JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS  DO JURANDI

A TRAIÇÃO DA GATINHA

Autor: José Jurandi Brito dos Santos

Trim... trim... trim..., soou o telefone.

Gatinha bruscamente, levantou-se e pegando o aparelho, atendeu.

- Bom dia! É da casa do Dr Gatinho. Do outro lado da linha, uma voz masculina respondeu.

- Bom dia. Quero falar com a Senhora Gatinha.

- É ela quem fala.

- Gatinha, não está reconhecendo a minha voz ?

- Psiu. Vou falar como se estivesse conversando com a Bichana, pois tem roupa na corda, aqui perto.

- Que negócio é esse de roupa na corda ?

- É meu marido – Respondeu Gatinha.

- Como é ? Um passeio hoje à tarde ?

- Depende do meu marido – Bichana! – disse ela faceira, ao notar a aproximação do marido, que se preparava para sair. – Como você sabe, eu nada faço sem consultá-lo. Vou combinar com ele e você me telefona mais tarde, tá?.- Tá.

E desligaram o telefone, primeiro ele, depois ela.

Gatinha voltou-se para o marido, que à porta do quarto estava a observá-la sorridente, e falou em tom meigo e convincente:

- Imagine, querido, ainda bem o dia não começou e a Bichana me telefona pedindo que eu a acompanhasse à rua, pois o marido não quer que ela saia sozinha. Que falta de confiança, não é, querido ?

- Pois é, minha filha. Nem todo gatinho tem a minha sorte. Eu sou feliz por possuir uma gatinha como você. Se as gatinhas tivessem a sua inteligência, a sua compreensão, o seu modo de pensar e o seu discernimento, não existiriam tantas discórdias entre os gatos, gatinhos e gatões. A gatinha é a causa primeira de tudo no mundo. Ela conduz ao crime, à morte e à desonra qualquer gato, gatinho ou gatão pouco feliz, que não saiba tratá-la com confiança, afeição e compreensão. Felizmente eu sou um gatinho alegre e feliz, pois tenho você que é perfeita, inteligente e honesta. E aproximando-se beija-lhe a face, sobe à sua boca quente até o olho direito, para após dizer:

- Vá... vá... querida. Vá com Bichana. Ajude-a e divirta-se também.

Gatinho, -que era o marido -, ergue-se. Ela também. Os dois abraçam-se. Novo beijo carinhoso. Com as mãos sobre os ombros de Gatinha, os dois saem após ela apanhar o seu palitó. À porta, Gatinho oferece-lhe as costas, enfia o braço na manga e ela ajuda-o a vestir-se. Beijam-se novamente, desta vez como namorados! Gatinho saiu. Gatinha fica parada, olhando-o desaparecer enquanto o seu pensamento está voltado para o telefone.

De novo a campainha do telefone soa; agora só uma vez porque Gatinha já o esperava e não demorou em atender.

- Alô! É da casa do Dr Gatinho – falou ela.

- Como é? Já tirou a roupa da corda ?

- Faz horas! – respondeu Gatinha

- Estamos certos ? - Estamos. Que hora e aonde você quer que eu o encontre ? Gatinho permitiu-me sair. Disse-lhe que foi a Bichana quem me telefonou, pedindo-me que a acompanhasse à rua. Ele acreditou.

- Eu já sabia, pois os gatos, gatinhos e gatões só acreditam nas mentiras das gatinhas. Se você dissesse que foi convidada para sair com um gatão ele não acreditaria. O gato, gatinho ou gatão que crê numa gatinha é um homem perdido. E só crê aquele que ama.

- Assim, você quer dizer que todo gato, gatinho ou gatão que ama é um gatinho perdido ?

- Sim, meu bem. Perdido, porque o amor é como a justiça: nada enxerga. Bem, deixemos isto. Eu a encontro às 14:00 horas no local de sempre.

