JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS

ESTRANHO DESFECHO

(Outra versão de "A traição da Gatinha"

Autor: JOSÉ JURANDI BRITO DOS SANTOS

 

Trim... trim... trim..., soou o telefone. Delba, bruscamente, levantou-se e pegando o aparelho, atendeu.

- Bom dia! É da casa do Dr Jura.

Do outro lado da linha, uma voz masculina respondeu.

- Bom dia. Quero falar com a Senhora Delba.

- É ela quem fala.

- Delba, não está reconhecendo a minha voz ?

- Psiu. Vou falar como se estivesse conversando com a Denise, pois tem roupa na corda, aqui perto.

- Que negócio é esse de roupa na corda ?

- É meu marido – Respondeu Delba

- Como é ? Um passeio hoje à tarde ?

- Depende do meu marido – Denise! – disse ela faceira, ao notar a aproximação do marido, que se preparava para sair. – Como você sabe, eu nada faço sem consultá-lo. Vou combinar com ele e você me telefona mais tarde, tá?.

- Tá.

E desligaram o telefone, primeiro ele, depois ela.

Delba voltou-se para o marido, que à porta do quarto estava a observá-la sorridente, e falou em tom meigo e convincente:

- Imagine, querido, ainda bem o dia não começou e a Denise me telefona pedindo que eu a acompanhasse à rua, pois o marido não quer que ela saia sozinha. Que falta de confiança, não é, querido ?

- Pois é, minha filha. Nem todo homem tem a minha sorte. Eu sou feliz por possuir uma mulher como você. Se as mulheres tivessem a sua inteligência, a sua compreensão, o seu modo de pensar e o seu discernimento, não existiriam tantas discórdias entre os homens. A mulher é a causa primeira de tudo no mundo. Ela conduz ao crime, à morte e à desonra qualquer homem pouco feliz, que não saiba tratá-la com confiança, afeição e compreensão. Felizmente eu sou um homem alegre e feliz, pois tenho você que é perfeita, inteligente e honesta.

E aproximando-se beija-lhe a face, sobe à sua boca quente até o olho direito, para após dizer:

- Vá... vá... querida. Vá com Denise. Ajude-a e divirta-se também.

JURA, -que era o marido -, ergue-se. Ela também. Os dois abraçam-se. Novo beijo carinhoso. Com as mãos sobre os ombros de Delba, os dois saem após ela apanhar o seu palitó. À porta Jura oferece-lhe as costas, enfia o braço na manga e ela ajuda-o a vestir-se.

Beijam-se novamente, desta vez como namorados!

Jura saiu. Delba fica parada, olhando-o desaparecer enquanto o seu pensamento está voltado para o telefone.

De novo a campainha do telefone soa; agora só uma vez porque Delba já o esperava e não demorou em atender.

- Alô! É da casa do Dr Jura – falou ela. - Como é? Já tirou a roupa da corda ?

- Faz horas! – respondeu Delba. - Estamos certos ? - Estamos. Que hora e aonde você quer que eu o encontre ? Jura permitiu-me sair. Disse-lhe que foi a Denise quem me telefonou, pedindo-me que a acompanhasse à rua. Ele acreditou. - Eu já sabia, pois os homens só acreditam nas mentiras das mulheres. Se você dissesse que foi convidada para sair com um homem ele não acreditaria.

O homem que crê numa mulher é um homem perdido. E só crê aquele que ama. - Assim, você quer dizer que todo homem que ama é um homem perdido ? - Sim, meu bem. Perdido, porque o amor é como a justiça: nada enxerga. Bem, deixemos isto. Eu a encontro às 14:00 horas no local de sempre. - Combinado. Beijinhos para você. O dia de hoje promete ser muito bom e excitante.

E ela desligou apressada, indo preparar-se para o encontro.

 

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O Jurandi – o amante – disse bem:

Todo homem que ama e crê numa mulher é um homem perdido, é um homem liquidado. Sim, porque as mulheres mentem por prazer e o homem acredita sempre em suas mentiras, nunca nas verdades. Jamais pensam que a sua mulher é desleal.

Toda mulher trai, e a que por acaso, não o faz, não é por amor ao homem mas por conveniência própria.

Acredito que o amor não existe. E se existe, é como uma comédia de um ato só. Terminado este, termina o que se chama amor. O que chamamos de amor, não passa de emoção, de uma sensação de prazer.

A mulher une-se ao homem, não por emoção nem por uma sensação de prazer, mas por uma necessidade de libertação de alguns freios sociais e da autoridade paterna.

Não sabe ela, que a união torna-a ainda mais subordinada.

Alguém que não me recordo, disse certa vez, que a mulher foi feita para ser subordinada ao homem: na infância ao pai; na juventude, ao noivo; na maturidade, ao marido; e na velhice , aos filhos.

 

Mas, apesar disso, toda mulher cede, toda mulher trai, toda mulher rende-se. A questão é persistência!

Não existe mulher difícil. Existe mulher mal cantada!

 

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Os dois se encontraram. Assistiram a um filme monótono, mas excitante, o que levou Delba a aceitar com mais pressa, o convite para irem ao apartamento dele.

Os dois deixaram o cinema, mesmo antes de terminada a sessão. Delba foi quem primeiro entrou no carro sem nem mesmo esperar que Jurandi lhe abrisse a porta do veículo, numa cortesia.

Dirigiram-se ao local do convite, sem saber que, de carro, estavam sendo seguidos por Crispim.

Crispim, amigo leal de Jura, escandalizado, viu e anotou onde o casal entrou; era um grande edifício de apartamentos, no Jardim Petrolar, de frente para o mar. Dirigiu-se ao primeiro bar que encontrou, pediu o telefone e discou.

