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JURA EM PROSA E VERSO

 

MINHAS REFLEXÕES

 

 

JURA VIRTUAL

 

 

Autor: Jura em Prosa e Verso (Baseado em um Texto de Alberto J. Grimm)

 

Dentro de um sonho tudo parece real...
Não podemos mensurar o valor de uma coisa, se a esta já se atribui um valor...

O Jura em Prosa e Verso naquele dia, um pouco antes do  momento em que artificialmente todo o seu globo planetário se coloria,  percebeu que havia alguma coisa estranha, estranha por não ser capaz de compreender sozinho. Mas, tinha certeza, um algo mais estava presente no ambiente.

Várias eram as janelas artificiais que podiam ser abertas no seu aposento. Cada uma lhe permitia visualizar uma realidade diferente. O Jura apreensivo, abriu uma delas  que mostrava uma paisagem urbana virtual , olhou para o lado de fora, e viu que a definição da imagem das ruas não estava muito clara. As cores estavam sem vida, um pouco esmaecidas, embaçadas, desfocadas e instáveis, e em alguns pontos quase opacas.

Fechou a janela virtual e virtualmente sentou-se na câmara em que repousava, refletindo sobre o que poderia estar acontecendo.

Como não conseguia pensar sozinho, nosso herói, o Jura em Prosa e Verso, resolveu acessar um banco de memórias remoto para ver se lá já existia alguma ideia pronta que servisse de base para o pensamento que não era capaz de elaborar por si só, naquele momento. Não era uma pesquisa simples, pois sequer sabia o que procurar. Mas, de fato, algo estranho estava acontecendo, pois não conseguia acessar o banco de memórias. Nem sequer conseguiu identificar o local onde morava, no Jardim Petrolar, em Alagoinhas-Bahia.

Por alguma razão desconhecida, o servidor estava fora do ar. Ficou desesperado, pois acabara de se dar conta de que era incapaz de pensar, que dependia completamente dos pensamentos que pegava emprestado da Central de Pensamentos. Percebeu naquela hora, que sua vida psicológica e emocional dependia inteiramente de um servidor, um computador remoto, de uma simples máquina, que sequer sabia onde ficava instalada.

Olhou à sua volta, no ambiente virtual onde se encontrava, e percebeu que o cenário construído de acordo com suas preferências, começara e se diluir, dando espaço para que um cenário padrão ficasse em seu lugar.

Sua família virtual, a voluptuosa e exuberante Delba Ju e seus virtuosíssimos filhos Mauri, Hiran e Isabela já haviam se diluído e não eram mais visíveis.

Aquilo era um sinal claro de que alguma anomalia estava acontecendo no Centro de Controle de Mentes. Viu que o amanhecer artificial mostrava-se instável, mais parecendo uma tarde, um indício claro de que todo sistema passava por problemas.

Mais uma vez o Jura acomodou-se melhor em sua câmara virtual, tentando pensar em alguma coisa sozinho. Mas era dependente demais, jamais pensara sozinho antes, não sabia como fazer, não sabia como pensar. Naqueles tempos, era mais prático e comum, pegar um pensamento já pronto, existiam tantos, era só escolher.

Na escola, todos recebiam links com os endereços dos pensamentos que poderiam usar nas diversas situações do dia a dia, e desse modo, era só copiar e colar, não precisava pensar, nem desligar a máquina de simulação de mundo virtual que já recebiam como implantes em seus cérebros, desde o nascimento.

Lembrou de um dia quando a bateria que mantinha o mundo virtual permanentemente ligado, deu pane.

Felizmente fora um problema passageiro, que não durou mais que alguns segundos, mas a visão de realidade que tivera foi horrível. Viu-se de repente num imenso recinto fechado, sem janelas, com uma aparência horrível, que não conseguia compreender, e viu também dezenas de outros iguais a ele, na mesma situação. Mas, como o sistema voltou a funcionar logo, como num piscar de olhos, tudo aparentemente, não passara de um breve sonho, ou pesadelo para ser mais preciso.

Só que agora o problema parecia ser mais grave. O servidor do mundo virtual onde vivia, estava com problemas operacionais, e um antigo e horroroso modelo de mundo estava se sobrepondo ao modelo onde já estava acostumado a viver.

Se no seu mundo bom, sempre acordava com um dia ensolarado, de uma natureza viçosa e exuberante, neste outro, no alternativo, o dia que iniciava apresentava uma tarde chuvosa, com ruas alagadas e ventos frios.

