HISTÓRIA DA CIDADE DE SALVADOR

História da cidade do Salvador
 

Salvador é a capital do Estado da Bahia, o berço da Nação brasileira, o local que originalmente sediou o Governo geral do Brasil colônia de Portugal e forjou uma rica cultura, onde há uma miscigenação de credos e raça única no país...É uma terra abençoada por Deus, privilegiada por sua paisagem e emoldurada pela Baía de Todos os Santos.
Antonio Imbassahy

Farol da Barra

"Nas raízes da cidade estão a magia e o amor, sobre eles construíram-se as casas e a vida do povo. Num dia qualquer entre os anos de 1510 e 1511 (os historiadores não sabem ao certo) um português naufragou em frente à costa da Bahia. Labrego forte, bom nadador, escapou da morte no mar e ainda conseguiu, não sei bem como, salvar o mosquetão e, assim armado, alcançou a terra. Chamava-se Diogo Álvares e os naturais do país, índios antropófagos, apreciadores de um bom prato de carne humana - especialmente de carne de branco, estão raríssima naquelas paragens, verdadeiro petisco -, saudaram com entusiasmo sua chegada, dispondo-se a almoçá-lo em seguida. Viu-se o luso em grande aperto mas não lhe faltou imaginação: já o bafejava o ar da Bahia, propício à inteligência. Lançou mão da arma providencialmente salva e fez fogo contra um pássaro no azul do céu, abatendo-o com tiro certeiro. O clarão deslumbrou os índios, o pássaro morto lhes ensinou o medo.
 

Elevador Lacerda e vista da Baía de Todos os Santos

- Caramuru! Caramuru! - gritaram, saudando o filho do trovão, o pai do fogo e da morte, o ser estranho e colérico vindo das ondas. Trouxeram-lhe frutas de olor e gosto, sumarentas, prestaram-lhe homenagens, conferiram-lhe honrarias; Para velar seu sono, para aquecer seu dormir, para catar seus piolhos, deram-lhe a índia Paraguaçu, filha do cacique. Diogo Álvares viu-se de repente genro do rei e sócio nas riquezas da terra. Fizera um bom negócio.
Dessa mágica nasceu a Bahia mas seus alicerces foram amassados no barro do amor, do amor definitivo..."
 

Fundação Casa de Jorge Amado no Pelourinho

Nada melhor que o baiano e imortal Jorge Amado, autor do texto acima, para abrir essa matéria que pretende contar um pouco da história da Cidade do Salvador. E quando o escritor se refere ao "amor definitivo", está narrando a história do imenso amor que a índia Moema, irmã mais nova de Paraguaçu, sentia por Caramuru. Conta que quando Diogo Álvares embarcou com sua mulher para uma viajem à Europa, Moema se jogou ao mar e nadou léguas atrás do navio, atrás do seu amor. Mas, deixemos Jorge Amado concluir... "Veio a lua e cobriu as águas de ouro e prata. Na distância se apagava a luz do barco, perdida no céu de estrelas. Moema a nadar, Moema a se afogar. Quando a luz derradeira da nau desapareceu na noite e na lonjura, quando toda a esperança se finou, então lhe faltaram as derradeiras forças e Moema se entregou à morte, sem Diogo não queria viver. Mergulhou nas ondas com seu acompanhamento de peixes e luar, seu véu de noiva. Desde então e para sempre o amor ilumina o mar e a terra da Bahia".
Salvador da Bahia de Todos os Santos, é assim. Não se pode contar sua história como se conta a história de outra cidade. Porque ela é diferente... por que as lendas facilmente se misturam com a realidade dos fatos.
Fato é que a Cidade do Salvador foi fundada oficialmente em 1549, por Tomé Afonso de Souza, para ser a capital do Brasil, permanecendo assim até 1763, quando a sede do Vice-Reino foi transferida para o Rio de Janeiro. Durante este longo período (três séculos), Salvador foi palco dos mais importantes acontecimentos de nossa história colonial. Principal porto Atlântico das naus de "volta do mar", da rota das especiarias com destino ao Oriente, prosperou inicialmente com a exportação do açúcar produzido nos engenhos do Recôncavo Baiano (área geográfica em torno da Baía de Todos os Santos) e depois do comércio entre a Colônia e Portugal.
 

