JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

A Cabana

Pode parecer uma lenda de verdade mas isso aconteceu comigo à um ano e meio atrás.

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CONTOS MISTERIOSOS

O CADÁVER

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia” Shakespeare.

O CADÁVER (José Mattos)

Seria uma noite como qualquer outra. Um som qualquer se arranhando na vitrola. A cama emitiria um rangido vez por outra devido ao ritmo da música que agitava levemente o corpo. Os olhos fixos observavam a fumaça que subia volátil indo incomodar a pequena aranha que passeava pelo teto visitando as suas armadilhas à procura de que algum desavisado se deixasse apanhar em suas teias. A essa hora a garrafa de vinho já viajaria lá pela metade da vasilha. Enfim, seria uma noite como quase todas as outras.

Seria.

Não fosse o grito que ecoou pelas proximidades como o estrondo de mil manadas desgovernadas a despencar montanha abaixo se desenfiando da mata. Um berro horroroso que despertou todos os meus instintos de insegurança. Movimentei-me pelo quarto como se invadisse morada alheia. Fiquei de pé, hirto no meio da sala, dividido entre a porta de saída e o quarto. Indeciso. O grito alucinado ecoava incessantemente em meus ouvidos.

Estava acuado, sem alternativa, como se estivesse pregado no cimento. Não ousava mexer um músculo do corpo, o sangue me gelava as veias, e, o suor frio começou a escorrer-me pelo rosto, sob os braços, descendo pelas pernas, encharcando meus chinelos.

Com muito custo, vencendo o meu torpor, consegui mover uma perna, logo depois a outra. Bisbilhotei a distância, através da vidraça que estava com as cortinas arregaçadas, meus olhos futucando o breu até chegar a uma meia-lua obscura que já se escondia timidamente no horizonte atrás das casas silenciosas. A cidade parecia desfalecida, sem latidos ou algazarras de gatos no cio. Nada. Atentei para a coruja que sempre vigiara o poste em frente de casa, com seu pescoço-parafuso gargalhando na madrugada, nem sinal de um soluçar ao menos.

O calafrio desandou num galope desenfreado ao simples pensamento extravagante. Próprio dos desesperados:

O que teria acontecido? Coisa de minha imaginação? Será que apenas eu teria ouvido tal sensação arrepiante? Estariam todos mortos nessa bendita vila, ou paralisados como eu?

Um vulto do lado externo da vidraça quase me arrancou o coração pela goela. Meus olhos tentaram fugir do vulto que me encarava do outro lado, mas eu não conseguia despregar os olhos da criatura. Fiquei nesse transe por tempo indizível, o coração oscilando entre trancos e sopitamentos. Meus olhos por fim caíram ao chão, suspirei dolorido arriando o corpo, sentando sobre os calcanhares. Queria desesperadamente sair do raio de visão da janela descortinada. Meu suspiro soou entrecortado. Tinha a boca salgada. Uma sede repentina irrompeu minhas entranhas. Queria água a qualquer custo, mas, o corpo não me obedecia para me transportar pelos cômodos. Bebi água no gargalo até quase me sufocar, deitado ao pé da geladeira, escorando o corpo com o cotovelo esquerdo. Havia deixado por onde rastejei até chegar na cozinha, um rastro úmido pelo piso. Ao invés de aliviar, a água desembestou mais ainda o fogo que me queimava as tripas.

Ouvi o rangido da maçaneta girando lentamente na porta de entrada. Isso interrompeu meu rastejo rumo ao quarto. O telefone saltou-me na idéia, não sabia ainda para quem, mas um desejo forte me impelia a usá-lo. Agora, da porta, vinham pancadas fortes. Meu desespero me lacerava os nervos.

Num esforço sobre-humano eu conseguia caranguejar rumo ao telefone, o suor me punha fogo nos olhos e fez as mãos por duas vezes escorregarem no piso encerado. Numa delas cheguei a bater com o queixo, amolecendo um pivô que há tempos eu protelava chumbar.

Agarrei o telefone com sofreguidão, mas ele fugia-me das mãos como uma enguia em fuga. A muito custo o fone chegou-me ao ouvido. Lá fora punhos batucavam na porta guinchando meu nome, batendo na porta. Coisa horrível de se ouvir em uma noite como aquela, principalmente quando o guinchado pronuncia seu nome. Como se um barrão laçado pelo pescoço o chamasse no meio da noite.

Uma voz me recebeu do outro lado da linha, uma voz familiar, mas não sei imaginar quem seja. Sei que me senti um pouco aliviado e mais confiante. Talvez por isso eu conseguisse então, mesmo bambo, me colocar de pé no meio do quarto.

O rumor aumentava do lado de fora e me puxava com uma força misteriosa até a porta. A curiosidade levou minha mão suada até a maçaneta. Num solavanco estrondei a porta contra a parede. O estrondo despertou a coruja de algum submundo onde provavelmente ela estivera até então enfiada. Bateu asas com um soluço e se perdeu novamente na noite.

Nunca imaginei em sã consciência que sentiria falta de uma maldita coruja. Do meio da penumbra, algo se movimentou me paralisando: alguém com a cabeça esfacelada cambaleou em minha direção. Eu, petrificado, quase desfalecendo, fiquei a olhar para a criatura que aos poucos foi se livrando do manto negro da noite e se colocando em minha frente, sob o raio de luz que saía porta afora. Já embalado pela febre, plantado no meio da porta, reconheci minhas roupas naquela figura disforme. O seu rosto trazia a marca do meu esgar, ali, plantado no canto da boca. Ficamos frente a frente por instantes, antes de um clarão abrupto desfalecer-me lentamente.

O dia amanheceu encantador, o sol invadiu minha janela, ouvi som de bandinha “provavelmente dos meninos do ginásio”, atestei em meia voz. Saí da cama alegre, estalei os ossos numa espreguiçada, corri para a porta, estava alegre por dentro. Arroubei-me porta afora, empurrei as bandas do portão e botei os olhos na rua. Queria ver a banda passar. Gritei e acenei para os passantes, mas ninguém me notou. Iam entretidos com a banda marcial soando buzinas, trombetas, sonoros carrilhões. Segui também o cortejo, todo animado que estava, entretido nos suspiros da alegre manhã. Foi bem adiante que notei o rumo que o cortejo tomara: o cemitério da cidade.

Experimentei o primeiro calafrio matinal. A banda fez silêncio. Atiraram terra sobre o caixão. Experimentei o segundo calafrio na manhã quando me deparei com meu nome escrito em letras bonitas na lápide em minha frente. Fiquei em dúvida se deveria voltar.

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CONTOS MISTERIOSOS

O Cão Da Morte

Foi por intermédio de William P. Ryan, correspondente de um jornal americano, que ouvi falar pela primeira vez no caso. Estava jantando com ele em Londres na véspera de seu regresso a Nova York e, por acaso, mencionei que na manhã seguinte pretendia ir a Folbridge.

Ele levantou os olhos e perguntou abruptamente:

- Folbridge, na Cornualha?

Ora, é raríssima a pessoa que sabe que existe Folbridge, na Cornualha. Todo mundo sempre pensa que se trata de Folbridge em Hampshire. Por isso o conhecimento de Ryan despertou minha curiosidade.

-É - respondi. - Você já esteve lá?

Ele limitou-se a praguejar. Depois perguntou se por acaso eu não conhecia uma casa chamada Trearne, que ficava por lá.

Meu interesse aumentou.

- Claro que conheço. Por sinal, é para lá que eu vou.

É a casa da minha irmã.

-Puxa! - exclamou William P. Ryan. - Só faltava mais essa!

Sugeri que parasse de fazer comentários enigmáticos e se explicasse melhor.

- Bem - disse ele. - Para isso terei que começar por uma experiência que tive no início da guerra.

Suspirei. A história que estou contando aconteceu em 1921. A última coisa que podia me interessar era relembrar a guerra, graças a Deus já quase esquecida... Além do mais, eu sabia que William P. Ryan tinha o costume de ser incrivelmente prolixo quando se punha a descrever suas experiências de combate.

Mas agora não havia mais jeito de impedir.

- No princípio da guerra, como acho que você sabe, eu me encontrava na Bélgica a serviço do jornal... andando de um lado para o outro. Pois existia um lugarejo... vamos chama-lo de X. A aldeia mais insignificante que já se viu, mas onde há um convento bastante grande. Freiras de branco, como é mesmo que elas se chamam? ... Sei lá o nome da ardem. Enfim, não vem ao caso. Pois esta cidadezinha ficava bem no caminho da avançada alemã. Os boches chegaram ...

Agitei-me incômodo no assento. William P. Ryan levantou a mão, para me tranqüilizar.

- Não se assuste - disse. - Não é uma história de atrocidades germânicas. Podia ter sido, talvez, mas não foi. Para ser franco, aconteceu exatamente o contrário. Os boches atacaram o tal convento ... e quando entraram, a coisa toda voou pelos ares.

- Puxa! - exclamei , espantado.

- Negócio estranho, não é? Claro que a primeira coisa que eu diria é que os boches estavam festejando a vitória e começaram a brincar com seus próprios explosivos. Mas parece que não havia nenhuma coisa deste tipo entre os armamentos que eles carregavam. Não era uma unidade encarregada do transporte de dinamite. Pois muito bem, eu então pergunto a você o que é que um bando de religiosas entende de explosivos? Que freiras danadas, hein?

- De fato, é estranho - concordei.

- Fiquei interessado em ouvir a opinião dos camponeses sobre o assunto. Para eles a explicação não podia ser mais simples. Tratava-se de um milagre moderno, sensacional, cem por cento eficaz. Segundo eles, uma das freiras havia criado uma espécie de fama ... uma vocação de santa ... entrava em transe e tinha visões. E me disseram que foi ela a autora da proeza. Pediu que um raio fulminasse o invasor impiedoso ... e não há que negar que fulminou mesmo ... e tudo mais que se encontrava por perto. Milagre bem eficaz, esse!

"Nunca consegui apurar a verdade direito ... não deu tempo. Mas naquela época surgiam milagres por tudo quanto é canto ... anjos em Mons, e assim por diante. Escrevi o artigo, adicionei uma boa dose de pieguice, explorei bem o lado religioso, e mandei pro jornal. Causou sucesso nos Estados Unidos. Era o tipo de coisa que gostavam de ler naquele tempo.

"Mas (não sei se você vai compreender isto) ao escrever o artigo, fiquei meio interessado. Achei que gostaria de saber o que tinha realmente acontecido. No próprio local não havia nada para se ver. Ainda restavam duas paredes de pé, numa delas existia uma grande marca de pólvora preta com a forma exata de um enorme cão de caça. Os camponeses das imediações andavam mortos de medo da tal marca. Botaram-lhe o nome de Cão da morte e não passavam por lá depois que anoitecia.

"A superstição é sempre uma coisa interessante. Resolvi procurar a freira autora da proeza. Parecia que continuava viva. Mas tinha vindo para a Inglaterra, junto com um grupo de outros refugiados. Me dei ao trabalho de localizá-la. Descobri que havia ido para Trearne, em Folbridge, na Cornualha."

Confirmei com a cabeça.

- Minha irmã acolheu uma porção de refugiados belgas no começo da guerra. Uns vinte, mais ou menos.

- Pois me prometi que, quando tivesse tempo, iria procurar a tal freira. Queria que ela me contasse a sua própria versão da tragédia. Depois, andando sempre às voltas com uma coisa e outra, não pensei mais no assunto. A Cornualha, de qualquer forma, fica meio fora de mão. Para falar a verdade, tinha-me esquecido por completo dessa história, até que você, ao mencionar Folbridge há pouco, trouxe tudo de volta à minha memória.

- Vou perguntar à minha irmã - disse eu. - Ela deve ter ouvido falar no caso. Só que os belgas, naturalmente, já foram repatriados há muito tempo.

- Lógico. Mesmo assim, se sua irmã souber de alguma coisa, eu gostaria muito que você me comunicasse.

- Pode ficar descansado - prometi.

E a coisa ficou nesse pé.

Foi no dia seguinte à minha chegada a Trearne que me lembrei da história. Minha irmã e eu estávamos tomando chá no terraço.

- Kitty - perguntei, - não havia uma freira entre os belgas que você acolheu?

- Você não quer dizer a irmã Marie Angelique, não é?

- É possível que sim - respondi, precavido. - Me fale sobre ela.

- Ah, meu caro! É uma criatura simplesmente fantástica. Ainda mora aqui, você sabia?

- Quê? Aqui em casa?

- Não, não, na aldeia. O Dr. Rose ... lembra-se do Dr. Rose?

Sacudi a cabeça.

- Eu me lembro de um velho de seus oitenta e três anos.

- O Dr. Laird? Não, esse já morreu. Faz pouco tempo que o Dr. Rose veio para cá. É bem moço e cheio de idéias avançadas. Se tomou de um interesse enorme pela irmã Marie Angelique. Sabe, ela sofre de alucinações e não sei mais o quê, e pelo jeito é tremendamente interessante sob o ponto de vista médico. Coitada, não tinha para onde ir ... e realmente, na minha opinião, era bem amalucada ... só que de uma maneira comovente, se é que você me entende ... pois bem, como eu ia dizendo, ela não tinha para onde ir e o Dr. Rose, muito gentilmente, arrumou para que ela ficasse na aldeia. Creio que está escrevendo uma monografia ou seja lá o que for que os médicos escrevem, a respeito dela.

Fez uma pausa e depois perguntou:

- Mas o que é que você sabe dela?

- Ouvi uma história bastante curiosa.

E contei exatamente o que Ryan tinha medito. Kitty ficou interessadíssima.

- Ela parece mesmo o tipo da pessoa que seria capaz de mandar você pelos ares ... entende o que eu quero dizer, não é?

- Estou achando - respondi, cada vez mais curioso, - que preciso mesmo falar com essa moça.

- Pois fale. Eu gostaria de saber sua opinião sobre ela. Mas primeiro procure o Dr. Rose. Por que não vai até a aldeia depois do chá?

Aceitei a sugestão.

Encontrei o Dr. Rose em casa e me apresentei. Parecia ser um rapaz simpático, mas havia qualquer coisa na sua personalidade que não me agradou muito. Era prepotente demais para deixar a gente inteiramente à vontade.

Ficou bem atento quando mencionei a irmã Marie Angelique. Era evidente que estava profundamente interessado. Contei-lhe a história que tinha ouvido de Ryan.

- Ah! - exclamou, pensativo. - Isso explica uma porção de coisas.

Levantou rápido os olhos para mim e continuou.

- O caso, de fato, é incrivelmente interessante. Quando ela chegou aqui, era evidente que tinha sofrido algum choque muito grande. Encontrava-se também num estado de grave perturbação mental. Era dada a alucinações de uma natureza simplesmente desconcertante. A personalidade dela é absolutamente fora do comum. Talvez o senhor queira vir junto comigo para lhe fazermos uma visita. Vale a pena conversar com ela .

Concordei prontamente.

Dirigimo-nos a um pequeno chalé nos arredores da aldeia. Folbridge é um lugar muito pitoresco. Fica na foz do rio Fol, sobretudo na margem leste; a margem oeste é escarpada demais para ser povoada, o que não impede que existam algumas casas construídas temerariamente lá por aqueles penhascos. A do médico, por exemplo, estava encarapitada bem na extremidade do penhasco do lado oeste. Dali se avistavam as grandes ondas batendo contra os rochedos negros.

O pequeno chalé para onde agora nos dirigíamos ficava afastado da costa, sem vista para o mar.

- A enfermeira local mora aqui - explicou o Dr. Rose.

- Eu providenciei para que a irmã Marie Angelique se hospedasse com ela. É melhor que permaneça sob cuidados especiais.

- Ela tem comportamento normal? - perguntei , curioso.

- Daqui a pouco o senhor verá com seus próprios olhos - respondeu-me, sorrindo.

A enfermeira local, uma mulherzinha baixota e simpática, estava saindo de bicicleta quando chegamos.

- Boa tarde, enfermeira. Como vai a paciente? - gritou o médico.

- Como sempre, doutor. Sentada lá dentro com as mãos no colo e o espírito ausente. Muitas vezes não responde quando lhe falo, apesar de que deve-se levar em conta que ainda não entende bem o inglês.

Rose concordou com a cabeça e, enquanto a enfermeira saía pedalando pela estrada afora, foi até a porta do chalé, bateu com força e entrou.

A irmã Marie Angelique estava reclinada numa preguiçosa perto da janela. Virou a cabeça para o nosso lado.

Tinha um rosto estranho - pálido, transparente, com olhos imensos. Pareciam conter uma infinidade de tragédias.

- Boa tarde, irmã - disse o médico, em francês.

- Boa tarde, M. le docteur.

- Permita-me apresentar-lhe um amigo, Mr. Anstruther.

Fiz uma mesura. Ela inclinou a cabeça com um leve sorriso.

- Como está hoje? - perguntou o médico, sentando-se a seu lado.

- Como sempre. - Houve uma pausa. Depois continuou. - Nada me parece real. São dias ... meses ... ou anos que passam? El mal sei. Só meus sonhos me parecem reais.

- Ainda sonha muito, então?

- Sempre ... sempre ... e, o senhor compreende? ... os sonhos parecem mais reais do que a vida.

- Sonha com seu país ... com a Bélgica?

Ela sacudiu a cabeça.

- Não. Sonho com um país que nunca existiu ... nunca.

Mas isso o senhor está cansado de saber, M. le docteur. Já lhe contei várias vezes. - Parou e depois disse bruscamente:

- Mas talvez este senhor também seja médico ... um especialista de doenças do cérebro?

- Não, não.

Rose quis tranquilizá-la, mas enquanto sorria, notei como seus dentes caninos eram incrivelmente pontudos e me ocorreu que havia qualquer coisa de lobo nele. Prosseguiu:

- Achei que talvez tivesse interesse em conversar com Mr. Anstruther. Ele conhece um pouco a Bélgica. Ultimamente recebeu notícias do seu convento.

Os olhos dela se viraram para mim. Senti que avermelhei de leve.

- Não é nada, realmente - me apressei a explicar. - Mas outra noite estava jantando com um amigo que me descreveu as paredes desmoronadas do convento.

- Quer dizer então que desmoronaram!

Era uma exclamação sufocada, dirigida mais a ela própria do que a nós mesmos. Depois, olhando-me mais uma vez, perguntou hesitante:

- Diga-me monsieur, o seu amigo não descreveu como ... de que maneira ... desmoronaram?

- Foi devido a uma explosão - respondi, e acrescentei:

- Os camponeses têm medo de passar lá de noite.

- Por quê?

- Por causa de uma marca preta nos escombros de uma parede. São muito supersticiosos.

Ela se curvou para a frente.

- Diga-me, monsieur ... depressa ... depressa ... diga-me! Como é esta marca?

- Tem a forma de um enorme cão de caça - respondi.

- Os camponeses lhe botaram o nome de Cão da Morte.

- Ah! - exclamou num grito. - Então é verdade ... é verdade. Tudo o que eu me lembro é verdade. Não foi nenhum pesadelo. Isso aconteceu! Aconteceu!

- O que aconteceu irmã? - perguntou o médico em voz baixa.

Ela se virou ansiosa, para ele.

- Eu me lembrava. Lá nos degraus, eu me lembrava.

Me lembrava de tudo. Usei o poder que tínhamos antigamente. Fiquei parada nos degraus do altar e pedi que não se aproximassem. Mandei que fossem embora, em paz. Não quiseram ouvir, continuaram vindo apesar das minhas advertências. E aí ... - Curvou-se para frente e fez um gesto estranho. - E aí eu soltei o Cão da Morte em cima deles ...

Recostou-se de novo na cadeira, estremecendo da cabeça aos pés, os olhos fechados.

O médico se levantou, foi buscar um copo no armário, encheu de água até o meio, pingou duas gotas de um frasquinho que tirou do bolso, e depois levou para ela.

- Beba isto aqui - pediu, autoritário.

Ela obedeceu - maquinalmente, por assim dizer. Tinha o olhar distante, como se estivesse contemplando uma visão que só ela podia enxergar.

- Mas então tudo é verdade - murmurou. - Tudo. A cidade dos círculos, as pessoas de cristal ... tudo. É tudo verdade.

- Parece que sim - concordou Rose.

Falava em voz baixa, apaziguadora, com o nítido propósito de estimular e não perturbar a associação de idéias da religiosa.

- Fale-me da cidade - pediu. - Da Cidade dos Círculos, não foi isso que você disse?

- Sim ... havia três círculos - respondeu maquinalmente, distraída. - O primeiro se destinava aos eleitos, o segundo às sacerdotisas e o ultimo aos sacerdotes.

- E no centro?

Ela tomou fôlego com veemência e a voz adquiriu um tom de indescritível pavor.

- A casa de Cristal ...

Ao pronunciar essas palavras, levantou a mão direita e traçou com o dedo um contorno qualquer sobre a testa.

Seu corpo pareceu mais rígido e, sempre de olhos fechados, oscilou um pouco - depois, de repente, endireitou-se de um salto, como se tivesse acordado bruscamente.

- Que foi? - perguntou, confusa. - Que que eu estava falando?

- Não foi nada - respondeu Rose. - Você está cansada. Quer descansar. Nós já vamos embora.

- Então - disse Rose, já do lado de fora. - Qual foi a sua impressão?

Lançou-me um olhar penetrante enquanto caminhávamos.

- Acho que ela está completamente desequilibrada - respondi, devagar.

- Foi isso que lhe pareceu, é?

- Não ... para dizer a verdade, ela quase me convenceu ... de uma maneira até estranha. Ouvindo o que ela falava, tive a impressão de que, de fato, havia feito tudo aquilo que descrevia ... operando uma espécie de gigantesco milagre. O jeito como ela acredita nisso me parece bastante autêntico. É por isso que ...