E havia outro problema: Ele não sabia pensar, e assim não tinha a menor ideia do que fazer numa situação daquela natureza.

Nesse momento ele escutou uma voz conhecida. Escutou seu elo de informação que o acompanha desde o inicio da sua vida virtual. E era a voz do gerenciador do sistema operacional, que dizia: 

“Atenção à todos os conectados, o sistema nesse momento, apresenta instabilidade temporária, e enquanto realizamos os ajustes necessários, todos viverão durante algum tempo, num mundo virtual alternativo. Se for necessário, um Avatar, um Orientador ou Guru virtual, se apresentará para guiá-los nesse novo mundo, e esperamos voltar ao normal em algum tempo cuja duração é, neste momento, imprevisível .   Pode ser de segundos, horas,  dias, ou até anos ...”.

O seu aposento com sua maravilhosa e macia câmara de descanso com janela para um jardim florido à beira mar, logo fora substituído por uma paisagem melancólica, um entardecer nublado, com pouca luz, o que indicava que o sistema procurava com isso economizar energia.

O Jura assustado correu para a cozinha e lá encontrou uma simples mesa com torradas de pão amanhecido e chá frio sem açúcar, um cenário muito diferente da exuberante variedade de outros dias, onde quase não existia espaço para tamanha diversidade virtual de alimentos frescos.

Sua Mente virtual de última geração, com banda ultra-larga de recepção, fora substituída por um modelo simples, com baixa resolução gráfica e conexão discada sem filtro para eliminar ruídos.

Que humilhação para o Jura em Prosa e Verso, o nobre ser virtual justo e perfeito!

O padrão para demonstrar desespero ele ainda lembrava claramente, por isso não precisou acessar o banco de pensamentos para simular tal sentimento. Se ao menos soubesse pensar poderia encontrar uma solução alternativa menos traumática, mas, seu cérebro se recusava a fazer isso, estava atrofiado, fossilizado demais por falta de uso.

Como sempre fazia nos bons e maus momentos, tentou contato telepático com aquela grande organização virtual onde seres de preto que usavam vistosos aventais o auxiliavam a desbastar a sua pedra bruta, melhorando-o e aperfeiçoando-o. Mas... a pane era geral. Não havia conexão possível.

Gritou pela sua mãe virtual e esta não respondia. Dirigiu-se a câmara onde repousava a sua mãe virtual, ao lado, e a porta estava trancada por dentro. Bateu na porta virtual e nem o som do toque na madeira conseguia escutar.

Escreveu num pedaço de papel virtual a frase: “Mãe, você está ai?”, e colocou por baixo da porta. Mas como a conexão estava lenta a espera parecia uma eternidade. Por fim ela respondeu, devolvendo o seu papelzinho com a resposta, também por baixo da porta. Mas foi uma resposta automática, um simples “Positivo!”, uma resposta pré-gravada. “A coisa parece muito séria”, concluiu desolado.

O que fazer diante de tal caso? E se o sistema perdesse a identidade virtual de cada um dos conectados, ele deixaria de existir, perderia seus amigos virtuais, seu emprego virtual, sua vida pessoal virtual, sua família. Percebeu que já se sentia diferente. Isso estava acontecendo porque, certamente, devido ao problema, o sistema trocara sua personalidade original em 3D com gráficos, sons e sensibilidade de ultima geração, por uma mais simples.

O Jura em Prosa e Verso se sentia, nesse momento, como modelo alternativo de ser humano não virtual, como as histórias contam que éramos todos antigamente.

Quem diria? O grande e perfeito JURA EM PROSA E VERSO agora parecia ter uma mente ainda primitiva, sem imagens em alta definição, que insistia em querer rezar e fazer promessas, do tipo pagar penitências, dar oferendas aos santos, caso o problema fosse solucionado.

Então tudo apagou, e apenas uma música ambiente se podia ouvir, e no fundo escuro de sua câmara virtual, podia enxergar um pequeno ponto verde piscando alternadamente. Depois viu uma mensagem luminosa no mesmo ponto: “Aguarde, sistema operacional sendo reinicializado...”.

É tudo de que lembra, além da sensação de que esquecera alguma coisa, pois ao acordar, estava em seu aposento virtual habitual, com janela de frente para a praia, e entre seus familiares virtuais.

Foi quando sua mãe virtual entrou e lhe perguntou: “Você também sentiu alguma coisa estranha há pouco tempo atrás?”.

Moral da História:
A realidade é apenas um sonho lúcido de longa duração...