JURA EM PROSA E VERSO

PAIS E FILHOS - RELACIONAMENTO

O ADOLESCENTE E OS AMBIENTES EXTERNOS

Lenita Faissal

Adolescente !!! Às vezes vale à pena perguntar quem é esse SER. Sabe porque? Porque de repente ele passou a ser ora um SER mais que humano, ora um SER detestável.

Adolescer é ser, sim! Ser humano, humaníssimo! Um ser que ganha diferentes feições, interpretações, comportamentos, dependendo do contexto em que está. Assim, ora é visto como um grande malandro, ora como um arrumadinho, vaidoso, chato, esquisito......, e por ai vão as classificações.

Ah! Como tem sido difícil representar o papel de adolescente em um cenário social, onde há uma platéia tão apática e crítica! Para uma platéia de pais, professores e outros representantes sociais mais preocupados em julgar, classificar e reclamar do que em aplaudir ou vaiar nas horas certas.

Já há algum tempo existe uma preocupação com o desinteresse, a falta de afetividade, de criatividade, a falta de curiosidade, de vontade de saber e de conhecer das pessoas de modo geral e mais especificamente dos adolescentes. E surgem as perguntas: São comportamentos que refletem uma reação de comodismo? São atos de rebeldia?

E nos arriscamos a responder que são comportamentos que acima de qualquer classificação, apontam para a necessidade de mudanças, tanto no plano afetivo quanto no racional e no social.

Quando os “ïnteresses” acabam se voltando para o “nada”, que satisfaz o indivíduo por muito pouco tempo, ou para um excesso de atividades concentradas em um mesmo tema, que parecem esconder a vontade enorme de encontrar algum rumo, desviam o indivíduo da fonte que mata sua sede e provoca uma enorme insatisfação.

Na história da humanidade, não se teve notícia de uma geração que tivesse tanto acesso à informação como a dos adolescentes atuais. No entanto, as informações acessadas, ao contrário de trazer uma mudança na qualidade das escolhas, acabam perdendo sua função, seu significado e, ‘as vezes, até mesmo seu conteúdo pois a ausência de vínculos afetivos entre o indivíduo e o quê lhe é dito desfaz o potencial que a informação tem.

A adolescência representa um ciclo de vida humana que não deve, nem pode ser considerado, nem o mais importante nem o menos importante. Faz parte do processo de desenvolvimento físico e sexual e do amadurecimento sócio-emocional.

É um período da vida do indivíduo onde tudo é pontuado como sendo um marco. Por exemplo, as mudanças corporais. No entanto, existem outros momentos da vida onde também ocorrem mudanças corporais significativas, como a velhice, mas que não são tão marcadas pela sociedade.

A menina que tem os seios se desenvolvendo não os vê, não os sente e nem lhes atribui o significado de possibilidade de amamentar seus filhos no futuro. Com certeza, em algum tempo ou cultura isso já foi assim. Hoje, entre nós, os seios tornam as meninas sedutoras e sensuais.

A força muscular dos meninos já representou a possibilidade de trabalhar, guerrear e caçar. Hoje, é apenas sinônimo de beleza, sensualidade e masculinidade.

Se mudamos nosso foco e encaramos a adolescência como um momento da vida do indivíduo que sempre existiu, em todos os períodos históricos, precisamos nos perguntar - porque tanta ênfase agora?

Parece que o mercado consumidor viu aí uma grande oportunidade para vender e transformou tudo o que ocorre nesse período do desenvolvimento em um grande problema que se soluciona com um produto qualquer. O adolescente não pode, nem deve ser visto como um produto a ser “marketado” embora essa estratégia seja bastante eficiente.

Sim, sempre existiu a adolescência, mas suas características sofrem modificações de acordo com a cultura, com o período histórico e, sobretudo com a condição sócio-econômica.

As marcas da adolescência

Tem sido muito cômodo, para todos os que convivem constantemente com os adolescentes, criar estereótipo na classificação do seu comportamento.

É a chamada síndrome “normal” da adolescência, que se caracteriza pelos sinais de:

§ Rebeldia

§ Instabilidade afetiva

§ Tendência grupal

§ Crises religiosas

§ Crise de valores

§ Contradições

§ Crises de identidade

Que preço tão caro, tem sido pago por aqueles que não conseguem espaço para manifestar suas carências, suas impossibilidades, suas escolhas!