Assim que ouviu, do outro lado, a voz do amigo Jura, Crispim contou afobado, tudo que viu.

- Jura! Não sei como pode acontecer... a sua mulher com um homem! Está-me ouvindo? Com um homem, viu ? Eu os vi. - Segui-os até o local onde entraram. Era um prédio de apartamentos.

- Jura ficou reticente por alguns instantes.

- Acredite, por favor! - Você tem certeza do que diz ter visto ? Não seria engano ocular? Delba deve ter saido com a Denise.

Não... Não creio. Delba é incapaz disso! Você deve ter tomado alguns tragos e se enganado. Com a honestidade de uma mulher não se brinca, muito menos da minha.

Pediu licença e desligou.

Crispim, envergonhado da reação de Jura, abandonou o telefone e lá mesmo no bar onde se encontrava, procurou na bebida, esquecer o que presenciara e monologava – “ É isto mesmo, os homens acreditam sempre em suas mulheres. Nunca nos amigos, mesmo os de infância. As suas mulheres são sempre honestas, sempre incapazes de praticarem atos contrários à moral”.

 

Por sua vez, Jura não conseguia mais trabalhar.

Seus ´pensamentos eram variados. “Delba tem saído muito, ultimamente – pensava – e sempre com a Denise.

Mas... quem é a Denise ? Não se lembrava de ter conhecido nenhuma amiga de sua mulher com esse nome tão fácil de decorar”.

Mandou que um funcionário fechasse o escritório e saiu.

O destino levou-o até o Jardim Petrolar, onde ficou a admirar o mar, o farol, os carros que passavam, as residências, procurando com a distração que essas visões ofereciam, por em ordem seus pensamentos, ora turbulentos.

Assim, passou-se longos minutos, até que lembrou-se que possuía ali perto de onde se encontrava, um amigo.

Foi procura-lo.

Subiu ao último andar e tocou a campainha do apartamento onde morava seu amigo.

Alguns segundos depois a porta foi aberta.

Um olhou para a cara do outro!

O sorriso de satisfação ao reencontrar o amigo que há tempo não via, morreu-lhe nos lábios, ao ouvir uma voz que de dentro do quarto perguntava: “- Quem é, querido ?,” - e ao ver o rosto que assomou a porta entreaberta...

Era Delba, sua mulher!

Era Jurandi, seu amigo!

Delba ficou desconcertada e desnorteada ao reconhecer o marido e mesmo de calça e soutien como se encontrava, saiu à sala e, em prantos, jogou-se no bem estofado sofá que ornamentava a sala luxuosa.

Jura olhou-a da cabeça aos pés, e nada falou. A ira ia-se-lhe apossando.

Venceu, entretanto, o seu auto-domínio, e o sangue frio.

Jurandi, trêmulo e vencido pelo susto e pelo medo, nada disse.

Jura dá-lhes as costas, desce as escadas, entra no carro e vai-se.

Jurandi já refeito, tenta refazer a sua companheira de flagrante.

Acalmada, Delba, fumando um cigarro, entre um gole e outro de uísque, pensa em vós alta:

- “ Nós mulheres somos infelizes!

Nascemos para vivermos sob o domínio dos homens. Nunca podemos ficar à vontade com eles. Os homens, sabemos e vemos, têm sempre mais de uma mulher. Porque esse freio social só para as mulheres ? Porque cerceam nossa liberdade de sexo?

Porque nós, mulheres não podemos ter os homens que queremos, os que desejarmos e os que nos desejarem ?”

E continuava a pensar em voz alta:

-“ Os homens são egoístas, acham que existimos somente para ficarmos grávidas e embalarmos os seus filhos, como escravas.

Quase sempre, nem os prazeres do ato sexual, nos dão completo! Será, por acaso, que não sabem que somos de carne, como eles ? Será que não sabem que desejamos sentir o que eles sentem? Então, porque isto ?”

 

-É, minha filha, retrucou Jurandi, o amante – assim é o mundo. Mas, o que vamos fazer agora ?

 

- Nada. Sei perfeitamente o que fazer, e farei. Só desejo que me leve até o centro da cidade. De lá seguirei sozinha até a minha casa.

Do centro, após as despedidas formais, Delba dirigiu-se para casa, onbde chegou pouco depois. Jura não demorou.

Delba olhou para Jura.

Este, com o rosto fechado, voltou-lhe as costas.

Ela correu para ele, desatou em longo e fingido pranto, abraçou-lhe o pescoço, jogou-o no sofá e sufocou-o com um prolongado beijo, misturado com o salgado de suas lágrimas.

Beijou-lhe em seguida o corpo todo. Excitou-o à vontade, enganou-lhe com amor, que é a arma mais perigosa das mulheres.

Jura, que até então estava inconformado, conformou-se, lançando toda a culpa na fragilidade do sexo.

Liquidou-se.

Tornou-se um dominado.

Foi a emoção que turvou e escureceu a sua consciência, fazendo desaparecer o acontecido.

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NÃO HÁ A DUVIDAR, MEUS LEITORES!

JURA SOFREU COM A PERFÍDIA DA SUA BONITA E GALANTEADORA MULHER.

E ASSIM AGEM OS HOMENS ESPIRITUOSOS.

PREFEREM PERDER UMA DE SUAS “QUALIDADES VIRIS” PARA CRESCEREM EM ABNEGAÇÃO, DEDICAÇÃO E BONDADE.

NADA EXIGEM DA MULHER, APENAS A COMPANHIA E O SEXO.

 

=====F I M =====