JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

A Morte é a Liberdade

Finalmente acordou. Sentiu calor e sede. Estava perdido. Olhou a sua volta e viu que estava só, não havia ninguém por perto, pelo menos ninguém vivo. O chão estava forrado de ossos humanos, e não havia nenhuma vegetação. Um cheiro forte contaminava o ar.

César despiu a camiseta e começou a caminhar. A cada passo ossos estalavam no chão. A sede e o calor aumentavam e atordoavam a mente de César. Lutava constantemente com o desespero. Caiu várias vezes no chão, e chegou a se assustar ao ver sua mão suja de sangue. Mas o sangue não era dele.

Depois de muito caminhar sem rumo, enxergou algo no horizonte que parecia ter forma humana. Estava exausto. Gritou. Nenhuma resposta. Gritou novamente. Nada. Parou um pouco, juntou forças e correu cambaleante em direção ao vulto que avistara. O calor tornara-se insuportável. Era movido pela esperança, mas as pernas doíam muito.

Aproximava-se cada vez mais do vulto. Podia agora ver que se tratava de um homem nu que parecia estar bem machucado. Começou a ouvir gemidos.

Logo mais a frente havia um vale. César estava a um passo daquele homem quando olhou para o vale e parou espantado. O homem nu começou a correr para lá.

A cena que presenciava era horrível. No vale havia uma espécie de poço no centro, o qual estava cheio de lava. Várias pessoas mergulhavam lá, mergulhavam para a morte certa. Gritos aterrorizantes eram ouvidos. Em volta do poço, pessoas matavam umas as outras. Algumas comiam carne humana e bebiam sangue. Pedaços de corpos estavam espalhados por todo lado.

César então começou a compreender a situação. Naquele lugar, todos vagavam até a morte, ou até enlouquecerem. A sede, a fome, o calor e o desespero levavam as pessoas à insanidade. César parecia a pessoa em melhores condições por lá.

Algumas pessoas corriam desesperadamente. Penalizado, César começou a empurrá-las no poço, para aliviar o sofrimento delas. Aquele homem que avistara anteriormente correu em sua direção, pulou sobre César e começou a mordê-lo. César, caído no chão e dominado pela dor e pela cólera, pegou o homem pelo pescoço e começou a enforcá-lo com as mãos. Olhou fixamente o homem nos olhos e viu a vida abandonar aquele corpo. Foi uma morte silenciosa.

Ao ver o crime que cometera, César gritou alto e chorou. Ninguém lhe deu atenção. Aquele espetáculo de sangue continuava. Então, ele levantou-se devagar, caminhou até o poço de lava e gritou novamente:

-- A morte é a liberdade!

Fechou os olhos e mergulhou no poço.