JURA EM PROSA E VERSO

PEQUENOS CONTOS

A HISTÓRIA DE UM BALÃO

(AUTOR: José Jurandi Brito dos Santos)  

De onde nasceu aquele Balão ?

Difícil responder:

Terá sido da mente de quem idealizou o seu desenho ? Daquele que cortou e colou o papel dando-lhe forma ? Ou das mãos hábeis dos funcionários de uma fábrica de papel, matéria prima de sua fabricação? Ou da semente geradora de um pé de bucha que mais tarde geraria aquela que seria embebida em querosene e acesa dando-lhe vida ? Ou do petróleo do qual se extraiu o querosene com que se embebeu a bucha? Terá sido do fogo que proporcionou o seu calor interior impulsionando-o para cima ? Ou ainda das mãos que o seguraram , o posicionaram e depois o largaram fazendo-o subir ?  

Não se sabe.  

O certo, porém, é que aquele Balão nasceu! Pujante, colorido, alegre!   E, num dia de São João, rodeado de pessoas curiosas e de crianças alegres e risonhas que ansiavam por vê-lo subir, viu-se aquele Balão aceso por mãos de homens, e sentiu o calor do fogo em suas entranhas, enquanto um vento forte, produzido um abano que alguém agilmente manuseava, fazia-o crescer, aumentando-lhe o calor interno, impulsionando-o para cima, embora fortes mãos o segurassem...  

-Cuidado para não queimá-lo,- grita um.  

-Podem soltá-lo – ordena outro. 

E então, aquele pobre Balão, que de uma hora para outra se viu envolvido por uma vida estranha, é solto no ar; e... não sabendo para onde ir, deixa-se levar pelo vento, enquanto que, lá em baixo, crianças e adultos aplaudem, riem, papagueiam alegres por vê-lo no ar, nem ao menos imaginando a grande dor que pode estar sentindo aquele Balão.  

Ele sofre sim... Por não saber quem é, nem para onde vai, nem mesmo porque existe!  

Reage o Balão e luta contra sua tristeza e contra seu próprio sofrimento. Levanta a cabeça, observa curioso o horizonte.   Vê, então, ao longe, um outro ser igual a si. É outro Balão, seu companheiro de infortúnio.   Tenta, então alcança-lo, mas... porque não consegue ? Porque está indo em uma direção que não deseja seguir ?

 Porque não pode desviar sequer um pouco o itinerário imposto pelo vento, nem aumentar ou diminuir a sua velocidade ?  

Mais uma descoberta. Mais uma desilusão. Mais uma tristeza.  

Percebe o nosso amigo, que não pode impor a sua vontade. Não pode seguir escolhendo o seu caminho. Que está sendo impelido pelo vento que é o seu Senhor, amo impiedoso que não ouve as suas súplicas, não o aproxima do companheiro com quem poderia conversar, e o afasta, cada vez mais do caminho que desejava seguir.   Enfim, nosso bravo Balão procura mais uma vez vencer o desânimo, consegue acalmar-se e conformar-se com a situação. Procura encarar a sua vida sob um prisma diferente, mais otimista.  

Enche-se de esperança .   Olha para baixo!   Vê multidões sorrindo, olhando para o céu, para ele (pensa). E julgando-se o alvo de todas aquelas atenções, alegra-se e ri, orgulha-se de ser Balão, e medita:  

- Até que não é tão ruim voar ao sabor dos ventos!

- Até que não é tão importuno o calor que está em mim e que me dá a vida!

- Até que é bom ser Balão, se isto me torna admirado, se assim nunca vou parar de conhecer novos mundos, novas nuvens coloridas ou novas paisagens romanescas!  

Mas... coitado! Não sabe que outro rude golpe está sendo preparado para envolve-lo.   De repente, o horizonte muda completamente, para o seu desespero! Desesperado ele indaga a si próprio, sem conseguir qualquer resposta:

- Porque, de um momento para outro, cessaram-se as lindas paisagens que enfeitavam o solo, e que já se acostumara a olhar e admirar ?

- Porque aquelas coisas bonitas que ele não compreende bem o que seja, mas que já aprendera a amar são substituídas por algo verde que parece perder-se no infinito?  

Começa a sentir medo outra vez!   Como é ingrato o destino! Novo pânico toma conta do nosso infortunado amigo!   O vento! O malvado vento! O mesmo vento que o levara a conhecer coisas lindas; o mesmo vento que já lhe ensinara a admirar o que é belo, a amar a vida a ponto de agarrar-se a ela, agora o arrasta, impiedosamente, para o MAR.  

E o Balão vê o oceano...   E as ondas vêm o Balão!  

Como crianças travessas, as ondas levantam as alvas mãos e parecem cantar o “cai, cai, Balão, aqui na minha mão...”  Querem brincar com ele, talvez como as crianças que desejam um brinquedo, mas que, tão logo o conseguem o despedaçam.  

Grande já é a angústia, o medo que se apodera do nosso amigo, quando sente-se descendo... descendo... descendo... para o mar... para o mar tenebroso... para as ondas crianças... para a morte!   Pela primeira vez sente o frio a gelar-lhe as veias de papel.   Até parece que as lágrimas de desespero que derrama o nosso amigo contribuem para apagar as chamas que lhe dão a vida... Até parece que essas mesmas lágrimas contribuem, também, para encher o oceano, e assanhar ainda mais as ondas-crianças; suas lágrimas, cujas gotículas cai no mar , parecem aumentar, com rapidez ,o seu nível, fazendo-o subir na direção do nosso querido herói.  

E o mar se aproxima do Balão, cada vez mais.   Cada onda, parece chamá-lo para si, para brincar.  

E o Balão delira. E vê, em seu delírio, as mãos que o confeccionaram com carinho; vê depois, quando o puseram de pé e acenderam-lhe a chama da vida; relembra os gritinhos histéricos que ouvira nos seus primeiros instantes de vida, enquanto estava ainda preso por fortes mãos; lembra-se das crianças e adultos à sua volta, todos torcendo pelo seu sucesso; recorda-se, ainda, já nas últimas, de quando o soltaram e subiu ao céu, trêmulo de medo; e como instantes depois conquistara o amor pela vida, agarrando-se a ela.  

Não pode lembrar-se de mais nada, pois a vida lhe foge, quando as primeiras gotas dágua, lançadas ao alto por aquelas outras crianças brancas que se acotovelam e disputam a sua posse, apagam-lhe o fogo da vida.

Fecha os olhos e expira.  

 

 

E mais duas ondas-crianças que se encontram, pensando estar brincando com ele, cobrem-no por completo; cobrem o papel já sem vida, daquele ser que somente tivera a ventura de viver alguns momentos mas que, mesmo assim, deixa uma história em sua curta vida.  

A história de um Balão de são João.    

F I M