JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

CASARÃO MAL-ASSOMBRADO

Antônio José é nome de um amigo de nossa família, morador de Rio Comprido.

Contou-me que, em 1943, quando ele e sua esposa, Maria das Dores, a filha Maria das Dores, e uma comadre, passaram a residir no número 193 daquela rua, foram vítimas de uma série de casos extraordinários.

Essa casa, que ficava no alto, perto da caixa d'água, e próxima ao morro de São Carlos, estava localizada à beira desse morro, em cujo despenhadeiro se encontrava uma chácara com enorme área arborizada.

Essa área separava justamente a rua Ambiré do morro de São Carlos.

O prédio era de construção antiga, com altos e baixos, sendo que a família ocupava o sobrado, de onde se podia apreciar a vatidão da chácara que se estendia embaixo, tendo de um lado um abismo e , do outro, o morro de São Carlos.

A residência era ótima e seria a habitação ideal, se não houvessem ocorrido os acontecimentos que passo a narrar.

Todas as noites, a família era atormentada de maneira inexplicável, pois assim que se recolhia, começavam a cair pedras no telhado, como se o próprio Belzebu se empenhasse em arrazar aquela vivenda.

Enquanto isso, ouvia-se o ruído característico de forte ventania, que parecia varrer o arvoredo lá embaixo, na chácara.

Era horrível aquela situação: as pedras caindo sobre o telhado e a ventania zunindo nas árvores.

 Assim se passavam noites, sem que a família não mais conhecesse a tranquilidade do sono.

Certa vez, alguém se lembrou de um crucifixo que havia em casa.

Talvez, com ele, poderiam se ver livres de tamanha perseguição! À noite, quando as pedras começavam a cair no telhado e a bater nas janelas, num fragor de ensurdecer, saíram todos para o quintal, um deles empunhando o crucifixo e uma vela acesa, concentrando-se em orações fervorosas. Tudo então silenciou completamente.

Entretanto, o processo serviu somente para acalmar provisoriamente os fenômenos, pois mal a família reingressava na casa, recomeçavam os rumores com todo o cortejo de fatos anormais.

Se as pessoas tornavam ao quintal, repetindo as exortações, novamente tudo silenciava, muito embora os cães pertencentes a uma família que morava ao lado oposto, não parassem de latir, soltando uivos lancinantes, como se alguém os tivesse chicoteando.

Vários meses decorreram assim, sem que qualquer solução fosse dada ao problema.

Antônio José, certo dia, no auge do desespero, lembrou-se de fazer uma promessa a Nossa Senhora das Dores, venerada na Capela do Largo do Rio Comprido: faria uma caminhada, de joelhos, até o Senhor Morto, na 6ª feira da Paixão.

Cumprida a promessa, a partir daquele dia, a casa ficou definitivamente livre daquela perseguição diabólica.