JURA EM PROSA E VERSO

PAIS E FILHOS - RELACIONAMENTO

O perigo de dizer sempre sim 

(Feizi Milani -Jornal A TARDE -09 Abr 06)

O médico e doutor em saúde coletiva Feizi Milani, 42 anos, criou um programa de palestras gratuitas voltadas a pais de crianças e adolescentes da capital baiana. A primeira delas será amanhã à noite, na Faculdade Dois de Julho, no Garcia. Até dezembro, o ciclo ocorre em quatro bairros de Salvador, sempre às segundas-feiras. Apoiado pela prefeitura e pela faculdade, o programa é promovido pelo Instituto Nacional de Educação para a Paz e os Direitos Humanos (Inpaz). A entidade, sem fins lucrativos, foi criada por Milani há seis anos e tem núcleos em onze estados brasileiros. Dono de expressão tranqüila e voz suave, o médico também publicou livros, ministrou mais de 500 conferências na América Latina, América do Norte, Europa e Ásia e mantém um blog (www.feizimilani.com.br) em que faz reflexões sobre educação, sociedade contemporânea e saúde.

Ele se diz apaixonado por tudo o que faz. O resultado dessa dedicação pode ser conferido nesta entrevista à repórter Katherine Funke.

A TARDE – O que os pais de hoje precisam aprender?

FEIZI MILANI – A grosso modo, os pais de hoje podem ser separados em dois grandes grupos. O primeiro é daqueles que ainda estão presos a aquele modelo antigo, autoritário, repressor. Em alguns casos, esses até recorrem à violência para impor limites. Esse grupo vem diminuindo. Existe um outro grupo, que vem crescendo e já me parece maior do que o primeiro, mas é no mínimo tão preocupante quanto o outro: o dos pais “excessivamente” amorosos.

Então eles erram por amar demais?

Não existe excesso de amor, o que há é um amor não equilibrado com outras qualidades que qualquer pai, qualquer mãe, tem que ter. O amor pelos filhos tem que estar contrabalanceado com justiça, com limites, com disciplina. Não pode ser simplesmente amor, ainda mais dentro de uma visão imatura em que os pais acham que devem fazer de tudo para que seu filho não sofra nenhuma decepção, nenhuma doença, nenhuma dificuldade. Eles acabam se tornando extremamente paternalistas, superprotetores. Sempre dão razão ao filho e o deixam fazer o que bem entende.

Quais os efeitos desse tipo de criação?

Está se gerando um problema sociológico grave. Quando essas crianças chegam à escola, por exemplo. Em cada sala de aula, existem 40 crianças criadas como se fossem um princesa ou um príncipe, cada um esperando que o outro aja como vassalo. Este problema está aparecendo em todas as instituições de ensino, públicas e particulares, porque essas crianças não têm discernimento do certo e do errado, da diferença entre desejo e necessidade.

O que leva os pais a terem essa postura?

Primeiro, é o movimento natural do pêndulo. Saímos de um extremo de autoritarismo, de repressão, dos pais exigirem determinados comportamentos, para outro extremo, em que não se exige absolutamente nada, não se cobra nenhum dever, nenhuma responsabilidade. A criança fica absolutamente livre, mas essa não é a verdadeira liberdade.

A falta de tempo disponível para os filhos contribui para esse quadro?

O problema são as conseqüências disso: por sentimento de culpa, os pais tentam compensar a falta de tempo com o filho com a satisfação de todas as vontades dele. Mas há também outra questão. Dentro dessa cultura extremamente individualista e hedonista, muitos pais simplesmente não querem se aborrecer. Querem apenas se livrar. Então, é egoísmo dizer sempre sim.

Qual o principal erro desse tipo de pai e mãe?

A pior maldade que você pode fazer a seu filho é ser sempre bonzinho com ele. Imagina um jovem de classe média, entre 22 e 24 anos, que vive com os pais e cursa faculdade. Ele não ajuda em nenhuma tarefa dentro de casa, então ali é um hotel; sai e chega a hora que quer, tem carro, recebe mesada, ganha roupas, comida pronta. Que tipo de vida é essa que se está ensinando para esse jovem? Em que lugar do mundo ele vai poder viver assim? Esse estilo de vida não é sustentável, é irreal. A cultura brasileira é das mais paternalistas do mundo. Na Europa e na América do Norte, a família pode ser rica, mas os filhos participam das tarefas domésticas. Aqui, a criança não pode levantar e botar o prato na cozinha? Não pode lavar o próprio prato? E aqui, na Bahia, que tem uma herança escravocrata pesadíssima, pior ainda. A empregada doméstica não tem hora para descansar: tem que estar acordada para esperar o filhinho da mamãe chegar, meia-noite, para esquentar o pratinho dele, porque ele não pode nem aquecer a própria comida. Depois ela tem que lavar a louça para quando a patroa levantar, de manhã, não ver. É um absurdo.

O que isso significa para a humanidade?

Para o planeta, a ausência de senso de responsabilidade coletiva causa a destruição ambiental. Esse é o maior sintoma de uma sociedade em que as pessoas crescem sem ter noção de que toda ação reflete sobre os demais e tem conseqüências, algumas de longo prazo, outras de curto prazo. A responsabilidade do ser humano não é só consigo e com a família; é com o mundo e com as gerações que nem nasceram ainda. Cada um tem compromisso com o futuro da humanidade. Num plano individual, a questão está relacionada com a habilidade de lidar com a frustração. Nessa cultura do dar tudo, a criança não desenvolve essa capacidade. Tudo o que ela quer é dado automaticamente. Então, passa a se tornar cada vez mais egocêntrica e mais exigente.

