JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS

A roupa da Mariana (Ana Letícia Leal )

Caraca, eu sou louca, cara! Marquei de ir ao cinema com outro cara! Putz! Como é que eu ia imaginar que um dia eu ia ter um amante?! Caraca! E se o Pedro descobrir? Também, quem mandou ele não querer me ver hoje?

Putz, falei para o Joca passar em meia hora! Como vou escolher uma roupa tão rápido? Graças a Deus, já tomei banho! Meia hora! Eu devia ter falado duas horas, do jeito que sou enrolada para me vestir...

O pior é que não tem ninguém em casa para me aconselhar. Não sei o que minha mãe e a Lu tanto fazem na rua! Elas é que são boas para escolher roupa. Se bem que a Lu... Nem parece irmã! Não gosta de me emprestar nada.

Rarrááá... Vou aproveitar que a Luciana saiu e vou pegar uma daquelas roupas que ela usa para a guerra! É tiro certo! Rarrááá! Hoje, ninguém me segura!

Vai passar o domingo estudando Matemática, não é, Pedro? Tudo bem! Então, vou sair com o Joca! Vai rolar beijo de língua, sim! Daqueles que a gente só deu no segundo dia, éééé! Se bobear, cara, vai rolar muito mais, sacou?! Não agüento mais o seu grude, tá sabendo, Pedro?!! Uuuuííííííí... Chega de compromisso, che-gá!!!

Agora, sou experiente. Já beijei o Pedro várias vezes. Meu primeiro beijo com o Joca vai ser de arrepiar. Vou usar aquela técnica de passar a minha língua pelo céu-da-boca dele, ao mesmo tempo que mexo na orelha! Rá! Ele vai gamar!

A roupa, deixa eu ver. Hum. Vestido rosa de jeito nenhum, é muito patty. Azul? Comum. Preto é básico demais... Ah, já sei! Com esse aqui, vou ficar divina! Sapato... legal, batom... isso, agora uma escova no cabelo, bolsa... essa bolsa, chave, carteira... Pronto!

Interfone? Mas já? Caraca, o Joca veio antes da hora! Bem. Não posso ser insegura. Se eu não descer agora, ele vai sacar que demorei a me arrumar. Vou descer para ele sentir que não estou dando a mínima! Porta, botão do elevador, entro no elevador, caraca!

É o espelho que está louco ou estou assim mesmo? Putz... Vestido vermelho tomara que caia! O que isso tem a ver com cinema no shopping? E o pior: longo e de crepe georgette... Tudo bem. Saio do elevador e volto ao quarto da Lu. Meu Deus, a minha irmã me paga! Onde já se viu ter uma roupa dessas?!! Onde é que eu estava com a cabeça quando ves...

O elevador desceu! Claro, eu que tinha apertado! Meu Deus, onde é que isso vai parar?! Não posso dar pinta de nada! Se algum vizinho me vir, eu...

- Joca? (Ai, meu Deus, ele abriu a porta do elevador para mim!) Huum... Sabe o que é, Joca? Eu ainda ia dar uma subidinha...

- Éééé...

- Éééé... (Ele está lin-do!)

- Vai subir?

- V... V... (Não posso dar pinta de insegura, meu Deus, o que eu faço? Será que saio assim? Mas ele está de bermuda e camiseta, não tem nada a ver, caraca! Ele de tênis e eu de escarpim! Devo ser louca...)

- Mari, acho que... Não me leve a mal, mas...

- Mas?

- Acho que... não tem muito a ver essa roupa com um cineminha, né?

- (Não! Claro que não! Minha irmã usa isso sempre que termina um namoro, ela fala, hoje eu vou para a guerra, mas tem um pequeno detalhe, além de ela ser bem mais velha, nunca usou isso para ir a cinema em shopping...)

- Desculpa! Você se ofendeu, né? Desculpa! Não faz essa cara, Mari. Olha, eu estava pensando: e se a gente ficasse na sua casa?

- Na minha casa?

- É. A gente podia bater um papo.

- (Bater um papo. Fodeu. Ele está me achando neurótica, já sacou que tenho sérios problemas psicológicos e está a fim de me dar uma força. Não tem mais romance no ar. O lance agora é terapêutico, aquela parada de amigo do peito, que faz você desabafar.)