- É por isso que o senhor diz que ela está desequilibrada. Tem razão. Mas agora encare o caso sob outro aspecto. Suponhamos que ela tenha, realmente, feito aquele milagre ... suponhamos que ela, pessoalmente, tenha destruído um prédio e centenas de seres humanos.

- Pelo simples poder da vontade? - retruquei, sorrindo.

- Não diria bem isso. O senhor sabe que uma pessoa pode destruir uma multidão apertando um botão que controla um sistema de minas.

- Sim, mas isso é uma coisa mecânica.

- De fato, é uma coisa mecânica, mas é a utilização e o controle de forças naturais. As trovoadas e a usina elétrica são, fundamentalmente, a mesma coisa.

- Sim, mas para controlar a trovoada nós temos que recorrer a processos mecânicos.

Rose sorriu.

- Vou escapar pela tangente. Existe uma substância chamada gaultéria, que aparece na natureza em forma de vegetal, mas que também pode ser obtida sintética e quimicamente no laboratório.

- E daí?

- O que eu quero dizer é que muitas vezes há duas maneiras de chegar ao mesmo resultado. A nossa é, reconhecidamente, a sintética. Mas talvez haja outra. Os incríveis resultados conseguidos pelos faquires hindus, por exemplo, não se explicam satisfatoriamente com qualquer resposta fácil. As coisas que chamamos de sobrenaturais não têm, necessariamente, nada de sobrenatural. Uma lanterna elétrica seria sobrenatural para um selvagem. O sobrenatural é apenas o natural daquilo cujas leis ainda não entendemos.

- Que quer dizer? - perguntei, fascinado.

- Que não posso excluir por completo a possibilidade de que o ser humano talvez seja capaz de armazenar uma grande força destruidora e usa-la para atingir seus objetivos. Os meios pelos quais ele conseguiria isso poderiam nos parecer sobrenaturais ... mas na realidade não são.

Arregalei os olhos.

Ele riu.

- Trata-se apenas de uma especulação - disse, despreocupado ... - Me diga uma coisa, o senhor não reparou no gesto que ela fez quando mencionou a Casa de Cristal?

- Ela passou a mão pela testa.

- Exatamente. E traçou um círculo com o dedo. Tal como um católico ao fazer o sinal da cruz. Agora vou lhe contar uma coisa bastante curiosa, Mr. Anstruther. A palavra cristal já foi usada tantas vezes nas divagações da minha paciente, que decidi fazer uma experiência. Peguei um cristal emprestado e um dia mostrei-o inesperadamente para testar a reação dela.

- E daí?

- Bem, o resultado foi muito interessante e sugestivo. Ela endureceu todo o corpo e ficou olhando para o cristal como se não pudesse acreditar no que estava vendo. Depois caiu de joelhos diante dele, murmurou algumas palavras ... e desmaiou.

- Que palavras que ela disse?

- Muito estranhas. "O Cristal! Então a fé ainda vive!"

- Que coisa incrível!

- Dá para a gente pensar, não é? Agora vem a parte curiosa. Quando ela voltou a si do desmaio, tinha-se esquecido de tudo. Mostrei-lhe o cristal e perguntei se sabia o que era. Me respondeu que imaginava que fosse uma dessas bolas de cristal usadas pelos adivinhos. Perguntei-lhe se nunca tinha visto uma. Ela respondeu: "Nunca, M. le docteur". Mas eu notei que estava com o olhar perplexo. "O que é que a está preocupando, irmã?", perguntei. Ela respondeu: "É que acho tão estranho. Nunca tinha visto antes um cristal e no entanto ... me parece que já conheço tão bem. Tem uma coisa ... se ao menos pudesse me lembrar ..." O esforço que fazia para recordar era evidentemente tão penoso que eu proibi que pensasse mais naquilo. Isso foi há duas semanas. Venho contemporizando de propósito. Amanhã vou fazer uma nova experiência.

- Com o cristal?

- É. Quero que ela olhe bem para ele. Acho que o resultado vai ser interessante.

- Que espera descobrir? - perguntei, curioso.

A pergunta era ociosa, mas o resultado foi inesperado. Rose se impertigou todo, avermelhou, e quando respondeu seu comportamento havia mudado sem que se desse conta. Esta mais formal, mais profissional.

- A explicação para certos desequilíbrios mentais que não se compreendem direito. A irmã Marie Angelique é um objeto de estudo muito interessante.

Quer dizer, então, que o interesse de Rose era unicamente profissional? - pensei.

- Não se importa que eu venha junto? - perguntei.

Talvez fosse imaginação minha, mas me pareceu que ele hesitou antes de responder. Tive a súbita intuição de que não queria que eu fosse.

- Claro que não. Não faço a menor objeção.

E acrescentou:

- O senhor não pretende se demorar muito por aqui, não é?

- Só vou ficar até depois de amanhã.

Deu-me a impressão de ter ficado contente com a resposta. Desanuviou a testa e começou a falar sobre certas experiências feitas recentemente em cobaias.

Na tarde do dia seguinte me encontrei com o médico na hora marcada e fomos juntos à casa da irmã Marie Angelique. Ele estava todo gentil, talvez para desfazer a impressão causada na véspera.

Não leve muito a sério o que eu disse - comentou, rindo. - Não vá pensar que me dedico a ciências ocultas. O diabo é que eu tenho uma fraqueza infernal para tirar as coisas a limpo.

- É mesmo?

- É sim, e quanto mais fantásticas, mais eu gosto.

Riu como a gente ri de uma fraqueza engraçada.

Quando chegamos ao chalé, a enfermeira local queria consultar Rose sobre não sei o quê, de modo que fiquei a sós com a irmã Marie Angelique.

Vi que ela me analisava minuciosamente. Não demorou muito, disse:

- A nossa querida enfermeira me falou que o senhor é irmão daquela senhora tão educada que mora lá no casarão para onde me levaram quando vim da Bélgica.

- Sou, sim - confirmei.

- Ela foi muito boa para mim. É uma ótima pessoa.

Calou-se, como que remoendo uma idéia. Por fim perguntou:

- M. le docteur também é uma ótima pessoa?

Fiquei meio atrapalhado.

- É sim. Quero dizer ... acho que é.

- Ah! - Fez uma pausa e depois acrescentou: - Não há que negar que ele tem sido muito bom para mim.

- Sem dúvida nenhuma.

Ela levantou bruscamente os olhos.

- Monsieur ... o senhor ... o senhor que agora está conversando aqui comigo ... o senhor acha que eu estou louca?

- Ora, irmã, uma idéia dessas nunca me ...

Ela sacudiu lentamente a cabeça - interrompendo meu protesto.

- Será que estou louca? Sei lá ... as coisas que eu lembro ... as coisas que eu esqueço ...

Suspirou, e nesse instante Rose entrou na sala.

Cumprimentou-a alegremente e explicou o que desejava que ela fizesse.

- Sabe, há certas pessoas que possuem o dom de ver coisas num cristal. Desconfio que você também possua esse dom, irmã.

Pareceu inquieta.

- Não, não, eu não posso fazer isso. Tentar adivinhar o futuro ... isso é pecado.

Rose ficou surpreso. Não contava com aquela reação. Mudou logo de tática.

- Não se deve querer ver o futuro, tem toda a razão. Já o passado ... é diferente.

- O passado?

- Sim ... existem muitas coisas estranhas no passado. Que voltam como relâmpagos ... entrevistos um instante ... e depois desaparecem de novo. Não procure enxergar nada no cristal, já que isso não lhe está permitido. Apenas pegue-o nas mãos ... assim. Olhe para ele ... olhe bem. É ... olhe bem no fundo ... cada vez mais. Já está se lembrando, não é? Está sim. E também ouve minha voz, falando com você. Agora responda minhas perguntas. Não está me ouvindo?

A irmã Marie Angelique tinha pegado o cristal como ele pedia, segurando-o com estranho respeito. Depois, à medida que ia olhando bem para ele, seu olhar se tornou vago, como se não estivesse vendo mais nada, e deixou pender a cabeça. Parecia estar dormindo.

O médico tirou-lhe o cristal delicadamente das mãos e colocou-o em cima da mesa. Levantou-lhe o canto da pálpebra. Depois veio sentar-se ao meu lado.

- Temos que esperar que acorde. Acho que não vai demorar muito.

Tinha razão. Ao cabo de cinco minutos, a irmã Marie Angelique se mexeu. Abriu languidamente os olhos.

- Onde estou?

- Aqui ... em casa. Você dormiu um pouco. Sonhou, não sonhou?

Ela confirmou com a cabeça.

- Sonhei, sim.

- Foi com o Cristal?

- Foi,

- Conte pra nós.

- O senhor vai me achar louca, M. le docteur. Pois imagine, no meu sonho, o Cristal era um emblema sagrado. Cheguei, inclusive a conceber um segundo Cristo, um Mestre do Cristal, que morreu pela sua fé, cujos discípulos foram caçados ... perseguidos ... Mas a fé sobreviveu.

- Sobreviveu?

- Sim ... durante quinze mil luas cheias ... quero dizer, durante quinze mil anos.

- Quanto tempo dura uma lua cheia?

- O tempo de treze luas comuns. Sim, foi na décima - quinta milésima lua cheia ... eu, naturalmente era uma Sacerdotisa do Quinto Signo na Casa de Cristal. Foi nos primeiros dias do advento do Sexto Signo ...

Franziu as sobrancelhas e uma expressão de medo passou-lhe pelo rosto.

- Cedo demais - murmurou. - Cedo demais. Um engano ... Ah sim! Agora me lembro! O Sexto Signo!

Meio que saltou em pé, depois recostou-se de novo, passando a mão pelo rosto e murmurando:

- Mas que estou dizendo? Deliro Essas coisas nunca aconteceram.

- Vamos, não se preocupe.

Mas ela o olhava, perplexa, angustiada.

- M. le docteur, eu não entendo. Por que é que eu tenho esses sonhos ... essas fantasias? Eu tinha apenas dezesseis anos quando entrei para a vida religiosa. Nunca viajei. No entanto sonho com cidades, com pessoas e costumes estranhos. Por quê?

Apertou a cabeça entre as mãos.

- Nunca foi hipnotizada, irmã? Nem entrou em estado de transe?

- Nunca fui hipnotizada, M. le docteur. Quanto ao transe, quando eu rezava na capela, meu espírito muitas vezes se alienava do corpo e eu ficava uma porção de horas como se estivesse morta. Era, sem dúvida, um estado de bem - aventurança, um estado de graça ... como dizia a Reverenda Madre. Ah, é? - Prendeu a respiração. - Agora me lembro. Nós também chamávamos isto de estado de graça.

- Gostaria de fazer uma experiência, irmã - disse Rose numa voz bem natural. - Talvez disperse essas lembranças penosas. Vou lhe pedir que olhe mais uma vez para o cristal. Depois lhe direi uma determinada palavra. Você responderá com outra. Continuaremos assim até que se sinta cansada. Concentre seus pensamentos no cristal e não nas palavras.

Enquanto eu tornava a desembrulhar o cristal e o entregava à irmã Marie Angelique, reparei na maneira respeitosa com que ela o pegava. Pousado sobre o veludo preto, ficou entre as delgadas palmas de suas mãos. Ela o fitava com aqueles maravilhosos olhos profundos. Houve um curto silêncio e depois o médico disse: "Cão".

A irmã Marie Angelique respondeu imediatamente: "Morte".

Não pretendo descrever todos os pormenores da experiência. O médico pronunciou muitas palavras sem importância nem sentido. Repetiu outras várias vezes, ora obtendo a mesma resposta, ora obtendo uma resposta diferente.

Naquela noite comentamos o resultado da experiência no pequeno chalé do médico nos penhascos.

Ele pigarreou e puxou seu caderno de notas mais para perto.

- Estes resultados são interessantíssimos ... muito curiosos. Em resposta às palavras "Sexto Signo", nós obtivemos uma profusão de outras: Destruição, Roxo, Cão, Poder, depois novamente Destruição e, por fim, Poder. Mais tarde, como talvez tenha observado, inverti o método, com os seguintes resultados. Em resposta a Destruição, obtive Cão; a Roxo, Poder; a Cão, novamente Morte, e a Poder, Cão. Isso está tudo inter-relacionado, mas numa segunda repetição de Destruição, eu obtive Mar, que parece totalmente descabido. Para as palavras "Quinto Signo", eu obtive Azul, Pensamentos, Pássaro, novamente Azul e, por fim, a frase bastante sugestiva Abertura do espírito à percepção. A partir do fato de que "Quarto Signo" evoca a palavra Amarelo, e depois Luz, e que "Primeiro Signo" é respondido por Sangue, eu deduzo que cada Signo tenha uma cor própria, e possivelmente um símbolo próprio, sendo que o do Quinto seria um Pássaro e o do Sexto um Cão. Desconfio, porém que o Quinto Signo representasse o que se conhece comumente pelo nome de telepatia - a abertura do espírito à percepção. O Sexto Signo, sem dúvida, representa o Poder da Destruição.

- Qual o significado de Mar?

- Isso, confesso que não sei explicar. Eu pronunciei a palavra depois e obtive a resposta comum de Barco. Para o Sétimo Signo, houve primeiro Vida, e na segunda vez Amor. Para o Oitavo Signo, obtive a resposta Nenhum. Suponho, portanto, que Sete era a soma e o número dos signos.

- Mas o sétimo não foi atingido - exclamei, numa súbita inspiração. - Pois com o Sexto chegava a Destruição!

- Ah! O senhor acha é? Mas nós estamos levando essas ... divagações malucas muito a sério. Elas de fato, só possuem interesse sob um ponto de vista médico.

- Certamente atrairão a atenção dos investigadores de fenômenos psíquicos.

Os olhos do médico se franziram.

- Meu caro senhor, eu não tenho a menor intenção de divulga-las ao público.

- Então o seu interesse ...?

- É unicamente profissional. Está claro que tomarei notas sobre o caso.

- Compreendo.

Mas, pela primeira vez, percebi que não estava compreendendo nada. Levantei-me.

- Bem, desejo-lhe uma boa noite, doutor. Amanhã parto de volta para a cidade.

- Ah!

Tive impressão de que havia satisfação, talvez alívio, atrás dessa exclamação.

- Desejo-lhe boa sorte nas suas investigações continuei, despreocupadamente. - Da próxima vez que nos encontrarmos, não solte o Cão da Morte em cima de mim, hein?!

Enquanto falava, segurava-lhe as mãos e senti o susto que levou. Mas logo se recompôs. Os lábios se abriram num sorriso, mostrando os longos dentes pontudos.

- Que poder para um homem que se embriagasse com ele! - exclamou. - Ter a vida de cada ser humano na palma da mão!

E alargou ainda mais o sorriso.

Esse foi o fim de minha ligação direta com o caso.

Mais tarde, o caderno de notas e o diário do médico chegaram às minhas mãos. Vou reproduzir aqui os seus rápidos apontamentos, embora vocês hão de compreender que eles só caíram em meu poder algum tempo depois.

5 de agosto. Descobri que a irmã M.A. entende por "Eleitos" aqueles que reproduziram a raça. Eram, pelo visto, venerados e exaltados acima do Sacerdócio. Veja-se o contraste com os cristãos primitivos.

7 de agosto. Convenci a irmã M.A. a me deixar hipnotizá-la. Consegui provocar-lhe o sono e o transe hipnótico, mas não estabeleci nenhuma relação.

9 de agosto. Teriam existido civilizações antigas perto das quais a nossa fosse insignificante? Por estranho que pareça, tudo indica que sim, e eu sou o único homem que possui a pista ...

12 de agosto. A irmã M.A. não se mostra nada suscetível à sugestão quando hipnotizada. No entanto, o estado de transe é facílimo de ser provocado. Não posso entender.

13 de agosto. A irmã M.A. mencionou hoje que em "estado de graça" o "portão precisa ficar fechado, para que ninguém mais domine o corpo". Interessante - mas desconcertante.

18 de agosto. Quer dizer, pois, que o Primeiro Signo não é senão ... (faltam palavras que foram apagadas) ... então quantos séculos vai levar para chegar ao Sexto? Mas se houvesse um atalho para o poder ...

20 de agosto. Providenciei tudo para que M.A. viesse para cá com a enfermeira. Disse-lhe que é indispensável manter a paciente sob a ação da morfina. Estarei louco? Ou será que sou o Super - homem, com o Poder da Morte em minhas mãos?

(Aqui terminam os apontamentos.)

Creio que foi no dia 29 de agosto que recebi a carta .Vinha endereçada a mim, aos cuidados de minha cunhada, numa letra deitada de estrangeira. Abri o envelope com certa curiosidade. Dizia o seguinte:

Cher monsieur,

Falei só duas vezes com o senhor, mas sinto que é uma pessoa em quem posso confiar. Não sei se meus sonhos são verdadeiros ou não, mas ultimamente se tornaram mais nítidos ... E monsieur, de uma coisa estou absolutamente certa, o Cão da morte não é nenhum sonho ... Nos dias de que lhe falo ( não sei se foram reais ou não). Aquele que era o Guarda do cristal revelou cedo demais o Sexto Signo ao Povo ... O mal se apoderou de seus corações. Ganharam o poder de matar à vontade - e injustamente - tomados de cólera. Embriagaram-se com o volúpia do Poder. Quando percebemos isso, nós que ainda éramos puros, logo vimos que mais uma vez não completaríamos o Círculo nem atingiríamos o Signo da Vida Eterna. E aquele que estava escalado para ser o próximo Guarda do Cristal teve que agir. Para que os velhos perecessem e os novos, depois de séculos sem fim, pudessem ressurgir, ele soltou o Cão da Morte em cima do mar ( cuidando para não fechar o círculo) e o mar se levantou na forma de um Cão e tragou a terra por completo ...

Já me lembrei disso antes - nos degraus do altar, na Bélgica ...

O Dr. Rose pertence à Irmandade. Ele conhece o Primeiro Signo e a forma do Segundo, embora ninguém, salvo alguns eleitos, esteja a par do seu significado. Por meu intermédio ele chegaria ao Sexto. Até agora consegui resistir-lhe - mas me sinto cada vez mais fraca, monsieur, e não convém que um homem atinja o poder antes da hora. Muitos séculos hão de se passar antes que o mundo esteja preparado para receber o poder da morte em suas mãos ... Eu lhe suplico, monsieur, o senhor que tanto preza o bem e a verdade, me ajude ... antes que seja tarde demais.

Sua irmã em Cristo,Marie Angelique.

Deixei o papel cair no chão. A terra sob os meus pés parecia menos firme que de costume. Depois comecei a me reanimar. A crença da coitada, por mais autêntica que fosse, tinha quase me contagiado. Mas não havia dúvida. O Dr. Rose, com seu fanatismo para tirar as coisas a limpo, estava ultrapassando dos limites de sua condição profissional. Eu ia correr até lá e ...

De repente dei com uma carta de Kitty no meio da correspondência. Abri o envelope. Dizia:

Aconteceu uma coisa horrível. Você se lembra do chalezinho do Dr. Rose, lá no penhasco? Pois, ontem à noite, houve um desmoronamento de terra e o doutor e aquela pobre freira, a irmã Marie Angelique, morreram. Os destroços na praia são um verdadeiro horror - tudo amontoado de uma maneira fantástica - de longe parece um enorme cão ...

A carta me caiu das mãos.

Os outros fatos talvez fossem coincidência. Um tal de Mr. Rose, que eu descobri que era um parente rico do médico, morreu repentinamente, naquela mesma noite - dizem que fulminado por um raio. Ao que me consta, não houve nenhum temporal nas imediações, mas duas pessoas declararam ter ouvido uma trovoada. E no corpo do morto apareceu uma queimadura elétrica "de uma forma curiosa". Em seu testamento deixava tudo para o sobrinho, o Dr. Rose.

Ora, suponhamos que o Dr. Rose conseguisse obter o segredo do Sexto Signo por intermédio da irmã Marie Angelique. Ele sempre me deu impressão de ser um sujeito inescrupuloso - que não hesitaria em dar cabo da vida do tio se tivesse certeza de que ficaria impune. Mas uma frase da carta da irmã Marie Angelique não me sai da cabeça:" ... cuidando para não fechar o Círculo ... " O Dr. Rose não teve esse cuidado - talvez ignorasse as medidas que devia tomar ou até nem soubesse que precisava fazer isso. E assim a Força que usou se voltou contra ele, fechando o círculo ...

Mas claro, que bobagem! A explicação é perfeitamente natural. Que o doutor acreditasse nas alucinações da irmã Marie Angelique apenas prova que o cérebro dele também estava levemente desequilibrado.

No entanto, às vezes eu sonho com um continente submarino onde a humanidade outrora viveu e atingiu um grau de civilização muito mais adiantado que o nosso ...

Ou será que a memória da irmã Marie Angelique funcionava de trás para diante - como alguns dizem que é possível - e que a tal Cidade dos Círculos se encontra no futuro e não no passado?

Bobagem - claro que tudo foi só alucinação!

(Agatha Christie).

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CONTOS MISTERIOSOS

O cão negro

Vou contar uma história que aconteceu comigo há um ano: minha família se mudou para um apartamento novo, que tem uma cozinha bem estreita e comprida, tipo corredor.

Nesse dia a minha irmã tinha colocado uma panela de pressão no fogo, mas como tem problemas de enxaqueca acabou tomando um remédio e foi "deitar" para esperar a dor passar e dormiu.

Eu estava chegando do trabalho, e como a garagem fica mais perto da porta da cozinha entrei por ela mesmo.

Só que quando abri a porta comecei a escutar aquele chiado bem alto da panela no fogo, mas mais alto ainda foi um rosnado de cachorro.

