JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

O Preto Velho

Francisco era um trabalhador rural à moda antiga.

Trabalhava durante o dia nas Terras do Coronel Ferreira, morava com a mulher e os cinco filhos numa casinha de pau-a-pique, tinha uma pequena criação de galinhas e porcos e uma pequena horta nos fundo da casa.

A única distração que tinha era ir à Missa aos domingos com a família e tomar cachaça com os amigo no empório Nossa Senhora da Aparecida, toda noite.

Francisco era um homem simples, bom e temente à Deus. Nunca quis mais nada da vida do que tinha atualmente e se considerava um homem feliz. Mas mal sabia Francisco que tudo poderia acabar de uma hora para outra.

Francisco bebia com seus amigos todas as noites, e quando voltava pra casa, seguia pela estrada de chão sempre deserta em seu velho pangaré.

O caminho era longo, mas Francisco conhecia bem o trajeto e já estava acostumado a fazê-lo sozinho. Para chegar em sua casa, pegava um pequeno atalho por uma trilha no meio de uma grota escura, mas Francisco era um cabra-macho e não tinha de medo de onça e muito menos de assombração.

Numa noite de luar, enquanto passava pela grota, Francisco gelou de susto.

No meio da escuridão, um vulto negro se aproximava.

Francisco engoliu em seco e colocou a mão lentamente no punho do facão que sempre carregava. A figura encurvada se aproximava lentamente enquanto Francisco, com o pangaré parado perguntou:

_Opa! Quem vem vindo?

A figura se aproximava sem dizer uma palavra. Francisco começava a ver melhor a figura, era um velho homem negro e barba branca. Ele usava um chapéu de palha, sandálias de couro, uma bengala de pinho e tinha um velho cachimbo na boca. Francisco respirou aliviado.

_Ô meu velho! O que faz aqui nessa grota?

_O velho só tá andando.... Disse o velho que aparentava no mínimo uns 80 anos.

Francisco que era um homem reservado e que só cuidava de sua vida, deu de ombros e foi embora.

_Noite! Gritou Francisco enquanto sumia em galope pela grota.

Francisco não conseguiu dormir bem aquela noite. Não sabia o motivo, mas algo o preocupava muito. Pensou que seria a doença de sua esposa. Ivete estava muito doente, mas Francisco tinha certeza que seria passageiro. Tentou não pensar no assunto durante o dia.

Na noite seguinte, a mesma cena se repetiu. No meio da grota, Francisco cruzou novamente com o Preto Velho. Mas dessa vez apenas o cumprimentou e seguiu seu caminho.

Os dias foram se passando e toda noite, o Preto Velho sempre passava lentamente pela estrada abandonada.

A cada dia, Francisco estava mais estranho e sua esposa parecia estar piorando da estranha doença, as crianças não comiam direito e as galinhas botavam poucos ovos.

Naquela noite, enquanto estava no empório com seus amigo tomando cachaça, Francisco comentou sobre os problemas que tinha em casa e mencionou o novo morador da região.

Ao dizer isso, todos no bar ficaram calados.

O dono do bar, seu Zequinha, deixou cair um copo no chão. Francisco olhava para a cara de todos no bar com cara de espanto.

_O que foi? Porque ocês pararam de falar? O que foi que eu disse? Perguntou com uma clara ponta de desespero.

_Tem quanto tempo que ocê tem visto o tar de Preto Velho? Perguntou Zé Américo, um velho fazendeiro da região.

_Peraí... Deve di ter uns 6 dias que eu cruzo com ele.

Todos ficaram gelados, alguns abaixaram a cabeça e outros tomaram um gole de pinga.

_Chico, como está a Ivete? Ela tá muito ruim? Perguntou Onofre, o dono da loja de tecidos do vilarejo.

_Ela tá muito ruim.... O que está acontecendo??? Fala homem de Deus!!! Francisco já estava ficando desesperado.

_Chico, tem um causo que se um Preto Velho cruza com um caboclo sete vezes na estrada, alguém da família acaba morrendo. Disse seu Eurico, o Delegado.

Ao ouvir isso, Francisco ficou gelado. Olhou para os rosto de cada um. Não aguentando de angústia, gritou o nome da esposa e saiu correndo para casa. No meio da grota, a sinistra figura do velho estava em sua incansável procissão. Francisco ignorou o vulto e aumentou a velocidade do velho pangaré com as esporas e o chicote.

_Vamo!!! Anda seu pangaré fé da puta!

No dia seguinte, Francisco estava feliz, pois além de sua esposa não ter morrido, ela havia melhorado bastante.

Quando foi para o empório à noite, Francisco contou que estava tudo bem e que não disse deveria acreditar nessas histórias de pessoal da roça.

Na volta pra casa, ficou com remorso de ter pensado que aquele pobre preto velho seria algum enviado do tinhoso e voltou a cumprimentar o velho, que sempre encontrava com ele na mesma grota.

Os dias foram se passando e tudo em sua casa estava indo bem, a mulher estava quase curada, seus filhos estavam felizes novamente e as galinha botando ovos como nunca.

_Chico! você ainda tá vendo aquele preto velho na grota? Perguntou Dona Maria, a mulher do Seu Zequinha.

_ Tô sim! Mas não vê venha com essas coisas de gente guinorante da roça não! Num credito nessas lendas desse povo do mato!

_Tudo bem Chico, só queria saber quantas vezes ocê já viu ele?

_Uma dúzia de vezes. Porcadiquê? Perguntou Francisco com ar de despreocupado.

_Hum... nada não Chico... Vai cum Deus, só isso! Dona Maria ao dizer isso, entrou nos fundos do bar e foi embora.

Francisco olhou desconfiado para todos, mas esses continuavam quietos e evitavam os olhares de Francisco.

_Ocê são tudo um bando de caipiras! Eu vô simbora! Francisco saiu do empório e foi embora.

Dos que estavam no bar, apenas um jovem capataz, sem entender nada, perguntou aos demais.

_Porque ocês ficaram assim? Já não deu sete vezes? O Seu Francisco tá certo! Qual o pobrema?

_Fica quieto guri! Ocê num sabe di nada! Se o Chico encontrar o tar preto velho de novo hoje.... Dizem que se não acontecer nada com a família do caboclo na sétima vez, na décima terceira acontecerá com o próprio caboclo! Disse Seu Zequinha, dono do Bar.

_Ara! E ocês acreditam nessa bestera?

_Ocês jovens se acham muito espertos e não gostam de ouvir os velhos...

Nessa mesma noite, a macabra profecia se realizou... Na manhã seguinte, corpo de Francisco foi encontrado caído na grota ao lado do corpo do pangaré. Os dois corpos estavam retalhados e mordidos, com sangue espalhado nas árvores em volta . A morte foi atribuída a um ataque de onças, apesar de todos na região saberem que aquilo não foi ataque de onça alguma.