JURA EM PROSA E VERSO

MINHAS REFLEXÕES

MINHAS REFLEXÕES SOBRE A FEIRA LIVRE

 

O Jura em Prosa e Verso tem o costume de freqüentar normalmente a feira livre, acompanhando a esposa Delba Ju. O ambiente da feira, principalmente  nos dias de maior movimento, com o empurra-empurra e a fricção contínua de milhares de corpos juntos num mesmo espaço, a mistura de cheiros de horti-fruti, peixes, cereais, carnes  e gente pobre suada, o prazer de escolher um a um os temperos, frutas e legumes, tudo isto junto deveria representar um momento de grande felicidade.

E representava sim, antigamente.

Entretanto, tenho notado, com intensa consternação, que a feira livre não é mais como há vinte ou trinta anos atrás.

Que saudade!

Vocês se lembram das feiras livres de outrora?

Atualmente o público que freqüenta a feira vem diminuindo, a alegria das pessoas também, e até o faturamento das barracas está sendo prejudicado.

O que mudou na feira livre?

Meus amigos! Infelizmente constato que foram as mulheres, as feirantes, que mudaram... e para pior. Perderam a ingenuidade e a inocência, adotando uma atitude que afastou o público, principalmente o público masculino, tirou-lhes o entusiasmo, o divertimento puro e agradável e a imensurável satisfação que era ir a feira. Vocês já perceberam que os homens não desejam mais ir à feira com suas mulheres? E que quando vão estão sempre sérios, emburrados e até pechinchando... (parece absurdo mas é isso mesmo...) pechinchando, o que não é comportamento compatível com a qualidade do macho. Homem  pechinchando... que horror!

Homem pechinchando é homem insatisfeito, já disse com muita sabedoria o filósofo Fu Man Chu.

Mas... também, ir á feira, para que?

É sobre isso que desejo comentar com meus leitores, visitantes do site Jura em Prosa e Verso, nestas poucas palavras de reflexão.

Antigamente, lembro-me bem, as feirantes eram mais divertidas, jocosas, fogosas, vigorosas, férteis, animadas, e se orgulhavam disso.

Com que determinação e alegria uma feirante, vestindo aquelas lindas e exuberantes blusas folgadas, quando percebiam a nossa aproximação se abaixavam, para arrumar suas mercadorias no tabuleiro, deixando-nos ver os lindos  seios. Alguns enormes, outros nem tanto, uns pontudos, outros espalhados, alguns até demonstrando personalidade própria, voluntariosos, quase saltando para fora da blusa para nos cumprimentar, outros diminutos,  minúsculos, que exigiam nossa atenção e participação especial, pois tínhamos que parar, fazer que examinávamos alguma fruta, mas com nosso olho e atenção  tentando descobrir e ver as  diminutas mas apetitosas outras frutas.

E quando a feirante notava nossa atenção, notava que já tínhamos conseguido ver o que queríamos, se recompunha, mas não de maneira brusca e ofensiva, mas com aquele meio sorriso, cheio de inocência, puro, sem qualquer maldade.

E existia uma não ostensiva mas fraterna compreensão entre as mulheres. Nossas esposas faziam que nada viam e não nos importunavam com admoestações histéricas, ciumentas e inúteis.

É claro que nós fazíamos questão de comprar alguma coisa nas boas barracas. Quanto mais a feirante se esforçava nesse jogo inocente, mas nós comprávamos suas mercadorias, insistindo com as nossos esposas. O faturamento das barracas que eram operadas por mulheres espertas e inteligentes era alto, o lucro grande, todos ganhavam, a felicidade aumentava sempre, a alegria contagiava a todos .

Nós homens considerávamos  ir à feira livre como um dos melhores e agradáveis momentos da nossa vida. Quando chegávamos na feira não queríamos mais sair. Saíamos de uma boa barraca, em busca de outra  na esperança de acharmos uma ainda melhor. Saturávamos nossa visão com coisas bonitas de se ver.

E as bundas? Ah! Meus amigos! As bundas!!!