Deixei a porta aberta e entrei um pouco mais visualizando totalmente a cozinha, então vi a panela no fogo, escutei aquele barulho horrível e em frente ao fogão, bem no meio da minha passagem para dentro de casa, havia um enorme cão negro rosnando pra mim.

O mais estranho é que nós temos uma cadela, e ela estava parada na porta da cozinha (que dava pra sala) olhando triste pra mim, coisa que é bem difícil já que ela faz festa toda vez que a gente chega.

De repente o cão começou a avançar em minha direção bem devagar e sempre rosnando, eu simplesmente me virei corri e bati a porta atrás de mim.

Quando corri para o elevador para chamar o porteiro pelo interfone, escutei um estrondo horrível dentro de casa.

Na mesma hora o vizinho do lado, saiu e nós entramos na minha casa, não havia nem sinal do cachorro.

A cozinha estava toda suja de feijão e de pedaços do azulejo e da parede e bem em frente a porta da cozinha onde eu estava a poucos segundos estava a panela toda amassada, até o piso estava quebrado.

Claro que nessa hora a minha irmã acordou assustada com o barulho, e até a cadela veio fazer festa, mas eu tenho certeza de que se não fosse aquele cachorro eu não estaria aqui hoje.

JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

O caso Bianca  (F. P. Andrade)

 

  O CASO BIANCA
 

Terror

Escrito por F. P. Andrade
 

 

 

 

 

No imaginário humano
o maligno é sempre feio.

F. P. Andrade.
 
 
Londres. 12 de Dezembro de 188...
Carta ao Dr. Vladimir T.
 
     Ilustríssimo preceptor e amigo.
 
 
     Peço emprestado um pouco da sua experiência na área da psicanálise. Envio para o senhor, anexado a esta, uma carta de certo Dr.Brans S. que afirma ter sido vítima do mal em sua essência, personificado na forma de uma criança de onze anos.Peço que, por favor, ajude-me a desvendar esta mente emaranhada.
 
Ass.: Dr. Le Fanu.
 
 
 

Londres.16 denovembro de 188...
Carta ao psiquiatra Sheridan LeFanu

 
 
       Caro Dr. Sheridan,

     Passo para o senhor esse estranho caso que me perturbou íntima e profundamente. Sei que me conhece há um bom tempo e sabe que não sou dado a exageros de nenhum tipo. Sou acostumado com os casos de minha profissão e nunca desisto de um paciente. Mas esse é diferente. Houve aqui um envolvimento pessoal e espiritual profundo. Sou cristão. E creio nas criaturas de Deus tanto quanto nas do Diabo. Mas não digo que esse seja um caso sobrenatural. Não. Mas há também certa anormalidade em tudo isso. O senhor verá; sei que estou sendo contraditório! Perdoe-me, irei me explicar.
 
 
     Cuidei durante três meses de uma criaturinha extremamente linda e, a princípio achei, inocente. Uma menina de onze anos. Sei o que o senhor está pensando. Mas peço que não me julgue. Não sem antes ler atentamente o meu relato. Entenda, temos o costume de crer que o mal externa a si mesmo. Que podemos reconhecê-lo de imediato só de estar em sua pecaminosa presença. É mentira! O mal não é externamente visível. É de dentro que ele nos observa e trama nossa queda! Sei que agora duvidas de minha sanidade. Não o culpo. Peço por favor, paciência. Eu nunca pensei que um dia duvidaria da inocência de uma criança. Da natureza pura de uma criança. Mas essa era diferente. Juro! Não havia inocência nela. Só a anormal maldade e uma sensualidade que não são próprias de uma menina de onze anos. Não era própria de nenhuma infante!
 
 
      Por favor, Dr. LeFanu. Entre em contato comigo!
 
Ass.: Dr. Brans S.
 
 
 

Londres. 16 de Dezembro de 188...
Carta ao Dr. Vladimir T.
 
      Caro amigo,

 
     Rogo que esteja bem de saúde e que se lembre da estranha carta que lhe enviei. Pois bem. Entrei em contato com esse estranho médico que dizia me conhecer. O homem está preso! Sim, por assassinato. Matou a própria filha. O Dr. Brans não quis falar pessoalmente comigo. Deixou com os guardas da prisão uma carta destinada a mim.  Nela o Doutor continua a descrever a criança como um ser maligno, mas também a sensualiza. Acreditei de início que o homem tivesse problemas sexuais do tipo pedofílico e o extravasava over-sexualizando a pobre criança em seus delírios antinaturais. Ele continua na próxima epístola com uma descrição sensual e perturbadora da imaginária infante.
 
Ass: Dr. Sheridan LeFanu.
 
 
 

Londres. Prisão. 13 de dezembro de 188...
Carta ao psiquiatra Sheridan LeFanu

 
 
     De início eu nada vi de anormal. Ela brincava com minha filha Minna como uma criança normal brincaria. Corriam por toda a extensão da casa e perturbavam os criados com suas peripécias infantis. A tudo eu assistia com crescente prazer. Passávamos férias em uma antiga mansão de minha família em Orléans.
 
 
     Um pequeno mistério: fui contratado por um homem que se dizia empregado de um nobre. O empregado, um homem magro e elegante, contou-me que ela era a filha bastarda desse nobre e que, portanto, o misterioso homem não deveria ser envolvido. Pagou-me uma quantia substancial, então fiquei com a criança para examinar os seus comportamentos psicológicos. Estou me abreviando, eu sei. Perdoe-me, mas tenho ganas de denunciar todo o mal que essa infante, essa criança maligna fará ao mundo caso não seja detida. O empregado desapareceu. Nada sei dele. Acho que fui, de alguma forma, hipnotizado para aceitar o contrato. O demônio, eu sei, tem seus meios!
 
 
     Agora, um acontecimento deixou-me horas trêmulo. Tive, juro por Deus, que usar de toda a minha vontade para não cometer um pecado mortal. Deitar-me com uma criança! Sim, eu sei. É loucura! Quase enlouqueci! Era noite e eu havia me acostumado a passar pelos quartos das meninas para lhes desejar uma boa noite. Sempre passava primeiro no quarto da minha filha. Conversava com ela. Perguntava como foi seu dia e lhe dava um beijo na testa. Ela geralmente dormia logo após. Mas nessa noite Minna parecia contente, não, quase eufórica! E me contou que estava apaixonada pela menina! Tive que rir da situação, é claro. Afinal, tratava-se de uma criança. E a chamei de boba também, dizendo-lhe que ela, com toda a certeza, não deveria estar interessada nessas coisas agora. Apesar de sua alegria percebi que ela estava exausta e com horrível aspecto físico. Meio seca, meio pálida, e com olheiras roxas abaixo dos olhos. Não havia percebido isso pela manhã. Decidi-me por examiná-la no dia seguinte, mas eu achava que não era nada de mais, entende? Atribuí o seu aspecto a alguma febre interna de verão. Então, com um beijo, mandei-a dormir. Depois fui ao quarto de Bianca. E foi aí que tudo começou. Perdoe meu peito acelerado e a mão trêmula. Entenda. Ao chegar ao quarto ouvi um gemido baixo, mas constante. Parecia vir de dentro, então entrei sem me anunciar crendo que se tratava de algum problema de natureza estomacal, ou a pobrezinha poderia estar doente assim como minha Minna. Senti-me irresponsável por não ter percebido esse estado de doença em que as coitadas se encontravam.
 
 
     Abri a porta devagar e vi, para meu espanto, uma cena voluptuosa e anormal! Ela deitava-se de costas, uma janela estava semi aberta. A luz da lua caía pálida nas paredes e na cama de dossel alto. A menina estava nua. Ela tocava de leve o próprio corpo e suspirava como uma amante sedenta. Arqueava-se. Puxava para si as próprias pernas e penetrava o dedo entre elas em um movimento sensual e arrebatador. Sinto-me no dever de descrevê-la. Para que assim possa entender melhor o meu arrebatamento. Não era humano, eu sei. Era amoral! Mas aqui a descrição se faz necessária. Seus cabelos eram negros, sedosos e longos. Olhos de céu escuro, com cílios longos e graciosos. A pele pálida como pérolas raras. A boca rubra e antinatural para a idade. Era esguia e demoniacamente bem feita. Não como uma menininha e sim como uma mulher em tamanho reduzido, mesmo assim, perfeita.
 
 
     Percebe que tremi? Arquejei e perdi as forças? A criatura era linda! Diferente da criança de todas as manhãs. Simplesmente não parecia a mesma. Ela virou o rostinho afogueado para mim. Sorriu. Um sorriso impróprio para uma inocente e depois se levantou languidamente. Nua, andou até mim. Tocou-me. Ah, choquei-me com aquilo. Choquei-me com meu corpo!
 
     Perdoe-me Senhor! Teu filho caiu em pecado! Um pecado sórdido, abjeto. Monstruoso! EU A DESEJEI!
 
 
Ass.: Dr. Brans S.
 
 
 
 

Londres. 20 de Dezembro de 188...
Carta ao Dr. Vladimir T.
 
 
      É terrível que o Dr. Brans seja um colega de profissão. Quando li esta carta fiquei horas paralisado de horror e nojo. Eu tenho uma filha de dez anos. E me pergunto, como pode um homem que se diz psiquiatra chegar a esse estado de demência e vício? Só há uma explicação: loucura! Dr. Brans destruiu sua família por causa de uma ilusão. Sim. Ele descreve esse ato maligno na última epístola que recebi há dois dias. Entenda que não estou aqui para julgar o seu ato, e sim o que o levou psicologicamente a ele.
 
 
Ass: Dr.Sheridan LeFanu.
 
 
 

Londres.Prisão. 18 deDezembro de 188...
Carta ao psiquiatra Sheridan LeFanu
 
 
      Depois daquela noite tudo nela mudou. Ela agora era a senhora da casa. Tinha-nos em suas pequenas mãos. Nós a desejávamos acima de tudo. Era nossa! Ela nos beijava e pedia coisas. E obedecíamos como zumbis! Fui ficando cada vez mais fraco e, na mesma medida, apaixonado. Uma loucura havia me dominado! E não entendia como. Não havia explicação para isso. O domínio da pequena demônio sobre mim e minha filha era total! Quando ela se movia, nós nos movíamos. Quando ela respirava, nós respirávamos! Ela visitava nossos quartos todas as noites. E tirava o que queria. Eu ficava esperando. Ansioso. Aflito. Louco! E chorava, sim, quando percebia que ela não viria naquela noite. Passava a noite insone e ficava com olheiras roxas e pele cada vez mais pálida. Uma noite rastejei até um espelho e o rosto que me fitou não era o meu, não, era o de um possuído!
 
 
     Que Deus tenha misericórdia da minha alma!
 
 
    Minha filha. Minha pobre Minna! Era a preferida da pequena demônio. Creio que na verdade era o seu alvo desde o princípio! Eu, sequioso de suas caricias obedecia a Bianca como um cão. Fui testemunha de seu desejo abjeto por Minna. Deitavam-se juntas. Entrelaçavam seus corpos pequenos. Nus. E arfavam em pecado mortal.
 
 
     Como sabe, estou preso. Salvei a alma da minha filha! Tive que fazê-lo! O seu corpinho estava perdido para o demônio. Era um deles! Queimei seu corpo... Deus, eu fiz isso!
 
 
     Entreguei-me a polícia. Bianca fugiu diante de minha fúria. Sei que não vão crer-me mentalmente são. Mas eu sei. E o Doutor agora sabe. Ajude-me a denunciar esse monstro! Pelo bem da humanidade. Ajude-me!
 
 
Ass.: Dr. Brans S.
 
 
 

Londres.3 deJaneiro de 188...
Carta ao Dr. Vladimir T.
 
 
     Meu caro Dr. Vladimir T.Viajei para Orléans. Lá fiquei a par dos problemas causados pelo infame Dr. Brans. Um nobre local explicou-me que sua filhinha estava permanentemente traumatizada com o assassinato de sua amiga Minna.  O nobre ficou feliz quando soube que eu era um psiquiatra e pediu-me ajuda. Ajuda essa que não iria negar. Sim, a menina existe! Pobre inocente. Imagino por quais abusos essa pobre criança não deve ter passado nas mãos ímpias do Dr. Brans! Levei Bianca para casa comigo. Minha filha a amou! As duas não desgrudam. Dormem juntas até. Inocência, como alguém pode confundir isso! Uma noticia deixou-me, de certa forma, aliviado.  Eu sei, não é cristão. Perdoe-me. O Dr. Brans S. foi encontrado morto em sua cela. Uma desgraça, é verdade. Rasgou o próprio pulso. Com o sangue escreveu sandices nas paredes. Entre elas “Por Deus, destruam Bianca.”
 
 
Ass: Sheridan LeFanu.
 

 

JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

O ESPÍRITO ATORMENTADO

O espírito atormentado

Uma família acabara de se mudar para uma casa, muito grande e em um bairro nobre da cidade. A casa pertenceu a um homem que morava sozinho e que havia morrido há alguns anos. Os parentes do senhor decidiram vender a casa para não guardarem lembranças de seu ente querido.

A mudança foi tranqüila. Poucas peças de cristal foram quebradas na hora de colocar no caminhão. Apenas alguns móveis pouco arranhados. O saldo final foi bom.

A família vivia tranqüilamente. O casal que estava junto há 7 anos, com dois filhos. Um de 14 anos e uma menina de 3. Além do sogro do rapaz, que perdera sua companheira de longos anos há pouco tempo e resolveu viver com seus parentes.

As crianças Angélica e Edgar brincavam tranqüilamente na rua. O casal Eduardo e Michele fazia os planos para o futuro enquanto o ancião da família, Sr. Fernando gostava de ler jornais na sala, próximo da TV.

Certo dia, a campainha toca. Fernando resolve atender e não encontra ninguém. Retorna para suas atividades e depois de alguns minutos a campainha toca novamente. E lá vai Fernando atender e não encontra ninguém. Por um momento, ele chegou a tirar uma conclusão precipitada:

- Devem ser as crianças brincando.

O Sr. Fernando deixou a campainha tocar, umas três vezes. Depois resolveu sair e pedir para que as crianças entrassem. Ele resolve questionar as crianças se eram elas que estavam fazendo a brincadeira com a campainha, mas a resposta foi negativa.

Ele resolve pegar quem estava fazendo esse tipo de brincadeira. Fica escondido no quintal para fazer uma surpresa para o engraçadinho.

Quando a campainha toca, o velhinho sai rapidamente de seu esconderijo para pegar quem estava fazendo essa brincadeira. Mas para sua surpresa não havia ninguém. Ele se pergunta quem poderia ter feito isso? Em seguida, a campainha toca novamente e Fernando não vê ninguém. A campainha volta a tocar incessantemente, como se quisesse chamar a atenção do senhor. Mas ele não se abala. Acredita ser um curto circuito que pode ser resolvido facilmente.

Depois de desligada a campainha, a família viveu tranqüilamente por alguns dias. Até que a filha caçula, Angélica, tivesse um contato com alguém que não conhecia.

A pequena criança acordou a noite e viu uma luz vinda da cozinha. A pequena curiosa queria saber o que era aquela luz. Era uma mulher, vestida de branco, que não falava nenhuma palavra. Ficava estática em frente da criança.

A mulher sumiu de repente. A criança não teve nenhuma reação anormal. Voltou para cama e foi dormir novamente.

No dia seguinte, Angélica foi contar aos seus pais o que havia acontecido. Eles não acreditavam pois deveria ser apenas um sonho da menina. Mas, na mesma noite o fato se repetiu. Angélica saia de seu quarto e encontrava a mulher de branco, parada na cozinha. Agora com o rosto cheio de lágrimas mas ainda sem dizer nada. O silêncio absoluto reinava no recinto até que a mulher desaparecesse.

Novamente a criança foi contar para os pais e foi ignorada, pois ela poderia estar apenas inventando aquela história. Mas na noite seguinte a criança teve mais sucesso na comunicação com a alma iluminada.

Ao ver a luz vinda da cozinha, Angélica não se levantou. Mas dessa vez o espírito veio até ela e a chamou para ir até a cozinha. A criança relutou mas resolveu acompanhar a alma. Flutuando pela cozinha, o espírito daquela mulher parou ao lado de uma parede. Ela voltara a chorar e apontar para aquela parede. A criança começava a ficar assustada mas recebia uma grande paz dessa pessoa. Era uma mulher doce, que adorava crianças. Angélica não queria ir embora e a alma continuava apontando para a parede. Alguns minutos depois, a alma foi desaparecendo e a pequena Angélica procurava o que haveria naquela parede.

Logo pela manhã, a criança corre para a cama dos pais para contar o que acontecera e novamente foi desiludida pelos mesmos. Mas as aparições começaram a se tornar constantes e todas as noites a dama de branco chamava por Angélica e apontava para aquele ponto da parede. Os pais resolveram leva-la ao médico, mas nada diagnosticaram. As dúvidas e as aparições continuavam. Chegaram ao ponto de acompanhar uma noite da menina. Mas o espírito não aparecia na presença dos adultos.

Até que um dia os pais resolveram quebrar a parede para acabar com o mistério da dama de branco. No dia seguinte a uma aparição, eles pegaram pás e picaretas e começaram a quebrar a pedra. E para a surpresa e todos, o que haviam encontrado na parede? O corpo de uma mulher, ainda em estado de decomposição. Com vermes saindo pelos olhos e pela boca, ofuscados pela claridade. Um pedaço de pano que serviu de mordaça em volta de seu pescoço ainda guardava vestígios de sangue. No crânio da mulher, um buraco que parecia ter sido feito a bala e muitas cordas e lençóis para amarrar a vítima de tamanha brutalidade.

A polícia foi chamada para investigar o fato e descobriram que essa mulher que estava enterrada na parede da casa havia sido assassinada pelo marido, que foi acusado do crime mas nunca encontraram o corpo para as provas. O homem ficou livre e morando na mesma casa. Até falecer em sua própria residência. Sozinho e abandonado. Porém, agora queimando no fogo ardente pela crueldade que havia feito com sua esposa que tanto o amava.

A família passou alguns dias com alguns parentes para se recuperar do choque. E depois da descoberta do corpo a dama de branco nunca mais foi vista pela casa. Agora ela descansa em paz.

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por Reinaldo Ferraz

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CONTOS MISTERIOSOS

O Gato Negro da Meia-Noite

Durante uma noite inteira de inverno, erma e sombria, caminhava eu pelas ruas da cidade sem vida. O véu negro da escuridão noturna cobria os céus, mas não a lua, que iluminava o caminho. Pensamentos tristes oprimiam-me o espírito, juntamente com a solidão sepulcral da noite profunda. O silêncio parecia eterno, quando o ressoar dos sinos chegaram-me aos ouvidos, anunciando a meia-noite. No mesmo instante, revelou-se ao meu lado o vulto negro de um gato. Enorme, de soleníssima beleza, com pêlo negro brilhante ao luar, veio à mim fazer companhia. Olhava-me ele com olhos brilhantes, parecendo lançar-me um feitiço, parecendo querer se apossar de meu espírito e de meus sentimentos mais obscuros. Caminhava ele em passos lentos, como eu. Caminhava ele em imortal solidão. Seguia-me os passos, ele, o lúgubre gato, em uma caminhada incessante, que muito me irritava o espírito só. Assim, continuei caminhando e, assim, continuou vagando o gato durante horas, como eu. Até certo ponto em que me cansei daquela companhia monótona. Retirei um canivete que trago comigo no bolso; em seguida, ergui o gato com uma das mãos e cravei-lhe minha arma em seu coração; este caiu morto no chão. Como eu.


JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

O Gato Preto da Meia-Noite

Durante uma noite inteira de inverno, erma e sombria, caminhava eu pelas ruas da cidade sem vida.

O véu negro da escuridão noturna cobria os céus, mas não a lua, que iluminava o caminho.

Pensamentos tristes oprimiam-me o espírito, juntamente com a solidão sepulcral da noite profunda.

O silêncio parecia eterno, quando o ressoar dos sinos chegaram-me aos ouvidos, anunciando a meia-noite.

No mesmo instante, revelou-se ao meu lado o vulto negro de um gato. Enorme, de soleníssima beleza, com pêlo negro brilhante ao luar, veio à mim fazer companhia.

Olhava-me ele com olhos brilhantes, parecendo lançar-me um feitiço, parecendo querer se apossar de meu espírito e de meus sentimentos mais obscuros.

Caminhava ele em passos lentos, como eu. Caminhava ele em imortal solidão. Seguia-me os passos, ele, o lúgubre gato, em uma caminhada incessante, que muito me irritava o espírito só.

Assim, continuei caminhando e, assim, continuou vagando o gato durante horas, como eu. Até certo ponto em que me cansei daquela companhia monótona.

Retirei um canivete que trago comigo no bolso; em seguida, ergui o gato com uma das mãos e cravei-lhe minha arma em seu coração; este caiu morto no chão.

Como eu.

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CONTOS MISTERIOSOS

O GATO PRETO (Por Edgar Allan Poe )

 

Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o de terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão somente nas circunstâncias que relato com terror uma sequência bastante normal de causas e efeitos.

Já na minha infância era notado pela docilidade e humanidade do meu carácter. Tão nobre era a ternura do meu coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do meu carácter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me com explicar-lhes a natureza ou a intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade do homem.

Casei jovem e tive a felicidade de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho, e um gato.

Este último era um animal notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto. Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas. Não quero dizer que falasse deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia.

Plutão, assim se chamava o gato, era o meu amigo predilecto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que conseguia impedir que me seguisse na rua.