O Campo Grande no séc XIX

No entanto, tudo começou bem antes, em 1501, quando a primeira expedição de reconhecimento da terra recém descoberta, deparou-se com uma grande e bela baía - batizada de Baía de Todos os Santos pelo navegador Américo Vespúcio, que nessa época andava pelo litoral brasileiro colocando nome de santo em todo lugar que chegava. Mas na Bahia, não! Um santo era pouco, no que foi inspirado pela data de 1º de novembro. A baía tornou-se, então, uma referência aos navegadores, passando a ser um dos portos mais movimentados do continente americano. Preocupado com a colonização das terras conquistadas, o governo português instituiu o sistema de capitanias hereditárias. Entre as que não vingaram, estava a da Bahia, doada a Francisco Pereira Coutinho.
 

Porto de Santo Antônio da Barra em meados do séc. XIX

Alguns registros históricos da época relatam fatos relevantes para a história da Cidade, como a já referida saga do náufrago português Diogo Álvares que foi acolhido pela tribo Tupinambá que vivia nas terras que futuramente pertenceriam a Salvador. Diogo casou-se a filha do cacique Taparica, a índia Paraguaçu, que foi batizada na França com o nome de Catarina Alvares. Caramuru, como era chamado, desempenhou importante papel na construção da cidade mandada fazer pelo Rei de Portugal D. João III, que nomeou Thomé de Souza para ser o governador-geral do Brasil. A armada, capitaneada pela nau Conceição, trazia mais de mil pessoas em seis embarcações: as naus Conceição, Salvador e Ajuda, duas caravelas e um bergantim. Depois de 56 dias de viagem a esquadra, em 29 de março de 1959, foi recebida com festa por Caramuru e os Tupinambás, cujo apetite foi dirigido para outras iguarias. Thomé de Souza ficou no cargo até julho de 1553, sendo substituído por D. Duarte da Costa. Com a chegada dos escravos africanos no final do século XVI a cidade prosperou por influência econômica das atividades portuárias e da produção do açúcar.
 

Ladeira de São Bento em gravura de 1850

Em 1583, Salvador tinha duas praças, três ruas e cerca de 1600 habitantes. A riqueza da Capital atraiu a atenção de estrangeiros, que promoveram expedições para conquistá-la. Saques e bombardeios de corsários ao porto de Salvador eram freqüentes no final do século XVI e o início do século XVII. Com a união das coroas portuguesa e espanhola em 1850, os interesses do comércio marítimo estrangeiro foram contrariados e, ao se expiar o tratado de paz entre a Espanha e os Países Baixos, a Companhia das Índias Ocidentais atacou a cidade em maio de 1624, onde permaneceu até abril de 1625, quando seus soldados foram expulsos pela armada de 40 navios mandada pela Espanha. Os holandeses se foram "deixando, ao partir, um rastro de olhos azuis".
Em 1638, mais uma tentativa de invasão (desta vez comandada por Maurício de Nassau), não obteve êxito. Terminada a luta contra os invasores holandeses, a cidade entrou em fase de grande desenvolvimento, datando daí suas primeiras construções em estilo colonial. Salvador permaneceu na condição de Capital da América Portuguesa até 1763. Porém, como capital da Província da Bahia, a cidade manteve sua importância política e econômica. Anos depois, em 1798, a cidade foi palco de uma conspiração de tendências libertárias, a chamada "Revolução dos Alfaiates", que pretendia proclamar a "República Bahiense". Em 1808, recebeu a família real portuguesa (em fuga das tropas de Napoleão). Na ocasião, o príncipe regente D. João VI abriu os portos às nações amigas e fundou a Escola Médico-Cirúrgica da Bahia, no Terreiro de Jesus (Pelourinho), que viria a ser a primeira faculdade de medicina do Brasil.
 

