçado riso e deboche, qual sádico misterioso, respondeu:

- Não pensei que viesse. Sempre o considerei um covarde.

Meu Deus! Vai ser agora!

- Estou desarmado.

- Eu não. E sacou a sua arma.

Sou testemunha da coragem do meu amigo JURA. Diante do seu oponente, mesmo em situação de inferioridade, encarou o perigo, não titubeou,nem esmoreceu.

O JURANDI, então, com frieza, fez funcionar a sua arma.

- Ahhhhh!

- Desculpe, mas não tinha outro jeito, meu amigo, disse JURANDI!

- Tive que extrair. Não era possível obturar!

FIM