- Combinado. Beijinhos para você. O dia de hoje promete ser muito bom e excitante.

E ela desligou apressada, indo preparar-se para o encontro.

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O Gatão – o amante – disse bem:Todo homem que ama e crê numa mulher é um homem perdido, é um homem liquidado. Sim, porque as mulheres mentem por prazer e o homem acredita sempre em suas mentiras, nunca nas verdades. Jamais pensam que a sua mulher é desleal. Toda mulher trai, e a que por acaso, não o faz, não é por amor ao homem mas por conveniência própria. Acredito que o amor não existe. E se existe, é como uma comédia de um ato só. Terminado este, termina o que se chama amor. O que chamamos de amor, não passa de emoção, de uma sensação de prazer. A mulher une-se ao homem, não por emoção nem por uma sensação de prazer, mas por uma necessidade de libertação de alguns freios sociais e da autoridade paterna. Não sabe ela, que a união torna-a ainda mais subordinada. Alguém que não me recordo, disse certa vez, que a mulher foi feita para ser subordinada ao homem: na infância ao pai; na juventude, ao noivo; na maturidade, ao marido; e na velhice , aos filhos. Mas, apesar disso, toda mulher cede, toda mulher trai, toda mulher rende-se. A questão é persistência!

Não existe mulher difícil. Existe mulher mal cantada!

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Os dois se encontraram.

Assistiram a um filme monótono, mas excitante, o que levou Gatinha a aceitar com mais pressa, o convite para irem ao apartamento dele. Os dois deixaram o cinema, mesmo antes de terminada a sessão. Gatinha foi quem primeiro entrou no carro sem nem mesmo esperar que Gatão lhe abrisse a porta do veículo, numa cortesia.

 Dirigiram-se ao local do convite, sem saber que, de carro, estavam sendo seguidos por Cachorrão.

 Cachorrão, amigo leal de Gatinho, escandalizado, viu e anotou onde o casal entrou; era um grande edifício de apartamentos, de frente para o mar.

Dirigiu-se ao primeiro bar que encontrou, pediu o telefone e discou. Assim que ouviu, do outro lado, a voz do amigo Gatinho, Cachorrão contou afobado, tudo que viu.

- Gatinho! Não sei como pode acontecer... a sua Gatinha com um Gatão! Está-me ouvindo? Com um Gatão, viu ? Eu os vi.

- Segui-os até o local onde entraram. Era um prédio de apartamentos.

Gatinho ficou reticente por alguns instantes.

- Acredite, por favor!

- Você tem certeza do que diz ter visto ? Não seria engano ocular? Gatinha deve ter saido com a Bichana. Não... Não creio. Gatinha é incapaz disso! Você deve ter tomado alguns tragos e se enganado. Com a honestidade de uma Gatinha não se brinca, muito menos com a honestidade da minha Gatinha.

Pediu licença e desligou.

Cachorrão, envergonhado da reação de Gatinho, abandonou o telefone e lá mesmo no bar onde se encontrava, procurou na bebida, esquecer o que presenciara; e monologava

– “ É isto mesmo, os Gatinhos acreditam sempre em suas Gatinhas. Nunca nos amigos, mesmo os de infância. As suas Gatinhas são sempre honestas, sempre incapazes de praticarem atos contrários à moral”.

Por sua vez, Gatinho não conseguia mais trabalhar. Seus ´pensamentos eram variados.

“ - Gatinha tem saído muito, ultimamente – pensava – e sempre com a Bichana.Mas... quem é a Bichana ? Não se lembrava de ter conhecido nenhuma amiga de sua gatinha com esse nome tão fácil de decorar”.

Mandou que um funcionário fechasse o escritório e saiu.

O destino levou-o até a praia e ficou olhando o mar, o farol, os carros que passavam, as residências, procurando com a distração que essas visões ofereciam, por em ordem seus pensamentos, ora turbulentos.