Catedral Basílica e Faculdade de Medicina

No século XVIII as lutas pela Independência agitaram as ruas de Salvador. Ali morreram duas das mais célebres heroínas brasileiras, Maria Quitéria e Madre Joana Angélica, superiora do Convento da Lapa. Foi somente a 2 de julho de 1823 que a cidade viu raiar a liberdade, com a derrota das tropas lusas de Madeira de Melo em Cabrito e Pirajá, seus arredores, e a entrada triunfal das forças de Lima e Silva. Em 1831 ocorreu uma violenta manifestação popular contra os portugueses chamada de "Mata Maroto", e logo depois, em 1835, as revoltas dos "Malês" e a "Sabinada". Para surpresa geral, a Proclamação da República provocou reação bem diversa, sendo recebida friamente em Salvador que, não obstante seu passado republicano e libertário, mantinha-se fiel ao regime monarquista. Durante a intervenção federal de 1912, Salvador foi bombardeada, fato que marca o início da reforma urbana e grande expansão.
Arquitetura e urbanismo
Diz o arquiteto Francisco Senna, presidente da Fundação Gregório de Mattos, que "em nenhuma outra cidade brasileira encontram-se registros tão profundos e abrangentes de uma cronologia histórica do patrimônio edificado urbano como na Cidade do Salvador", desde os primórdios da colonização brasileira até as suas contemporâneas manifestações.
Nascida cidade-fortaleza e cercada por uma paliçada, Salvador viveu seus primeiros momentos sob a égide de uma arquitetura de taipa e palha, ainda tão em voga na sua periferia, paralelamente ao processo de desenvolvimento urbano. Seus primeiros edifícios, públicos e privados, religiosos ou profanos, de moradia ou de comércio, foram singelos, desprovidos de apuro arquitetônico e sentido de perenidade. Notadamente, a Sé-primaz do Brasil, sob a invocação de N.S. da Ajuda, a Capela de N.S. Conceição da Praia, bem como o Paço dos Governadores e a Casa da Câmara e Cadeia, foram produto do barro moldado, da taipa de mão e de pilão, do teto de palha, tão distantes da monumental cantaria portuguesa, d´álem-mar".
Aos poucos, a madeira-de-lei da Mata Atlântica, a cal proveniente da queima de crustáceos e o lioz português passaram a ser usados nas edificações. O registro iconográfico dá conta que só a partir da saída dos holandeses e a seguinte estabilidade política aliada à prosperidade, foi possível o desenvolvimento de um padrão arquitetônico bem ao estilo de Portugal. Embora inicialmente planificada, inclusive seguindo um esquema de arruamento trazido de Lisboa, a cidade, sujeita a imposições de ordem social e topográfica, cresceu em tumulto, derramando-se pelos espigões e deixando vazio os vales. A arquitetura militar, seguida da religiosa, foi a primeira a se beneficiar do desenvolvimento do século XVII. Surgiram o Forte de São Marcelo, Santa Maria, São Diogo, Santo Antônio da Barra, entre outros. As ordens religiosas ali instaladas, os Jesuítas em 1549, Beneditinos em 1585, Franciscanos em 1587, a Santa Casa e o Clero Secular (Arquidiocese Primaz - 1551), construíram novas sedes ou melhoraram as existentes no século XVII. Alguns exemplos são a Igreja e Mosteiro de São Bento, Igreja e Convento de Santa Tereza (projetos do monge beneditino Frei Macário), a Igreja da Sé, a Igreja e Convento do Carmo e o Convento de São Francisco, entre outras. A arquitetura civil também se desenvolveu, destacando-se a Casa da Câmara e Cadeia (1600), Paço dos Governadores (1663) e os prédios assobradados com grandes salões onde a presença do mobiliário luso-brasileiro anunciava a prosperidade que teria seu apogeu no século XVIII.
"O século XVIII foi o século do ouro, do apogeu econômico, do barroco e do rococó - continua Francisco Senna -, da supremacia da Igreja Católica, do Vice-Reinado (1714), da expulsão dos Jesuítas (1759) e da mudança da capital para o Rio de Janeiro".
Salvador era então o maior porto do Atlântico Sul, a segunda maior cidade do Império Português, ainda se expandindo. Ampliado por sucessivos aterros, o porto, cuja importância crescia com o aumento da atividade comercial, determinou rápido crescimento urbano em seus arredores, área que passou a ser chamada de Cidade Baixa, em oposição à outra, situada no topo, a Cidade Alta. Desde então, Salvador ficou conhecida como a cidade de dois andares, atualmente ligados pelos elevadores Lacerda e Tabuão e os "Planos Inclinados". Nunca se construiu tanta igreja como nessa época, o barroco dominando a arquitetura religiosa. Houve grande desenvolvimento na ourivesaria, pintura, prataria, azulejaria, artífices chegando da Europa. Surgiu então um imenso e rico acervo arquitetônico e artístico que se igualava aos melhores do mundo, mas essencialmente regional. A arquitetura civil também se desenvolveu. O centro histórico de Salvador foi configurado neste século. O mobiliário, em madeira-de-lei, principalmente jacarandá, tinha influência lusitana.
Salvador é um dos maiores documentos vivos da arquitetura colonial brasileira. Suas inúmeras igrejas representam o que de mais autêntico existe no país, do ponto de vista da arquitetura religiosa tradicional.São tantos os templos e monumentos, que não cabe aqui neste espaço.
"O século XIX (escreve ainda Senna) foi revolucionário e transformador. Revolucionário no campo das idéias e transformador do ponto de vista social e urbano". Com a chegada da Missão Artística Francesa em 1816, o Rio de janeiro e a Bahia adotaram o estilo neo-clássico na arquitetura urbana e rural, assim como nas artes. Neste século surgiram a licença para a implantação de indústrias, a inauguração da linha férrea, o serviço de transportes urbanos, o bonde de burro, a vapor e depois elétrico; o Elevador Lacerda, Plano Inclinado Gonçalves, o sistema de iluminação pública com lampiões, o gasômetro da Calçada, a iluminação elétrica, o serviço telefônico, a construção de teatros, a primeira tipografia, a fundação de jornais e revistas, a construção da Academia de Belas Artes e do Imperial Liceu de Artes e Ofícios, etc.
 O século XX também foi recheado de acontecimentos importantes, mas, é uma história recente. E Salvador se firma a cada dia como uma das mais importantes cidades do Brasil, recebendo milhões de pessoas do mundo inteiro interessadas em conhecer a sua história, suas igrejas, seus fortes, sua arte, suas antiguidades, seu Carnaval, suas praias, seu povo e sua magia.

