JURA EM PROSA E VERSO

MITOLOGIA

Mitologia tibetana

 

Por Greg Bailey

A estória popular, com a sua vasta quantidade de mitos excitantes e instrutivos, é uma parte importante da cultura tibetana. Estes contos tradicionais explicam a substância
da existência - as origens do mundo
e do seu povo, o desenvolvimento
da agricultura e da tecnologia,
o poder e o esplendor dos seus
reis e do reino, e a conversão
ao Budismo. Estas estórias
não são fixas e fazem parte
de uma cultura viva e em evolução
aberta ao embelezamento
e à elaboração. Bardos viajantes
encarregaram-se de difundi-las,
embora diferentes regiões do vasto
terreno cultural do Tibete tenham
as suas tradições particulares.
Alguns destes mitos foram escritos
e, freqüentemente, adornados com episódios redescobertos nas várias visões dos historiógrafos.

O gradual domínio sobre o ambiente e as suas forças é um tema importante na história mitológica do Tibete. Padmasambhava, ou Guru Rinpoche, o mestre tântrico
do século VIII venerado por ter levado o Budismo da índia para o Tibete, simboliza este processo. As explorações
do herói guerreiro do Tibete, o rei Gesar de Ling,
são demasiado numerosas e extensas para as podermos incluir aqui.

O núcleo do épico de Ling, que pode bem ser comparado à Ilíada e à Odisséia, ou ao conto hindu Mahabharata, conta as estórias do nascimento, da infância e do casamento
de Gesar; como se tornou rei; e as suas guerras contra o rei demônio do norte e dos povos turcomanos. Tipicamente, o rei Gesar e o seu exército derrotam o inimigo, muitas vezes através de trapaças e astúcias, assim como podem, regressando a casa com um saque de ervas medicinais, gado, jóias mágicas e outros tesouros. Gesar permite que as tribos derrotadas mantenham a sua autonomia, forçando-os a ser seus aliados.

Este processo pode ser considerado como o espelho da «tibetização» política através da adoção do Budismo tibetano. Eles podem ser núcleos da história factual implantada nestes mitos, porém, a idéia tibetana de historiografia tem mais como objetivo introduzir valores desejáveis, glorificar o povo e a sua sociedade complexa através do triunfo do bem sobre o mal, e trazendo o passado de volta à vida. Para o povo tibetano,
esta estória popular é real e não interessa que haja variações de nomes, de locais e de motivos consoante
as fontes. Este estilo alargado resulta numa tapeçaria rica de poesia e prosa, representadas em danças dramáticas, cantares e também pelos simples contadores de histórias. Os mitos sobre as origens que se seguem são bem conhecidos por todo o Tibete e foram registados pelos historiógrafos tibetanos na primeira secção de Mani Kabum, um texto antigo, do século XII, que foi «redescoberto» e que está em estudo.

As origens do povo tibetano

Era uma vez um macaco mágico,
que vivia a grande altitude numa gruta muito agradável, no Monte Kongpori, um pico sagrado em iarlung, no centro do Tibete.
Como este macaco tinha visitado o  alto reino do Buda e contactado Chenrezig, um compassivo futuro Buda, passava todo o seu tempo em meditação, desenvolvendo pacientemente as suas potencialidades de compaixão, de paz e de ternura.

Um dia, a sua prática sublime
foi interrompida por uma pedra demoníaca e apaixonada,
que tinha sido dominada pela
luxúria quando viu o macaco.
Este, porém, tinha feito voto
de meditação até atingir a luz
e não foi atraído por ela,
que ameaçou casar-se com
um demônio rochoso violento
para produzir uma grande descendência destrutiva, que provocaria
o aniquilamento de muitos seres , vivos, caso o macaco não cedesse
aos seus desejos e a aceitasse
como esposa.

O macaco estava perplexo.
Sabia que podia evitar essa grande
destruição, mas isso custar-lhe-ia
o não cumprimento do voto.
Movido pela compaixão, uniu-se
à pedra srinmo demoníaca que lhe deu seis bravos filhos-macacos de face vermelha. O pai levou-os
para uma pródiga floresta cheia de árvores de fruto para poderem alimentar-se bem e crescerem felizes. Mas passado pouco tempo já não havia comida e eles estavam famintos.

Cheio de compaixão pela situação deles, o macaco pediu auxílio a Chenrezig, que interveio produzindo grãos como cevada, arroz e trigo mourisco.

Quando os macacos saciaram a fome, os pelos
e as caudas encurtaram-se, aprenderam a falar
e tornaram-se humanos. As seis tribos originais do povo tibetano são descendentes destes filhos. E é por isso que os tibetanos são espirituais e compadecidos, traços herdados do antepassado macaco, uma emanação de Chenrezig; e fortes e corajosos
como a demoníaca pedra srinmo, uma emanação de Tara, a protetora budista do Tibete.

