JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS DO JURANDI

LUCIANA( Será que o Pedrinho Vem ?)

(Autor: JOSE JURANDI BRITO DOS SANTOS)

 

LUCIANA, nos seus doze anos, a completar amanhã, apresenta no corpo esguio os reflexos do desabrochar da puberdade, antecipando-se a uma adolescência sadia.

Tanto física quanto mentalmente, desperta para a vida com força e vigor.

A garota irrequieta, de fogosa e alegre presença nos folguedos e peraltices infantis dá lugar, aos poucos, a outra menina mais retraída, mais recatada, sonhadora, menos expansiva com seus amiguinhos da escola e do bairro e menos confidente com seus familiares.

LUCIANA  sempre foi cercada de mimos e amizades.

A transformação que a natureza, aos poucos, impõe ao seu corpo e à sua mente, é tão lenta que quase não é percebida, nem mesmo pelos seus pais, sempre carinhosos e dedicados, nem pelos demais membros da sua família, família numerosa, povoada de tios e tias, primos e primas, avôs e avós.

Com os amiguinhos da sua faixa de idade convive com o fenômeno da transformação do corpo que a todos atinge, sorrateiramente moldando e esculpindo nas atuais crianças os adolescentes de breve e os jovens e adultos do futuro.

Entretanto, são visíveis as alterações do organismo e as mudanças e aperfeiçoamentos da personalidade, como novos desejos, alguns ainda indefinidos, novas necessidades, novos interesses, novos hábitos, alguns até secretos.

Os quadris se alargam fazendo surgir coxas roliças, mais grossas, mais consistentes, voluptuosas até; o tronco, agora de pose sempre ereta ao andar, exibe com orgulho, um busto donde despontam pequenos seios, como botões de rosa; seios pequenos mais impetuosos, forçando a blusa, impondo sua presença a cada dia, e despertando os olhares e a admiração dos garotos.

Hoje, ao andar pela rua LUCIANA já começa a chamar a atenção dos garotos, dos jovens e até de homens de mais idade; ao verem LUCIANA eles já param para vê-la passar, dizem piadas, gracejos jocosos e até a cortejam.

Pelos aparecem no corpo, nas axilas e no púbis, chegando a incomodar e envergonhar a menina-moça.

Na infância, seus coleguinhas mais chegados eram a Glorinha e a Paulinha na escola; em casa, seus irmãos Renato, Cecília e seu irmão de criação Pedrinho; na família, seus primos Roberto , Clarinha e Rodrigo; e ainda possuía um círculo de amiguinhos na vizinhança, personagens sempre presentes nas suas festinhas de aniversário e nas brincadeiras diárias, principais animadores da sua existência, até então colorida.

Mas... entre todos, era o Pedrinho, um primo órfão que seus pais tomaram aos seis anos, quando LUCIANA tinha apenas dois, quem mais tocava a sensibilidade da menina.

Foram inseparáveis na infância.

O garoto, quatro anos mais velho, inspirava em LUCIANA confiança e segurança; seu jeito alegre e descontraído conquistava a todos e impressionava.

Na escola era querido e admirado pelos colegas e mestres. Os pais de LUCIANA muito se orgulhavam dele e o tinham como filho.

Quando, no ano passado, aos quinze anos, foi mandado estudar o 2º Grau num colégio da capital, LUCIANA sentiu grande falta do amigo e companheiro, quase irmão. Sentiu indefinível vazio e sua lembrança durante todo este ano de transformações estava vinculada à saudade do primo-irmão; sentia falta do carinho com que ele a tratava, do seu abraço, do seu sorriso franco; imaginava como estaria ainda mais bonito e mais atraente após um ano de ausência.

Agora ele ia voltar de férias.

Chegaria hoje, no fim da tarde, e estaria no seu aniversário, amanhã.

LUCIANA estava excitada com a perspectiva de rever o primo-irmão.

A alegria do reencontro contagiava a todos da sua família, mas... como sempre acontecia, ninguém percebia que em LUCIANA o regozijo era mais acentuado, mais apaixonado; não percebiam que LUCIANA no limiar de uma nova fase da vida, transformava os sentimentos infantis em paixão juvenil, em sonho e fantasia.

