JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS DO JURANDI

 

LUCIANA - DELICIOSA SURPRESA

Eu me levantei do banco do jardim, onde há quinze minutos esperava chegar a hora marcada, endireitei meu novo  uniforme de Capitão do Exército e observei as pessoas que caminhavam pelo Campo Grande, uma praça tradicional da minha cidade do Salvador, capital da Bahia.Olhei para um lado, para o outro, e comecei a circular pela praça, com um livro de Jorge Amado na mão direita, procurando emocionado pela garota cujo coração eu conhecia, mas o rosto não; a garota com o binóculo na mão direita.

Vou contar como tudo começou:

Um dia, visitando a Biblioteca Pública dos Barris, ao folhear um volume de uma obra de Jorge Amado deparei com uma mensagem escrita nas margens da primeira página. Li a mensagem de paz e amor, considerei-a bastante criativa e observei a caligrafia suave, de letras pequenas e arredondadas;  traço uniforme e firme, aquela caligrafia refletia, por certo, uma alma profunda e uma mente cheia de brilho.

Procurei então a bibliotecária, que por coincidência era uma amiga  de  infância, comentei sobre o meu achado, pela atração que senti por aquela linda caligrafia e consegui que ela me mostrasse a ficha de controle daquele volume. Comparando as assinaturas dos leitores, constatei que fora a última leitora a emprestá-lo,  a  LUCIANA, a autora da linda mensagem. Não foi fácil, mas convenci a minha amiga a pegar a Ficha Pessoal da desconhecida leitora e me dar o seu endereço. Só que, para minha decepção, no local do endereço havia apenas um número de Caixa Postal.

Resolvi então, escrever uma carta para a LUCIANA, apresentando-me, parabenizando-a pela bela mensagem colocada no livro, e falando do interesse inusitado que a sua caligrafia me tinha despertado, convidando-a a corresponder-se comigo.

Ela respondeu a esta primeira carta, apenas educadamente, sem dar nenhuma informação sobre si mesma, apenas demonstrando curiosidade pelo súbito e invulgar interesse que demonstrei; também não proibiu nem vetou novos contatos.

Acontece que eu, como Reservista do Exército Brasileiro, havia sido convocado e já havia me apresentado, estando sendo incluído numa força Tarefa Especial, de altíssimo nível técnico e tático que estava sendo treinado para ir ao Iraque combater o exército do fanático e sanguinário ditador que ameaçava a paz mundial.

Embarquei com meus companheiros e por dois longos anos, semanalmente, escrevia e recebia religiosamente uma carta da minha amiga LUCIANA. Nesse período  conhecemos profunda e mutuamente nossos gostos, nossos mais íntimos desejos, nosso pensamento, nossos ideiais e expectativas, mas ela sempre recusava mandar fotografias ou falar sobre suas características físicas.

Finalmente, a guerra terminou. O Brasil  derrotou o inimigo juntamente com seus aliados. Fomos vitoriosos perante o inimigo fanático e alucinado, e orgulhosos sabíamos que tínhamos ajudado com a nossa ação a defender aquela sofrida região do planeta, do seu mais cruel tirano, que foi deposto e humilhado.Durante aquela gloriosa campanha, fui várias vezes promovido, sempre por bravura nos combates, e agora que a guerra acabou, tão logo retornei à minha pátria e à minha cidade, pedi demissão do Exército, e já no posto de Capitão, seria licenciado no dia seguinte.

Enfim, tinha conseguido, finalmente, marcar um encontro pessoal com a minha LUCIANA. Na sua última carta, onde este encontro foi marcado, ela dizia que eu a reconheceria facilmente e ela também me reconheceria, pois deveríamos nos encontrar no Campo Grande: ela seguraria um binóculo na mão direita, e eu um Livro de Jorge Amado também na mão direita.

Exatamente às 20:00 horas, hora combinada, estava eu ansioso no Campo Grande como o leitor me encontrou no início desta narrativa.

De repente, eu pensei havê-la reconhecido. Uma linda jovem loira, alta e magra, olhos verdes e brilhantes aproximava-se de mim. Sua boca pequena e lábios carnudos, o queixo de uma delicada firmeza. Trajava um delicioso conjunto verde-pálido que ainda mais ressaltava a sua exuberante beleza. Meu coração disparou!

Caminhei imediatamente em sua direção, entusiasmado, quando... de repente, eu a vi. 

Lá atrás, vindo vagarosamente, uma austera senhora de seus sessenta anos, vinha carregando um binóculo na mão direita, com ar de quem procurava alguém. Aí eu me dei conta de que a jovem não carregava o binóculo combinado. Continuei andando como autômato na direção da bela jovem e quase esbarrei com ela que me sorriu e disse: - Está distraído, senhor Capitão?... E se foi rapidamente, desaparecendo entre a multidão.

Pensei em correr atrás dela, mas despertei do ligeiro sonho disposto a encarar a realidade. Meu compromisso era com a incrível criatura que por dois anos me alimentou de coragem e de esperança, com suas cartas. Era com a mulher que eu não conhecia físicamente, mas que aprendera a admirar, e que, nos momentos mais difíceis e perigosos das batalhas, estava presente em minha mente aconselhando prudência.

E então ela parou a minha frente. Segurava o binóculo na mão direita, sua face pálida e gorducha, seus olhos cinza e um ar simpático e curioso. 

Eu não hesitei. Mostrei-lhe o livro de Jorge Amado que trazia em minha mão direita e disse-lhe:

- Sou o Capitão JURA e você deve ser a LUCIANA. Estou muito feliz que tenha podido me encontrar. Posso lhe oferecer um jantar?

O rosto da idosa mulher abriu-se em um tolerante sorriso, e ela me respondeu:

- Não sei o que está acontecendo. Aquela jovem de traje verde, que acabou de passar, me pediu para segurar este binóculo, e me disse que se o Senhor me desse toda a atenção, me convidasse para sair ou para jantar, só aí eu deveria dizer-lhe que ela estava lhe esperando na Sorveteria Campo Grande. Ela disse que era uma espécie de Teste.

Não foi difícil para mim compreender e admirar a sabedoria da Luciana. A verdadeira natureza do meu coração seria demonstrado na resposta dada ao que não é atraente fisicamente. Claro que ela achava que eu a imaginava mais ou menos como ela era. Se a decepção ao me deparar com uma pessoa idosa me fizesse desistir do relacionamento, certamente eu não a merecia.

Dei um beijo naquela bondosa Senhora, e corri em direção ao meu destino.

Seremos felizes para sempre, tenho certeza.

FIM