Texto-2-051

 
JURA EM PROSA E VERSO

GRUPO FRATERNIDADE

LUCIANA E O SONHO, NO SERTÃO

(Adaptação do Jura em prosa e Verso, de um conto de autor desconhecido)

Apesar de ouvir da vó todos os dias, antes de dormir, que devia se esforçar mais para não morrer infeliz, Luciana, a menina com nome de velha – como ela mesma falava – não se sentia encaixada naquela realidade. Nos doze anos em que viveu no sertão, aprendeu a cuidar da casa perfeitamente e, naquele ponto, ainda ajudava o pai nos trabalhos fora de casa.

A vida no sertão nunca foi fácil, ainda mais em Canudos, cidade conhecida por um monte de motivos que envolvem guerra e coisas do tipo. Luciana queria viver numa outra realidade, apesar de agradecer todos os dias ao papai e à mamãe pela água que eles não deixavam faltar e pela comida que tinha na mesa todos os dias.

Não estudava, não brincava (porque não tinha vizinhos) e tinha aprendido a cantar as mais famosas músicas do sertão – como o pai falava – para ter algo legal para se distrair. “Valente no forró arretado”, quando abria a boca, Luciana se sentia numa outra dimensão.

Todo dia à noite, Luciana saía sozinha e perambulava pelo quintal infinito de seca que rodeava sua casa, cantando até sentir sono para voltar para casa e dormir. Eram os melhores momentos do dia dela, de longe. Repetia a mesma coisa tanto que os pais chegavam a achar que a menina era “lelé da cuca”.

Mal sabia a garota Luciana o que aconteceria naquele dia em particular. Era uma sexta-feira aparentemente comum e ela, cansada e estressada com o dia cheio que teve (afinal, não trabalhava como alguém de doze anos), a menina decidiu sair à noite e ir um pouco mais longe do que o normal e acabou encostando-se a uma grande pedra para que pudesse sentar e, com os olhos fechados, gritar suas emoções através das canções que conhecia.

Por um breve instante, Luciana se sentiu livre e, após berrar a música Asa Branca para o vento, ela, exausta, descansou os olhos. Quando os abriu, algo incrível e inexplicável havia acontecido. Os galhos secos que restavam das plantas haviam se tornado árvores maravilhosas, um lindo rio aparecia ao lado da pedra em que estava encostada e vários vagalumes faziam o maior espetáculo que ela já tinha visto, tomando todo o ambiente com suas lindas piscadas sincronizadas.

Quando se deparou com aquela situação, Luciana não pensou duas vezes: levantou e virou parte daquele maravilhoso show, cantando como nunca e, pela primeira vez na sua vida, sem instrumentos, ela sentiu que tudo ao redor estava lhe acompanhando.

Aquela alegria durou mais tempo do que o esperado. Mas não demorou tanto assim até que ela acordasse e percebesse que tudo aquilo que parecia tão real não passava de um sonho. Seus pais nem sentiram sua falta em casa, tendo em mente que ela já se mostrava bem independente. Quando ela entrou, ouviu: “Acordô cedo, hein cria?! Te arruma pra cumeçá o trabaio que o dia não para!!!”

Enquanto trabalhava, ela pensava que seus dias nunca mais seriam os mesmos depois de estar perto de algo daquela dimensão. Foi a experiência mais real que Luciana teve e, nesse momento, ela decidiu de uma vez por todas que, quando chegasse a hora, iria fazer de tudo para sair daquela realidade e buscar uma vida melhor.

Ela sabia que não podia culpar os pais porque tudo que eles estavam tentando passar para ela era justamente o melhor que eles podiam oferecer, mas, após a noite dos vagalumes, que passara a se repetir todas as noites, Luciana não se contentou só com isso e botou na cabeça que queria muito mais.

Então ela criou coragem e falou com os pais, que queria se mudar para uma outra cidade, para morar com parentes que tinham, para que pudesse estudar, conhecer outras pessoas e realizar o seu grande sonho de ser cantora.

Os pais caipiras não entenderam muito bem, mas aceitaram. Ela conseguiu.

Foi viver com uns tios na cidade grande. Trabalhadora, respeitosa, alegre e decidida, Luciana logo conquistou a todos.

Estudou, arranjou trabalho, prosperou, não chegou a ser cantora, mas... melhor que isso, virou doutora. Passou a ser alguém.

Mas o que fez com que ela não desistisse?

Após aquele primeiro sonho, todos os dias, depois do trabalho, a menina tinha um encontro marcado com sua fértil imaginação, com o belo rio e seus amigos vagalumes na pedra;  e, até hoje, longe do sertão, ela ainda tem, direto, o mesmo sonho, que se manifesta todas as noites, enquanto dorme, revigorando-a e preparando-a para as labutas do dia seguinte.