JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

O caso Bianca  (F. P. Andrade)

 

  O CASO BIANCA
 

Terror

Escrito por F. P. Andrade
 

 

 

 

 

No imaginário humano
o maligno é sempre feio.

F. P. Andrade.
 
 
Londres. 12 de Dezembro de 188...
Carta ao Dr. Vladimir T.
 
     Ilustríssimo preceptor e amigo.
 
 
     Peço emprestado um pouco da sua experiência na área da psicanálise. Envio para o senhor, anexado a esta, uma carta de certo Dr.Brans S. que afirma ter sido vítima do mal em sua essência, personificado na forma de uma criança de onze anos.Peço que, por favor, ajude-me a desvendar esta mente emaranhada.
 
Ass.: Dr. Le Fanu.
 
 
 

Londres.16 denovembro de 188...
Carta ao psiquiatra Sheridan LeFanu

 
 
       Caro Dr. Sheridan,

     Passo para o senhor esse estranho caso que me perturbou íntima e profundamente. Sei que me conhece há um bom tempo e sabe que não sou dado a exageros de nenhum tipo. Sou acostumado com os casos de minha profissão e nunca desisto de um paciente. Mas esse é diferente. Houve aqui um envolvimento pessoal e espiritual profundo. Sou cristão. E creio nas criaturas de Deus tanto quanto nas do Diabo. Mas não digo que esse seja um caso sobrenatural. Não. Mas há também certa anormalidade em tudo isso. O senhor verá; sei que estou sendo contraditório! Perdoe-me, irei me explicar.
 
 
     Cuidei durante três meses de uma criaturinha extremamente linda e, a princípio achei, inocente. Uma menina de onze anos. Sei o que o senhor está pensando. Mas peço que não me julgue. Não sem antes ler atentamente o meu relato. Entenda, temos o costume de crer que o mal externa a si mesmo. Que podemos reconhecê-lo de imediato só de estar em sua pecaminosa presença. É mentira! O mal não é externamente visível. É de dentro que ele nos observa e trama nossa queda! Sei que agora duvidas de minha sanidade. Não o culpo. Peço por favor, paciência. Eu nunca pensei que um dia duvidaria da inocência de uma criança. Da natureza pura de uma criança. Mas essa era diferente. Juro! Não havia inocência nela. Só a anormal maldade e uma sensualidade que não são próprias de uma menina de onze anos. Não era própria de nenhuma infante!
 
 
      Por favor, Dr. LeFanu. Entre em contato comigo!
 
Ass.: Dr. Brans S.
 
 
 

Londres. 16 de Dezembro de 188...
Carta ao Dr. Vladimir T.
 
      Caro amigo,

 
     Rogo que esteja bem de saúde e que se lembre da estranha carta que lhe enviei. Pois bem. Entrei em contato com esse estranho médico que dizia me conhecer. O homem está preso! Sim, por assassinato. Matou a própria filha. O Dr. Brans não quis falar pessoalmente comigo. Deixou com os guardas da prisão uma carta destinada a mim.  Nela o Doutor continua a descrever a criança como um ser maligno, mas também a sensualiza. Acreditei de início que o homem tivesse problemas sexuais do tipo pedofílico e o extravasava over-sexualizando a pobre criança em seus delírios antinaturais. Ele continua na próxima epístola com uma descrição sensual e perturbadora da imaginária infante.
 
Ass: Dr. Sheridan LeFanu.
 
 
 

Londres. Prisão. 13 de dezembro de 188...
Carta ao psiquiatra Sheridan LeFanu

 
 
     De início eu nada vi de anormal. Ela brincava com minha filha Minna como uma criança normal brincaria. Corriam por toda a extensão da casa e perturbavam os criados com suas peripécias infantis. A tudo eu assistia com crescente prazer. Passávamos férias em uma antiga mansão de minha família em Orléans.
 
