JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS DO JURANDI

LUCIANA - Êxtase

(Luciana abre o jogo e conta tudo)

Um dia, um estagiário novo, o Jura, se encantou comigo. E começou a dar em cima de mim. Foram meses nesta brincadeira de flerta daqui, foge dali. Nos tornamos amigos, eu freqüentava a casa dele (ele morava sozinho) e não rolava nada. Uma tarde, ele me levou até o carro e me roubou um beijo. Minhas defesas começaram a ruir. Só que ele voltou com a ex-namorada. E eu continuei com a minha vida. Realmente não queria nada com ele.

Uma noite, fui até a casa do Jura. Como sempre ia. Ele ofereceu um kir e eu, que não sou de beber, acabei aceitando. Não sei se foi a bebida, não sei se foi a lembrança daquele beijo de meses atrás, não sei se foi o clima, a lua, o destino. Acabamos na cama.

Cheguei em casa de madrugada e acordei minha irmã.

-Você não vai acreditar no que aconteceu!

-O que? Bateu com o carro?

-Não! Descobri o homem da minha vida! Danielle Steel não mentiu! A gente pode ver estrelas!

-Ué?! Você não saiu com o Jura?

-Pois é...

Mesmo assim, achei que não ia dar em nada. Juro que achei. Nem me passou pela cabeça que ele poderia estar sentindo o mesmo que eu. Afinal, ele tinha voltado com a namorada e se dizia apaixonado por ela. Mas, no sábado, ele apareceu de bicicleta na praia, para me dizer que tinha terminado com a namorada e queria que eu fosse passar o fim de semana com ele em Petrópolis.

Minha mãe ficou em êxtase. Ele era tudo o que ela tinha sonhado para as filhas dela, principalmente para mim, a Luciana: judeu, maçom, de boa família, um bom emprego, boas perspectivas de futuro e apaixonado. Apesar de nunca ter feito a menor questão de tomar conhecimento da minha vida sexual, ela me deu a maior força para ir com ele. E eu fui.

Isso foi em junho. Três meses depois, ele me deu uma aliança e disse que a gente ia casar em junho do ano seguinte. Eu freqüentava a casa dele, ele freqüentava a minha. Foram nove meses juntos. Parece que foi muito mais. Como ele morava sozinho, acabei quase morando com ele. Ele dizia que me amava, cozinhava para mim, era tudo muito super, extremamente intenso.

As coisas começaram a mudar em dezembro. Alguma coisa aconteceu. Ele começou a esfriar. Descobri que tinha outra menina na estória. Ele precisou viajar. Descobri que ela foi com ele. Na volta, ele quis terminar, eu não quis. Marcamos data para o fim. Depois do feriado da Semana Santa. Nós iríamos para Petrópolis com os pais dele e, quando ele me deixasse em casa, fim.

A Queda

Foi quando começou a minha descida vertiginosa para o fundo do poço. Eu não aceitava o fim e toda vez que corria atrás dele, ele me recebia, ficava comigo, continuava afirmando que estava apaixonado pela outra e que precisava viver aquele amor. Mas, ao mesmo tempo, dizia que não podia me perder, que eu era a única pessoa com quem ele podia falar de qualquer coisa. Eu acreditei que ainda podia virar o jogo.

Minha mãe sempre disse (na verdade, era quase como a maldição da fada não convidada para a festa de nascimento da Bela Adormecida) que eu estava tão acostumada a ter tudo na mão na hora que queria, que ela não queria estar por perto quando alguma coisa realmente importante me fosse negada. Mas ela era a minha mãe, e não uma fada qualquer. Toda a minha família passou por muita coisa, todos nós tivemos que aprender e crescer na marra.

De março a maio, foi uma loucura. Eu estava desempregada e decidida a fazer de tudo para que ele mudasse de idéia. Os fatos isolados são meio nebulosos para mim... mas me lembro que fugi de casa; que fingi que tentava me matar; que fazia tudo com total consciência de que era só para chamar a atenção dele e dos meus pais. Mas, eles não sabiam da minha “consciência” e ficaram apavorados.

Eu me sentia cada vez mais perdida. Tudo era tão contraditório. Jura dizia que me queria, assim como queria a outra. E, quando eu cansava e dizia chega, ele implorava para eu não ir. Não dava para entender... E paciência não era o meu forte naqueles tempos. E eu não queria esperar. Até que, pressionada até o meu limite, resolvi dar o cheque-mate.

