JURA EM PROSA E VERSO

CRENDICES, SIMPATIAS E SUPERSTIÇÕES

Crendices - O que há de real nas receitas populares

Crendices ou superstições existem em todas as sociedades. Segundo o etnógrafo Câmara Cascudo, elas seriam fruto da necessidade humana de solucionar, de forma mágica, dificuldades do dia-a-dia. Em seu livro “Tradição, ciência do povo”, o especialista no estudo e descrição dos povos, sua língua, raça e religião, explica que “as necessidades humanas são fundamentalmente as mesmas e satisfazer um problema angustioso numa solução total e divina é o sonho tenaz de todas as idades”. Em outras palavras, a vida, a morte, o sofrimento e as doenças são universais e as sociedades, então, criam formas, nem sempre providas de embasamento científico, de lidar com eles.

De acordo com a professora de antropologia da PUC-SP, Maria Helena Villas Boas, que prefere usar o termo “saber popular” em vez de “crendice”, ao contrário da medicina tradicional, bastante especializada, a medicina popular se baseia numa maior integração entre corpo, espírito e ambiente. Para ela, é essa lógica que explica, por exemplo, a crendice de que não se deve tomar bebidas geladas com o corpo quente (suado), pois deve haver sintonia entre as temperaturas do corpo e do ambiente. Outra particularidade da medicina popular, segundo ela, é aquilo a que chama de “magia”.

São os “efeitos externos”, como a ação dos astros, que, para curandeiros, exercem importante influência nas curas. Assim, não basta pegar determinada planta para se fazer um chá, é preciso que esta seja colhida, por exemplo, no raiar do dia, à noite ou com a lua cheia. “Há pessoas que dizem que mulheres grávidas não devem passar embaixo de cordas esticadas, porque o feto poderia ser enforcado pelo cordão umbilical. Do ponto de vista científico, não existe qualquer fundamento, mas, para o saber popular, há um significado”, explica.

Folclore ou ciência

Ao longo dos anos, com o aprimoramento dos aparatos técnico-científicos, foi-se priorizando, no meio da medicina, a visão mais ligada à razão, com a qual descobriam-se reais valores dos componentes químicos, em detrimento da magia ou do conhecimento vulgar. Neste processo, plantas, conhecidas popularmente pelo grande efeito curativo, foram estudadas e incorporadas à biomedicina. Assim, algumas drogas usadas na medicina folclórica, quando submetidas a análises científicas, transformaram-se em valiosos medicamentos, mas muitas delas não resistiram a um estudo mais rigoroso.

Mas, afinal, no meio do que é simples folclore e do que tem bases científicas, quais crendices podem ou não ser seguidas? Para a médica reumatologista e professora da Faculdade de Medicina do ABC (SP), doutora Sônia Maria Loduca Lima, é preciso ter muito cuidado no uso desses recursos. “Há um grande perigo com a automedicação, sobretudo, de elementos desconhecidos. Ervas que não se conhecem bem, por exemplo, podem causar intoxicação”, alerta. Para ela, algumas receitas da cultura popular são verdadeiras, mas a maioria não passa de crendice, e cita alguns exemplos. “Colocar teia de aranha ou titica de galinha em umbigo de recém-nascido, procedimento comum em zonas rurais, pode levar ao desenvolvimento de ferida local e, em casos mais graves, provocar tétano. Manga com leite é uma combinação de difícil digestão, mas não mata. É bom evitar o consumo à noite. Pasta de dente não cura espinhas, mas os componentes químicos do creme dental podem causar irritação na pele”. Segundo a médica, embora sejam poucas, existem também algumas receitas populares que possuem realmente algum valor científico. Exemplos: açúcar, em feridas de pele, ajuda na cicatrização, pois impede a proliferação de determinadas bactérias; bife gelado na testa pode atenuar hematomas traumáticos, já que diminui o fluxo sangüíneo na região – “mas pode perfeitamente ser substituído por um saco com gelo. E o melhor caminho ainda é procurar orientação médica”, ressalta.

