JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

EXPURGAR O MAR

Expurgar o mal

Permitam-me que manche estas páginas níveas que têm pela frente, com o sangue que ainda escorre das minhas mãos assassinas. Eu sempre fui o mais sereno dos homens. Na vila onde vivo, as pessoas fitam-me com alguma compaixão, como se exibisse um cartaz a dizer, “tenham pena de mim”. Sempre foi assim. Em casa, na escola, no emprego. As pessoas têm tendência a tratar-me como um “coitadinho”. O pior é que eu acomodei-me a esta situação desconfortável, e assim tenho vivido.

Naquela noite de verão, eu estava deitado na cama. Fumava um cigarro e tinha o rádio ligado, quando fui perturbado pela visita dele. Irrompeu brandamente pelo meu quarto, como se ali vivesse. Estremeci ao olhar para ele. A primeira ideia que me assombrou foi a de que ele me ia matar. De seguida achei que ele não era humano. Mas mudei de ideias quando fitei os seus olhos ensanguentados.

-Acaba com eles, Vítor. – Grunhiu ele, sabedor do meu nome.

- Com eles, quem? – Redargui eu, com os lábios trémulos.

- Com os que te espezinham com o olhar... – A voz dele ressoara nas antecâmaras da minha mente. Ele sabia o que eu sentia verdadeiramente, quando as pessoas olhavam para mim com aquele ar penoso. Sentia-me espezinhado, sim!

- O que queres que eu lhes faça? – Inquiri cheio de medo.

- Mata-os. Expurga o mal que há neles. Acaba de uma vez por todas com esse teu sofrimento e verás que amanhã serás outra pessoa. Faz o que eu te mando, e serás dono de um poder e de uma força sobrenatural.

Inexplicavelmente, o ser tinha desaparecido do meu quarto com a mesma descrição com que entrara. Não me senti bem, e como estava calor, decidi dar uma volta pela praia. Precisava de apanhar um pouco de ar. Sentia que a loucura se estava a apoderar de mim. Quando cheguei à praia, deitei-me no areal e ali permaneci a contemplar as ondas, que teimavam em enrolar-se numa espuma branca que se desfazia no areal.

O meu momento de nostalgia foi interrompido pelos gritinhos histéricos de duas raparigas que passaram por mim, e que ao fitarem-me ali sossegado, reagiram com se tivessem acabado de ver um insecto. Além de se rirem, ainda se voltaram para trás, e voltaram a rir-se.

Acaba com eles, Vítor... Com os que te espezinham com o olhar – Vociferou a voz dele, do interior da minha alma sombria. Oh, sim. Ele tinha um poder desconcertante sobre mim. Eu era fraco demais para lhe sucumbir. Senti-me na obrigação de lhe obedecer. Olhei de novo, e lá estavam elas a fazer troça de mim. Fui ao carro, e da mala retirei uma chave de grifes de um metro e vinte, que eu usava nos andaimes, e pus-me ao caminho. Ultrapassei um breve caniçal, até as avistar. Lá estavam elas dentro dos carros, com os namorados. Estavam ambas debruçadas sobre eles. Faziam sexo oral.

Mata-os. Expurga o mal que há neles. Acaba de uma vez por todas com esse teu sofrimento e verás que amanhã serás outra pessoa. Avancei num espasmo de loucura perversa, e mesmo antes que eles tivessem tempo de se aterrorizarem com a minha presença, espanquei-os sem clemência. Desferi inúmeros golpes nas suas cabeças, pernas e braços, que nem tiveram tempo para me suplicarem pela vida. Matei-os a todos. -Então, não se riem agora, suas putas? – Grunhi eu, sentindo um prazer infindável a invadir a minha pessoa.

Faz o que eu te mando, e serás dono de um poder e de uma força sobrenatural.

Oh, sim! Ele sabia. O meu visitante misterioso sabia do que falava. Eu agora sentia e experimentava o poder. Ninguém mais ousava olhar para mim daquela maneira. Eu agora, era Deus!

A aurora irrompeu brandamente pela neblina nocturna, quando eu acordei no silêncio do meu quarto. Sentia-me confuso, tivera um pesadelo macabro, em que assassinara quatro jovens, e...Não! Não pode ser! As minhas mãos estão cheias de sangue!...a minha roupa também...Não! Pranteava desesperadamente, quando notei a presença de alguém perto de mim. A primeira ideia que se me afigurou, foi de um polícia com um mandato de prisão. Mas esta ideia desvaneceu-se quando fitei o vulto do ser que me visitara na noite anterior.