- Ficou muda, Mariana?

- (Ele quer que eu fale alguma coisa, caraca, eu tenho que falar alguma coisa, eu parada dentro do elevador, ele segurando a porta, isso não está certo, meu Deus, vem vindo gente, vão subir, saio do elevador, o Joca solta a porta, eu e o Joca na minha portaria, eu de longo vermelho, ele de bermudão, ele falou em subir, se não me engano, outro dia, ele comentou que quer ser psicólogo, fodeu, ele está querendo começar a praticar, se eu convidar ele para subir, capaz até de eu ter que pagar a sessão...)

- Mariana!

- Hum?

- Mari, você está se sentindo mal? Olha, se você não quer mais sair, tudo bem, a gente combina outro dia...

- (Não quer mais sair, outro dia, meu Deus, fodeu, nem meu psicólogo ele quer ser mais, perdi minha chance de sair com um amante, o Pedro estudando Matemática e eu nessa situação terrível, o que eu faço, caraca, minha mãe e Lu chegando, graças a Deus o Joca não conhece elas, tenho que me esconder!)

- Mari, o que é isso?

- (Fodeu. Agora ele vai querer me levar para o hospício. Eu, de longo vermelho e escarpim de bico fino escondida atrás da mesa da portaria. O porteiro está lá fora, menos mal... Ufa, elas já subiram, muito bem. Agora, dispenso o Joca e tudo volta ao nor... Ih, não dá! Como é que eu vou subir agora? Elas vão me ver com essa roupa louca! Caraca, fodeu de vez. Ih! O Joca me achou!)

- Mari, o que você está fazendo debaixo da mesa?

- (Acho melhor eu falar alguma coisa) Estou vendo o piso!

- Como assim?

- É que o síndico cobrou uma baba dos moradores para trocar o piso, então minha mãe pediu para eu verificar lajota por lajota. Sabe como é: ela quer saber se as emendas estão bem feitas...

- (Ele ficou mudo)

- Joca?

- Hum?

- Você não gosta desse tipo de assunto?

- Que assunto?

- Construção. Eu acho bárbaro.

- É. É bárbaro mesmo, mas... Mari, quer levantar, pelo amor de Deus? O porteiro está vindo.

- Está? (Caramba! O Seu Luiz vai me ver assim. Não! Saio correndo, antes que ele me veja. Ótimo! Consegui um espaço sensacional – atrás do sofá!)

- Eu te adoro sabia?

- Adora?

- Adoro. Esse seu jeito meio louco...

- (Não falei que ele queria Psicologia? Adora louco!) Eu não sou louca!

- Não?

- Não.

- Então, o que está fazendo atrás do sofá?

- Você também está.

- Vim para conversar com você.

- Conversar o quê?

- Que produção é essa, Mari?

- Me enrolei... Na verdade, olha, vou te contar uma coisa. Jura que não conta para ninguém?

- Juro.

- É que, antes de sair, sempre experimento várias roupas, umas cinco, até escolher uma. Mas hoje, como a gente combinou em cima da hora, saí com a primeira que vesti, nem me olhei no espelho. Só vi no elevador... (Ufa, estou aliviada!)

- Essa roupa é linda, sabia?

- É?

- Ela vai muito bem em uma festa high-society...

- Nunca fui. Deve ser maneiro...

- Deve... Mas eu achava que ia te encontrar de calça jeans, roupa normal...

- (Definitivamente, ele sacou que eu não sou normal. O Joca tem talento para psicólogo...)

- Não rola, né, Mari?

- O que não rola?

- Hoje, a gente... gorou.

- É. Acho que sim.

- Mas a gente combina outro dia, está bem? Com certeza!

- Juro que uso calça jeans!

- Falou, Mari. A gente se vê no colégio.

- Falou... (Ué? Ele não tinha dito que gostava de louco? Vai embora, é?)

