JURA EM PROSA E VERSO

PAIS E FILHOS - RELACIONAMENTO

DISCIPLINA X LIBERDADE

(Ivete Amaral)

Sabe-se que educar não é tarefa fácil.

Dentro outras, duas razões se responsabilizam por tal dificuldade. Primeiramente o fato de ser a educação um processo cujo objeto deve passar progressivamente ao sujeito. O homem começa a vida sendo educado, para depois educar-se. É falida toda educação que não se torna auto-educação.

O segundo motivo é o educando, objeto-sujeito da educação, tratar-se de um ser inteligente e livre.

Não é verdadeiro comparar-se o educador a um artista que trabalha a pedra bruta ou modela o barro mole para depois fazer uma peça de arte.

O educador opera com uma liberdade. Se, de início, ele não oferece grande resistência às propostas do educador, a medida em que o educando cresce racionalmente, ele começa a rejeitar tudo que se opõe às suas opções. Daí nasce a complicada dialética disciplina x liberdade. Na educação, que é, antes de mais nada, um processo de libertação, esse binômio só consegue ser harmonizado com muito tato e lucidez do educador.

No passado, a liberdade do educando não foi muito considerada nos sistemas pedagógicos nem nas práticas familiares.

Educar era sinônimo de impor, abusar de autoridade. A educação era um movimento de cima para baixo dentro da concepção de que educava melhor, quem mandava mais.

Hoje é o verso da medalha: a tônica é a permissividade.

Questiona-se muito a disciplina. Tem-se até o medo de pronunciar esta palavra ou inserí-la nos regimentos escolares.

Aqui lembro palavras de um grande brasileiro, um exemplo de cristão e que também foi educador: Alceu amoroso Lima "Não há nada como uma boa disciplina inicial para uma sadia liberdade final".

Como tudo na vida, a liberdade também pede pela aprendizagem. E  mais do que tudo, porque são muito graves, tanto em nível de pessoa, como de sociedade, as conseqüências de uma liberdade mal assumida.

O homem deve aprender a ser livre. Neste processo de orientar a liberdade, de controlá-la nas suas investidas nem sempre racionais, a disciplina entra como instrumento de grande validade.

Ela treina o educando para os limites da liberdade, que é relativa, como tudo que diz respeito ao homem. Se inspirada em critérios lógicos, a disciplina age como balizas dentro das quais a liberdade se movimenta na meta de personalizar o educando, inclusive na dimensão tão importante de integrá-la melhor nos grupos onde ele vive.

Da mesma forma que uma educação rígida castra o homem em suas aspirações e até bloqueia a sua criatividade, uma pedagogia sem disciplina pode gerar arbitrários e déspotas. Nem de uma, nem de outra sairá uma personalidade adulta equilibrada, harmônica, que coloque sua liberdade a serviço do seu bem e do bem comum.

A grande síntese da educação só acontece quando, no limite da vida, o homem identifica a liberdade como um dom recebido de Deus para ser mais gente e melhor atuar na comunidade.