JURA EM PROSA E VERSO

PAIS E FILHOS - RELACIONAMENTO

Pais precisam estabelecer afeto e limites

 

Um dos principais desafios na educação infantil, tanto no âmbito familiar quanto nas instituições, é a questão do limite. Tomando-se como ponto de partida o período pós-guerra, início dos anos cinqüenta, observamos que, até então, a ascendência do adulto sobre a criança era inquestionável. A criança não era digna de querer, apenas obedecia.

A década de sessenta, no entanto, evidenciou a necessidade de modificações na estrutura familiar. As mulheres passaram a ter um papel preponderante na manutenção financeira do lar e os homens, por sua vez, tiveram que dividir com as mesmas as atribuições referentes à criação dos filhos. Tal período foi marcado por uma intensa reviravolta nos hábitos e valores e por uma liberação de costumes geradora, por outro lado, de sentimentos de desorientação e angústia. Ocorreu que, para algumas famílias, aquela que poderia ser uma relação mais aberta com os filhos passou a ser confundida com falta de limites. Os pais, na busca de uma educação libertadora, que fugisse das práticas despóticas de outrora, acabaram criando filhos soltos, sem regras, substituindo o autoritarismo do passado pelo não exercício da autoridade parental.

Autoridade significa que o adulto proporciona um suporte afetivo e material à vida da criança a partir do estabelecimento de regras, de limites que buscam orientá-la e protegê-la desde o nascimento até que possa cuidar-se sozinha.

Mas, afinal de contas, por que precisamos impor limites aos nossos filhos?

Porque a criança vive em sociedade e não pode fazer tudo o que deseja. Além disso, ela precisa encontrar um porto seguro ou um guia no adulto cuidador. É muito penoso para a criança ter sempre a responsabilidade de definir o que deve fazer e o que é bom para ela, pois está em desenvolvimento e não tem clareza das conseqüências de suas ações, devendo o adulto ser a sua referência. Neste sentido, o limite adquire um significado mais amplo: não é apenas aquilo que não pode ser feito, é um elemento organizador, que protege e situa a criança, auxiliando-a a conhecer as causas e conseqüências de suas atitudes e a adquirir um entendimento adequado da realidade.

Se na relação com os pais não houver uma hierarquia, ou seja, uma diferenciação de funções que consolida os pais numa posição de autoridade, o filho fica desorientado e inseguro. É fundamental que a criança veja o adulto cuidador como alguém que pode com ela.

Há regras que são imprescindíveis para a sobrevivência da criança, como, por exemplo: ¿criança não pode brincar com fogo¿. Há outras que são determinadas por cada família e que podem ser negociadas entre pais e filhos.

Entretanto, ao impor regras às crianças, os pais devem partir de alguns pressupostos. Em primeiro lugar, estabelecer regras que respeitem simultaneamente a eles próprios e às necessidades de desenvolvimento da criança. Em segundo lugar, as regras devem ser claras, estáveis e firmes. Uma norma que ora vale ora não, confunde a criança e fica mais sujeita a ser manipulada por ela. Em terceiro lugar, as regras precisam ser praticadas pelo adulto, através de exemplos, pelo fato de que a criança precisa constatar que aquilo que solicitam a ela é verdadeiro e realizável.

Fabíola Corrêa Alba é psicóloga, graduada pela PUC-RS, especialista em Psicoterapia da Infância e Adolescência pelo CEAPIA (Centro de Estudos, Atendimento e Pesquisa da Infância e Adolescência).