As bundas, sem dúvida alguma eram as responsáveis por grande parte do faturamento das barracas. Alguns homens até só iam à feira em busca delas.

Com que delicadeza uma cândida e angelical feirante trabalhava vestindo aquelas mini-saias incríveis e quando pressentiam que estávamos chegando, voltavam-se de costas para nós e apanhavam no chão aqueles balaios de frutas, legumes ou verduras! Devagar! Com classe! Sensualmente! Com aquela alegria espontânea própria das pessoas simples.

Tínhamos que parar e comprar alguma coisa, até o retorno de nossas esposas, pois elas por certo compreensivelmente se afastavam para apreçar algo em outra barraca, para nos deixar mais à vontade.

Aquilo é que era prazer e satisfação! Aquilo é que era feira livre boa, operada por feirantes competentes!

De vez em quando uma ou outra sentava-se no chão, com um cesto ou uma bacia entre as pernas, para debulhar milho ou feijão verde. Céus! Que beleza! Quando elas se movimentavam deixavam à mostra aquelas deliciosas, gastronômicas, estonteantes, e até quem sabe virgens e castas calcinhas de chita e imaginávamos aquele feijão no nosso prato, bem temperado, fumegando, cheiroso.

E os homens? Os feirantes?

Feirante esperto, dinâmico e progressista nunca ia trabalhar sem levar consigo a esposa e as filhas, às vezes até a mãe e a sogra. Chegavam todos juntos à feira, na maior alegria, a família unida. Todos juntos arrumavam as barracas, expunham as mercadorias, e logo, logo, os homens sumiam e iam para outra área da feira beber cachaça, deixando às mulheres a responsabilidade de provocarem o faturamento do dia. Lugar de feirante macho era no bar tomando cachaça, ou jogando dominó, ou ainda flertando com as putas. Era assim que eles participavam com muito patriotismo e compreensão do progresso do país.

Voltando às feirantes, já que falei demais sobre os (com licença da má palavra), homens, pergunto ao meu leitor:

E a arte da apresentação e oferta das raízes, leguminosas e frutas? É hoje uma arte esquecida. O desaparecimento dessa arte é um dos males que tem provocado o empobrecimento das feirantes.

Quando uma feirante pegava daquele jeito uma mandioca, uma cenoura ou até mesmo uma banana ou um quiabinho, olhava para nós e nos oferecia, perguntando se não queríamos comprar, um arrepio de volúpia e satisfação sacudia todo o nosso corpo.

Até os tomates, laranjas, limas e limões eram oferecidas de modo inocentemente sensual. Elas pegavam duas frutas, uma em cada mão, enchiam as mãos com elas, acariciavam daquele jeito e nós sentíamos essas carícias como se fossem em nós.

Que saudade das feiras e das feirantes de antigamente!

Hoje as feirantes não tem mais aquela inocente ingenuidade.

A falta de coisas bonitas e agradáveis de  ver, desvia a nossa atenção para percepções negativas, destrói nosso humor. Ao invés de nos deliciarmos com angelicais e puras visões, nós nos deparamos e percebemos é  a feiúra das pessoas, o preço alto das mercadorias, a grosseria e ignorância de todos, a sujeira e o insuportável mau cheiro de gente miserável suada.

Tudo isso sempre existiu na feira, mas nem percebíamos, pois as feirantes não deixavam que nossa atenção e nossos sentidos se desviassem para coisas negativas.

Que saudade das feiras e das feirantes de antigamente!

Publico essas reflexões, meus amigos e amigas, na esperança de que jovens feirantes as leiam, despertem para esse grave problema social que tem desacreditado as feiras livres do nosso país.

As feiras livres do nosso país necessitam de novos líderes.

Jovens feirantes! O Jura em Prosa e Verso vos convoca a liderar um movimento nacional de recuperação das feiras livres! Vamos restabelecer os antigos costumes, os antigos valores morais praticados por  machos e fêmeas das feiras livres, para que nós, meros mortais,  homens fregueses, voltemos a nos entusiasmar e desejar semanalmente ir à feira com nossas esposas.

Salvem as feiras livres, por favor!