No Brasil, há um cruzamento muito grande dos “saberes populares”, em razão da grande miscigenação cultural. Portanto, há um sem número de crendices trazidas pelos colonizadores portugueses que se juntam às dos povos africanos e às dos indígenas, que aqui habitavam. Em todo o processo de colonização não havia a presença de médicos. Então, era comum confiar-se em curandeiros, raizeiros, barbeiros, parteiras, ou seja, pessoas comuns que tinham conhecimento para resolver determinados problemas. Um desses personagens históricos foi o Tiradentes, que, além de alferes, também extraía dentes. Somente a partir do final do século XIX é que foram fundadas faculdades de medicina no País.

Outra questão particular da cultura brasileira é que é comum haver uma intercomunicação entre a biomedicina e a medicina popular. A antropóloga Maria Helena conta que, há algum tempo, sua faxineira estava com uma ferida aparentemente grave na perna. “Ela foi ao médico, num posto de saúde, e o que ele indicou: açúcar”, diz. Outra história, muito engraçada: “Certa vez, fui a um curandeiro que tinha muita fama de entender de plantas. Com ar de antropóloga, fui logo indagando onde ele havia aprendido aquilo tudo, crente que ele fosse dizer que recebera os conhecimentos de seus pais ou avós, mas, para minha surpresa, ele disse ‘nos livros’. Aprendera em livros de homeopatia”.

Tome Nota: A Dra. Sônia Loduca avalia, abaixo, algumas receitas populares.

Há alguma alimentação que favoreça o leite materno?

Uma alimentação com muitas verduras, legumes e frutas é sempre benéfica para o organismo. Beber bastante líquido também ajuda. Os doces, cervejas e outros produtores de leite populares são apenas crendices.

Cerveja faz o leite da mulher ficar mais forte e aumentar

Isso é apenas uma crendice. A boa alimentação é que é fundamental, com abundância em verduras, legumes e frutas. Estar hidratada favorece a produção do leite, portanto, beber bastante líquido ajuda. A melhor forma de aumentar a produção do leite é amamentando. Quanto mais se dá de mamar, mais leite a mulher produz.

Ingerir bebida alcoólica no dia seguinte a uma bebedeira cura a ressaca

A melhor coisa a se fazer no dia seguinte a uma ressaca não é beber novamente e sim tomar muito líquido, para melhorar a hidratação, comer alimentos leves, como frutas e legumes e evitar alimentos gordurosos.

Tomar um copo d’água morna em jejum faz você emagrecer

A água pela manha mantém o organismo em boas condições de hidratação e pode auxiliar no bom funcionamento do intestino, mas não emagrece.

Manga com leite mata

É uma combinação de difícil digestão, mas não mata! É bom evitar o consumo à noite.

Suco de limão em jejum ajuda a emagrecer

Tomar suco de limão em jejum pode levar a uma gastrite. O limão é ácido e não é aconselhável que seja ingerido de estômago vazio.

O leite de algumas mulheres que amamentam é fraco

Esta é uma idéia errada. A composição do leite é sempre a mesma. O que pode variar é a quantidade de leite produzida.

Pasta de dente cura espinha

Não é verdade. Não só não melhora a espinha, como os componentes químicos do creme dental podem causar irritação na pele.

Levar um susto acaba com soluço

Quando se toma um susto, a pessoa prende a respiração. Isso leva a um aumento rápido e transitório do gás carbônico (CO2), o que pode parar com o soluço.

Mulher que está menstruada não deve pisar no chão frio

A menstruação não é impedimento para que se tenha uma vida normal. Porém, nesse período, algumas mulheres podem ter sintomas como cólicas, queda de pressão ou sangramento intenso. A temperatura fria pode, às vezes, piorar o desconforto.

Uma boa fonte de informação sobre a combinação de alimentos é o livreto “Perguntas e respostas sobre o sistema digestivo”, do professor José Figueiredo Penteado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mais informações no site www.riogastro.com.br