A nossa amizade durou assim vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu carácter sofreram uma alteração radical - envergonho-me de o confessar - para pior, devido ao demónio da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar de uma linguagem brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência. Evidentemente que os meus pobres animaizinhos sentiram a transformação do meu carácter. Não só os desprezava como os tratava mal. Por Plutão, porém, ainda nutria uma certa consideração que me não deixava maltratá-lo. Quanto aos outros, não tinha escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco e até o cão, quando por acaso ou por afeição se atravessavam no meu caminho.

Mas a doença tomava conta de mim - pois que doença se assemelha à do álcool? - e, por fim, até o próprio Plutão, que estava a ficar velho e, por consequência, um tanto impertinente, até o próprio Plutão começou a sentir os efeitos do meu carácter perverso.

Certa noite, ao regressar a casa, completamente embriagado, de volta de um dos tugúrios da cidade, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes. Uma fúria dos demónios imediatamente se apossou de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma original se evolara do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, deliberadamente, arranquei-lhe um olho da órbita! Queima-me a vergonha e todo eu estremeço ao escrever esta abominável atrocidade.

Quando, com a manhã, me voltou a razão, quando se dissiparam os vapores da minha noite de estúrdia, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que tinha cometido. Mas era um sentimento frágil e equívoco e o meu espírito continuava insensível. Voltei a mergulhar nos excessos, e depressa afoguei no álcool toda a recordação do acto.

Entretanto, o gato curou-se lentamente. A órbita agora vazia apresentava, na verdade, um aspecto horroroso, mas o animal não aparentava qualquer sofrimento. Vagueava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me aproximava. Porém, restava-me ainda o suficiente do meu velho coração para me sentir agravado por esta evidente antipatia da parte de um animal que outrora tanto gostara de mim. Em breve este sentimento deu lugar à irritação. E para minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE fez de seguida a sua aparição. Deste espírito não cura a filosofia. No entanto, não estou mais certo da existência da minha alma do que do facto que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades primárias, ou sentimentos, que deu uma direcção ao carácter do homem. Quem se não surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma acção néscia ou vil, pela única razão de saber que a não devia cometer? Não temos nós uma inclinação pperpétua, pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é? E digo que este espírito de perversidade surgiu para minha perda final. Foi este anseio insondável da alma por se atormentar, por oferecer violência à sua própria natureza, por fazer o mal só pelo mal, que me forçou a continuar e, finalmente, a consumar a maldade que infligi ao inofensivo animal. Certa manhã, a sangue-frio, passei-lhe um nó corredio ao pescoço e enforquei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com as lágrimas a saltarem-me dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o porque sabia que me tinha tido afeição e porque sabia que não me tinha dado razão para a torpeza; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado, um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal a ponto de a colocar, se tal fosse possível, mesmo para além do alcance da infinita misericórdia do Deus Mais Piedoso e Mais Severo.

Na noite do próprio dia em que este acto cruel foi perpetrado, fui acordado do sono aos gritos de «Fogo!». As cortinas da minha cama estavam em chamas; toda a casa era um braseiro. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram destruídos, e daí em diante mergulhei no desespero.

Sou superior à fraqueza de procurar estabelecer uma sequência de causa a efeito entre a atrocidade e o desastre. Limito-me, porém, a narrar uma cadeia de acontecimentos e não quero deixar nem um elo sequer incompleto. Nos dias que se sucederam ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes, à excepção de uma, tinham abatido por completo. Esta excepção era constituída por um tabique interior, não muito espesso, que estava sensivelmente a meio da casa, e de encontro ao qual antes ficava a cabeceira da minha cama. O reboco resistira em grande parte à acção do fogo, facto que atribuo a ter sido pouco antes restaurado.

Próximo desta parede juntara-se uma densa multidão e muitas pessoas pareciam estar a examinar certa zona em particular, com minúcia e grande atenção. A minha curiosidade foi despertada pelas palavras «estranho», «singular» e outras expressões semelhantes. Aproximei-me e vi, como se fora gravado em baixo revelo, sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão realmente espantosa. Em volta do pescoço do animal estava uma corda.

Mal vi a aparição, pois nem podia pensar que doutra coisa se tratasse, o meu assombro e o meu terror foram imensos. Por fim, a reflexão veio em meu auxílio. Lembrei-me que o gato fora enforcado num jardim junto à casa. Após o alarme de incêndio, O dito jardim fora imediatamente invadido pela multidão e por alguém que deve ter cortado a corda do gato e o deve ter lançado para dentro do meu quarto, por uma janela aberta. Isto deve ter sido feito, provavelmente, com a intenção de me acordar. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima da minha crueldade na substância do reboco recentemente aplicado e cuja cal, combinada com as chamas e o amoníaco do cadáver, tinha produzido a imagem tal como eu a via.

Tendo assim satisfeito prontamente a minha razão - que não totalmente a minha consciência - sobre o facto extraordinário atrás descrito, não deixou este, no entanto, de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do fantasma do gato, e, durante este período, voltou-me ao espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, mas que o não era. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar à minha volta, nos sórdidos tugúrios que agora frequentava com assiduidade, um outro animal da mesma espécie e bastante parecido que preenchesse o seu lugar.

Uma noite, estava eu sentado meio aturdido num antro mais do que infamante, a minha atenção foi despertada por um objecto preto que repousava no topo de um dos enormes toneis de gin ou de rum que constituíam o principal mobiliário do compartimento. Havia minutos que olhava para a parte superior do tonel, e o que agora me causava surpresa era o facto de não me ter apercebido mais cedo do objecto que estava em cima. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um gato enorme, tão grande como Plutão e semelhante a ele em todos os aspectos menos num. Plutão não tinha sequer um único pêlo branco no corpo, enquanto este gato tinha uma mancha branca, grande mas indefinida, que lhe cobria toda a região do peito.

Quando lhe toquei, imediatamente se levantou e ronronou com força, roçou-se pela minha mão, e parecia contente por o ter notado. Era este, pois, o animal que eu procurava. Imediatamente propus a compra ao dono, mas este nada tinha a reclamar pelo animal, nada sabia a seu respeito, nunca o tinha visto até então.

Continuei a acariciá-lo, e quando me preparava para ir para casa, o animal mostrou-se disposto a acompanhar-me. Permiti que o fizesse, inclinando-me de vez em quando para o acariciar enquanto caminhava. Quando chegou a casa, adaptou-se logo e logo se tornou muito amigo da minha mulher

Pela minha parte, não tardou em surgir em mim uma antipatia por ele. Era exactamente o reverso do que eu esperava, mas, não sei como nem porquê, a sua evidente ternura por mim desgostava-me e aborrecia-me. Lentamente, a pouco e pouco, esses sentimentos de desgosto e de aborrecimento transformaram-se na amargura do ódio. Evitava o animal; um certo sentimento de vergonha e a lembrança do meu anterior acto de crueldade impediram-me de o maltratar fisicamente. Abstive-me, durante semanas, de o maltratar ou exercer sobre ele qualquer violência, mas, gradualmente, muito gradualmente, cheguei a nutrir por ele um horror indizível e a fugir silenciosamente da sua odiosa presença como do bafo da peste.

O que aumentou, sem dúvida, o meu ódio pelo animal foi descobrir, na manhã do dia seguinte a tê-lo trazido para casa, que, tal como Plutão, tinha também sido privado de um dos seus olhos. Esta circunstância, contudo, mais afeição despertou na minha mulher, que, como já disse, possuía em alto grau aquele sentimento de humanidade que fora em tempos característica minha e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e mais puros.

Com a minha aversão pelo gato parecia crescer nele a sua preferência por mim. Seguia os meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer compreender ao leitor. Sempre que me sentava, enroscava-se debaixo da minha cadeira ou saltava-me para os joelhos, cobrindo-me com as suas repugnantes carícias. Se me levantava para caminhar, metia-se-me entre os pés e quase me fazia cair ou, fincando as suas garras compridas e aguçadas no meu roupão, trepava-me até ao peito. Em tais momentos, embora a minha vontade fosse matá-lo com uma pancada, era impedido de o fazer, em parte pela lembrança do meu crime anterior mas, principalmente, devo desde já confessá-lo, por um verdadeiro medo do animal.

Este medo não era exactamente o receio de um mal físico; no entanto, é me difícil defini-lo de outro modo. Quase me envergonhava admitir - sim, mesmo aqui, nesta cela de malfeitor, eu me envergonho de admitir - que o terror e o horror que o animal me infundia se viam acrescidos de uma das fantasias mais perfeitas que é possível conceber. Minha mulher tinha-me chamado várias vezes a atenção para o aspecto da mancha de pêlo branco de que já falei, e que era a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha eliminado. O leitor lembrar-se-á que esta marca, embora grande, era, originariamente, bastante indefinida, mas, gradualmente, por fases quase imperceptíveis e que durante muito tempo a minha razão lutou por rejeitar como fantasiosas, assumira, finalmente, uma rigorosa nitidez de contornos. Era agora a imagem de um objecto que me repugna mencionar, e por isso eu o odiava e temia acima de tudo, e ter-me-ia visto livre do monstro se o ousasse. Era agora a imagem de uma coisa abominável e sinistra: a imagem da forca!, oh!, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte. Por essa altura, eu era, na verdade, um miserável maior do que toda a miséria humana. E um bruto animal cujo semelhante eu destruíra com desprezo, um bruto animal a comandar-me, a mim, um homem, feito à imagem do Altíssimo - oh!, desventura insuportável. Ah, nem de dia nem de noite, nunca, oh!, nunca mais, conheci a bênção do repouso! Durante o dia o animal não me deixava um só momento. De noite, a cada hora, quando despertava dos meus sonhos cheios de indefinível angústia, era para sentir o bafo quente daquela coisa sobre o meu rosto e o seu peso enorme, incarnação de um pesadelo que eu não tinha forças para afastar, pesando-me eternamente sobre o coração.

Sob a pressão de tormentos como estes, os fracos resquícios do bem que havia em mim desapareceram. Só os pensamentos pecaminosos me eram familiares - os mais sombrios e os mais infames dos pensamentos. A tristeza do meu temperamento aumentou até se tornar em ódio a tudo e à humanidade inteira. Entretanto, a minha dedicada mulher era a vítima mais usual e paciente das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de fúria a que então me abandonava cegamente.

Um dia acompanhou-me, por qualquer afazer doméstico, à cave do velho edifício onde a nossa pobreza nos forçava a habitar. O gato seguiu-me nas escadas íngremes e quase me derrubou, o que me exasperou até à loucura. Apoderei-me de um machado, e desvanecendo-se na minha fúria o receio infantil que até então tinha detido a minha mão, desferi um golpe sobre o animal, que seria fatal se o tivesse atingido como eu queria. Mas o golpe foi sustido diabólicamente pela mão da minha mulher. Enraivecido pela sua intromissão, libertei o braço da sua mão e enterrei-lhe o machado no crânio. Caiu morta, ali mesmo, sem um queixume.

Consumado este horrível crime, entreguei-me de seguida, com toda a determinação, à tarefa de esconder o corpo. Sabia que não o podia retirar de casa, quer de dia quer de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Muitos projectos se atropelaram no meu cérebro. Em dado momento, cheguei a pensar em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los um a um pelo fogo. Noutro, decidi abrir uma cova no chão da cave. Depois pensei deitá-lo ao poço do jardim, ou metê-lo numa caixa como qualquer vulgar mercadoria e arranjar um carregador para o tirar de casa. Por fim, detive-me sobre o que considerei a melhor solução de todas. Decidi emparedá-lo na cave como, segundo as narrativas, faziam os monges da Idade Média às suas vítimas.

A cave parecia convir perfeitamente aos meus intentos. As paredes não tinham sido feitas com os acabamentos do costume e, recentemente, tinham sido todas rebocadas com uma argamassa grossa que a humidade ambiente não deixara endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência causada por uma chaminé falsa ou por uma lareira que tinha sido entaipada para se assemelhar ao resto da cave. Não duvidei que me seria fácil retirar os tijolos neste ponto, meter lá dentro o cadáver e tornar a pôr a taipa como antes, de modo que ninguém pudesse lobrigar qualquer sinal suspeito.

Não me enganei nos meus cálculos. Com o auxílio de um pé-de-cabra retirei facilmente os tijolos, e depois de colocar cuidadosamente o corpo de encontro à parede interior, mantive-o naquela posição ao mesmo tempo que, com um certo trabalho, devolvia a toda a estrutura o seu aspecto primitivo.

Usando de toda a precaução, procurei argamassa, areia e fibras com que preparei um reboco que se não distinguia do antigo e, com o maior cuidado, cobri os tijolos. Quando terminei, vi com satisfação que tudo estava certo. A parede não denunciava o menor sinal de ter sido mexida. Com o maior escrúpulo, apanhei do chão os resíduos. Olhei em volta, triunfante, e disse para comigo: "Aqui, pelo menos, não foi infrutífero o meu trabalho."

A seguir procurei o animal que tinha sido a causa de tanta desgraça, pois que, finalmente, tinha resolvido matá-lo. Se o tivesse encontrado naquele momento, era fatal o seu destino. Mas parecia que o astuto animal se alarmara com a violência da minha cólera anterior e evitou aparecer-me na frente, dado o meu estado de espírito. É impossível descrever ou imaginar a intensa e aprazível sensação de alívio que a ausência do detestável animal me trouxe. Não me apareceu durante toda a noite, e deste modo, pelo menos por uma noite, desde que o trouxera para casa, dormi bem e tranquilamente; sim, dormi, mesmo com o crime a pesar-me na consciência.

Passaram-se o segundo e terceiro dias e o meu verdugo não aparecia. Mais uma vez respirei como um homem livre. O monstro, aterrorizado, tinha abandonado a casa para sempre! Nunca mais voltaria a vê-lo!

Suprema felicidade a minha! A culpa da acção tenebrosa inquietava-me pouco. Fizeram-se alguns interrogatórios que colheram respostas satisfatórias. Fez-se inclusivamente uma busca, mas, naturalmente, nada se descobriu. Dava como certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o crime, surgiu inesperadamente em minha casa um grupo de agentes da Polícia que procederam a uma rigorosa busca. Eu, porém, confiado na impenetrabilidade do esconderijo, não sentia qualquer embaraço. Os agentes quiseram que os acompanhasse na sua busca. Não deixaram o mínimo escaninho por investigar. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave. Nem um músculo me tremeu. O meu coração batia calmamente como o coração de quem vive na inocência. Percorri a cave de ponta a ponta. De braços cruzados no peito, andava descontraído de um lado para o outro. Os agentes estavam completamente satisfeitos e prontos para partir. O júbilo do meu coração era demasiado intenso para que o pudesse suster. Ansiava por dizer pelo menos uma palavra à guisa de triunfo e para tornar duplamente evidente a sua convicção da minha inocência.

- Senhores - disse por fim, quando iam a subir os degraus. - Estou satisfeito por ter dissipado as vossas suspeitas. Desejo muita saúde para todos, e um pouco mais de cortesia. A propósito, esta casa está muito bem construída (e no meu furioso desejo de dizer qualquer coisa com à-vontade, mal sabia o que estava a dizer). Direi, até, que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes... vão-se já embora, meus senhores?... Estas paredes estão solidamente ligadas. - E neste momento, por uma frenética fanfarronice, bati com força, com uma bengala que tinha na mão, na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha querida esposa.

Ah!, que Deus me livre das garras do arquidemónio! Mal tinha o eco das minhas pancadas mergulhado no silêncio, quando uma voz lhes respondeu de dentro do túmulo: um gemido, a princípio abafado e entrecortado como o choro de urna criança, que depois se transformou num prolongado grito sonoro e contínuo, extremamente anormal e inumano. Um bramido, um uivo, misto de horror e de triunfo, tal como só do inferno poderia vir, provindo das gargantas conjuntas dos condenados na sua agonia e dos demónios no gozo da condenação.

Seria insensato falar dos meus pensamentos. Senti-me desfalecer e encostei-me à parede da frente. Tolhidos pelo terror e pela surpresa, os agentes que subiam a escada detiveram-se por instantes. Logo a seguir, doze braços vigorosos atacavam a parede. Esta caiu de um só golpe. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. Eu tinha emparedado o monstro no túmulo!

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O jogo do copo

Quatro jovens resolveram fazer uma brincadeira um pouco fora do comum para sua idade. Um deles leu em uma revista de esoterismo como fazer o jogo do copo. Um sistema de comunicação com o além chamado OUIJA.

Um dos garotos sabia que seu pai tinha um tabuleiro. Resolveram comprar um copo e começar a sessão. Esperaram seus pais saírem de casa para acenderem as velas na sala e iniciar os trabalhos. Algumas rezas, piadas e movimentos dos garotos no copo, um deles resolve fazer as perguntas sérias:

- Tem alguém ai?

E o copo se movimenta para o sim

- Qual é o seu nome?

E o copo vai para a palavra não.

- Você é homem ou mulher?

O copo treme repentinas vezes e para. Os jovens começam a gostar da brincadeira:

- Você era careca?

Todos caem na gargalhada e o copo não sai do lugar.

- Como você morreu?

O copo volta a tremer mas não sai do lugar. Os rapazes insistem e a pergunta foi repetida três vezes, até que o jovem que perguntava pede uma prova da existência de um espírito na sala:

- Se há alguém nessa sala, dê um sinal.

Nesse momento o telefone toca repentinamente. Eram 22:00. Os jovens ficam assustados num primeiro instante, mas depois se acalmam e começam a dar risada da situação. Da coincidência do telefone tocar. Eles não atendem ao telefone e o mesmo para de tocar. Depois de um pouco de hesitação, decidem voltar a brincadeira.

De volta ao tabuleiro, o jovem repete a pergunta:

- Tem alguém ai? Dê-me uma prova que você está ai...

Novamente o telefone toca. As crianças ficam assustadas e deixam o tabuleiro cair. As peças se perdem pela sala enquanto os ruídos incessantes do telefone ecoam por toda a casa. Os jovens criam coragem e resolvem atender ao telefone. Num lançe de desespero e impulsionado pelos amigos, o jovem pega o telefone e diz com uma voz tremula:

- Alô?

Silencio absoluto. Algumas gargalhadas dos garotos e mais uma tentativa:

- Alô? Alô? Tem alguém ai? Em tom de brincadeira

Mas, ao invés de silêncio, uma voz sai do fone:

- Essa é a prova

Todas os jovens saem correndo de casa, desesperados, pedindo a Deus por suas vidas e prometendo nunca mais brincar com os mortos.

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por Reinaldo Ferraz

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O Mosteiro de Satanás

1952, quinta feira, dia 23 de dezembro. Leonel sai de casa para passar o natal com a família no Rio de Janeiro.

Nas estradas mineiras chovia como ele nunca tinha visto antes.

Sozinho no carro Leonel sentiu um calafrio como se estivesse prestes a morrer. Na mesma hora ele parou o carro. Começou a sentir febre e a suar frio.

Na estrada não passava um veículo e a chuva tinha apertado mais. Quase cego com a tempestade Leonel avista uma luminosidade não muito longe dali. Ele deixa o carro no acostamento e, caminhando com dificuldade, o pobre homem chega até o portão do que parecia ser um mosteiro franciscano . Ele bate na porta e grita por ajuda mas desmaia antes dela chegar.

Leonel acorda com muita dor de cabeça em um quarto escuro. Ele estava deitado numa cama simples e pela janela podia ver que a chuva não havia reduzido.

Quando tentou levantar-se da cama a porta se abre e um homem alto vestido de monge entra no quarto.

- "Você deve deixar o mosteiro imediatamente." falou, com uma voz preocupada.

- "Estou doente, não podem me mandar embora deste jeito, por favor deixe-me ficar.", agonizou Leonel quase chorando.

O monge não disse mais nada e se retirou do recinto.

 Preocupado em ter que ir embora Leonel se levanta e sai do quarto sorrateiramente. O lugar mais parecia um calabouço medieval. O coitado não sabia o que fazer.

Por instinto Leonel desce as escadas da masmorra. Uma voz o chama. Ela vem de uma cela, a porta está trancada e pela pequena grade um homem magro de cavanhaque conversa com Leonel.

- "Amigo, você precisa me ajudar. Esses monges me prenderam aqui e me torturam quase diariamente. E eles farão isso com você também se não fugirmos logo. Por fa..."

Antes do sujeito concluir o monge alto grita com Leonel.

- "Saia daí!!!"  - agarrando-o pelo braço o monge arrasta o enfermo rapaz escada acima.

O pobre Leonel não tinha forças para reagir e foi levado facilmente.

Já em uma sala gigantesca repleta de monges Leonel se vê como um réu sendo julgado.

O franciscano que parecia o líder falou.

- "Rapaz, você deve ir embora imediatamente. Foi um erro nosso tê-lo deixado entrar aqui. Sabemos do seu estado de saúde mas não podemos deixá-lo ficar".

Leonel mal ouviu o homem e desmaiou novamente.

O infeliz viajante acorda mais uma vez na masmorra. A porta do quarto estava aberta e Leonel sai a procura do homem que estava preso no andar de baixo. Sem vigília, ele consegue chegar até a cela do magrelo. Mal se aproxima e Leonel é surpreendido com o sujeito na pequena grade já pedindo ajuda.

- “Por favor, me tire daqui. Eles vão nos torturar, eles são de uma seita malígna. São adoradores de Satanás.”

Tremendo como uma vara verde em dia de chuva, Leonel corre até um pequeno depósito em busca de uma ferramenta capaz de abrir a cela.

 Minutos depois ele retorna com um imenso pé de cabra. Com um pouco de esforço a porta é arrombada. O sujeito magro sai correndo da cela e rindo como se uma piada hilária tivesse acabada de ter sido contada.

Sem saber do que se tratava, Leonel corre também, mas dá de cara com um monge de quase dois metros de altura.

-  “ O que você acaba de fazer, maldito?!” Rugiu o franciscano pegando-o pelo braço.