- És grande, Victor! Estou muito orgulhoso de ti. – Grunhiu ele, confiante.

- Quem és tu? O que queres de mim? – Indaguei eu, impacientemente.

- Não interessa quem eu sou; mas sim, o que és tu? – Atalhou ele, exibindo um semblante austero e aterrador.

- O que sentis-te, depois de teres esmigalhado a cabeça aquelas putas, hein? Diz-me. Poder, não foi? Confessa lá!

- Sim! É verdade. Senti uma força tão monumental que era capaz de derrubar um exército de cem homens! – Acrescentei eu, colocando-me de pé, de frente para ele.

-Mas não chega Victor. Não é suficiente. Oh, não! Ainda há por aí, muitos pecadores. Muitos veículos do mal. Acaba com eles todos. Não deixes que eles proliferem por aí. – Avisou ele, esgueirando-se de novo sem eu perceber.

Voltei de novo à praia do osso da baleia. Laureei por ali tranquilamente. O reduto dos pecadores e veículos do mal, era ali. Era só uma questão de tempo e dizimava-os a todos. A lua estava absoluta, e iluminava a noite quente. Vi três indivíduos fortes a virem na minha direcção. Eu continuei com a minha marcha, normalmente. Eles estavam cada vez mais perto, e eu senti que a minha bolha de ar estava a ser invadida pela presença daquele grupo. Senti que um deles me deu um encontrão no ombro quando passou por mim, e sem se deter, voltou-se e desafiou-me:

-És gordo? – Indagou com o rosto cheio de reprovação.

- Tu, é que vieste contra mim! – Respondi eu, secamente.

- Vai-te f...pá. Pareces um rato do esgoto! – Proferiu ele, num tom áspero e de desprezo.

Ainda há por aí, muitos pecadores. Muitos veículos do mal.

As palavras dele ribombaram na minha mente, como um trovão numa noite de placitude. E o meu espírito demoníaco e perverso, actuou, mais uma vez, por mim!

- Deves pensar que estás a falar com o cabrão do teu pai! – Vociferei secamente, quando eles já se alongavam, uns metros adiante de mim. Estas minhas palavras fizeram com que eles interrompessem a marcha e se voltassem para mim. Vi com normalidade, os olhos deles, plenos de raiva a procurarem o meu rosto, e de seguida, volveram na minha direcção para me espancar. Mas eu tinha uma surpresa para eles. Em fracções de segundo puxei de duas 6/35, e apontei na direcção deles. Vocês haviam de ver os rostos deles, repletos de terror quando eu dei o primeiro tiro. Depois o segundo, e o terceiro...enfim. Crivei-lhes as caras odiosas e trocistas com balas incandescentes. Oh, sim. Agora já não troçavam de mais ninguém. Eu é que ainda me ri, quando lhes urinei para cima dos cadáveres.

Na manhã seguinte, a porta do meu quarto foi arrombada pela polícia, que me prendeu, acusando-me do homicidio de sete pessoas. -Sete pessoas? Eu nunca matei ninguém. – Barafustei, cheio de confiança. É obvio que os polícias me fixaram com bastante incredulidade. Um deles mostrou-me a chave de grifes que eu conservava debaixo da cama, e que ainda estava suja com sangue. As duas 6/35, também me foram apreendidas, pois permaneciam sob o meu travesseiro, que até deitava um odor a pólvora desconcertante. E, indiscutivelmente, o sangue das vitimas que se conservava nas minhas mãos e nas minhas roupas.

Aleguei que tinha as provas tinham sido forjadas. Descrevi-lhes o individuo que me visitava todas as noites, e que era concerteza o autor daqueles tenebrosos crimes. O comandante, demonstrando grande lucidez, pegou no que me pareceu, um processo policial, e dele libertou uma fotografia.

- É este o individuo que o visita? – Inquiriu ele, exibindo o retrato na direcção dos meus olhos.

-Sim. É este mesmo! – Clamei eu, com um fluxo ávido de alívio, que me ventilou o cérebro que estava quase a rebentar de tanta inquietação.

-Então o senhor confessa ser o autor de todos estes crimes, não é verdade? – Afirmou ele, com grande naturalidade.

-Porquê que havia de confessar? – Inquiri eu, repleto de incredulidade.

Foi quando o Comissário segurou um espelho em frente da minha face, obrigando-me a encarar com o horror a minha outra face demoníaca.

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por Alexandre Faleiro