O Ônibus que traria Pedrinho triunfante, ídolo e esperança da família, sonho e paixão juvenil de LUCIANA, não chegou no horário previsto; atrasou, a tarde acabou, veio a noite. A maior parte da família esperou no ponto de desembarque de passageiros, que ficava próximo à sua casa, mas como o atraso era grande retornaram à casa; pela janela espreitavam, sempre que algum veículo passava, pois o itinerário de chegada do ônibus passava pela sua rua, em direção ao ponto de desembarque ali perto.

No jantar,a apreensão de todos transformou a ocasião que diariamente era alegre, ruidosa e descontraída em silêncio, recolhimento e preocupação.

Após o jantar e mais algum tempo de silêncio na sala de estar, sempre no aguardo e expectativa da chegada do ônibus, que nunca vinha, LUCIANA beijou os pais e recolheu-se alegando sono e cansaço. Em seu quarto, diante do álbum de fotografias passou algum tempo insone, revivendo nas fotos em que aparecia Pedrinho, os bons momentos de sadia e inocente infância e deixando-se tomar pelo medo de algo de ruim pudesse ter acontecido, talvez até um acidente.

Depois, apagou a luz e rolou pela cama algum tempo, naquele torpor que antecede a total inconsciência do sono.

De repente, LUCIANA ouve um rumor. Abre os olhos, vê a escuridão do quarto, ouve os ruídos da noite.

Após alguns instantes, com as vistas já acostumadas à escuridão, vislumbra, através da cortina, tênue claridade vinda da rua e um ligeiro e repetido ruído desperta a sua atenção.

LUCIANA desperta e vai até a janela. Afasta um pouco a cortina e, para sua alegria e surpresa vê Pedrinho, do outro lado, a fazer-lhe gestos pedindo silêncio e mandando-a abrir a janela.

LUCIANA compreendeu que Pedrinho, chegando àquela hora tão tardia, não queria acordar os velhos tios, dispondo-se a entrar pela janela do seu quarto, como tinha o costume infantil de fazer.

LUCIANA abre a janela em silêncio.

Pedrinho coloca para dentro sua mochila de viagem, entra, fecha a janela e a cortina e observa-a enlevado; LUCIANA de pé, também o observa como que hipnotizada, matando a saudade da imagem do ser querido a tanto tempo distante.

Ambos continuam a se satisfazerem com os olhares, na semi-escuridão do quarto, como a redescobrirem-se.

De repente Pedrinho se aproxima e a abraça de um modo novo que a faz tremer; ele puxa-a para si e encosta o seu corpo ao dela, com força. O contato físico completa a excitação dos jovens que num instante, tal ímãs de polos opostos, grudam-se num beijo apaixonado; no instante seguinte as quatro mãos exploram caminhos e mares nunca dantes navegados; suas línguas se debatem e seus corpos caem sobre a cama já incontrolados.

Chega a manhã.

LUCIANA desperta aos poucos, procura com as mãos e com o olhar seu primo e não o encontra na cama nem no quarto "-Deve ter saído sorrateiro, bem cedinho - pensa".

Lembra ainda atordoada, da linda noite de amor, das sensações novas sentidas naqueles apaixonados instantes; espreguiça-se e dispõe-se a levantar, quando algo pegajoso, na cama, desperta a sua atenção.

Descobre-se e vê-se horrorizada, suja de um sangue escuro que lhe empapa as vestes, o corpo e o lençol.

Aquele sangue parece acusa-la e condena-la por algo pecaminoso que praticara.

Nesse momento, para completar a sua surpresa, a porta do quarto se abre e a sua mãe entra no quarto, observa-a, fecha a porta do quarto e se aproxima dela.

Abraça-a com carinho, explica-a que não tem com que se preocupar; fala-lhe sobre a menarca, a primeira menstruação, sobre o ciclo mensal que acompanha todas as mulheres durante grande parte de suas vidas.

No meio da conversa, diz que ela e o marido esperaram o ônibus até muito tarde. Quando, enfim, o ônibus passou, seu pai apressou-se a ir até o ponto de desembarque observar a descida dos passageiros.

Pedrinho não viera.

- Talvez venha hoje, - concluiu -.

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