- “Me solte! Me solte seu filho de Satanás!”

Gritava Leonel tentando se soltar do agarrão do monge.

Com um olhar de temor e raiva o homem alto encara o pobre Leonel...

- “Você não sabe o que fez... sua vida está condenada agora. Você acaba de libertar o próprio Satanás. E ele fará de você o seu servo predileto. Sua alma será dele”.

Logo após o monge ter terminado de falar Leonel dá um grito de pavor... seu último grito de pavor.

Naquele instante o pobre e inocente viajante acaba de ter um fulminante ataque cardíaco que levou sua alma literalmente para os quintos dos Infernos, ao lado do, agora, seu eterno mestre, Satanás.

WAZIGO

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O PADRE E O VAMPIRO

Era 1500 d.C., uma centena de barcos portugueses seguia em direção ao Novo Mundo. Era noite, e o jovem padre Francisco tremia de frio em seu quarto dentro de um dos últimos navios.

Mesmo com o frio e com o balançar do navio, nada tirava sua atenção do livro que lia. Sentado em uma cadeira encontrava-se com os olhos grudados no Malleus Maleficarum aberto em cima de sua mesa. Seu quarto estava quase que totalmente escuro, mas a luz da vela era o suficiente para Francisco poder ler e isso era só o que importava no momento.

Estava nos últimos capítulos, quando uma forte dor de cabeça surgiu como uma praga seguida de um cansaço.Ele desistiu de tentar segurar o sono e decidiu dormir um pouco. Mal se deitou na cama e já dormia profundamente.

Ele entra no mundo dos sonhos. Mas desta vez, um pesadelo horrível estava a sua espera. Ele se via dentro de uma catedral, à noite. Lá fora relâmpagos rasgavam o céu e clareavam por alguns segundos o ambiente. No altar uma estátua de uma santa o encarava penetrando seus olhos de madeira nos olhos do padre.Suas mãos estavam estendidas e abertas, seus pulsos estavam cortados e muito sangue jorrava deles. Abaixo dela, um corpo de um homem nu se encontrava deitado, dormindo.

Apesar de Francisco não ver mais ninguém na catedral, podia sentir a presença de seres infernais o observando e sussurrando em seu ouvido coisas como: ?acorde-o!?,?ele tem fome!? e ?nossa mãe pede que acorde seu fiho!?.

Francisco sabendo que aquilo não passava de um pesadelo,pede para Deus afastá-lo dali. Ele acorda, mas as vozes ainda atentam em sua cabeça. Decide voltar a ler seu livro. Lê atentamente um trecho que fala sobre Alphonsus de Albuquerque, um vampiro português. Ele era conde e tinha o doentio prazer de se banhar com o sangue de crianças. Além disso, ele lia muito sobre ocultismo.

A Igreja soube de seus atos e o condenou a morte na fogueira. Ele tentou resistir. Teve então o estômago rasgado por uma espada.

Em seus últimos momentos de vida prometeu que iria voltar para se vingar. Em seu funeral, um gato preto pulou em cima do caixão assustando todos. A Igreja sabia que ele se tornaria um vampiro e decidiu decapitar seu corpo e em seguida tocar fogo. Mas o caixão havia desaparecido juntamente com o corpo.

Ao ver a foto do conde, se lembrou do corpo masculino de seu pesadelo. Percebeu então que certamente se tratava da mesma pessoa e que tal vampiro encontrava-se agora no navio, talvez no porão. Disposto a caçá-lo, abre sua gaveta e de lá tira uma marreta pequena e uma estaca de carvalho. Depois pega seu crucifixo de ouro e uma caixa com óstias e mais algumas ferramentas, faz uma oração e em seguida parte para sua caçada.

Pede a criado que o conduza até lá com uma tocha. O criado atende seu sem saber o que o padre procura em meio as cargas. Ao chegarem lá, Francisco pede para o criado ficar na porta e depois segue em direção procurando o caixão do vampiro.Finalmente o encontra. Uma corrente grossa o envolve presa por um grande cadeado. O padre usa as ferramentas e arromba o cadeado, o que faz um grande barulho chamando a atenção do criado. O crincrilhar da corrente faz com que a desconfiança do mesmo aumente. Ele então decide ver o que o padre está fazendo.

Sem perceber os passos do criado em sua direção, Francisco abre o caixão e se depara com os braços cruzados no peito formando um X. Ele sabe que precisa ter muita coragem e fé para enfiar a estaca no coração de um vampiro,caso contrário, o vampiro pode despertar antes que se possa dar a primeira marretada.

Francisco se concentra, respira profundamente e aponta a estaca para o coração do corpo, mas é interrompido pelo criado que o agarra e o joga no chão.

- Não permitirei que destruas meu senhoor! ? grita o criado. - Acalma-te ó pobre criado! ? disse umaa voz sinistra vinda do túmulo ? graças a falta de coragem e fé suficientes deste mortal, meus espíritos guardiões me acordaram e estou com muita fome!

O padre assustado não sabe o que fazer. Pensa em fugir, mas impressionado como está, não consegue se levantar do chão. Um homem alto e de longos cabelos castanhos e encaracolados, levanta-se do caixão. Suas roupas nobres e sua posse, autoritária.

- Posso lhe ser útil meu senhor? ? pergguntou o criado.

- Claro! ? responde o vampiro em um tomm sombrio.

Em seguida,agarra o criado e rasga seu pescoço com enormes presas em sua careta demoníaca.Começa então a drenar como um esfomeado o suco de sua sobrevivência.

O criado só pode gritar. Francisco cria forças o suficiente para levantar-se e fugir.

O vampiro então solta sua vítima ainda com um pouco de sangue e morta. Em seguida,salta feito um lobo para a frente do padre impedindo sua passagem. Com toda coragem e fé que pôde concentrar naquele momento. Francisco exibe seu crucifixo para a criatura profana.Mas este é muito poderoso e apenas afasta-se um pouco. Logo em seguida solta um grito semelhante ao de algum animal selvagem e Francisco vê o crucifixo virar pó levando suas esperanças junto. O vampiro vendo que o não tem mais o que temer, aproxima-se do padre a curtos passos. O padre afasta-se rezando para Deus e para todos os santos que pode se lembra.

- Não machucarei você ? diz o vampiro ccom seu sorriso sinistro e penetrando seu olhar você me despertou e apesar de ter sido sem intenção, você viverá para sonhar com esse pesadelo pelo resto de sua vida.

O vampiro volta para o caixão e alguns segundos depois ele reaparece em pé ao lado mesmo. Seu corpo continua lá dentro o que deixa Francisco confuso até se recordar de ter lido sobre este fenômeno. O vampiro pode fazer sua alma sair do corpo e depois materializá-la como se fosse um novo. Isso chama-se duplo-estéreo. É nesta forma que ele pode transformar-se em morcego,lobo e até névoa. Francisco também lembra-se que nesta forma eles só podem ser destruídos por meios mágicos, queimados ou expostos a luz do Sol.

Mas também existe uma maneira simples e fácil, é destruir o seu corpo.

O vampiro vira névoa e sobe para os andares superiores. Francisco aproveita para tentar enfiar a estaca no coração do corpo, mas o caixão não se abre, ele tenta novamente e fracassa mais uma vez. Percebe então que ela está protegida por forças malignas.

Vendo que não pode fazer para destruir a criatura, senta-se no chão e chora pe-las vidas que sofrerão pelo seu fracasso e engano de achar que tinha fé no que acreditava.

Foi uma noite terrível. O vampiro matou, estrangulou e riu do sofrimento de suas vítimas. Nada o parava, nem belas, nem facas e espadas e nem mesmo os punhos dos navegantes mais fortes.

Em um canto escuro, lá embaixo. Francisco ouvia os gritos que ele causou e que ficariam guardados em sua memória por toda a vida.

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CONTOS MISTERIOSOS

O Preto Velho

Francisco era um trabalhador rural à moda antiga.

Trabalhava durante o dia nas Terras do Coronel Ferreira, morava com a mulher e os cinco filhos numa casinha de pau-a-pique, tinha uma pequena criação de galinhas e porcos e uma pequena horta nos fundo da casa.

A única distração que tinha era ir à Missa aos domingos com a família e tomar cachaça com os amigo no empório Nossa Senhora da Aparecida, toda noite.

Francisco era um homem simples, bom e temente à Deus. Nunca quis mais nada da vida do que tinha atualmente e se considerava um homem feliz. Mas mal sabia Francisco que tudo poderia acabar de uma hora para outra.

Francisco bebia com seus amigos todas as noites, e quando voltava pra casa, seguia pela estrada de chão sempre deserta em seu velho pangaré.

O caminho era longo, mas Francisco conhecia bem o trajeto e já estava acostumado a fazê-lo sozinho. Para chegar em sua casa, pegava um pequeno atalho por uma trilha no meio de uma grota escura, mas Francisco era um cabra-macho e não tinha de medo de onça e muito menos de assombração.

Numa noite de luar, enquanto passava pela grota, Francisco gelou de susto.

No meio da escuridão, um vulto negro se aproximava.

Francisco engoliu em seco e colocou a mão lentamente no punho do facão que sempre carregava. A figura encurvada se aproximava lentamente enquanto Francisco, com o pangaré parado perguntou:

_Opa! Quem vem vindo?

A figura se aproximava sem dizer uma palavra. Francisco começava a ver melhor a figura, era um velho homem negro e barba branca. Ele usava um chapéu de palha, sandálias de couro, uma bengala de pinho e tinha um velho cachimbo na boca. Francisco respirou aliviado.

_Ô meu velho! O que faz aqui nessa grota?

_O velho só tá andando.... Disse o velho que aparentava no mínimo uns 80 anos.

Francisco que era um homem reservado e que só cuidava de sua vida, deu de ombros e foi embora.

_Noite! Gritou Francisco enquanto sumia em galope pela grota.

Francisco não conseguiu dormir bem aquela noite. Não sabia o motivo, mas algo o preocupava muito. Pensou que seria a doença de sua esposa. Ivete estava muito doente, mas Francisco tinha certeza que seria passageiro. Tentou não pensar no assunto durante o dia.

Na noite seguinte, a mesma cena se repetiu. No meio da grota, Francisco cruzou novamente com o Preto Velho. Mas dessa vez apenas o cumprimentou e seguiu seu caminho.

Os dias foram se passando e toda noite, o Preto Velho sempre passava lentamente pela estrada abandonada.

A cada dia, Francisco estava mais estranho e sua esposa parecia estar piorando da estranha doença, as crianças não comiam direito e as galinhas botavam poucos ovos.

Naquela noite, enquanto estava no empório com seus amigo tomando cachaça, Francisco comentou sobre os problemas que tinha em casa e mencionou o novo morador da região.

Ao dizer isso, todos no bar ficaram calados.

O dono do bar, seu Zequinha, deixou cair um copo no chão. Francisco olhava para a cara de todos no bar com cara de espanto.

_O que foi? Porque ocês pararam de falar? O que foi que eu disse? Perguntou com uma clara ponta de desespero.

_Tem quanto tempo que ocê tem visto o tar de Preto Velho? Perguntou Zé Américo, um velho fazendeiro da região.

_Peraí... Deve di ter uns 6 dias que eu cruzo com ele.

Todos ficaram gelados, alguns abaixaram a cabeça e outros tomaram um gole de pinga.

_Chico, como está a Ivete? Ela tá muito ruim? Perguntou Onofre, o dono da loja de tecidos do vilarejo.

_Ela tá muito ruim.... O que está acontecendo??? Fala homem de Deus!!! Francisco já estava ficando desesperado.

_Chico, tem um causo que se um Preto Velho cruza com um caboclo sete vezes na estrada, alguém da família acaba morrendo. Disse seu Eurico, o Delegado.

Ao ouvir isso, Francisco ficou gelado. Olhou para os rosto de cada um. Não aguentando de angústia, gritou o nome da esposa e saiu correndo para casa. No meio da grota, a sinistra figura do velho estava em sua incansável procissão. Francisco ignorou o vulto e aumentou a velocidade do velho pangaré com as esporas e o chicote.

_Vamo!!! Anda seu pangaré fé da puta!

No dia seguinte, Francisco estava feliz, pois além de sua esposa não ter morrido, ela havia melhorado bastante.

Quando foi para o empório à noite, Francisco contou que estava tudo bem e que não disse deveria acreditar nessas histórias de pessoal da roça.

Na volta pra casa, ficou com remorso de ter pensado que aquele pobre preto velho seria algum enviado do tinhoso e voltou a cumprimentar o velho, que sempre encontrava com ele na mesma grota.

Os dias foram se passando e tudo em sua casa estava indo bem, a mulher estava quase curada, seus filhos estavam felizes novamente e as galinha botando ovos como nunca.

_Chico! você ainda tá vendo aquele preto velho na grota? Perguntou Dona Maria, a mulher do Seu Zequinha.

_ Tô sim! Mas não vê venha com essas coisas de gente guinorante da roça não! Num credito nessas lendas desse povo do mato!

_Tudo bem Chico, só queria saber quantas vezes ocê já viu ele?

_Uma dúzia de vezes. Porcadiquê? Perguntou Francisco com ar de despreocupado.

_Hum... nada não Chico... Vai cum Deus, só isso! Dona Maria ao dizer isso, entrou nos fundos do bar e foi embora.

Francisco olhou desconfiado para todos, mas esses continuavam quietos e evitavam os olhares de Francisco.

_Ocê são tudo um bando de caipiras! Eu vô simbora! Francisco saiu do empório e foi embora.

Dos que estavam no bar, apenas um jovem capataz, sem entender nada, perguntou aos demais.

_Porque ocês ficaram assim? Já não deu sete vezes? O Seu Francisco tá certo! Qual o pobrema?

_Fica quieto guri! Ocê num sabe di nada! Se o Chico encontrar o tar preto velho de novo hoje.... Dizem que se não acontecer nada com a família do caboclo na sétima vez, na décima terceira acontecerá com o próprio caboclo! Disse Seu Zequinha, dono do Bar.

_Ara! E ocês acreditam nessa bestera?

_Ocês jovens se acham muito espertos e não gostam de ouvir os velhos...

Nessa mesma noite, a macabra profecia se realizou... Na manhã seguinte, corpo de Francisco foi encontrado caído na grota ao lado do corpo do pangaré. Os dois corpos estavam retalhados e mordidos, com sangue espalhado nas árvores em volta . A morte foi atribuída a um ataque de onças, apesar de todos na região saberem que aquilo não foi ataque de onça alguma.

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CONTOS MISTERIOSOS

O RETRATO OVAL (Por Edgar Allan Poe )

 

O castelo em que o meu criado se tinha empenhado em entrar pela força, de preferência a deixar-me passar a noite ao relento, gravemente ferido como estava, era um desses edifícios com um misto de soturnidade e de grandeza que durante tanto tempo se ergueram nos Apeninos, não menos na realidade do que na imaginação da senhora Radcliffe.

Tudo dava a entender que tinha sido abandonado recentemente. Instalámo-nos num dos compartimentos mais pequenos e menos sumptuosamente mobilados, situado num remoto torreão do edifício. A decoração era rica, porém estragada e vetusta.

Das paredes pendiam colgaduras e diversos e multiformes trofeus heráldicos, misturados com um desusado número de pinturas modernas, muito alegres, em molduras de ricos arabescos doirados. Por esses quadros que pendiam das paredes - não só nas suas superfícies principais como nos muitos recessos que a arquitectura bizarra tornara necessários - , por esses quadros, digo, senti despertar grande interesse, possivelmente por virtude do meu delírio incipiente; de modo que ordenei a Pedro que fechasse os maciços postigos do quarto, pois que já era noite; que acendesse os bicos de um alto candelabro que estava à cabeceira da minha cama e que corresse de par em par as cortinas franjadas de veludo preto que envolviam o leito.

Quis que se fizesse tudo isto de modo a que me fosse possível, se não adormecesse, ter a alternativa de contemplar esses quadros e ler um pequeno volume que acháramos sobre a almofada e que os descrevia e criticava.

Por muito, muito tempo estive a ler, e solene e devotamente os contemplei. Rápidas e magníficas, as horas voavam, e a meia-noite chegou. A posição do candelabro desagradava-me, e estendendo a mão com dificuldade para não perturbar o meu criado que dormia, coloquei-o de modo a que a luz incidisse mais em cheio sobre o livro.

Mas o movimento produziu um efeito completamente inesperado. A luz das numerosas velas (pois eram muitas) incidia agora num recanto do quarto que até então estivera mergulhado em profunda obscuridade por uma das colunas da cama. E assim foi que pude ver, vivamente iluminado, um retrato que passava despercebido. Era o retrato de uma jovem que começava a ser mulher. Olhei precipitadamente para a pintura e acto contínuo fechei os olhos.

A principio, eu próprio ignorava por que o fizera. Mas enquanto as minhas pálpebras assim permaneceram fechadas, revi em espírito a razão por que as fechara. Foi um movimento impulsivo para ganhar tempo para pensar - para me certificar que a vista não me enganava -, para acalmar e dominar a minha fantasia e conseguir uma observação mais calma e objectiva. Em poucos momentos voltei a contemplar fixamente a pintura.

Que agora via certo, não podia nem queria duvidar, pois que a primeira incidência da luz das velas sobre a tela parecera dissipar a sonolenta letargia que se apoderara dos meus sentidos, colocando-me de novo na vida desperta.

O retrato, disse-o já, era de uma jovem. Apenas se representavam a cabeça e os ombros, pintados à maneira daquilo que tecnicamente se designa por vinheta - muito no estilo das cabeças favoritas de Sully. Os braços, o peito, e inclusivamente as pontas dos cabelos radiosos, diluíam-se imperceptivelmente na vaga mas profunda sombra que constituía o fundo. A moldura era oval, ricamente doirada e filigranada em arabescos.

Como obra de arte, nada podia ser mais admirável que o retrato em si. Mas não pode ter sido nem a execução da obra nem a beleza imortal do rosto o que tão subitamente e com tal veemência me comoveu. Tão-pouco é possível que a minha fantasia, sacudida da sua meia sonolência, tenha tomado aquela cabeça pela de uma pessoa viva.

Compreendi imediatamente que as particularidades do desenho, do vinhetado e da moldura devem ter dissipado por completo uma tal ideia - devem ter evitado inclusivamente qualquer distracção momentânea. Meditando profundamente nestes pontos, permaneci, talvez uma hora, meio deitado, meio reclinado, de olhar fito no retrato.

Por fim, satisfeito por ter encontrado o verdadeiro segredo do seu efeito, deitei-me de costas na cama. Tinha encontrado o feitiço do quadro na sua expressão de absoluta semelhança com a vida, a qual, a princípio, me espantou e finalmente me subverteu e intimidou. Com profundo e reverente temor, voltei a colocar o candelabro na sua posição anterior.

Posta assim fora da vista a causa da minha profunda agitação, esquadrinhei ansiosamente o livro que tratava daqueles quadros e das suas respectivas histórias. Procurando o número que designava o retrato oval, pude ler as vagas e singulares palavras que se seguem:

"Era uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre. E maldita foi a hora em que viu, amou e casou com o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero, tendo já na Arte a sua esposa.

Ela, uma donzela de raríssima beleza e tão adorável quanto alegre, toda luz e sorrisos, e vivaz como uma jovem corça; amando e acarinhando a todas as coisas; apenas odiando a Arte que era a sua rival; temendo apenas a paleta e os pincéis e outros enfadonhos instrumentos que a privavam da presença do seu amado. Era pois coisa terrível para aquela senhora ouvir o pintor falar do seu desejo de retratar a sua jovem esposa. Mas ela era humilde e obediente e posou docilmente durante muitas semanas na sombria e alta câmara da torre, onde a luz apenas do alto incidia sobre a pálida tela.

E o pintor apegou-se à sua obra que progredia hora após hora, dia após dia. E era um homem apaixonado, veemente e caprichoso, que se perdia em divagações, de modo que não via que a luz que tão sinistramente se derramava naquela torre solitária emurchecia a saúde e o ânimo da sua esposa, que se consumia aos olhos de todos menos aos dele.

E ela continuava a sorrir, sorria sempre, sem um queixume, porque via que o pintor (que gozava de grande nomeada) tirava do seu trabalho um fervoroso e ardente prazer e se empenhava dia e noite em pintá-la, a ela que tanto o amava e que dia a dia mais desalentada e mais fraca ia ficando. E, verdade seja dita, aqueles que contemplaram o retrato falaram da sua semelhança com palavras ardentes, como de um poderosa maravilha, - prova não só do talento do pintor como do seu profundo amor por aquela que tão maravilhosamente pintara.

Mas por fim, à medida que o trabalho se aproximava da sua conclusão, ninguém mais foi autorizado na torre, porque o pintor enlouquecera com o ardor do seu trabalho e raramente desviava os olhos da tela, mesmo para contemplar o rosto da esposa. E não via que as tintas que espalhava na tela eram tiradas das faces daquela que posava junto a ele.

E quando haviam passado muitas semanas e pouco já restava por fazer, salvo uma pincelada na boca e um retoque nos olhos, o espírito da senhora vacilou como a chama de uma lanterna.

Assente a pincelada e feito o retoque, por um momento o pintor ficou extasiado perante a obra que completara; mas de seguida, enquanto ainda a estava contemplando, começou a tremer e pôs-se muito pálido, e apavorado, gritando em voz alta 'Isto é na verdade a própria vida!', voltou-se de repente para contemplar a sua amada: - estava morta

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CONTOS MISTERIOSOS

Os Profanadores de Jazigos Perpétuos

No meio de uma noite escura e fria de Julho, um jovem ariano chamado Fritz se adentrava furtivamente pelas sombras do quintal de seu amigo, também ariano, Chukrutz.

