JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

O PADRE E O VAMPIRO

Era 1500 d.C., uma centena de barcos portugueses seguia em direção ao Novo Mundo. Era noite, e o jovem padre Francisco tremia de frio em seu quarto dentro de um dos últimos navios.

Mesmo com o frio e com o balançar do navio, nada tirava sua atenção do livro que lia. Sentado em uma cadeira encontrava-se com os olhos grudados no Malleus Maleficarum aberto em cima de sua mesa. Seu quarto estava quase que totalmente escuro, mas a luz da vela era o suficiente para Francisco poder ler e isso era só o que importava no momento.

Estava nos últimos capítulos, quando uma forte dor de cabeça surgiu como uma praga seguida de um cansaço.Ele desistiu de tentar segurar o sono e decidiu dormir um pouco. Mal se deitou na cama e já dormia profundamente.

Ele entra no mundo dos sonhos. Mas desta vez, um pesadelo horrível estava a sua espera. Ele se via dentro de uma catedral, à noite. Lá fora relâmpagos rasgavam o céu e clareavam por alguns segundos o ambiente. No altar uma estátua de uma santa o encarava penetrando seus olhos de madeira nos olhos do padre.Suas mãos estavam estendidas e abertas, seus pulsos estavam cortados e muito sangue jorrava deles. Abaixo dela, um corpo de um homem nu se encontrava deitado, dormindo.

Apesar de Francisco não ver mais ninguém na catedral, podia sentir a presença de seres infernais o observando e sussurrando em seu ouvido coisas como: ?acorde-o!?,?ele tem fome!? e ?nossa mãe pede que acorde seu fiho!?.

Francisco sabendo que aquilo não passava de um pesadelo,pede para Deus afastá-lo dali. Ele acorda, mas as vozes ainda atentam em sua cabeça. Decide voltar a ler seu livro. Lê atentamente um trecho que fala sobre Alphonsus de Albuquerque, um vampiro português. Ele era conde e tinha o doentio prazer de se banhar com o sangue de crianças. Além disso, ele lia muito sobre ocultismo.

A Igreja soube de seus atos e o condenou a morte na fogueira. Ele tentou resistir. Teve então o estômago rasgado por uma espada.

Em seus últimos momentos de vida prometeu que iria voltar para se vingar. Em seu funeral, um gato preto pulou em cima do caixão assustando todos. A Igreja sabia que ele se tornaria um vampiro e decidiu decapitar seu corpo e em seguida tocar fogo. Mas o caixão havia desaparecido juntamente com o corpo.

Ao ver a foto do conde, se lembrou do corpo masculino de seu pesadelo. Percebeu então que certamente se tratava da mesma pessoa e que tal vampiro encontrava-se agora no navio, talvez no porão. Disposto a caçá-lo, abre sua gaveta e de lá tira uma marreta pequena e uma estaca de carvalho. Depois pega seu crucifixo de ouro e uma caixa com óstias e mais algumas ferramentas, faz uma oração e em seguida parte para sua caçada.

Pede a criado que o conduza até lá com uma tocha. O criado atende seu sem saber o que o padre procura em meio as cargas. Ao chegarem lá, Francisco pede para o criado ficar na porta e depois segue em direção procurando o caixão do vampiro.Finalmente o encontra. Uma corrente grossa o envolve presa por um grande cadeado. O padre usa as ferramentas e arromba o cadeado, o que faz um grande barulho chamando a atenção do criado. O crincrilhar da corrente faz com que a desconfiança do mesmo aumente. Ele então decide ver o que o padre está fazendo.

Sem perceber os passos do criado em sua direção, Francisco abre o caixão e se depara com os braços cruzados no peito formando um X. Ele sabe que precisa ter muita coragem e fé para enfiar a estaca no coração de um vampiro,caso contrário, o vampiro pode despertar antes que se possa dar a primeira marretada.

Francisco se concentra, respira profundamente e aponta a estaca para o coração do corpo, mas é interrompido pelo criado que o agarra e o joga no chão.

- Não permitirei que destruas meu senhoor! ? grita o criado. - Acalma-te ó pobre criado! ? disse umaa voz sinistra vinda do túmulo ? graças a falta de coragem e fé suficientes deste mortal, meus espíritos guardiões me acordaram e estou com muita fome!

O padre assustado não sabe o que fazer. Pensa em fugir, mas impressionado como está, não consegue se levantar do chão. Um homem alto e de longos cabelos castanhos e encaracolados, levanta-se do caixão. Suas roupas nobres e sua posse, autoritária.

- Posso lhe ser útil meu senhor? ? pergguntou o criado.

- Claro! ? responde o vampiro em um tomm sombrio.

Em seguida,agarra o criado e rasga seu pescoço com enormes presas em sua careta demoníaca.Começa então a drenar como um esfomeado o suco de sua sobrevivência.

O criado só pode gritar. Francisco cria forças o suficiente para levantar-se e fugir.

O vampiro então solta sua vítima ainda com um pouco de sangue e morta. Em seguida,salta feito um lobo para a frente do padre impedindo sua passagem. Com toda coragem e fé que pôde concentrar naquele momento. Francisco exibe seu crucifixo para a criatura profana.Mas este é muito poderoso e apenas afasta-se um pouco. Logo em seguida solta um grito semelhante ao de algum animal selvagem e Francisco vê o crucifixo virar pó levando suas esperanças junto. O vampiro vendo que o não tem mais o que temer, aproxima-se do padre a curtos passos. O padre afasta-se rezando para Deus e para todos os santos que pode se lembra.

- Não machucarei você ? diz o vampiro ccom seu sorriso sinistro e penetrando seu olhar você me despertou e apesar de ter sido sem intenção, você viverá para sonhar com esse pesadelo pelo resto de sua vida.

O vampiro volta para o caixão e alguns segundos depois ele reaparece em pé ao lado mesmo. Seu corpo continua lá dentro o que deixa Francisco confuso até se recordar de ter lido sobre este fenômeno. O vampiro pode fazer sua alma sair do corpo e depois materializá-la como se fosse um novo. Isso chama-se duplo-estéreo. É nesta forma que ele pode transformar-se em morcego,lobo e até névoa. Francisco também lembra-se que nesta forma eles só podem ser destruídos por meios mágicos, queimados ou expostos a luz do Sol.

Mas também existe uma maneira simples e fácil, é destruir o seu corpo.

O vampiro vira névoa e sobe para os andares superiores. Francisco aproveita para tentar enfiar a estaca no coração do corpo, mas o caixão não se abre, ele tenta novamente e fracassa mais uma vez. Percebe então que ela está protegida por forças malignas.

Vendo que não pode fazer para destruir a criatura, senta-se no chão e chora pe-las vidas que sofrerão pelo seu fracasso e engano de achar que tinha fé no que acreditava.

Foi uma noite terrível. O vampiro matou, estrangulou e riu do sofrimento de suas vítimas. Nada o parava, nem belas, nem facas e espadas e nem mesmo os punhos dos navegantes mais fortes.

Em um canto escuro, lá embaixo. Francisco ouvia os gritos que ele causou e que ficariam guardados em sua memória por toda a vida.