JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS DO JURANDI

JURA EM PROSA E VERSO E A COBRA (Depoimento verídico do Jura em Prosa e Verso)

 

Esta é verdade (posso até jurar) e aconteceu comigo.

Aconteceu na cidade de Paulo Afonso-Bahia, onde eu servia, como sargento, na 1ª Companhia de Infantaria e residia na Vila Militar, um conjunto de mais de trinta casas com um grande lago artificial no centro, abastecido permanentemente por um arroio, vindo da Barragem de Moxotó, no Rio São Francisco.

Aos domingos, tínhamos o costume de pescar no lago, tilápias e piabas. Assim, num belo dia, coloquei numa latinha algumas minhocas, inspecionei minha vara, linha e anzol, peguei uma garrafa de cachaça, arrodeei o lago e sentei-me numa pedra, lançando no lago o promissor anzol. Fui gastando as iscas, colocava a minhoca no anzol, jogava no lago, às vezes vinha um peixinho que eu jogava na cestinha, às vezes o peixe comia a isca e o anzol voltava puro. Até que... percebi que só restava uma minhoca na latinha.

De repente... quando já estava para usar a última minhoca, ouvi um barulho, virei-me na direção de onde estava a latinha com a última minhoca e vi, estupefato... a lata virada no chão... vazia... e uma cobra se afastando com uma minhoca na boca. Era a minha última minhoca.

Peguei a garrafa de cachaça, pois era a única coisa que tinha à mão, corri atrás da cobra, alcancei-a e derramei um pouco da cachaça na boca da cobra, para que ela soltasse minha minhoca. E ela soltou mesmo.

Voltei ao meu lugar, coloquei a última minhoca no anzol e continuei minha pescaria.

Alguns minutos depois, senti algo se encostando em meu pé. Olhei para baixo e... assustado... vi a mesma cobra, com outra minhoca na boca. A cobra tinha gostado da cachaça e me trazia outra minhoca para ver se eu lhe dava mais alguns goles.

É claro que eu derramei um pouco da cachaça na boca da cobra e ela soltou a minhoca. E... nesse dia... juro que essa minha amiga cobra me trouxe mais umas dez minhocas.

Ora... Mais de vinte anos anos se passaram... e nunca mais encontrei minha amiga cobra. Fui transferido para outras paragens, servi em vários lugares e passei para a reserva do Exército.

Um belo dia, como disse... mais de vinte anos haviam se passado, estava eu pescando com meu sogro, perto do local onde uma Indústria chamada CETREL joga  resíduos químicos das fábricas do Pólo Petroquímico de Camaçari-Bahia no mar, através de um emissário submarino.

Estávamos alegres, tomando a branquinha, e numa pescaria produtiva, quando... de repente... senti algo roçando em meu pé. Olhei para baixo, tomei um susto e dei um grande pulo. Era uma cobra.

A cobra também assustou-se com minha reação, afastou-se um pouco, e começou a sacudir-se. Sacudia-se, fazia movimentos inexplicáveis e parava numa posição. Eu não entendia nada, mas me parecia que a cobra parava sempre na mesma posição, que parecia ser uma letra S.

Após ela repetir o gesto algumas vezes, arrisquei e perguntei à cobra:

- É letra "S"?

A cobra sacudiu a cabeça afirmativamente, voltou a sacudir-se e parou em outra posição que parecia um O. Voltei a perguntar e ela assegurou-me que era uma letra "O". Depois sacudiu-se novamente, parando numa posição que fazia com seu corpo uma letra "U".

Meus amigos, o fato incrível mas verídico acontecido, foi que a cobra, de letra em letra, me disse o seguinte:

- SOU DE PAULO AFONSO. VOCÊ NÃO SE LEMBRA DE MIM?

Passamos o resto da pescaria juntos, a cobra me trazendo minhocas, e eu a abastecendo com grandes goles da minha cachaça!

(Depoimento verídico do Jura em Prosa e Verso)