_Chuckrutz!Chuckrutz! Toc, toc, toc, Anda sua moleza! Fritz sussurrava enquanto batia na janela.

_O que você quer?? Perguntou o enfadonho Chuckrutz.

_Seu puto!! Esqueceu do que combinamos hoje durante a tarde??

_Mas hoje?? Está passando um filme de Presidiária de Mulheres, e você sabe que.... Disse Chuckrutz com ar desolado.

_Presidiária de Mulheres??? Puxa.... Exitou o jovem Fritz. Esqueça isso, vamos hoje!! Só pode ser hoje!!!

_Tá bom, que saco! Espera que eu vou deixar pra gravar o filme.

Alguns minutos depois, os dois jovens estavam no porão da residência de Fritz.

_Não esqueça a pá e o pé-de-cabra. Disse Fritz enquanto pegava uma picareta.

_Tá bom! Pô, o filme estava tão interessante... A mocinha bonitinha foi presa injustamente e as vilãs eram uma presidiária e uma sargento que pareciam jogadores de futebol americano. Lamentou Chuckrutz.

_Esqueça esse filme!!!Você botou pra gravar né? Perguntou Fritz enquanto saía do porão com a picareta.

_Sim... Só que vai gravar as propagandas também...

Meia hora depois, os jovens estavam espiando pela janela da casa do Sr. Madruga, zelador do Cemitério Municipal.

_E agora Fritz? O velho tá acordado e vendo televisão.

_Psiu!! Você vai lá e amarra ele.

_O quê?? E como eu vou fazer isso?

_Se vira! Eu tenho que pensar em tudo??

_Putz! Ele tá vendo o filme. Observou o ariano Chuckrutz.

_Já disse pra você esquecer esse filme! Espera aí! Disse Fritz enquanto começava a se levantar, agora com a pá na mão.

Alguns minutos depois, Fritz estava acabando de colocar o velho num pequenino armário.

_Será que você matou o velho? Perguntou Chuckrutz com os olhos fixos na TV.

_Não. Foi uma pancadina de leve. Disse Fritz enquanto fechava a porta do armário.

_A pá não achou. Ela ficou empenada. Disse Chuckrutz examinando o tal objeto.

_Vamos logo, não temos muito tempo... e desligue essa TV!!

Alguns minutos mais tarde, os jovens se encontravam parados em frente ao Jazigo Perpétuo da família Einsemberg.

_É aqui mesmo? Você viu como tem gente morta com nome de Jazigo aqui nesse Cemitério? Perguntou Chuckrutz.

_Mas você é burro hein? É aqui mesmo... Foi aqui que aquele Judeu asqueroso, podre, nojento, odioso e pão-duro foi enterrado hoje. Disse Fritz com uma cara de nojo e ódio.

_É!!!

_Vamos logo!!! Começe a cavar aí que eu começo aqui, mas em silêncio, alguém pode nos ouvir!!

_O que é que nós estamos procurando mesmo?

_Seu asno asmático!! Você não lembra da boca desse Judeu nojento? Os 4 dentes dianteiros eram de ouro!! Ele não vai precisar deles agora que está no inferno.

_É!! Esses Judeus porcos que se esgueiram nas sombras para a roubar raça superior, ou seja, nós!

_Hã... Chuckrutz... Cala a boca e cave!

Mais tarde, os dois jovens, molhados de suor se entreolhavam.

_Anda Chuckrutz, abre o caixão com o pé-de-cabra.

_Tudo eu!! Vá você!!

_Não grite sua anta loira! Você tá parcendo um judeu viado.

_Sem apelar!! Deixa que eu vou então. Disse Chuckrutz enquanto entrava no esquife semita com o pé-de-cabra.

Alguns minutou depois, os jovens trocavam ofensas.

_Como não tem dente nenhum?? Seu idiota! Ele tinha 4 dentes de ouro!

_Venha aqui e veja Fritz. Ele tá banguela. A culpa é sua!

_Filho duma égua vesga!! Até morto esse judeu passa a perna na gente.

_O que nós vamos fazer agora? Tivemos esse trabalho à toa, e ainda perdi o filme.

_Vamos ter que fugir daqui agora antes que alguém nos veja.

Depois de alguns metros do jazigo do judeu morto, Chuckrutz viu alguma coisa.

_Fritz!! Tá vindo alguém, lá no fundo. Parece duas pessoas e estão vindo pra cá. Sussurrou Chuckrutz

_Xi!!! Vamos nos esconder atrás daquela lápide e esperar eles passarem.

Instantes depois, os jovens loiros estavam "bolados" com o que viam.

_Fritz...aqueles dois não são os sobrinhos do famigerado judeu?

_Sim, e eles estão carregando pás e picaretas! Sujeitos asquerosos, estão roubando o próprio tio!

_É, mas olhe a cara deles. Eles devem estar confusos também. Encontraram o caixão do tio aberto. Eles devem estar atrás dos dentes também.

_Psiu!! Seu repolho seco! Fala baixo. Veja, eles estão discutindo também. Acho que eles vão embora.

_Olha a cara deles...hehehehe... Estão putos da vida. Alguém chegou antes deles...hehehehe.

_Chukrutz... Cala a boca... Chegaram antes de nós também!

Passados alguns minutos, Fritz e Chükrutz tomam uma decisão.

_Chuckrutz, eles já foram. Vamos também.

_Mais que merda, perdi o filme à toa.

_Vamos pra sua casa e ver a gravação.

_Ok. Apesar de tudo a noite não foi tão perdida assim, vimos dois judeus ficarem putos.

Assim que os dois jovens entravam na névoa na madrugada, e seus vultos eram apenas dias manchas plúbeas num mar de escuridão, algo sinistro acontecia no túmulo do judeu. O corpo que até então permanecia inerte, abriu os olhos, se levantou ao estilo "Conde Drácula" e colocou a mão esquerda no bolso do paletó negro com movimentos lentos e firmes. Dele retirou 4 pequenas peças douradas e os levou em direção a boca. Instantes depois, o cadáver estava com os 4 dentes de ouro no local onde estiveram por mais de 45 anos. Feito isso, o ser do além deitou novamente em seu jazigo e com uma das mão, fechou o caixão sobre si mesmo. A cena ficou num completo silêncio por 10 segundos e só foi quebrada com uma frase vinda do caixão:

_Nem morto!!

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CONTOS MISTERIOSOS

O VINHO DO TINHOSO

Era uma noite estranha, muito estranha. Parecia que o mundo caía sobre o pobre Vilarejo de Boa União uma tempestade castigava as pequenas casas e ruas do lugar. Todos estavam em casa, ninguém se atreveria sair sob um dilúvio daqueles. Só se notava uma pequena movimentação em um único lugar. Apenas 5 pessoas estavam na Cantina, o velho dono do lugar Sr. Gordon, uma prostituta barata Regina Marcha-ré, os 2 irmãos Brotheer e o Leiteiro da cidade, o Sr. Milk Wilson.

Todos estavam bebendo e conversando frivolidades, papo de bêbado:

_ Você acha que o universo é uma expansão constante como enunciou Hubble ou segue uma variação volumétrica pulsante? Perguntou o velho Sr. Gordon

_ Se analisarmos a variação da temperatura do espaço desde o Big-Bang, notaremos que a temperatura esta diminuindo, hoje se encontra pouco acima do zero absoluto (uns 2 graus), talvez quando atingir o zero, toda a matéria se contraia novamente até atingir temperaturas e pressões monumentais para um novo Big-Bang. Respondeu o humilde fazendeiro Mano Brotheer.

Como o leitor pôde perceber, é só mais uma conversa sem sentido, entre bêbados, que se ouve todos os dias nos Bares do Mundo. A conversa informal seguiu amistosamente enquanto todos esperavam a tempestade terminar.

De repente!! Não mais que de repente, a porta do "Boteco" se abre num estrondo! Todos no bar olham assustados para a porta. Uma corrente de vento, chuva e relâmpagos revela um homem, alto, forte, usando uma roupa completamente negra e chapéu. Logo entra na "birosca", mal se consegue ver o rosto do forasteiro que carregava sobre o ombro, um grande barril.

Todos ficaram paralisados ao ver a figura negra na porta do Bar. O homem se aproximou lentamente do balcão, todos se afastaram, quando colocou o grande barril no balcão e disse:

_ O Senhor é o dono deste estabelecimento comercial? Tenho algo para mostrar-lhe. Disse o homem de preto simultaneamente com um relâmpago.

O Senhor Gordon engoliu em seco e só conseguiu dizer:

_S..so...sou.

Nesse momento, Mano Brotheer colocou sua mão na cintura, no local onde sempre carregava seu revólver, ele era um homem pacífico, mas tomara o hábito de andar armado desde os tempos de seus avós.

_ Pode ficar tranqüilo Sr. Brotheer, eu vim em paz! Disse o homem sem olhar para o Agricultor, que tirou a mão da cintura em um espasmo.

_Como sabe meu nome???? Eu te conheço???? Perguntou irritado o trabalhador rural.

Sem responder à pergunta, o homem de preto apenas disse ao Sr. Gordon.

_ Tenho nesse Barril, um excelente vinho. É um vinho que o senhor jamais encontrará igual, nesse mundo. Estou querendo lhe vender.

_ Por que diabos, um homem sairia nessa chuva pelas estradas para vender vinho? Perguntou a Prostituta Regina Marcha-ré.

_ Meu Senhor, eu não o conheço e não preciso de vinho algum. Tenho uma grande e ótima adega aqui na Taberna. Disse o dono da espelunca.

_ Estou disposto a dar-lhe este barril de graça para o Senhor e seus convidados provarem. Se não gostarem, eu não cobro nada, mas se gostarem, farei meu preço. De acordo?

Palavras mágicas... "de graça, até ônibus errado"... O Senhor Gordon ao ouvir isso, aceitou de bom grado o Barril e começou a abri-lo com um pé de cabra. O homem de preto sentou num canto afastado do bar enquanto todos formavam uma roda entorno do Barril, todos ansiosos por um vinho grátis.

Eles bebiam feitos perus em véspera de natal, o Sr. Leiteiro já havia bebido 5 canecas grandes, os irmãos Brotheer faziam disputas sobre o maior gole. Todos estavam enchendo a cara, o vinho era delicioso. O homem de preto só acompanhava a cena de longe, com um pequenino sorriso no canto da boca.

_ O Senhor não vai beber nada? Perguntou Irmão Brotheer ao forasteiro.

_ Eu não bebo... vinho.

Todos estavam falando alto, rindo, contando piadas e histórias. Tudo parecia normal, mas....

De repente os dois irmãos estavam discutindo alto, não se sabia o motivo, mas seja qual for, estava esquentando.

_Calma gente... Vamos beber mais um pouco! Alegria! Disse o leiteiro.

_Fica na sua!!!!! Seu desgraçado, filho de uma vaca!! Gritou o mais velho.

_ Não venha com grosseria! Seu caipira comedor de capim, cretino!! Respondeu o Leiteiro.

_Parem de brigar!! Disse o Sr. Gordon.

Mas nesse momento começou a tragédia. O mais novo Brotheer sacou do revólver que também carregava e disparou dois tiros à queima roupa na boca do Sr. Gordon, que caiu com a cabeça espatifada e miolos voando para todos os lados.

_ Cala o lixo dessa boca, seu velho patife!! Gritou o jovem assassino.

Ao ver isso, Regina Marcha-ré, que estava ao lado do Sr. Gordon, pegou a escopeta de dois canos que o velho Sr. Gordon mantinha debaixo do balcão e disparou um tiro no peito de fazendeiro. O tiro o arremessou ao outro lado do bar, uma chuva de sangue cobriu todos que estavam em volta.

_ O que você tem contra putas? Seu filho de uma! Gritou a mundana um pouco antes de ter seus olhos perfurados por uma garrafa que o irmão mais velho do morto a havia jogado.

_Caçarola! Você me cegou! Gritou a meretriz ao fazendeiro que se preparava para dar um tiro na assassina de seu irmão. Mas o leiteiro foi mais rápido, agarrou a cabeça do fazendeiro e a segurou na máquina de cortar mortadelas em fatias que estava no balcão. O fazendeiro tentava se soltar do leiteiro enquanto vociferava encolerizado.

_ Me larga!! Eu vou matar essa vadia!

SLEPT! O leiteiro ligou a máquina de lâminas circulares, e a tampa do crânio do agricultor caiu no chão.

_ Ai!! Seu desgraçado!! Vou te matar!! gritou o fazendeiro Brotheer ao ver seu escalpo no chão.

SPLOFT! As lâminas alcançaram os miolos do homem. que tremia enquanto o leiteiro o segurava com toda a sua força.

Regina Marcha-ré, que se contorcia de dor e não via o que estava acontecendo, pois metade de uma garrafa foi alojada no seu olho direito, começou a dar tiros pra todos os lados com a escopeta que ainda segurava na mão.

Infelizmente, um tiro acertou na perna do Sr. Leiteiro, que ao tentar se segurar na caixa registradora para não cair, acabou arrastando-a para a beirada do balcão, fazendo com que ela caísse em sua cabeça, funcionando como um quebra nozes.

A caixa registradora que era feita de cobre, reduziu a cabeça do Sr. Milk Wilson em uma pasta de sangue e miolos.

O forasteiro assistiu tudo aquilo, sem demonstrar uma ponta sequer de espanto. Ficou sentado assistindo aquela cena que não durou mais do que alguns segundos. Agora, apenas a mulher estava viva, caída num canto atrás do Balcão. Ele se aproximou da pobre mulher e disse:

_Gostaram do Vinho?

_Seu filho do demônio! O quê tinha naquele vinho?? Gritou a sodomita.

_ Eu não sou filho do demônio. Eu sou o próprio Carcará, hahahahaha!!! Uma risada demoníaca foi ouvida à quilômetros de distância

_ Não!!!!!!!!!!!! ARGH!!!!!!!!! Gritou de desespero a mulher que morreu logo depois, pois o resto da cerveja que ainda estava na garrafa, começou a escorrer para dentro da cabeça.

O Homem de preto olhava os cinco corpos espalhados pela Taberna, que agora estava tingida de sangue por todos os lados.

_Cinco almas podres em troco de um bom Vinho do Tinhoso... acho que valeu a pena! Disse o homem de preto ao sair da Taverna no meio da noite levando o barril vazio.

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CONTOS MISTERIOSOS

Pulando corda

Numa noite em que eu estava sozinho em casa, para variar estava chovendo lá fora, eu senti alguma coisa me olhando pelas costas. Quando eu olhei para trás, não vi ninguém, então voltei a jogar no meu computador.

Alguns minutos depois, comecei a sentir a mesma coisa, mas dessa vez o meu coração começou a acelerar, como se me dissesse que tinha alguma coisa atrás de mim. Eu me virei e podia jurar que vi alguma coisa me olhando de fora do meu quarto, e no instante que eu olhei, o que quer que fosse saiu correndo. Eu fiquei olhando para o corredor, esperando ver algo, mas agora nada se mexia lá fora, e o meu cachorro estava deitado do lado da minha cama. Eu achei que fosse somente a minha imaginação e voltei para o meu computador.

Pouco tempo depois eu vi o meu cachorro levantando a cabeça e olhando para a porta com as orelha levantadas, como se tentasse ouvir algo. Então ele levantou, foi até a porta e deu dois latidos, então voltou correndo e se escondeu embaixo da minha cadeira, com o rabo no meio das pernas, rosnando e latindo e com os pelos do pescoço todos levantados. Agora eu estava assustado, realmente tinha alguma coisa lá fora.

Eu acendi um abajur que tinha do lado do micro e levantei. Fui até a porta e a casa estava toda escura. Eu não conseguia ver nada. A essa altura o meu cachorro já tinha parado de latir e rosnar e estava só me olhando de longe, ainda escondido. Agora que ele estava quieto eu consegui ouvir algo vindo do andar de baixo da casa. Parecia ser alguém cantando alguma coisa. Eu não conseguia entender o que estavam cantando, mas dava para ouvir alguém cantando algo bem baixinho. Parecia ser uma voz de mulher, de uma garotinha para ser mais exato.

Eu achei aquilo MUITO estranho e estava com muito medo de descer a escada, ainda mais que o interruptor de luz da lâmpada do andar de baixo fica longe da escada. Mas a curiosidade era muita e eu tinha que ver quem estava cantando. Então eu comecei a descer a escada tentando fazer o mínimo de barulho. Quando eu cheguei lá embaixo, meus olhos começaram a se adaptar à escuridão e eu fui em direção do interruptor de luz. Mas quando eu estava quase chegando lá, eu pude ver a silhueta do que parecia ser uma menininha pulando corda na sala. Era ela que estava cantando, enquanto pulava corda. Eu fiquei petrificado olhando aquilo, não conseguia acreditar no que estava vendo! Então, de repente, ela parou olhou para mim, soltou um risinho e saiu correndo para a cozinha. Com o susto eu pulei para trás e comecei a bater na parede, tentando acender a luz.

Assim que a sala ficou clara eu consegui me acalmar um pouco, mas ainda não acreditava no que tinha visto. Eu fui até a cozinha e depois de um pouco de hesitação, eu entrei e acendi a luz. Não tinha ninguém lá e todas as portas e janelas estavam fechadas e trancadas por dentro.

Depois daquela noite eu ouvi mais algumas vezes a voz daquela garotinha murmurando alguma canção. Eu também cheguei a "ver" ela mais algumas vezes. Pelo menos eu acho que era ela, é sempre um vulto no escuro, e sempre fugindo para se esconder. Eu nunca me senti ameaçado e ninguém da minha família nunca comentou nada, então nunca falei do assunto com eles ou com outras pessoas. Parece que só eu e o meu cachorro conseguimos ver e ouvir ela. Mas o meu cachorro se sente realmente incomodado com a presença dela. Eu não acredito que ela seja algum espírito maligno ou coisa parecida. Eu só acho estranho a presença dela na minha casa.

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CONTOS MISTERIOSOS

P-U-M

Em uma noite iluminada por uma lua minguante num céu sem estrelas, quatro jovens resolvem fazer o famoso "jogo do copo".

Reúnem-se na casa do mais velho, o líder da turma. Depois de uma oração em tom de brincadeira, começa a sessão de perguntas para o pseudo-espírito na mesa.

- Qual o seu nome? Pergunta uma das meninas da turma.

O copo se move para as letras formando a palavra P-A-L-H-A-Ç-O. Todos ficam assustados com o movimento, mas acham estranho que tenha se formado essa combinação. Exceto o líder da turma, que solta uma gargalhada quando a palavra é formada.

- O que você quer? Pergunta o segundo jovem:

P - U - M. É a palavra que aparece no tabuleiro. O jovem líder cai na gargalhada, solta o copo e sai de perto do tabuleiro:

- Essa brincadeira é cretina, estúpida. Fui eu quem fez o copo se mexer. Viram como isso não funciona?

- Cuidado. Não fique brincando com essas coisas. Você pode ser castigado - Retruca a pequena jovem.

Todos vão embora da casa do rapaz, indignados coma brincadeira sem graça do amigo. Como já era tarde, ele se prepara para dormir. Entra em seu quarto, deita em sua cama e começa uma oração. No meio de sua prece, ele sente uma dor muito forte no peito. Seu pijama azul tem uma mancha escura e que vai aumentando. O jovem coloca a mão na boca para conter um grito, mas percebe que sua boca também está sangrando. Seu nariz pinga mais sangue ainda, marcando o chão com poças avermelhadas.

Desesperado, ele vai ao quarto de seus pais e os encontram enforcados, pendurados no lustre sobre a cama, movimentando seus braços em busca do corpo do rapaz. Os gritos e palavras mórbidas ecoam por toda a casa:

- Maldito. Porquê você fez isso?

O jovem corre para fora de casa e bate na porta da casa de seus amigos. Ninguém atende. Seus gritos misturados com suas lágrimas pintam seu rosto de vermelho.

Cansado de gritar, ele fica em silêncio, mas ouve algumas gargalhadas. Tentando descobrir de onde vem as vozes, ele corre em direção ao som, e percebe que saem da garagem de sua própria casa.

Ao abrir a porta, ele se depara com uma cena macabra: Seus três amigos, sentados no chão, fazendo o jogo do copo. As gargalhadas eram assustadores, como crianças que se divertem com um brinquedo novo. Chegando mais perto, o jovem percebe que o copo se movia sozinho, sem nenhum dedo no tabuleiro. O copo fazia movimentos repetitivos para as palavras P-A-L-H-A-Ç-O. Movimentos cada vez mais rápidos formavam a palavra P-A-L-H-A-Ç-O, P-A-L-H-A-Ç-O, P-A-L-H-A-Ç-O, até que o copo explode.

Assustado, suado e com muito medo, o jovem acorda. Sim, foi um sonho. Ele olha a sua volta e não há sangue. O silêncio reina pela casa. Mais calmo, ele vai até o banheiro, onde tem uma surpresa ao se olhar no espelho: Seus olhos e sua boca, vermelhos de sangue, formam uma pintura de palhaço. Mesmo jogando água em sua face, a mancha não sai. Em um ato de desespero, o rapaz corre para o quarto dos pais. Quando ele abre a porta, encontra seu pai de pé, em frente à porta com uma arma na mão. Antes que ele pudesse pronunciar qualquer palavra, um único som toma conta de toda a casa: P-U-M.

No dia seguinte, todos os seus amigos vão ao velório de seu colega: O jovem palhaço que morreu com um tiro na cabeça.

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Risadas na madrugada

Essa foi uma lenda enviada por ccallista@bol.com.br de SP:

"Havia um casal que tinha acabado de se casar e se mudar pro novo lar. No quarto de casal ainda não tinha decoração, só a cama e o guarda-roupa. Então resolveram passar numa feira pra comprar alguns objetos.

