JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

Figueira assombrada

Minha avó paterna casou-se duas vezes. Seu primeiro marido chamava-se Giacomo. Os dois, naturais da Itália, conheceram-se na Argentina, casaram e vieram para o sul do Brasil, buscando uma vida melhor. Foram morar na região de colonização italiana. Giacomo ganhava a vida vendendo gado e os produtos que produzia (vinho, queijo, salame, etc.). Ficava vários dias longe de casa, pois viajava por várias cidades do interior do Rio Grande do Sul. Em uma estrada, próxima a Bento Gonçalves, havia uma figueira frondosa. Os moradores do local diziam que, à meia-noite, não era possível passar pela árvore, pois o lugar era "assombrado".

Voltando de uma viagem, cansado e ansioso por chegar em casa, Giacomo chegou na figueira poucos minutos antes da "hora fatídica". Não acreditava em almas do outro mundo, por isso seguiu tranqüilo. Ao aproximar-se da árvore, o cavalo empacou, empinou as orelhas e relinchou, assustado. O cavaleiro, impaciente, fincou as esporas e mandou que o animal avançasse. Não obteve resultado. Exasperado, bateu no cavalo com o relho. Ele não se moveu. Nesse momento, Giacomo sentiu alguma coisa agarrar sua coxa. A sensação foi como se tivessem encostado um ferro em brasa. Foi erguido do cavalo e arremessado para o outro lado da estrada. Tonto, levantou-se, deixou os animais e correu para casa. Lá chegando, aos gritos, chamou minha avó, que, assustada, abriu a porta. Giacomo não falava coisa com coisa. Após algum tempo e um chá de cidreira, ele conseguiu contar o que havia acontecido. Minha avó pediu que ele tirasse a bombacha, para verificar o local. Qual não foi seu espanto, ao ver que a calça estava queimada, e, na pele de seu esposo, havia a marca de cinco dedos!

Meu pai nos contou que vovó Maria dizia que, após esse dia, Giacomo não saiu mais sozinho à noite e quando precisava ir até a latrina, que ficava um pouco afastada da casa, pedia que ela o acompanhasse. A marca permaneceu na pele até sua morte.Meu pai não mentia e muito menos minha avó, por isso só posso dizer, parafraseando Shakespeare, que "entre o céu e a terra existem coisas que a nossa vã filosofia não consegue explicar".