Conversão do Tibete ao budismo através da fixação da demônia com alfinetes

O Império Tibetano tornou-se grande e o rei Song-tsen Gampo, que
reinou entre 627-649 d.e.c.,
impunha respeito a todos os países vizinhos.
Apesar do seu casamento feliz com a princesa nepalesa Khri-tsun, desejou ter
uma segunda esposa mais jovem, bonita e refinada.

Foi assim arranjado o casamento com a princesa Kong-jo do país ao lado, a China. Com as negociações terminadas
e os planos de casamento tratados,
a jovem princesa e a sua entourage embarcaram
para uma longa viagem até Lhasa, no Tibete central, protegida por dois fortes guarda-costas tibetanos.
Ela levava consigo uma bela estátua de Buda Sakyamuni, a sua mais preciosa oferta para a corte tibetana.
Teve de enfrentar muitas dificuldades nesta viagem
e o carro especial que transportava a estátua parecia especialmente propenso
a acidentes. Ao chegarem às planícies de Lhasa, o carro ficou completamente atolado e nada, nem Laga nem Luga, conseguia libertá-lo. Desesperada, a princesa Kong-jo consultou os seus mapas feng shui para determinar a causa do problema.

Para seu grande desânimo descobriu que a energia
da terra do Tibete estava a tentar repelir esta estátua de Buda Sakyamuni e, com ele, todos os ensinamentos do Budismo. Após refletir profundamente, Kong-jo concluiu que a terra do Tibete, País das Neves, era uma demônia srinmo enorme e potente deitada.
Para aumentar os problemas da princesa, existiam também seres traiçoeiros do outro mundo a habitar a terra e a apoiar a demônia. Apesar destes obstáculos consideráveis, outros aspetos da paisagem provavam ser muito favoráveis. Os cálculos de frng shui de Kong-jo determinaram que uma série de templos e relicários poderiam prender as forças negativas da terra e os seres do outro mundo e coarctar as suas atividades destrutivas.

Começou então a construir o templo para abrigar a preciosa estátua de Buda Sakyamuni. A princesa Kong-jo foi recebida com grandes celebrações pela corte tibetana e apenas a rainha Khri-tsun não estava tão agradada com a vinda desta segunda esposa. Ao ouvir falar dos planos de Kong-jo para construir um templo em Lhasa para a estátua de Buda, Khri-tsun reclamou o seu direito, como consorte sênior, de ser ela a primeira a construir os seus templos. Khong-jo sugeriu
que Khri-tsun construísse um grande templo
no meio do lago perto de Lhasa, o qual, para
além de outras medidas protetoras, deveria primeiramente ser cheio com terra. Esta proposta enfureceu a ciumenta rainha Khri-tsun, que então pediu permissão ao rei para construir 108 templos budistas onde quisesse.

Foram escavadas fundações e colocadas
as pedras, mas fosse o que fosse que se construísse
de dia, era destruído por seres malignos durante
a noite. Em desespero, Khri-tsun consultou Kong-jo, sabendo que as capacidades feng shui que ela possuía resolveriam o impasse. Kong-jo explicou as soluções, incluindo o enchimento do lago com terra, o que permitiria a construção do grande templo de Lhasa. Khri-tsun
não compreendeu inteiramente as instruções e, quando tentou encher o lago este transformou-se numa confusão lamacenta. Isto confirmou as suspeitas secretas da rainha
de que Kong-jo a estava a enganar por despeito.

A rainha Khri-tsun explicou ao rei as dificuldades
que estava a ter e ele confortou-a. Através da adivinhação, ele concluiu que um templo deveria, de fato, ser construído junto ao lago. Assim, o rei e a rainha deslocaram-se
a cavalo até lá e, tirando um anel de um dedo, o rei
disse a Khri-tsun para construir um templo onde
o anel fosse cair. Este voou bem alto no ar, ressaltou na sela da rainha e caiu no lago. Khri-tsun ficou desanimada, mas o rei prometeu ajudá-la. Juntos fizeram o melhor que puderam, mas tudo o que era construído de dia, de novo voltava a esboroar-se durante a noite.

Com todas as tentativas de construção frustradas,
o rei reconsiderou o esquema de Kong-jo. Após reflexão, ele pôde compreender os movimentos da demônia srinmo. Sempre que ela movia os membros, os novos templos eram destruídos. O rei decidiu construir 12 templos budistas prendendo com sucesso a demônia srinmo
pelas mãos, pés, joelhos, cotovelos, ombros e ancas.
Estes templos foram sendo construídos por todo o
Tibete e, finalmente, ambas as rainhas puderam edificar
os seus templos. A preciosa estátua de Buda Sakyamuni, também conhecida como Jowo Rinpoche, encontrou por fim o seu lugar no grande templo de Lhasa, chamado Mosteiro Jokhang. Os ensinamentos compassivos de Buda irradiaram então por todo o País das Neves.