Fonte: "Bahia - Boa Terra - Bahia", de Jorge Amado,
Flávio Damm e Caribé; sites oficiais do Estado e Prefeitura de Salvador, textos de Francisco Senna, Arquivo da Cidade, Arquivo Barsa e periódicos.

 

Nessa terra tudo é misturado - anjos e exus, o barroco e o agreste, o branco e o negro, o mulato e o caboclo, o candomblé e a igreja, os orixás e os santos, a opulência e a miséria, tudo misturado. Os sentimentos e os ritmos, os mistérios também. O mistério escorre como um óleo sobre a cidade e nessa boa terra da Bahia cada erva contém um segredo ritual.
Jorge Amado

OUTRO TEXTO SOBRE A CIDADE DO SALVADOR ENALTECENDO O 2 DE JULHO DE 1823

A dissertação trata da memória da Cidade do Salvador, através do estudo da comemoração cívico popular, o Dois de Julho, enfocando suas transformações nos séculos XIX e XX. Desenvolve-se a hipótese de que sua construção aportou uma representação da Salvador oitocentista e incorporou, ao longo da sua história, expressões simbólicas das transformações de determinados espaços da cidade e vice-versa. Em 1824, surgiu, na cidade de Salvador, uma comemoração à Independência da Bahia, conhecida hoje como "Dois de Julho". Relata-se que, no dia Dois de Julho de 1823, a população de Salvador acompanhou por ruas e praças a entrada do exército brasileiro na cidade, formando um imenso cortejo, uma verdadeira festa em movimento. O Dois de Julho constitui-se em um complexo conjunto de comemorações cívicas em Salvador e no Recôncavo. Seu principal evento, em Salvador, é o cortejo do dia 2 de julho que reproduz a retomada da cidade pelo exército "brasileiro", após ser abandonada pelas tropas portuguesas em 1823. Viu-se, no decorrer da dissertação, como o Dois de Julho passou a servir a diversas representações da identidade baiana até o século XX. As autoridades imperiais e eclesiásticas viam, no Dois de Julho, oportunidade de auto-afirmação e um momento em que se celebrava a conquista da liberdade do jugo português; já para os populares, era uma oportunidade para a realização de protestos contra os altos preços dos produtos vendidos nos armazéns dos portugueses. O Dois de Julho apresenta-se como uma porta de acesso à história da cidade do Salvador e justifica-se ainda por explicitar a realidade baiana diferentemente de um contexto nacional ou internacional generalizante que tem sido a base dos estudos urbanísticos. Foi analisada a fase de criação dos ritos e a representação de seus componentes espaciais, abordando o início da construção dos monumentos comemorativos e as primeiras transformações no percurso desenvolvido pelo cortejo, no período do Império. Na República, pode-se ver como essa festividade assume um caráter civilizatório, de controle social na Bahia republicana das reformas urbanas do governador J.J. Seabra, no início do século XX. O cortejo ganhou novo trajeto e novos monumentos, seguia o fluxo do crescimento dos bairros ricos, no sentido sul da Vitória, Graça e Barra. O sentido norte cresceu tanto quanto só, que nos bairros pobres da Liberdade e São Caetano. Essas redefinições identitárias afetaram o anterior símbolo oitocentista do Dois de Julho e, na segunda metade do século XX, a produção simbólica de Salvador continuou sofrendo transformações, com o crescimento urbano acelerado, quando se estabeleceu um corte na relação espaço-memória, e se deixa de produzir monumentos ao Dois de Julho que marquem os fatos da guerra da Independência da Bahia, em seu locus originário, passando agora essa memória a constar de novos lugares da cidade contemporânea, sem nenhuma relação de espacialidade com a cidade do século XIX.

Banca: Profa. Maria Helena O. Flexor (orientador)
Prof. Pedro de Almeida Vasconcelos (docente)
Profa. Maria Conceição Barbosa da Costa e Silva (membro externo)