JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

O CADÁVER

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia” Shakespeare.

O CADÁVER (José Mattos)

Seria uma noite como qualquer outra. Um som qualquer se arranhando na vitrola. A cama emitiria um rangido vez por outra devido ao ritmo da música que agitava levemente o corpo. Os olhos fixos observavam a fumaça que subia volátil indo incomodar a pequena aranha que passeava pelo teto visitando as suas armadilhas à procura de que algum desavisado se deixasse apanhar em suas teias. A essa hora a garrafa de vinho já viajaria lá pela metade da vasilha. Enfim, seria uma noite como quase todas as outras.

Seria.

Não fosse o grito que ecoou pelas proximidades como o estrondo de mil manadas desgovernadas a despencar montanha abaixo se desenfiando da mata. Um berro horroroso que despertou todos os meus instintos de insegurança. Movimentei-me pelo quarto como se invadisse morada alheia. Fiquei de pé, hirto no meio da sala, dividido entre a porta de saída e o quarto. Indeciso. O grito alucinado ecoava incessantemente em meus ouvidos.

Estava acuado, sem alternativa, como se estivesse pregado no cimento. Não ousava mexer um músculo do corpo, o sangue me gelava as veias, e, o suor frio começou a escorrer-me pelo rosto, sob os braços, descendo pelas pernas, encharcando meus chinelos.

Com muito custo, vencendo o meu torpor, consegui mover uma perna, logo depois a outra. Bisbilhotei a distância, através da vidraça que estava com as cortinas arregaçadas, meus olhos futucando o breu até chegar a uma meia-lua obscura que já se escondia timidamente no horizonte atrás das casas silenciosas. A cidade parecia desfalecida, sem latidos ou algazarras de gatos no cio. Nada. Atentei para a coruja que sempre vigiara o poste em frente de casa, com seu pescoço-parafuso gargalhando na madrugada, nem sinal de um soluçar ao menos.

O calafrio desandou num galope desenfreado ao simples pensamento extravagante. Próprio dos desesperados:

O que teria acontecido? Coisa de minha imaginação? Será que apenas eu teria ouvido tal sensação arrepiante? Estariam todos mortos nessa bendita vila, ou paralisados como eu?

Um vulto do lado externo da vidraça quase me arrancou o coração pela goela. Meus olhos tentaram fugir do vulto que me encarava do outro lado, mas eu não conseguia despregar os olhos da criatura. Fiquei nesse transe por tempo indizível, o coração oscilando entre trancos e sopitamentos. Meus olhos por fim caíram ao chão, suspirei dolorido arriando o corpo, sentando sobre os calcanhares. Queria desesperadamente sair do raio de visão da janela descortinada. Meu suspiro soou entrecortado. Tinha a boca salgada. Uma sede repentina irrompeu minhas entranhas. Queria água a qualquer custo, mas, o corpo não me obedecia para me transportar pelos cômodos. Bebi água no gargalo até quase me sufocar, deitado ao pé da geladeira, escorando o corpo com o cotovelo esquerdo. Havia deixado por onde rastejei até chegar na cozinha, um rastro úmido pelo piso. Ao invés de aliviar, a água desembestou mais ainda o fogo que me queimava as tripas.

Ouvi o rangido da maçaneta girando lentamente na porta de entrada. Isso interrompeu meu rastejo rumo ao quarto. O telefone saltou-me na idéia, não sabia ainda para quem, mas um desejo forte me impelia a usá-lo. Agora, da porta, vinham pancadas fortes. Meu desespero me lacerava os nervos.

Num esforço sobre-humano eu conseguia caranguejar rumo ao telefone, o suor me punha fogo nos olhos e fez as mãos por duas vezes escorregarem no piso encerado. Numa delas cheguei a bater com o queixo, amolecendo um pivô que há tempos eu protelava chumbar.

Agarrei o telefone com sofreguidão, mas ele fugia-me das mãos como uma enguia em fuga. A muito custo o fone chegou-me ao ouvido. Lá fora punhos batucavam na porta guinchando meu nome, batendo na porta. Coisa horrível de se ouvir em uma noite como aquela, principalmente quando o guinchado pronuncia seu nome. Como se um barrão laçado pelo pescoço o chamasse no meio da noite.

Uma voz me recebeu do outro lado da linha, uma voz familiar, mas não sei imaginar quem seja. Sei que me senti um pouco aliviado e mais confiante. Talvez por isso eu conseguisse então, mesmo bambo, me colocar de pé no meio do quarto.

O rumor aumentava do lado de fora e me puxava com uma força misteriosa até a porta. A curiosidade levou minha mão suada até a maçaneta. Num solavanco estrondei a porta contra a parede. O estrondo despertou a coruja de algum submundo onde provavelmente ela estivera até então enfiada. Bateu asas com um soluço e se perdeu novamente na noite.

Nunca imaginei em sã consciência que sentiria falta de uma maldita coruja. Do meio da penumbra, algo se movimentou me paralisando: alguém com a cabeça esfacelada cambaleou em minha direção. Eu, petrificado, quase desfalecendo, fiquei a olhar para a criatura que aos poucos foi se livrando do manto negro da noite e se colocando em minha frente, sob o raio de luz que saía porta afora. Já embalado pela febre, plantado no meio da porta, reconheci minhas roupas naquela figura disforme. O seu rosto trazia a marca do meu esgar, ali, plantado no canto da boca. Ficamos frente a frente por instantes, antes de um clarão abrupto desfalecer-me lentamente.

O dia amanheceu encantador, o sol invadiu minha janela, ouvi som de bandinha “provavelmente dos meninos do ginásio”, atestei em meia voz. Saí da cama alegre, estalei os ossos numa espreguiçada, corri para a porta, estava alegre por dentro. Arroubei-me porta afora, empurrei as bandas do portão e botei os olhos na rua. Queria ver a banda passar. Gritei e acenei para os passantes, mas ninguém me notou. Iam entretidos com a banda marcial soando buzinas, trombetas, sonoros carrilhões. Segui também o cortejo, todo animado que estava, entretido nos suspiros da alegre manhã. Foi bem adiante que notei o rumo que o cortejo tomara: o cemitério da cidade.

Experimentei o primeiro calafrio matinal. A banda fez silêncio. Atiraram terra sobre o caixão. Experimentei o segundo calafrio na manhã quando me deparei com meu nome escrito em letras bonitas na lápide em minha frente. Fiquei em dúvida se deveria voltar.