O comportamento “normal” do adulto que não está com fome e por isso, hoje, não quer jantar, não fica impune a uma classificação de “rebelde” se for praticado pelo menino ou menina de 14 anos.

O bate papo dos adultos em um “happy hour” na saída do trabalho é visto como um momento de lazer (afinal, ninguém é de ferro!). Mas, quando esse encontro com o grupo de amigos, tem cheiro de adolescente no ar ..... (que mania de só fazer tudo em grupo! )

Especificidade da adolescência hoje

Assistimos, atualmente, a um prolongamento do período da adolescência, imposto, principalmente, pela entrada tardia no mundo do trabalho, que, com a sofisticação tecnológica exige um tempo maior de formação adquirida na escola.

Além disso, o desemprego crônico das sociedades capitalistas exige que se retarde a entrada dos jovens no mercado de trabalho e tem aumentado os requisitos para esse ingresso. As conseqüências desse fato estão concentradas na extensão do período escolar, na maior dependência econômica dos pais, na maior aproximação de um grupo de iguais e menos compromisso, menos responsabilidade, menos maturidade emocional e social.

O adolescente e a mídia

O modelo de adolescente veiculado pelos meios de comunicação vem lhe ajudando, sem dúvida nenhuma, na construção de sua própria identidade, porém com restritas opções. Embora não encontrem o adolescente passivo apenas absorvendo o conteúdo transmitido é inegável a dificuldade do mesmo para uma leitura crítica e a transformação das informações massificadas.

A necessidade de ser aceito tem levado muitos adolescentes a compor um estilo mais enquadrado nos traços do próprio grupo (sócio econômico e cultural) ao qual ele pertence. Por outro lado, o medo de ser rejeitado lhe leva a abandonar aquelas que seriam suas verdadeiras opções.

Construção da identidade e a auto- estima

A construção da identidade não é tarefa exclusiva da adolescência. Durante toda a vida o indivíduo atua, representa papéis, tem atitudes impulsivas, pensa, interage, etc sempre com o objetivo de se conhecer, de reconhecer seus defeitos e qualidades, seus sonhos e frustrações, seus afetos e desafetos, seus encontros e desencontros..... E nessa busca, ele se encontra !

Caetano Veloso nos disse em uma de suas canções: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Somente uma pessoa que se conhece pode aceitar-se. Ao viver seu cotidiano, relacionando-se com diferentes pessoas, de diferentes maneiras, o adolescente interioriza valores, modelos, que constituem essas relações e enquanto isso, vai construindo suas próprias formas de ver o mundo e estar nele. A este processo chamamos a construção da individuação, que carrega junto a formação do auto-conceito, da auto-imagem, da auto- confiança e da auto-estima.

O adolescente e o contexto social;

A construção de um projeto de vida, de um querer-ser, começa quando transformamos um sonho em um plano de ação a ser realizado. Quando somos capazes de construir um projeto, traçarmos metas, definir objetivos, encontramos um sentido para nossas vidas e estamos mais perto de nos realizarmos como pessoas.

Assistimos atualmente a ausência de clareza e identidade na definição de metas e objetivos. É como se as decisões fossem tomadas e os propósitos estabelecidos não só para si mesmos, mas principalmente em função e para as demais pessoas.

Daí ser tão fundamental que todas as pessoas que direta ou indiretamente estão ligados à educação do adolescente assumam a sua parcela de responsabilidade como mediadores na construção de um comportamento que expresse segurança e crença naquilo que ele faz ou fala.

Suas ações, baseadas nos princípios éticos, na honestidade, no respeito e na expressão de forma adequada dos seus sentimentos, pensamentos, crenças, objetivos e desejos, precisam representar o reflexo de modelos firmes.

Somos todos nós que compomos o contexto, que convivemos, que agimos e interagimos. Somos todos nós, cidadãos, que fazemos a sociedade. Se for nossa intenção, nosso objetivo e nossa meta não construiremos qualquer sociedade, mas A SOCIEDADE.

lenita@getcom.com.br – Psicóloga formada pela PUC-RJ, atuando em João Pessoa/PB há 29 anos nas áreas: clínica e psicopedagógica, com crianças e adolescentes.

Especialista em Psicologia Escolar pelo UNIPÊ/PB

Mestre em Educação pela UFPB