JURA EM PROSA E VERSO

  MINHAS REFLEXÕES

MINHAS REFLEXÕES DURANTE MEU ENTERRO

 Autor: JOSÉ JURANDI BRITO DOS SANTOS

  Durante toda a vida estamos presos a convenções sociais. Os homens inventaram obrigações como registro civil, batizados, aniversários,  formaturas, casamentos e tantos outros atos obrigatórios, com o objetivo de organizar melhor a sociedade, mas que tem como resultado sempre infernizar a nossa vida.

  Agora mesmo, deitado no meu caixão, totalmente morto, tenho que respeitar convenções sociais. Tenho que estar imóvel, mudo, tenho que estar endurecendo, a barriga inchando e assistir aos dois principais atos sociais do meu enterro: o velório e o sepultamento.

  Não é verdade que os mortos não vêem nada, não sentem nada. Só agora em descobri isso pois estou assistindo, fascinado, a tudo o que ocorre à minha volta.

  Quando a notícia da minha morte se espalhou, todos os que souberam, mesmo os indiferentes, vieram me ver, como se meus amigos fossem.

  As mulheres, que me esnobavam e me achavam feio e ridículo, agora dizem que era um gatão, coitado. Minha burrice sumiu por encanto, pois há aqueles que elogiam agora a minha cultura. Eu, que nunca gostei de dar esmola, sou agora reconhecido como pessoa boa e caridosa. Até a minha fidelidade conjugal (Ah! Ah! Ah!) está sendo elogiada Passei a ser um bom companheiro, até para quem nunca convivi junto.

 

Meus parentes agora estão desmaiando, aos prantos convulsivos; deve ser porque só receberão meus vários seguros daqui a uns quinze dias e terão que esperar.

 

De meus cinco filhos falta um. A minha filha mais velha ainda não chegou. Será que virá?

Na minha casa tem mais gente neste momento, do que nas últimas festas que promovi. Parece até festa ou hora da novela das oito. Risos disfarçados em soluços, piadas contadas com ar fúnebre, formalismo malformado; Já providenciaram os lanches, o cafezinho e as bolachinhas. Vários já foram ao boteco aqui perto e já tomaram várias doses de cachaça. Adquiri até um ar respeitável e sério em meu terno preto, gravata apertada, aquele mesmo  que usei, uma vez por semana, durante as minhas últimas décadas de vida. Aliás, devo fazer justiça. O único grupo que parece estar com ar circunspecto e sério é o grupo dos filhos da viúva que, de terno preto, permanece em um dos cantos da sala.

  Registro com satisfação o fato de que a televisão, que eu detesto,  está desligada. Nunca consegui ouvir minha música orquestrada, clássica, meus discos do Coronel Ludugero e outros da mesma época, na hora que desejo, por causa desse maldito, indesejado e alienante aparelho. Gostaria de ouvir, agora, meus velhos discos, mas reconheço que por causa do formalismo inventado pelo homem para este momento, todos iriam criticar se fosse colocada música no meu velório.

  Vejam bem! Quem me conhece sabe que eu detesto calça e palitó, só uso bermudas, camiseta e sandália, de preferência velhos; gosto de estar livre e solto, sempre à vontade. Então, porque nesta minha última aparição social, não me dão a liberdade de ouvir o que desejo, vestir o que gosto, ser eu mesmo neste momento? A maldita gravata me aperta o pescoço. Apesar de ser impedido de me mexer, pois a praxe social é que defunto não se mexe, estou me sentindo terrivelmente apertado aqui neste caixão incômodo.

  E a minha inimiga, a Televisão, que está sobre um móvel bem diante do meu caixão, mesmo desligada, está rindo da minha cara. Meu caixão está refletido na tela apagada da TV e, da posição em que estou, vejo meu próprio velório como se fosse um programa. A maldita TV me diz:

  - ”Você vai embora, não tem mais ninguém para me xingar nem me desligar, nem me fazer ouvir aqueles discos idiotas; sua vitrola infeliz vai ficar cheia de teias de aranha e finalmente eu vou reinar. Serei a rainha da casa e vou bestificar ainda mais os adultos e as crianças daqui. E você se vai para sempre, há, há, há...”

  Se não fosse inconveniente e pouco recomendável eu me levantar do caixão, eu ia quebrar essa televisão todinha, agora mesmo! Que raiva!.

  Mas... o que será que está acontecendo agora? Ouço gritos cada vez mais histéricos, verdadeiros urros. Será que ficaram loucos?

  Meu caixão balança e eu finalmente entendo o que está acontecendo. É que meu velório já acabou e meu enterro vai sair. Tampam meu caixão, retiram as coroas de flores artificiais que amanhã, ou talvez hoje mesmo, serão roubadas no cemitério, e me suspendem sem nenhum cuidado! Lá vou eu!

  Todos fazem questão de dar uma pegadinha na alça do meu caixão, como prova da deferência que tinham comigo. Porém baixinho, vão resmungando: - “Êta defunto pesado desgraçado! Vá ser pesado assim, no inferno!” . Mas aí eles se lembram de que eu estou morto e que deveriam estar desejando que eu vá para o céu. Só não modificam a frase porque seria de mau gosto dizer: - “Vá ser pesado assim lá no céu!”.

  Continuo indo.

  No cemitério, um discurso que de fato me comoveu, feito por um dos homens de preto, e mais dois discursos de pessoas que nada significaram para mim, dizendo coisas que nunca pensaram de mim, inventando uma história bonita que não interpretei na vida, e todos os presentes balançando afirmativamente a cabeça, não que estejam de fato concordando com o orador, mas porque bestificados, não têm coragem de pedir um aparte e dizer a verdade sobre mim, falar dos meus defeitos, que eu era o chato que reconheço ter sido, um sonso, gozador e inconveniente ou até coisas piores.

  Que bom que não teve padre nem pastor, senão acho que nem eu, totalmente morto, não iria agüentar o porre do sermão.

  Que chato ouvir aquelas bobagens. Não só eu estou achando chato, mas todos os presentes, enquanto balançam afirmativamente a cabeça, sentem calor e desejam que acabe logo esta porcaria de enterro.

  Finalmente, acabou!

  Baixam meu caixão, cobrem o buraco de terra, e todos vão embora cuidar de suas vidas, contentes e felizes.

  Fico só com os vermes. Logo começamos a brigar. Peço-lhes que, pelo menos, não me façam cócegas nos pés, pois sou muito sensível a cócegas. Mas eu reconheço que eles estão no seu direito de vermes e vão dando cabo das minhas carnes.

  Como não posso modificar a natureza, e sempre fui um gozador, só me resta fazer gozação com os malditos vermes que me devoram. E digo para eles:

  -         “ Seus verminhos insignificantes, vocês têm a força agora, vocês mandam, é o direito de vocês. Mais minha vingança e meu consolo é saber que daqui a pouco, vocês vão morrer e serão comidos por outros vermes e de vocês nada restará. Mas, se ninguém mexer neles, os meus ossos vão continuar neste lugar, talvez até por séculos.”

  FIM