JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS DO JURANDI

LUCIANA - SERÁ A FILHA DA LEILA?

(AUTORIA DE  José Jurandi Brito dos Santos, o "Jura em prosa e verso")

Ela já tinha sido vista por Jurandi duas vezes desfilando com malha de ginástica pelo calçadão da praia de Tanquinho em frente ao Hotel de Luxo, onde  estava hospedado, a negócio, há vários dias.. 

Agora era a terceira. Aquele rosto lindo lhe era familiar, só não sabia ao certo de onde a conhecia.

Neste dia, ainda pensando nela, ocorreu-lhe um nome: Leila. Sim, a menina malhada e loira era a cara da Leila. Só podia ser sua filha. 

Começou a fazer as contas. Ele tinha 52, a Leila era uns cinco anos mais velha. A garota, com seus vinte e poucos anos no máximo, era filha dela. 

Havia, portanto, um excelente motivo para se aproximar daquela "linda como uma santa", assim a definia. 

Será que a Leila se importaria se ele tivesse um caso com a filha? 

É verdade, quando adolescente, teve um longo caso de amor com a Leila. Mas isso foi no passado. 

Agora outros tempos, ecologia em alta, drogas, meninos de rua... ela não iria ligar. 

Sua ex-mulher não criaria problemas e suas filhas, da idade da filha da Leila, também não. Disso ele tinha certeza. 

A diferença de idade certamente não pesaria. Ainda estava inteiro e, o que é mais importante (para elas), bem de vida. Dividiria com ela os prazeres (não as despesas) de jantares em restaurantes caros, fins de semana no sítio da Barra do Jacuípe, feriados longos na fazenda em Alagoinhas e férias esquiando nas montanhas geladas de Aramari. 

Passou a caminhar no calçadão com mais freqüência, ali pelo final da tarde, entusiasmado, esperançoso. 

A procura se estendeu por duas semanas. Mesmo tendo concluído seus negócios, permaneceu no hotel, como que obcecado pela vontade de reencontrar a filha da Leila,  até que, numa quarta-feira, aconteceu. 

- Você é parente da Leila, não? - perguntou à linda jovem.

- Sou, confirmou ela - ela é minha... 

Jurandi, excitado, entrecortou sua fala. 

- Conheci muito a Leila. Estudamos juntos. Excelente pessoa. Lá no colégio... - e desandou a contar as melhores histórias envolvendo a Leila, ele e a turma que, num esforço de memória, tinha selecionado. LUCIANA - era esse seu nome, achando Jurandi excelente papo, gentil, culto, mostrava seus dentes brancos, num sorriso divino e seus olhos verdes pareciam ter o brilho aumentado. 

- No tempo do colégio eu era duro, mas agora estou bem de vida. Sou Superintendente-Geral da... e começou, sem  falsa modéstia, a fazer uma auto-exaltação sobre a sua situação financeira... seu status, sócio do Country, barco no Iate Clube de Tanquinho, suas últimas férias esquiando em Aramari...

 Ela ouvia interessada e sorria. 

- E você? Fale-me a seu respeito. 

LUCIANA contou que estudava comunicação, fazia camping, já tinha ido à Argentina como mochileira, era membro do Partido Verde, curtia comida natural, coisas da idade... 

Jurandi se decepcionou um pouco com o que ouviu, porém não desanimou - chegou a hora de iniciar a cartada definitiva. 

- E a Leila? Como está? 

- Vovó? Morreu no ano passado, um mês depois que a mamãe se separou. Pensei que o senhor tivesse lido nos jornais. Não me leve a mal, mas não dizem que as pessoas, depois de certa idade, lêem o obituário todo dia? Esse aqui é o Marquinho, meu namorado - disse ela, apresentando o garotão que acabava de chegar. Marquinho, esse é um colega de escola da vovó Leila...etc...etc... 

Em casa, Jurandi examina suas rugas em frente ao espelho. Se sente envelhecido, sozinho, cansado. Doem-lhe as pernas. 

O Superintendente-Geral agora preocupa-se com o colesterol. 

É tempo de começar a assumir a sua idade e, principalmente, o início da velhice.

 Pega o jornal, se detém no obituário, não sem antes se perguntar com uma ponta de interesse: 

- Como será a mãe da Denise, filha da Leila? Acho que amanhã vou procurá-la...

Fim