 
     Um pequeno mistério: fui contratado por um homem que se dizia empregado de um nobre. O empregado, um homem magro e elegante, contou-me que ela era a filha bastarda desse nobre e que, portanto, o misterioso homem não deveria ser envolvido. Pagou-me uma quantia substancial, então fiquei com a criança para examinar os seus comportamentos psicológicos. Estou me abreviando, eu sei. Perdoe-me, mas tenho ganas de denunciar todo o mal que essa infante, essa criança maligna fará ao mundo caso não seja detida. O empregado desapareceu. Nada sei dele. Acho que fui, de alguma forma, hipnotizado para aceitar o contrato. O demônio, eu sei, tem seus meios!
 
 
     Agora, um acontecimento deixou-me horas trêmulo. Tive, juro por Deus, que usar de toda a minha vontade para não cometer um pecado mortal. Deitar-me com uma criança! Sim, eu sei. É loucura! Quase enlouqueci! Era noite e eu havia me acostumado a passar pelos quartos das meninas para lhes desejar uma boa noite. Sempre passava primeiro no quarto da minha filha. Conversava com ela. Perguntava como foi seu dia e lhe dava um beijo na testa. Ela geralmente dormia logo após. Mas nessa noite Minna parecia contente, não, quase eufórica! E me contou que estava apaixonada pela menina! Tive que rir da situação, é claro. Afinal, tratava-se de uma criança. E a chamei de boba também, dizendo-lhe que ela, com toda a certeza, não deveria estar interessada nessas coisas agora. Apesar de sua alegria percebi que ela estava exausta e com horrível aspecto físico. Meio seca, meio pálida, e com olheiras roxas abaixo dos olhos. Não havia percebido isso pela manhã. Decidi-me por examiná-la no dia seguinte, mas eu achava que não era nada de mais, entende? Atribuí o seu aspecto a alguma febre interna de verão. Então, com um beijo, mandei-a dormir. Depois fui ao quarto de Bianca. E foi aí que tudo começou. Perdoe meu peito acelerado e a mão trêmula. Entenda. Ao chegar ao quarto ouvi um gemido baixo, mas constante. Parecia vir de dentro, então entrei sem me anunciar crendo que se tratava de algum problema de natureza estomacal, ou a pobrezinha poderia estar doente assim como minha Minna. Senti-me irresponsável por não ter percebido esse estado de doença em que as coitadas se encontravam.
 
 
     Abri a porta devagar e vi, para meu espanto, uma cena voluptuosa e anormal! Ela deitava-se de costas, uma janela estava semi aberta. A luz da lua caía pálida nas paredes e na cama de dossel alto. A menina estava nua. Ela tocava de leve o próprio corpo e suspirava como uma amante sedenta. Arqueava-se. Puxava para si as próprias pernas e penetrava o dedo entre elas em um movimento sensual e arrebatador. Sinto-me no dever de descrevê-la. Para que assim possa entender melhor o meu arrebatamento. Não era humano, eu sei. Era amoral! Mas aqui a descrição se faz necessária. Seus cabelos eram negros, sedosos e longos. Olhos de céu escuro, com cílios longos e graciosos. A pele pálida como pérolas raras. A boca rubra e antinatural para a idade. Era esguia e demoniacamente bem feita. Não como uma menininha e sim como uma mulher em tamanho reduzido, mesmo assim, perfeita.
 
 
     Percebe que tremi? Arquejei e perdi as forças? A criatura era linda! Diferente da criança de todas as manhãs. Simplesmente não parecia a mesma. Ela virou o rostinho afogueado para mim. Sorriu. Um sorriso impróprio para uma inocente e depois se levantou languidamente. Nua, andou até mim. Tocou-me. Ah, choquei-me com aquilo. Choquei-me com meu corpo!
 
     Perdoe-me Senhor! Teu filho caiu em pecado! Um pecado sórdido, abjeto. Monstruoso! EU A DESEJEI!
 
 
Ass.: Dr. Brans S.
 
