JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

A LOCOMOTIVA FANTASMA

Foi em Castelo, no Espírito Santo. No dia 14 de março de 1946, meu pai, Manoel, saiu muito cedo de casa. Ia levar à estação da Estrada de Ferro uma encomenda de pessoa da família, residente em Cachoeiro de Itapemirim.

 Não era a primeira vez que meu pai fazia tal coisa; freqüentemente, até, servia-se dos préstimos de um velho maquinista, seu conhecido, que se encarregava de fazer chegar as encomendas ao seu destino.

O trem, que era misto, partia às 5 horas e 30 minutos, tendo meu pai chegado à estação um quarto de hora antes. Dirigiu-se à máquina, mas vendo que não havia ninguém dentro, resolveu esperar que o amigo chegasse.

De certo tinha ido tomar um café.

Mas o tempo foi passando 5, 8, 10 minutos. Já estava na hora da locomotiva ir apanhar a composição, e nada do maquinista chegar.

Nisto ouviu-se o apito do manobreiro, ordenando que a máquina se pusesse em movimento, indo encostar-se aos vagões para o engate. Meu pai, que conhecia o serviço, ainda pensou com seus botões:

- Vai ter que esperar que o maquinista chegue. No mesmo instante, porém e com certo espanto, notou que a locomotiva começava a se movimentar, caminhando para a composição.

Depois ouviu aquele ruído surdo, tão característico do entrechoque dos engates, e viu a locomotiva voltar, vagarosamente, sem esperar sinal algum. O manobreiro gritou:

- Êêêêê! Como é isto? Você ficou maluco, seu maquinista? Tem que esperar o sinal! Volte que não engatou!

Mas a locomotiva foi seguindo para frente, sempre em marcha lenta; passou por meu pai e foi estacionar exatamente no local de onde havia saído. O manobreiro veio correndo, para tomar satisfações:

- Então, como é? Isto é a casa da sogra, ou... Mas, ao subir os degraus da máquina, parou, meio desconsertado, murmurando:

- Diabo! Ou esta gente saltou sem eu ver... ou este negócio estava andando sozinho? - e saiu ruminando palavras, enquanto voltava para o seu lugar.

Já passava das 5 horas e 30 minutos o maquinista, que por um motivo qualquer perdera o horário, chegava esbaforido.

Meu pai dirigiu-se a ele, a fim de lhe entregar a encomenda.

Viu, porém, que não era seu velho conhecido, e sim um outro, que subiu à máquina, apressadamente, e tratou de cumprir sua obrigação. Nisto aproximava-se o manobreiro, a quem meu pai perguntou:

- Maquinista novo?

- Sim, este peste, que me chega com quase 10 minutos de atraso!

- E o outro? o que eu conhecia?

- O outro? Pois não sabe? Morreu, coitado, há oito dias, num desastre na linha Coutinho-Alegre.

E ajuntou, suspirando:

- Aquele sim! Era eu dar o sinal, e a locomotiva fazia logo o que tinha de fazer!