JURA EM PROSA E VERSO

PAIS E FILHOS - RELACIONAMENTO

JUVENTUDE: A Utopia da Onipotência

A adolescência é uma fase extremamente difícil da vida. Talvez a mais difícil.

Temos que nos comportar como adultos sem dispor de cacife para isso. Temos que ser fortes e independentes quando ainda nos sentimos inseguros e sem autonomia de vôo. Temos que mostrar autoconfiança sexual, mesmo sendo totalmente inexperientes. Temos que formar juízo a nosso respeito - se possível positivo - mas nos falta a vivência para aprofundar o autoconhecimento. Enfim, temos que ser ousados e corajosos, embora a cada passo surja o medo para nos inibir.

O que fazer?    Frente a tantas incertezas, acabamos seguindo os modelos sugeridos pela própria cultura. Passamos a imitar nossos heróis, "travestindo-nos" de Super-Homens e de Mulheres-Maravilha. Assim, encobrimos nossas dúvidas e inseguranças. Elas que sejam reprimidas e enviadas ao porão do inconsciente. Nós seremos os fortes e destemidos, para nós nada de errado ou ruim irá acontecer.

Construiremos uma imagem de perfeição, de criaturas especiais, particularmente abençoados pelos deuses. Resultado: nos sentimos onipotentes e a partir daí não há coisa no mundo que possa nos aterrorizar, uma vez que estamos revestidos de proteções extraordinárias.

Este estado de graça irá perdurar por um tempo variável. É um período bastante complicado para as pessoas que convivem com o jovem pois ele sabe tudo, faz tudo melhor, acha todo mundo "alienado" e "burro", só ele é competente e sábio. No entanto, para o próprio jovem, a fase parece muito positiva. Ele finalmente se sente bem forte, seguro e não tem  medo de experimentar situações novas. Pode montar o cavalo mais selvagem com a certeza absoluta de que não cairá em hipótese alguma. Mais tarde, quando não for mais tão ousado e confiante se lembrará dessa época da vida como a mais feliz. Afinal de contas a sensação de euforia é sempre inesquecível.

Na verdade, ninguém teria nada contra a onipotência se ela correspondesse à realidade. Porém não é isso que os fatos ensinam. Sabemos que entre os jovens, são exatamente os mais confiantes, aqueles que se envolvem em todo tipo de acidentes graves, quando não fatais. São jovens que dirigem seus carros na estrada durante a madrugada com o pé na tábua. Não sentem medo porque é óbvio que os pneus não irão estourar e é lógico que não irão adormecer no volante. São estes jovens que saem de uma festa alcoolizados e vão a toda velocidade para a praia. Sua imortalidade só é desmentida por um acidente fatal. Aliás, para ser sincero, parece incrível que não ocorra um maior número de acidentes.

Alguns jovens onipotentes e filhos diletos dos deuses andam de motocicleta sem capacete. Desafiam a chuva e o asfalto molhado depois de usar tóxicos ou ingerir álcool. Fazem curvas superperigosas. Não se intimidam porque para eles nada irá acontecer. E morrem ou ficam paralíticos, interrompendo vidas que poderiam ser ricas e fascinantes. Estes mesmos jovens utilizam drogas em doses elevadas, porque se julgam imunes aos riscos da overdose e suas graves conseqüências. Chegam a compartilhar seringas, ao injetar tóxicos na veia, pois é claro que não terão AIDS. E pela mesma razão continuam a ter relações sexuais com parceiros desconhecidos, sem sequer tomar cuidado de usar camisinha.

Casal Coordenador: Rita e Emanuel