 
 
 

Londres. 20 de Dezembro de 188...
Carta ao Dr. Vladimir T.
 
 
      É terrível que o Dr. Brans seja um colega de profissão. Quando li esta carta fiquei horas paralisado de horror e nojo. Eu tenho uma filha de dez anos. E me pergunto, como pode um homem que se diz psiquiatra chegar a esse estado de demência e vício? Só há uma explicação: loucura! Dr. Brans destruiu sua família por causa de uma ilusão. Sim. Ele descreve esse ato maligno na última epístola que recebi há dois dias. Entenda que não estou aqui para julgar o seu ato, e sim o que o levou psicologicamente a ele.
 
 
Ass: Dr.Sheridan LeFanu.
 
 
 

Londres.Prisão. 18 deDezembro de 188...
Carta ao psiquiatra Sheridan LeFanu
 
 
      Depois daquela noite tudo nela mudou. Ela agora era a senhora da casa. Tinha-nos em suas pequenas mãos. Nós a desejávamos acima de tudo. Era nossa! Ela nos beijava e pedia coisas. E obedecíamos como zumbis! Fui ficando cada vez mais fraco e, na mesma medida, apaixonado. Uma loucura havia me dominado! E não entendia como. Não havia explicação para isso. O domínio da pequena demônio sobre mim e minha filha era total! Quando ela se movia, nós nos movíamos. Quando ela respirava, nós respirávamos! Ela visitava nossos quartos todas as noites. E tirava o que queria. Eu ficava esperando. Ansioso. Aflito. Louco! E chorava, sim, quando percebia que ela não viria naquela noite. Passava a noite insone e ficava com olheiras roxas e pele cada vez mais pálida. Uma noite rastejei até um espelho e o rosto que me fitou não era o meu, não, era o de um possuído!
 
 
     Que Deus tenha misericórdia da minha alma!
 
 
    Minha filha. Minha pobre Minna! Era a preferida da pequena demônio. Creio que na verdade era o seu alvo desde o princípio! Eu, sequioso de suas caricias obedecia a Bianca como um cão. Fui testemunha de seu desejo abjeto por Minna. Deitavam-se juntas. Entrelaçavam seus corpos pequenos. Nus. E arfavam em pecado mortal.
 
 
     Como sabe, estou preso. Salvei a alma da minha filha! Tive que fazê-lo! O seu corpinho estava perdido para o demônio. Era um deles! Queimei seu corpo... Deus, eu fiz isso!
 
 
     Entreguei-me a polícia. Bianca fugiu diante de minha fúria. Sei que não vão crer-me mentalmente são. Mas eu sei. E o Doutor agora sabe. Ajude-me a denunciar esse monstro! Pelo bem da humanidade. Ajude-me!
 
 
Ass.: Dr. Brans S.
 
 
 

Londres.3 deJaneiro de 188...
Carta ao Dr. Vladimir T.
 
 
     Meu caro Dr. Vladimir T.Viajei para Orléans. Lá fiquei a par dos problemas causados pelo infame Dr. Brans. Um nobre local explicou-me que sua filhinha estava permanentemente traumatizada com o assassinato de sua amiga Minna.  O nobre ficou feliz quando soube que eu era um psiquiatra e pediu-me ajuda. Ajuda essa que não iria negar. Sim, a menina existe! Pobre inocente. Imagino por quais abusos essa pobre criança não deve ter passado nas mãos ímpias do Dr. Brans! Levei Bianca para casa comigo. Minha filha a amou! As duas não desgrudam. Dormem juntas até. Inocência, como alguém pode confundir isso! Uma noticia deixou-me, de certa forma, aliviado.  Eu sei, não é cristão. Perdoe-me. O Dr. Brans S. foi encontrado morto em sua cela. Uma desgraça, é verdade. Rasgou o próprio pulso. Com o sangue escreveu sandices nas paredes. Entre elas “Por Deus, destruam Bianca.”
 
 
Ass: Sheridan LeFanu.