Domingo. Reclamo de ter que acordar cedo, mas devo admitir que preferia ir para a escola todo dia. Fim de semana só serve para me humilhar. Eu na portaria, com vergonha de sair de detrás do sofá. Se eu subir, elas nunca vão acreditar que hoje eu tive uma festa à fantasia. Se eu dormir aqui, alguém vai me achar e minha mãe vai me matar. Cara, olha a situação! Por que mesmo que entrei nessa roubada? Ah! Porque o Pedro disse que ia estudar Matemática! O meu primeiro ficante! Droga!

Domingo. Reclamo de ter que acordar cedo, mas devo admitir que isso tem suas vantagens. Se hoje já fosse segunda-feira, eu ia estar no inglês. O Pedro não ia estar ocupando tanto assim a minha mente...

Mas hoje é domingo, e passei o dia andando pela casa. Igual aqueles loucos, de um lado para o outro. Ah... É que ontem foi ruim, muito ruim... Não sei por que o Pedro é assim... A festa ótima, todo mundo dançando, se divertindo e ele inventa de ir para casa cedo, porque hoje tinha que estudar Matemática!

Já aconselhei esse menino a não deixar para estudar de véspera, mas não adianta. Ontem, os casais se beijando, e o Pedro: Vou embora, Mariana, segunda-feira, tenho prova de Matemática! A coisa piorou quando eu disse que gostaria muito de ficar até o fim da festa. Ele disse que não estava dizendo que eu ia embora, ele é que ia...

Será possível que ele não sinta ciúme de mim? Se não rola ciúme, é sinal de que não gosta de mim realmente! Ficante que quer namorar não deixa a menina sozinha num festão como o de ontem...

Não cogitei ficar. Saí de lá com ele, contrariada, mas com ele. Afinal, não tinha nada a ver expor para todo mundo que eu estava praticamente tomando um toco. Se, enfim, tenho o meu primeiro ficante...

Antes do Pedro, eu só tinha beijado na boca sete vezes! E três meninos diferentes, com meses de espaço entre um e outro. Eu era muito infeliz! Mas ontem, já foi a quinta vez que saí com o Pedro em menos de um mês!! Eu até estava achando que, na festa de ontem, ele ia enfim me pedir em namoro...

Acho que sofro de complexo de Cinderela. Tipo assim: tudo o que eu queria agora era que um príncipe me tirasse dessa roubada... Eu, princesa. Acho que tenho jeito mesmo... Não é por nada não, mas esse longo me caiu muito bem! Pois é, né? Mas tenho que me conscientizar de que a realidade não é um conto de fadas.

Mariana, entenda de uma vez por todas: o Pedro caga para você. Se ele te considerasse realmente, não ia se satisfazer com essa bobagem de ficantes. Já deu mais do que tempo para ele te pedir em namoro e... nada!

Putz! Que mico, cara... Amanhã, o Joca vai contar para todo mundo no colégio, vou virar assunto de piada, merda! Acho que vou mudar de colégio. Não vai dar para encarar o Joca.

Engraçado... Na verdade, eu gostava do Joca antes de ficar com o Pedro. Tinha pintado um clima na festa da Solange. Mas o Joca demorou a agir e o Pedro... O Pedro tem um jeito assim... mais direto ao ponto. Estava na cara de todo mundo que eu e o Joca... mas o Pedro passou a frente e...

Hoje, o Joca me ligou todo educadinho. Ele é um fofo. Mari, entre você e o Pedro... é namoro ou rolo?, ele me perguntou. Porque se não for sério, eu queria te chamar para sair um dia desses... Fui logo dizendo que com o Pedro é rolo. Afinal, não estou em condições de desperdiçar paqueras. Então, ele me perguntou quando podia passar na minha casa para a gente sair. Eu, louca, disse: daqui a meia hora! Ele veio voando!

- Mari... Desculpa eu ter te deixado aí...

- (Caraca! O Joca voltou de terno!)

- Estou à sua altura agora. Não estou?

- Hum?! (Ele fica mais lindo assim, ai, ai...)

- Pedi para o meu pai levar a gente num lugar bem maneiro. Ele estacionou aqui em frente. Vamos?

- Eu... (Ele estende a mão para me ajudar a levantar) Eu devo estar toda amassada...

- Mari, (Ele me encara), você está uma verdadeira princesa! (Saimos de mãos dadas!)