Aí acharam um par de quadros. O primeiro era o rosto de uma menina e o segundo, de um menino. Levaram e colocaram na parede em frente à cama.

Nessa noite, de repente o marido acorda com umas risadinhas. Ele cutuca a mulher e pede pra ela parar de rir, que ele queria dormir. Mas não era ela. Ele pensou que a mulher era sonâmbula e voltou a dormir.

Na noite seguinte, ouviram mais risadas, mais nítidas. A mulher também tinha acordado. Acenderam a luz e não viram nada de estranho.

Na outra noite, foram acordados com risadas infantis e barulhos de passos correndo no carpete. Quando o marido acendeu a luz, olharam pra parede e tomaram um susto: os meninos não estavam nos quadros! Neles, só haviam duas paisagens melancólicas..."

 

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TESOURO MACABRO

A história que contarei a seguir é sobre dois amigos de infâcia, Pablo e José. Os dois eram mexicanos e andarilhavam em direção de San Juan, um pequeno vilarejo na província de Chiapas.

Estava chuvendo muito e os cavalos já estavam inquietos. Pablo observara uma caverna em meio às árvores e exclamou: "Veja José, uma gruta seca. Vamos usá-la como abrigo até a chuva passar." José não titubeou e seguiu seu amigo até a tal gruta. Lá dentro, os dois se abrigaram e acomodaram os cavalos. A caverna era gelada e José sentiu um calafrio que percorreu sua espinha. "Vamos sair daqui Pablo, esta caverna me dá arrepios." Balbuciou José tremendo de frio e medo. "Bobagem! Lá fora podemos até morrer naquele temporal. Aqui nós estamos secos e seguros."Retrucou Pablo.

A chuva não dava nem um sinal de cessar. José estava impaciente e Pablo curioso com a caverna. "Vamos lá para o fundo, estaremos mais seguros lá." Entusiasmou-se Pablo. "Estas louco homem, podemos nos perder naquela escuridão." Protestou José. "Covarde! Vamos lá, seja homem pelo menos uma vez nessa sua vida." Ameaçou Pablo com um sorriso sarcástico. Mesmo temendo pela sua própria vida, José segue o amigo até o fundo da caverna. Pablo, indo na frente, acende um fósforo e se surpreende com o que vê. Jogado ao chão, milhares de moedas de ouro e prata e até algumas jóias que refletian a luz do fósforo. Junto delas, um esqueleto humano. Pablo dá uma gargalhada e grita."Estamos ricos José, ou melhor, estou rico José!" Virando-se imediatamente para o amigo e apontando a garrucha diretamente para a testa dele. Pablo dá um sorriso e vê o pavor do amigo que suplica."Não Pablo, pelo amor de Deus... nós somos amig...." E um estrondo interrompe a voz de José. Com um tiro certeiro, Pablo espalha os miolos do amigo no chão... "He, he, he...agora o ouro é só meu, todo meu." Recolhendo o tesouro e colocando-o num saco, Pablo já vai até pensando no que fazer com o dinheiro.

O tempo passa e a chuva também. Com o tesouro devidamente embalado, Pablo sai da caverna sorrindo e gozando do cadáver do amigo."Pena que você não poderá se divertir com este dinheiro companheiro." Pablo coloca o saco com o tesouro no lombo do cavalo e ruma para o vilarejo. Chegando lá, ele vai diretamente para uma pensão contabilizar o seu achado. Euforicamente, Pablo sobe para o seu quarto mal podendo conter sua alegria. Já no quarto, o homem tranca a porta e joga o saco no chão. Ao abri-lo, Pablo depara-se com uma cena inesperada e pavorosa. "Não, não pode ser !!!" Agoniza o coitado. Ao invés do tesouro, ele encontrou o cadáver rígido de seu amigo José.

WAZIGO

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Vulto na janela

Aconteceu no início do ano de 1988.

Eu estava dormindo e tendo pesadelos quando acordei sobressaltada.

Sentei-me na cama e tentei me acalmar afinal de contas eu estava no final da minha primeira gravidez, quando olhei para o lado percebi um vulto fechando a janela; conclui que fosse meu marido e pensei: "por que ele está fechando a janela se está uma noite tão quente e abafada?" Porém quando olho do meu lado vejo que meu marido está dormindo e percebo que o vulto ainda estava lá.

Eu quis gritar, mas a voz não saiu, então fechei os olhos e orei, quando abri novamente os olhos já não estava mais lá.

Levantei-me da cama e fui beber um copo d’água para me acalmar.

Retornei ao quarto e olhei para a janela que estava aberta e vi que estava uma noite linda com lua cheia.

Me lembrei do vulto fechando a janela e tive nesse momento o impulso de fechá-la, logo em seguida fui me deitar, mal encostei a cabeça no travesseiro e ouvi barulho de 3 tiros e passos.

Percebi que alguém pulara o muro e forçara a janela para poder entrar. Meu marido acordou assustado e gritou para fechar a janela, porém o acalmei dizendo que já havia fechado.

Pela manhã descobrimos que os tiros foram dados pelo nosso vizinho para afugentar dois ladrões que tentavam assaltar a casa dele, na fuga eles correram em direção à nossa casa e provavelmente forçaram a janela pensando que ela estava encostada para que pudessem se esconder lá.

Como não conseguiram foram se esconder na casa abaixo e ficaram na área de serviço até o dia clarear e foram embora.

Quando penso naquele vulto acredito que foi um aviso divino em forma de anjo para avisar-nos do perigo que estávamos correndo.

Já meu marido acha que foi seu cunhado já falecido que voltou para nos avisar, e o fato de eu tê-lo confundido com meu marido era pelo fato de se parecerem fisicamente e eles também eram grandes amigos.

Se era um anjo ou um fantasma eu não sei, mas abençôo aquele vulto, pois naquela noite salvou nossas vidas.

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A Aparição

Um jovem chamado Marlon vivia com os pais numa capital brasileira. Era como todos os outros, gostava das mesmas coisas, musicas, cds, garotas, como os de sua idade.

Uma noite, na rebeldia de sua adolescência, discutiu com seu pai, quase chegando a agredi-lo, só não o fazendo porque fora impedido por um tio que lá estava.

No fervor da sua ira, foi até seu quarto e arrumou a mala, gritando e xingando a todos. A seguir, partiu sem rumo pelas ruas da cidade.

Sua cabeça estava a mil por hora, não raciocinava direito o que faria, para onde iria, mas estava decidido a nunca mais voltar a sua casa. Lembrou-se da casa de sua avó no interior! A casa estava sozinha, fechada, pois só era utilizada nas férias pela família, visto que todos moravam numa outra capital do país. Era para lá que iria! Pegou o trem e foi para a rodoviária...

Chegou de madrugada, após umas seis horas de viagem, cansado e com fome. Somente ele desembarcou.

Não havia viva uma alma na rua àquelas horas. Caminhou pelas ruas próximas da rodoviária, atravessou a praça principal e seguiu para a casa de sua avó. Só ouvia os latidos dos cachorros da vizinhança, excitados com a movimentação.

Chegando lá, entrou pela janela, pois não tinha as chaves da porta e sabia do problema da fechadura da janela da frente. Deitou numa das camas e dormiu até o dia amanhecer...

Acordou mais ou menos ao meio-dia, faminto. Logo, foi procurar almoço na casa de sua tia, do outro lado da rua.

Após os abraços comuns dos encontros com parentes, almoçou, disfarçando na conversa o motivo de sua ida à cidade naquela época do ano.

Voltando à casa, foi ao banheiro escovar os dentes. O banheiro ficava no fim de um corredor, este que dava para a cozinha.

Durante a escovação, como a porta do banheiro estava aberta, notou um riso estridente. Rapidamente, olhou para o fim do corredor e viu um homem, vestido com uma roupa inteira preta, com uma enorme cabeça, todo deformado e com mãos grandes e finas sobre a pia, como se tampasse sua passagem. Olhava para ele e fazia sinal de aprovação com a cabeça.

Teve, como qualquer um teria, um susto tremendo, e sua primeira reação foi fechar a porta do banheiro. Lá dentro, com muito medo e sem poder fugir, começou a rezar tudo o que sabia, embora não fosse freqüentador de igrejas. Nesse tempo, veio em sua mente todas as coisas ruins que fez, que não havia sido um filho bom. Enfim, caíra na real, mas acreditava ser tarde demais...

Essa história poderia terminar aqui, mas a verdade é que ele conseguiu fugir da casa: após um tempo, teve coragem para abrir a porta e nada mais viu.

Teve sua chance de sair correndo da casa e voltar a ser um bom filho...

 

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A Bruxa de Gwrach

O significado do nome Gwrach-y-rhibyn, literalmente é "Bruxa da Bruma" mas é mais comumente chamada de "Bruxa da Baba".

Dizem que parece com uma velha horrenda, toda desgrenhada, de nariz adunco, olhos penetrantes e dentes semelhantes a presas.

De braços compridos e dedos com longas garras, tem na corcunda duas asas negras escamosas, coriáceas como a de um morcego.

Por mais diferente que ela seja da adorável banshee irlandesa, a Bruxa da Baba do País de Gales lamenta e chora quando cumpre funções semelhantes, prevendo a morte.

Acredita-se que a medonha aparição sirva de emissária principalmente às antigas famílias galesas.

Alguns habitantes de Gales até dizem ter visto a cara dessa górgona; outros conhecem a velha agourenta apenas por marcas de garras nas janelas ou por um bater de asas, grandes demais para pertencer a um pássaro.

Uma antiga família que teria sido assombrada pela Gwrach-y-rhibyn foi a dos Stardling, do sul de Gales. Por setecentos anos, até meados do século XVIII, os Stardling acuparam o Castelo de São Donato, no litoral de Glamorgan.

A família acabou por perder a propriedade, mas parece que a Bruxa da Baba continuou associando São Donato aos Stardling.

 Uma noite, um hóspede do Castelo acordou com o som de uma mulher se lamuriando e gemendo abaixo de sua janela.

Olhou para fora, mas a escuridão envolvia tudo. Em seguida ouviu o bater de asas imensas.

Os misteriosos sons assustaram tanto o visitante que este voltou para cama, não sem antes acender uma lâmpada que ficaria acesa até o amanhecer.

Na manhã seguinte, indagando se mais alguém havia ouvido tais barulhos, a sua anfitriã confirmou os sons e disse que seriam de uma Gwrach-y-rhibyn que estava avisando de uma morte na família Stardling.

Mesmo sem haver um membro da família morando mais no casarão, a velha bruxa continuava a visitar a casa que um dia fora dos Stardling.

Naquele mesmo dia, ficou-se sabendo que o último descendente direto da família estava morto.

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A Cabana

Pode parecer uma lenda de verdade mas isso aconteceu comigo à um ano e meio atrás.

Eu e uns quatro ou cinco amigos curtíamos uma noitada na nossa pequena cidade que prefiro não revelar o nome. Resolvemos ir até uma cabana onde todos diziam que havia morrido um assassino lá dentro. Nunca acreditamos nessas coisa, até aquele dia.

Todos diziam que a cabana sempre estava trancada, e ao tentarmos abrir a porta da cabana, ela sem que ninguém tocasse, abriu sozinha ficamos com medo, ninguém demonstrava, e resolvemos entrar assim mesmo. Lá dentro havia uma mesa redonda uma vela apagada em um pires, como não havia luz elétrica acendemos a vela que clareou um pouco a cabana começamos a rir muito com isso dizendo que o assassino que viveu lá era um porquinho pois a casa estava precisando de uma limpeza e coisa assim, até que nos paramos de rir quando a vela caiu e pos fogo no tapete,tentamos apagar mas não conseguimos e o fogo se alastrava, tentamos correr, mas a porta parecia estar emperrada. Não conseguindo abri-la e nos escondemos num canto e nisso, de dentro do fogo vimos como se as chamas mostrassem letras:

V-O-C-E-S Z-O-M-B-A-R-A-M- D-E- M-I-M- A-G-O-R-A- P-O-D-E-R-E-I- S-E-R- O -V-E-R-D-A-D-E-I-R-O- C-U-L-P-A-D-O- D-A-M-O-R-T-E- D-E- J-O-V-E-N-S- A-T-R-E-V-I-D-O-S -N-A-D-A- T-E-N-H-O- A- P-E-R-D-E-R- A-G-O-R-A !!!

Nisso começamos a chorar e minha prima teve coragem e disse: "desculpe invadir seu território deixe-nos ir?" as letras continuaram N-Ã-O E ela disse "podemos te ajudar?" De repente o fogo parou e era como se nada tivesse sido queimado e olhamos bem sobre a mesa e vimos um envelope, abrimos e nele havia um bilhete que dizia:

'Desculpe não queria matar apenas livrar o mundo de minha presença que incomoda a muitos...desculpe se prejudiquei a cidade com o incêndio. Me tornei uma pessoa má depois da morte de minha melhor amiga, me perdoem..ASS Cleodinei dos Anjos Arruda".

Achamos melhor perguntar o que fazer e Silvinha perguntou, levamos a carta até as autoridades?

Nisso a porta se abriu e fomos entrega-la á polícia local completamente chocados.

Depois de muito tempo voltamos até a cabana estava trancada e não se abriu de forma nenhuma acho que ajudamos aquele espírito a se livrar da culpa e nos salvamos de virar churrasco.

Na minha cidade ninguém mais brincou com coisas do além...ninguém...

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A casa

Era final de ano e meu amigo me convidou para viajar com a família dele, e eu aceitei.

Eles alugaram uma casa perto do mar.

 A casa tinha acabado de ser reformada, por causa de um incêndio.

Nos dois primeiros dias foi muito legal, no terceiro dia nós acampamos no quintal de traz da casa, e fizemos até uma fogueira.

Deste dia em diante foi um inferno, quando estávamos tentando dormir nas barracas, ouvíamos passos, parecia que eram duas pessoas andando e uma se arrastando.

Mas conseguimos dormir mesmo assim.

No outro dia, passamos o dia inteiro fora e chegamos bem tarde quase 23 Horas; já era hora de dormir (para os adultos), mas nós ficamos conversando a noite inteira (eu, minha amiga e a irmã dele).

Já eram quase 2 horas da madrugada, quando ouvimos alguém bater na porta da sacada (que dava para o quintal dos fundos).

Nós apagamos a luz e ficamos bem quietos, pensando que quem estava lá iria embora.

Mas começaram a bater mais forte, e nós ouvíamos um choro agonizante de um dos que estavam batendo.

A irmã do meu amigo correu para o quarto da mãe dela.

As duas vieram correndo para ver, e quando a mãe de meus amigos abriu a porta da sacada não tinha nada.

E isso se repetia por todas a noites e em todos os quartos.

E quando o seu ARI (o pai do meu amigo), foi falar com o proprietário da casa, tivemos um susto, pois três crianças (os filhos dele de 15, 13 e 3 anos) tinham morrido naquela casa, e enterradas no quintal, justo onde tínhamos feito a fogueira.

E o mais interessante é que elas morreram queimadas justo no quarto em que estávamos!!!!

Naquela hora arrumamos as malas e nunca mais voltamos naquela casa.

 

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A Casa dos Demônios

A Casa dos Demônios

Os Stvesons eram uma família perfeita...., tudo ia bem.

O pai e chefe da família era o Sr.Richard, um homem severo, e disciplinado que às vezes se irritava a toa. A mãe a Sra.Melissa era um exelente dona de casa, que se dedicava muito à famíla e estava sempre disposta a ajudar seus filhos (1 homem e 2 mulheres).

O mais velho era o Michael (18 anos), a do meio era a Janie (16 anos), e por fim estava a caçula Marie (8 anos).

O pai havia sido promovido a um cargo maior na empresa em que trabalhava, sendo assim passou a ganhar mais. Compraram com o dinheiro suado que economizaram por muito tempo uma casa bábara e enorme.

Porém eles não haviam sido avisados por ninguém sobre as coisas estranhas que aconteciam por ali. O dia da mudança foi agitado. Muita coisa para descarregar e guardar, e estavam todos adorando, mas Michael estava achando algo de estranho naquela casa sinistra e antiga.

Ele sentiu uma sensação estranha que nunca havia sentido antes, e ficou mais assustado ainda quando olhou para o alto e viu na janela do sótão um rosto que ele nunca havia visto antes... olhando fixamente para ele, seu espanto é quebrado quando ouvi seu pai o chamando, ele vira o rosto, e quando olha novamente aquela figura sumira dali.

Ele corre para ver o que estava acontecendo, e encontra seu pai irritado por não conseguir abrir as janelas mas quando vê elas estão pregadas.

O primeiro jantar da família foi perturbado todos não paravam de discutir na mesa, parecia que estavam sendo influenciados por alguma coisa.

De repente a briga é interrompida por um terremoto que faz o espelho que estava no móvel perto da mesa cair.

 Com toda a força ele cai no chão e por incrível que pareça permanece intacto, a Sra Melissa se levanta para apanhar o espelho e diz:

- Nossa!! Nem quebrou..., e o coloca no lugar mas logo após alguns segundos ele misteriosamente trinca-se.

A vida daquela família perfeita estava se transformando num verdadeiro inferno, coisas sumiam de repente, e ruídos estranhos eram ouvidos constantemente, principalmente à noite.

 É claro que eles percebiam o que estava acontecendo, mas ninguém jamais poderiam imaginar que tudo aquilo acontecia por influência de espíritos maléficos, almas que fizeram mal quando vivos ou não conseguem ser aceitos por espíritos bons.

A mãe começou a desconfiar do que estava ocorrendo e chamou um padre.

O pobre homem logo que entrou na casa já sentiu o ambiente pesado que estava ali, e sentiu-se mal. Ele havia deixado sua bíblia no carro, por tanto tinha que voltar para pegá-la, mas quando voltou para ver ela estava misteriosamente destroçada, rasgada, por uma força descomunal capaz de conseguir rasgar uma capa dura como aquela.

Ele não pensou duas vezes... era preciso exorcizar aquela casa, mas precisava de autorização para fazê-lo, por tanto até o dia seguinte ele espalhou crucifixos pela casa.

Já de manhã quando todos acordam encontram todos os crucifixos que estavam espalhados pela casa todos cobertos por lençóis.

No dia seguinte o padre chega na casa para exorcizá-la, ele começa o ritual e imediatamente a casa toda começa a tremer, ouvem-se ruídos estranhos como nunca havia-se ouvido, os livros começam a cair, o lustre despenca do teto, a geladeira começa abrir e fechar... um barulho ensurdecedor toma conta de todos, e um cheiro horrível paira no ar.

Todos ficam muito assustados e apavorados.

Esse inferno durou cerca se um minuto até que para e um silêncio frustrante toma conta do ambiente da casa.

Tudo havia acabado... aquele inferno que a família passara tinha acabado, mas ninguém queria morar num lugar onde coisas como aquelas tinham acontecido, pois afinal eles ainda tinham medo que os espíritos voltassem.

Portanto venderam a casa e decidiram se mudar, compraram uma casa menor mas pelo menos era segura e o mais incrível de tudo era que após um mês os novos moradores daquela casa que venderam não haviam se queixado de nada de estranho.

 Tudo parecia normal para os Stevensons, até que coisas estranhas como aquelas logo começaram a surgir na nova casa.... foi aí que perceberam que aqueles espíritos não estavam assombrando e perturbando aquela casa.... eles estavam assombrando aquela família.. a família Stevensons, eles teriam que conviver com isso por toda a eternidade, até o dia em que morressem.

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A Casa dos Rostos

Ao entrar em sua modesta cozinha em uma abafada tarde de agosto de 1971, Maria Gomez Pereira, uma dona de casa espanhola, espantou-se com o que lhe pareceu um rosto pintado no chão de cimento.

Estaria ela sonhando, ou com alucinações? Não, a estranha imagem que manchava o chão parecia de fato o esboço de uma pintura, um retrato.

Com o correr dos dias a imagem foi ganhando detalhes e a noticia do rosto misterioso espalhou-se com rapidez pela pequena aldeia de Belmez, perto de Córdoba, no sul da Espanha. Alarmados pela imagem inexplicável e incomodados com o crescente número de curiosos, os Pereira decidiram destruir o rosto; seis dias depois que este apareceu, o filho de Maria, Miguel, quebrou o chão a marretadas. Fizeram novo cimento e a vida dos Pereira voltou ao normal.

Mas não por muito tempo. Em uma semana, um novo rosto começou a se formar, no mesmo lugar do primeiro. Esse rosto, aparentemente de um homem de meia idade, era ainda mais detalhado. Primeiro apareceram os olhos, depois o nariz, os lábios e o queixo.

Já não havia como manter os curiosos a distância. Centenas de pessoas faziam fila fora da casa todos os dias, clamando para ver a "Casa dos Rostos". Chamaram a policia para controlar as multidões. Quando a noticia se espalhou, resolveu-se preservar a imagem. Os Pereira recortaram cuidadosamente o retrato e puseram em uma moldura, protegida com vidro, pendurando-o então ao lado da lareira.

Antes de consertar o chão os pesquisadores cavaram o local e acharam inúmeros ossos humanos, a quase três metros de profundidade. Acreditou-se que os rastos retratados no chão seriam dos mortos ali enterrados. Mas muitas pessoas não aceitaram essa explicação, pois a maior das casas da rua fora construída sobre um antigo cemitério, mas só a casa dos Pereira estava sendo afetada pelos rostos misteriosos.

Duas semanas depois que o chão da cozinha foi cimentado pela segunda vez, outra imagem apareceu. Um quarto rosto - de mulher - veio duas semanas depois.

Em volta deste ultimo apareceram vários rostos menores; os observadores contaram de nove a dezoito imagens.