Essa é a causa dos berreiros em lojas e mercados?

Exatamente. A hora do berreiro é para você ficar absolutamente calmo, não se importar com o que os outros pensam e voltar para casa sem comprar o que o filho quer. Aí ele vai chorar um bocado, mas vai aprender que não pode impor sua vontade. Essa frustração é necessária. A incapacidade de lidar com ela é uma das principais causas do aumento do uso de drogas, álcool, suicídio, comportamentos de risco e homicídios dos próprios pais.

Qual é o maior desafio da educação?

Separar o essencial do importante e do desejável. Essas categorias variam entre as famílias, dependem de valores. Pais e educadores devem parar para pensar o que é essencial para eles. Para mim, por exemplo, o essencial é a formação do caráter: que a criança se torne uma pessoa de bem, honesta, ética, que fala a verdade, que quer crescer através dos meios lícitos, pratica o bem, não se contenta apenas em não fazer o mal, que não tenha preconceito. O que consideram essencial, os pais têm que ensinar, repetir, relembrar, reforçar e dar o exemplo.

Que diferenças há entre essencial e o importante?

As coisas importantes devem ser faladas, relembradas, mas não transformadas em cabo-de-guerra, principalmente com um adolescente. Um exemplo é a arrumação do quarto. Algumas mães transformam o lar num inferno por causa disso. Elas reclamam tanto, brigam tanto, que não sobra tempo, energia e clima para tratar das coisas que realmente são essenciais. Já o desejável é apenas desejável. Você não vai insistir, nem repetir, nem reclamar. Se você não diferenciar o que é essencial, do importante e do desejável, você vai deixar as essenciais por último, quando é o inverso que deve ocorrer.

Qual a maior queixa atual dos pais em relação aos filhos?

Falta de responsabilidade. Mas como o filho pode tê-la se não tem oportunidade de exercê-la? É preciso confiar, gradativamente, responsabilidades maiores. O que acontece hoje é que, em certo momento, definido por idade ou por série escolar, os pais viram abruptamente e dizem ao filho: “Agora você vai se virar sozinho. Não conte comigo”. Não é assim que funciona. Basta observar o desmame de um bebê, um processo que leva meses. As coisas têm que ser gradativas. A gente confia determinadas responsabilidades, sabendo que, sim, eles vão tropeçar. E esses tropeços e falhas são importantes para eles aprenderem a se virar sozinho. Se não passarem por isso, os filhos demoram mais para ficar independentes. E não é só uma questão financeira, é emocional também.

Os pais sabem mesmo o que é melhor para os filhos?

Alguns têm essa pretensão, quando, na verdade, sabemos algumas coisas, e aquelas bem gerais, bem fundamentais da vida. Fora isso, quem, em sã consciência, pode afirmar que sabe o que é melhor para seu filho, se muitas vezes não sabe nem o que é melhor para si? Qualquer adulto que tenha o mínimo de discernimento e pare para analisar sua própria vida vai concordar que, freqüentemente, se equivocou em suas decisões. Então, como pode saber o que é melhor para os filhos? Além de terem espírito de abertura, os pais devem ter humildade a esse respeito. E dar aos filhos instrumentos para que tomem suas próprias decisões.

Como você avalia o uso do celular para controle dos passos do filho?

Querer saber onde o filho está não é motivo para se sentir culpado, desde que dentro de limites sadios. Não é saudável quando mães ou pais ligam de hora em hora para o filho. Mas querer saber onde o filho vai, com quem, pedir para ligar numa hora determinada ou avisar quando chegar, por exemplo, isso é bom. Conhecer os amigos dos filhos é bom e saber por onde ele anda é necessário. Se você não se preocupa, significa que tanto faz – e isso é um sintoma de rejeição.

Uma pesquisa do Observatório de Violência nas Escolas, divulgada em março, identificou que um em cada três alunos brasileiros já viu uma arma na escola. O que significa isso para a criança e o adolescente?

Nossa geração está deixando de herança uma sociedade fragmentada, amedontrada, onde a vida deixou de ser uma coisa sagrada e se tornou mais uma coisa que pode ser dispensada, eliminada. Graças a Deus, o número de ocorrências de homicídios nas escolas brasileiras ainda é ínfimo. Quando ocorre, é um choque para toda a sociedade. Isso significa que nós ainda temos uma chance de promover a educação para a paz dentro das escolas. Porque o objetivo maior da educação para a paz não é evitar que situações de violência ocorram dentro da escola.

Como assim?

O objetivo maior deve ser formar pessoas capazes de construir uma cultura de paz, porque são capazes de conviver com as diferenças, com a adversidade, de respeitar as opiniões alheias, trabalhar em grupo, superar seus próprios preconceitos, dialogar, ouvir. Para mim é incompreensível o fato de que nós estamos entre os países campeões do mundo em homicídios por armas de fogo e não há uma discussão em torno de uma agenda nacional pra se incluir a educação para a paz dentro do sistema de ensino. Temos 40 mil homicídios por armas de fogo por ano.

Qual a sua proposta pedagógica?

Para mim, o ensino da cultura de paz tem que começar na educação infantil e ir até o ensino universitário. O sistema educacional ainda acha que pode permanecer neutro em relação a isso. Essa neutralidade de valores, que foi preconizada, é uma ilusão. Quando uma instituição de ensino se posiciona com neutralidade de valores, ela está ensinando a ausência de valores como valor primário. Mas o que falta no mundo? Será que é gente com conhecimento de matemática, de português, de química, ou será que é gente com conhecimento e prática de justiça, de honestidade, de amor, de solidariedade?