Assim, passou-se longos minutos, até que lembrou-se que possuía ali perto de onde se encontrava, um amigo. Foi procura-lo. Subiu ao último andar de um prédio ali próximo e tocou a campainha do apartamento onde morava seu amigo. Alguns segundos depois a porta foi aberta.

Um olhou para a cara do outro!

O sorriso de satisfação ao reencontrar o amigo que há tempo não via, morreu-lhe nos lábios, ao ouvir uma voz que de dentro do quarto perguntava:

“- Quem é, querido ?,” - e ao ver o rosto que assomou a porta entreaberta...

Era Gatinha, sua mulher!

Era Gatão, seu amigo!

Gatinha ficou desconcertada e desnorteada ao reconhecer o marido e mesmo de calça e soutien como se encontrava, saiu à sala e, em prantos, jogou-se no bem estofado sofá que ornamentava a sala luxuosa.

Gatinho olhou-a da cabeça aos pés, e nada falou. A ira ia-se-lhe apossando. Venceu, entretanto, o seu auto-domínio, e o sangue frio.

Gatão, trêmulo e vencido pelo susto e pelo medo, nada disse.

Gatinho dá-lhes as costas, desce as escadas, entra no carro e vai-se.

Gatão, já refeito, tenta refazer a sua companheira de flagrante.

Acalmada Gatinha, fumando um cigarro, entre um gole e outro de uísque, desabafa:

- “ Nós Gatinhas somos infelizes!Nascemos para vivermos sob o domínio dos gatinhos. Nunca podemos ficar à vontade com eles. Os gatinhos, sabemos e vemos, têm sempre mais de uma gatinha.. Porque esse freio social para as gatinhas ? Porque cerceam a nossa liberdade de sexo ? Porque nós gatinhas não podemos ter os gatos, gatinhos e gatões que queremos, os que desejarmos e que nos desejarem ?"

E continua a externar sua insatisfação:

“-  Os gatinhos são egoístas, acham que existimos somente para ficarmos grávidas e embalarmos os seus filhotes, como escravas.Quase sempre, nem os prazeres do ato sexual , nos dão completo! Será, por acaso, que não sabem que somos de carne, como eles ? Será que não sabem que desejamos sentir o que eles sentem ? Então, porque isto ?”

- É, minha filha – retrucou Gatão, o amante – assim é o mundo. Mas, o que vamos fazer agora ?

- Nada. Sei perfeitamente o que fazer e farei. Só desejo que me leve até o centro da cidade. De lá seguirei sozinha até minha casa.

Do centro, após as despedidas formais, Gatinha dirigiu-se para casa, onde chegou pouco depois. Gatinho não demorou.

Gatinha olhou para Gatinho.

Este , com o rosto fechado voltou-lhe as costas.

Ela correu para ele, desatou em longo e fingido pranto, abraçou-lhe o pescoço, jogou-o no sofá e sufocou-o com um prolongado beijo, misturado com o salgado de suas lágrimas.

Beijou-lhe, em seguida, todo o corpo. Excitou-o à vontade. Enganou-lhe com amor, que é a arma mais perigosa das gatinhas.

Gatinho, que até então estava inconformado, conformou-se, lançando toda a culpa na fragilidade do sexo.

Liquidou-se. Tornou-se um dominado.

Foi a emoção que turvou e escureceu a sua consciência , fazendo desaparecer o acontecido.

NÃO HÁ A DUVIDAR, MEUS LEITORES!

GATINHO SOFREU COM A PERFÍDIA DA SUA BONITA E GALANTEADORA GATINHA. E ASSIM AGEM OS HOMENS ESPIRITUOSOS. PREFEREM PERDER UMA DE SUAS “ QUALIDADES VIRIS” PARA CRESCEREM EM ABNEGAÇÃO, DEDICAÇÃO E BONDADE.NADA EXIGEM DA MULHER, APENAS A COMPANHIA E O SEXO.

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