Peguei meu carro e fui para o apartamento do Jura. Disposta ao tudo ou nada. Os detalhes não vêm ao caso agora. Foi horrível. Uma briga enorme. Perdi totalmente o controle. Pressionei-o por uma decisão, ele – imaturo – não conseguia decidir. A mãe dele chegou, afastou-o de mim. Meu pai e minha irmã chegaram. Meu pai me tirou dali. Minha irmã ficou. Lutando por mim, que estava completamente desacreditada pela família dele. A única culpada de tudo.

Superação e Amadurecimento

Naquela noite, começou a minha subida do fundo do poço. Fui internada em uma clínica psiquiátrica. Conheci o Dr. Luis Antonio, psiquiatra, ser humano maravilhoso, um grande amigo. Foi meu terapeuta por muitos anos e, até hoje, é minha tábua de salvação em momentos de crise. Me ensinou a ver que nem tudo era culpa minha; que estava faltando em mim um bocado de auto-estima; que a pessoa a quem mais se ama no mundo somos nós mesmos; que, enquanto não nos amarmos, será difícil aceitarmos que podemos ser amados.

Passei pela fase da vergonha, da aceitação dos meus erros, da humildade. E comecei a ser gente. Mudei meus valores, meus princípios. Acreditei em mim mesma, no meu potencial. E comecei a juntar meus caquinhos. Muita gente me ajudou a superar isto tudo. Tanta gente que a lista é sem fim. Não posso incluir o Jura nem a família dele nesta lista.

Consegui um outro emprego, em uma multinacional, por mim mesma, através de anúncio de jornal. Quando me candidatei, não sabia para que empresa era. Quando fui chamada, descobri que era onde o irmão de Jura trabalhava. Comecei a trabalhar lá em julho de 1989. Nem o Luis Antonio acreditava que eu conseguiria um emprego tão rápido assim.

Maktub. Estava escrito. Era o meu destino. Foi lá que conheci meu marido, meu Rick, três meses depois. Ainda fui posta à prova. Jura voltou à minha vida, nos falávamos por telefone e, de vez em quando nos encontrávamos. A tal menina tinha lhe dado o fora. Ele estava sozinho. Mas nunca mais tivemos nada. Enfim, éramos os amigos que ele queria que fôssemos.

Quando eu e Rick passamos juntos nossa primeira noite, no dia seguinte Jura apareceu, pela primeira vez, na empresa para visitar o irmão, que trabalhava lá há anos. Quase não acreditei. Subiu até a minha sala, elogiou a vista, me elogiou.

Meses depois, quando percebi que a coisa estava ficando séria com o Rick, fui até o trabalho do Jura. Conversamos no hall dos elevadores.

- Estou namorando e acho que é sério.

- Sério como?

- Acho que ele vai me pedir em casamento.

- E você?

- Depende de você...

Ele me deu um selinho, virou as costas, e, andando de volta para o escritório, disse:

- Case e seja feliz.

Foi o melhor conselho que ele poderia ter me dado. Eu casei um ano e oito meses após o meu colapso. E sou feliz, muito feliz.

Não tenho raiva nem ressentimentos de Jura ou da família dele. Pelo contrário, perdoei a todos que tinha que perdoar, inclusive a mim mesma. Agradeço a ele todos os dias da minha vida. Por causa dele e da imaturidade dele, eu consegui mudar, crescer, amadurecer. Consegui enxergar os valores escondidos do meu Rick. Tão diferente de todos os meus namorados anteriores. Tão sério, tão decidido, tão adulto. Tão apaixonado, acreditando de verdade em mim. Tão racional, tão tímido, tão anti-social.

Jura foi a grande paixão da minha vida, mas acima de tudo, foi a minha maior lição de vida. Devo a ele muito do que sou hoje, ou melhor, muito do que não sou hoje. Devo a ele minha maior conquista: meu casamento. Amo e sou amada. Sem exageros, sem ilusões. Jura pode até ter sido a maior loucura da minha vida, mas não foi, não é nem nunca vai ser o meu grande amor, o maior companheiro, um incrível parceiro, enfim o homem do meu destino. Este é o meu Rick.