Ao longo dos anos os rostos mudaram de formato, alguns foram se apagando. E então, no inicio dos anos oitenta, começaram a aparecer outros.

O que - ou quem - criou os rostos fantasmagóricos no chão daquela humilde casa? Pelo menos um dos pesquisadores sugeriu que as imagens seriam obra de algum membro da família Pereira. Mas alguns químicos que examinaram o cimento declararam-se perplexos com o fenômeno. Cientistas, professores universitários, parapsicólogos, a policia, sacerdotes e outros analisaram minuciosamente a imagem no chão da cozinha de Maria Gomes Pereira, mas nada concluíram que explicasse a origem dos retratos.

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A GRANDE CHANCE  (Adriano Siqueira )

Melissa... Um nome que, para mim, significa tudo.

A garota mais linda da minha classe. Loira, cabelos longos, um sorriso lindo, tem uma pinta bem do lado esquerdo em cima da boca. Quando ela coloca um batom vermelho e pinta as unhas com cores claras e coloca aquelas flores de decalque é difícil não reparar em seus gestos É como se posasse o tempo todo para as câmeras. Coisa de filme mesmo. As vezes até embassava os olhos para dar aquele clima romântico que vejo nos filmes da sessão da tarde.

- É hoje que vou encontrá-la. Finalmente consegui que meu amigo organizasse uma festa para nos encontrarmos. Uma dança! Esse é meu plano. Quando ela estive na pista vou dar um toque para o DJ que é o meu amigo Tito e ele rapidamente vai colocar uma musica para eu convidá-la para dançar. Um plano que nunca falha. Quando eu dar o beijo fatal eu vou mostrar o anel que comprei para a gente ficar. Podem não acreditar, mas quando eu vi esse anel, eu vi o rosto dela.

- Nossa! Fiquei sonhando com o meu plano e já estou atrasado! Prometi que estaria lá as 19:30hs e já é 19:45hs E a droga da minha imã não sai do banheiro!!!!!.

- Já saí! É todo seu.

- Sai! Sai da frente...

- Mãe! Olha o Cacá de novo.

- Menino! Toma juízo ou fica de castigo a noite toda.

- Tá bom! É rapidinho mãe! Hoje é muito importante.

- Sei sei! Mais um plano para conquistar a Melissa!

- Cala a Boca!

- Mãe!!!

Depois de muita encrenca consigo me arrumar saio correndo para a casa do Tito... Pô! Já é 20hs.

Ouvi a minha mãe gritando comigo, mas eu estava na rua, correndo. Um carro buzinou e com o susto dei de cara com uma árvore que estava no caminho.

Depois da dor de cabeça por causa da pancada eu continuei no caminho.

A festa tava bem animada. Tão cheio que parte do pessoal estava com garrafas, bebendo no quintal. Deve estar um calor muito forte lá dentro... Eu já estou suando. Esse terno não foi uma boa idéia.

Eu estava ouvindo uma música bem daquelas para dançar junto. Cheguei na hora. O Tito deve ter-me visto chegando. Legal! Significa que a Melissa está na festa. Legal! Legal! Tô com a adrenalina a mil por hora. Minhas pernas estão tremendo muito. Tem muita gente. Eu acho que vi o cabelo dela lá no meio da sala. Caramba... Eu vi o Tito no som. Ele estava me dando um sinal... Não entendi! Cadê ela? O anel! Droga! Está no meu bolso... Qual deles? Oras... Vê se isso é hora de ficar procurando anel.

Quando o pessoal viu que eu estava indo ao encontro dela. Seus sorrisos diminuíam e se afastavam dando maior visão ao centro da sala....

– Achei o anel!

O pessoal ficou me olhando. Eu estava sorrindo quando eu vi a Melissa Beijando aquele cara. Um beijo caloroso e que só podia ser dado por alguém muito, muito apaixonado.

Meu sorriso diminuiu muito. Eu deixei o anel cair. Ficou rodando... não sei pra onde... fiquei olhando e tentando me afastar antes dela me ver.

- Caca! Ela Disse...! Que bom que veio. Queria apresentar meu novo namorado.

O cara estendeu a sua mão em minha frente para me cumprimentar sem tirar os olhos dela. A outra mão estava acariciando seus cabelos.

Eu estava suando. Pelo calor. Pela boca que não falava. Pelos olhos que não se abriam. Pela dor. Dor que medico nenhum iria curar. Aos poucos eu consegui forçar para dar um aperto de mão. Respirei fundo. Naquela respiração suguei todo o ar da sala. Eu disse:

- Estou por ai.

- Espere! Ele disse. Junte-se a nós.

- O que?

Ele deu um sorriso e disse: - Você a quer não é?

- Qual é a sua cara? Esta noite não está sendo das melhores.

- Melissa! “Ele diz como se comandasse em exercito.” - Beije o garoto!.

Antes que eu entendesse o que estava acontecendo ela me beijou e gemia passando as mãos no meu cabelo e em meus ombros.

- Basta! “ Novamente aquela voz forte que era maior que a música que tocava. Ela parou na hora e ficou com um olhar vazio como se nada especial tivesse acontecido. Aos poucos, ela voltou para os braços dele e novamente ela sorria.

- Porque esta me olhando assim Cacá?

- Você pode ter esse poder. Quantas dessas garotas você se apaixonou e perdeu?

- Dane-se! Eu estava com raiva dele e com raiva do que ele fez a Melissa.

- Quantas noites você sonha com planos e oportunidades para conquistá-las?

Cara eu não sei o que você fez mas eu não vou deixar você sair livre dessa!

- O pessoal agia como se nada estivesse acontecendo. Era um pesadelo só podia ser.

- Eu posso tudo garoto!

- Eu já disse que não! “Segurei o braço dele e disse:

- Eu a amo Eu a quero da forma correta! Do jeito certo entendeu???

- O sorriso dele finalmente cessou. Seus olhos eram vermelhos como fogo. Fiquei um pouco sem ar e fiquei tonto até que apaguei no chão.

Estava tudo escuro. Aos poucos eu escutava as pessoas gritando meu nome e minha vista estava muito embaçada. Mas eu reconhecia a voz... Era ela...

- Melissa!

Ainda bem que está bem! Ficamos preocupados sua mãe ligou pra gente te procurando. E encontramos você aqui. Me abraça!

Eu fiquei ali no chão abraçando e aos poucos vi finalmente onde eu estava. Perto da árvore.

Quando bati devo ter desmaiado. Tudo foi um sonho. Ela estava agora comigo. Eu a beijei. E fechei os olhos. Quando abnri novamente... Meu coração quase saiu pela boca.

Eu vi o cara novamente... na esquina. Ele estava lá. Me olhando...

- Ela viu que me assustei e perguntou porque eu estava assim.

Eu olhei de novo e ele havia sumido. Aliviado, olhei para ela e disse.

- Quer dançar?

 

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CONTOS MISTERIOSOS

A LOCOMOTIVA FANTASMA

Foi em Castelo, no Espírito Santo. No dia 14 de março de 1946, meu pai, Manoel, saiu muito cedo de casa. Ia levar à estação da Estrada de Ferro uma encomenda de pessoa da família, residente em Cachoeiro de Itapemirim.

 Não era a primeira vez que meu pai fazia tal coisa; freqüentemente, até, servia-se dos préstimos de um velho maquinista, seu conhecido, que se encarregava de fazer chegar as encomendas ao seu destino.

O trem, que era misto, partia às 5 horas e 30 minutos, tendo meu pai chegado à estação um quarto de hora antes. Dirigiu-se à máquina, mas vendo que não havia ninguém dentro, resolveu esperar que o amigo chegasse.

De certo tinha ido tomar um café.

Mas o tempo foi passando 5, 8, 10 minutos. Já estava na hora da locomotiva ir apanhar a composição, e nada do maquinista chegar.

Nisto ouviu-se o apito do manobreiro, ordenando que a máquina se pusesse em movimento, indo encostar-se aos vagões para o engate. Meu pai, que conhecia o serviço, ainda pensou com seus botões:

- Vai ter que esperar que o maquinista chegue. No mesmo instante, porém e com certo espanto, notou que a locomotiva começava a se movimentar, caminhando para a composição.

Depois ouviu aquele ruído surdo, tão característico do entrechoque dos engates, e viu a locomotiva voltar, vagarosamente, sem esperar sinal algum. O manobreiro gritou:

- Êêêêê! Como é isto? Você ficou maluco, seu maquinista? Tem que esperar o sinal! Volte que não engatou!

Mas a locomotiva foi seguindo para frente, sempre em marcha lenta; passou por meu pai e foi estacionar exatamente no local de onde havia saído. O manobreiro veio correndo, para tomar satisfações:

- Então, como é? Isto é a casa da sogra, ou... Mas, ao subir os degraus da máquina, parou, meio desconsertado, murmurando:

- Diabo! Ou esta gente saltou sem eu ver... ou este negócio estava andando sozinho? - e saiu ruminando palavras, enquanto voltava para o seu lugar.

Já passava das 5 horas e 30 minutos o maquinista, que por um motivo qualquer perdera o horário, chegava esbaforido.

Meu pai dirigiu-se a ele, a fim de lhe entregar a encomenda.

Viu, porém, que não era seu velho conhecido, e sim um outro, que subiu à máquina, apressadamente, e tratou de cumprir sua obrigação. Nisto aproximava-se o manobreiro, a quem meu pai perguntou:

- Maquinista novo?

- Sim, este peste, que me chega com quase 10 minutos de atraso!

- E o outro? o que eu conhecia?

- O outro? Pois não sabe? Morreu, coitado, há oito dias, num desastre na linha Coutinho-Alegre.

E ajuntou, suspirando:

- Aquele sim! Era eu dar o sinal, e a locomotiva fazia logo o que tinha de fazer!

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CONTOS MISTERIOSOS

A mal afamada trajetória do Jura Peidão

A NECROSE também é "pura emoção".

Essa é uma história que narra o infortúnio que foi a vida de um pobre mancebo conhecido por Jura Peidão, hoje em dia chamado de Jura em Prosa e Verso. Esse homem, que apesar de sempre procurar agir da melhor maneira possível e procurar fazer o bem ao próximo, sempre foi alvo dos mais sórdidos e desagradáveis caprichos do destino.

Essa história -que é verídica- mostra a todos nós que a vida, citando o filósofo FU MAN CHU, "se resume a grandes pedaços de estrume".

Essa história serve também para aqueles que acham que "a caneta é mais forte que a lâmina". Tudo bem, a caneta é mais forte?...É... É? Então enquanto você escreve um monte de coisas bonitas e sensatas, eu corto a sua jugular com um golpe da minha foice!!!

Jura Peidão começou a deixar a sua "marca negra" nesse mundo antes mesmo de nascer.

No ato da concepção, o pai de Jura Peidão, no auge do ato sexual, começou a gritar o nome de sua amante: Marieta Fim-de-Noite.

É claro que a sua mãe (não a sua, a de você que está lendo, mas a do Jura), ficou muito magoada com o evento, mas como era uma mulher humilde e submissa ao marido, ficou em silêncio, amaldiçoando a futura cria que poderia ser fruto daquele momento.

A merda estava feita!!

No dia de seu nascimento, vários fatos marcaram aquela trágica data.

A mãe do Jura Peidão morreu durante o parto. Ela sofria de uma prisão de ventre que durava 9 meses (terminara exatamente naquele momento).

Jura Peidão nasceu numa pequena cidade do estado do Bahia, chamada Tanquinho (Ex Tanquinho de Feira de Santana) terra do requeijão e da manteiga, terra da fartura pois lá tudo "farta": a água, a comida, a luz e até o ar, numa sexta-feira treze, em agosto.

Reza a lenda que Jura Peidão nasceu pelo pé esquerdo, e que estava rindo quando foi retirado da mãe morta.

É claro que isso não passa de lenda, pois isso seria o suficiente para acusar o menino de "Filho do Tinhoso", ou "Anticristo", ou "Rebento do Capeta"... e atirá-lo ao rio

O menino cresceu forte e sadio, apesar de todas a mazelas que atingiram a família desde a sua chegada.

O irmão mais velho foi atropelado pelo caminhão de leite quando foi pegar o bebê (Jura Peidão com 2 anos) que atravessara a rua sozinho num momento de descuido.

Depois que Jura Peidão (com 8 anos), por maldade, abriu as porteiras da fazenda do patrão de seu pai, durante uma grande enchente, fazendo com que o gado morresse afogado, seu pai nunca mais conseguiu um emprego fixo em uma fazenda.

As irmãs de Jura Peidão se tornaram prostitutas em uma cidade grande depois que seus noivos (rapazes bons e de família) morreram ao cair com a carroça no rio. Dizem as más línguas que os cavalos se assustaram quando Jura Peidão (então com 12 anos) caíra de um pé de manga que ficava na beirada da estrada (Jura não sofrera nenhum arranhão).

O avô materno morrera asfixiado quando Jura Peidão (com 13 anos) retirara de propósito e levara sua máscara de nebulização para escola a fim de mostrar à professora (posso imaginar o pobre velho agonizando com a última gota de ar que tinha em seus pulmões: "d...d...devolve moleque desgraçado!!!").

A amante de seu pai, Marieta Fim-de-Noite, transformou-se em Irmã Beneditina, depois de ver a imagem de Jesus Cristo mexer no altar da Matriz (na verdade, Jura Peidão, então com 15 anos, se escondera atrás da imagem ao fugir do padre após ter deixado as hóstias da missa caírem no galinheiro).

Como o leitor pode ver, o rapaz continha alguma coisa que atraía desgraças à sua família e aos amigos.

O menino cresceu solitário. A única namorada, uma bela moçoila, morreu em virtude de uma febre fulminante que a pegou ao ficar sob uma chuva com Jura Peidão (o guarda-chuva dele emperrou).

O pai de Jura Peidão morreu de alívio (literalmente) quando seu filho decidiu tentar a sorte no Rio de Janeiro ao completar a maior idade. A cidade inteira foi até o ponto do ônibus para ter certeza de que ele iria realmente embora.

Depois de 3 pneus furados e uma égua atropelada; finalmente o ônibus chegou ao Rio de Janeiro.

O rapaz ficou maravilhado com a grandiosidade da cidade, com as praias, as pessoas, os carros, os prédios, as favelas, o lixo...

 Depois de apenas quinze minutos no Rio, foi assaltado. Mas a "estrela negra" de Jura brilhou mais uma vez, quando os pobres delinqüentes fugiam com suas malas, parte de uma obra desmoronou sobre os meliantes, esmagando-os na hora. Jura Peidão pôde assim reaver seus pertences.

Imagine o egrégio leitor: um rapaz humilde, ingênuo, pobre e com um "encosto" deste no caos que é o Rio de Janeiro. Vagou durante horas pelas ruas da "Cidade Maravilhosa" (quem disse isso estava em um avião) até chegar na famigerada Praça 15.

Qualquer pessoa que conheça a Praça 15, sabe que, principalmente a noite, não se trata de um lugar aconselhável para uma reunião de família, muito menos para se formar uma.

 Jura Peidão procurou muito entre Cabarés, Botequins, Boites e "Suadouros", um Hotel para repousar. Existem vários estabelecimentos na região que não podem ser considerados hotéis; não por pessoas de visão curta como nós. São hotéis que prezam amizade sem compromisso, o encargos não são diários, e sim horários. Esses hotéis possuem uma pastoral que prega a relação íntima entre homens e mulheres com mulheres e homens com outros homens, todos de uma vez ou fazendo fila, um atrás do outro...essas coisas!

Jura Peidão, que era muito religioso, escolheu um hotel pelo belo nome Bíblico: "Madalena de Sodoma". Ao adentrar pelo Saguão do Hotel, Jura Peidão levou um choque. Toda a escória da sociedade estava presente ao saguão: prostitutas, traficantes, ladrões, cafetinas, estelionatários, advogados, músicos de Reagge, fanáticos religiosos, despachantes, escritores de contos de terror e políticos. Jura Peidão tentou ignorar aquele ambiente e se dirigiu ao balcão.

Um imigrante coreano, que parecia ser o dono do Mafuá lhe atendeu com um sotaque carregado:

_Pagamento adiantado! Disse o coreano.

_Tudo bem meu bom homem! Onde assino? Jura disse com benevolência.

_Aqui! O coreano que se chamava Li Bo Tei apontou com o dedo na linha pontilhada do grande livro de registros do Hotel Madalena Sodoma.

Mas ao assinar o documento, a "estrela negra" de Jura Peidão fudeu novamente.

Um enxame de políciais civis entraram no "suvaco de cobra" atirando e perguntando depois.

Foi uma balbúrdia, um pandemônio.

Pessoas correndo e gritando por todos os lados, alguns traficantes e advogados revidaram os tiros, a polícia subia as escadas atirando em tudo que se movia, o cacete "descia" sem cerimônia, uma freira que estava no saguão tentando converter algumas das "funcionárias" do hotel levou um tiro de escopeta da nunca.

Cenas de violência e morte por todos os lados. Um traficante teve sua parte inferior da unha perfurada por uma frepa de madeira. Jura Peidão só teve tempo de pular o balcão e se esconder com o coreano.

Não demorou muito para tudo se acalmar. Logo todos foram levados para a delegacia (alguns para o IML), inclusive o pobre Jura Peidão.

Jura Peidão estava desolado. Estava no Rio a apenas algumas horas e já assistira várias cenas de violência explícita. E agora estava a caminho da Delegacia...O que o seu pai diria disso?

 Com certeza diria: "Coitados dos Policiais".

No Distrito Policial, Jura Peidão conheceu um homem que julgava existir apenas nos livros de terror. O Delegado Lobinho Quiquito se aproximou da torpe que chegava e disse:

_Caralha!!! O que esse ralé está fazendo aqui no meu Distrito?

_Doutor Delegado, nós não fizemos nada!! Disse uma das mundanas.

_Lúcio!!! Lúcio!!! Tira esse pessoal daqui!!! Leva todo mundo pra gaiola!!! Afinal? Quem senta na cadeira que gira aqui??? Eu!!!!!

_Mas seu Quiquito!!! Tentou argumentar o coreano dono do Hotel.

_Caceta!!! Cale-se, senão serei Brutal, Bruno Brutal com você!! Vociferou o Delegado.

Jura Peidão assistiu aquilo tudo com muita tristeza. Não quis se meter em mais nenhuma encrenca e foi pacificamente para o xadrez.

Mas o incauto Delegado Lobinho Bananinha (outro apelido) não poderia imaginar que estaria assinando sua sentença.

Assim que Jura Peidão pisou na cela, uma bomba explodiu Delegacia!!! Era uma rebelião de presos (mais uma) que estava sendo preparada a vários meses e que escolheram aquele exato momento para começar.

Vários corpos de policias foram despedaçados com a explosão.

 Na confusão, muitos presos agarraram os guardas e começou o tiroteiro.

Outro inferno começara!!

Pessoas que passavam na rua entraram correndo para dentro da Delegacia para participar da carnificina. Tiros, bombas de gás, cacetetes, mordida na orelha!! Tudo valia.

Algumas viaturas da polícia chegaram e começaram a atirar.

As cenas seguintes ultrapassaram o limite da violência.

O Carandiru perto daquilo que virou o Distrito Policial do Delegado Quiquito, pareceu com uma colônia de férias.

Pilhas de mortos e feridos eram arremessados pelas janelas.

No meio da confusão, Jura Peidão fugiu.

O pobre coreano Li Bo Tei foi confundido com um cadáver e foi defenestrado do 3º andar (agora sim era um cadáver).

O Delegado Baby conseguiu fugir vestido de mulher pela portas dos fundos. Só com a chegada do Esquadrão de Extermínio da Polícia Militar, a rebelião foi contida.

Jura Peidão sabia que todas aquelas desgraças eram frutos de seu "encosto".

Jura Peidão (que recebeu esse apelido depois de matar involuntariamente um homem em um elevador, ao qual ficaram presos juntos), resolvido a dar um basta nessa loucura, cansado de levar desgraça e sofrimento à todos que cruzam seu caminho, resolveu voltar pra Bahia e fazer um site, publicando-o na Internet.

Mudou de nome para Jura em Prosa e Verso (o "P" de Peidão permanece  até hoje), mudou de cara com uma plástica (o cirurgião morreu de câncer) e com a nova cara resolveu levar uma vida incógnita, só editando seu site e também escrevendo histórias imbecis para agradar outros imbecis, como você que acabou de ler.

Que tal? Desculpe a brincadeira. A palavra "imbecil" aí é só gozação, tá?

Há... Há... Há...

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A Maldição da Vida Eterna

Sentado sobre a fria lápide daquele túmulo, no cemitério, durante uma fria noite de outono, o Demônio, diante de mim, contou-me a seguinte história.

- Logo após existir o Céu e o Inferno, presenciei a vida do homem sobre a Terra.

Desde os tempos mais remotos e imemoriais, ele -- o homem --, buscou de várias maneiras, com feitiços e poções milagrosas, a dádiva da Vida Eterna, que até hoje, nunca foi alcançada por qualquer mortal.

Dádiva e poder que somente Deus e Eu -- o próprio Demônio -- podemos conceder.

- Certa meia-noite - continuou o demônio, - um homem veio à mim; pediu-me com toda cordialidade que lhe desse o poder da Vida Eterna.

Em troca de tal, ele me daria sua alma.

Certos segundos, permaneci calado, espantado.

Nenhum ser mortal, em toda minha longínqua vida, me havia feito tal proposta.

Resolvi aceitar.

Selei imediatamente o pacto para que nem eu nem ele pudesse mais desistir. O pacto estava feito, sua alma em troca do imortal poder.

Aí o homem falou:

- Como você é trouxa e idiota, Demônio! Vou lhe enfrentar, e jamais morrerei. Serei o verdadeiro Demônio, serei mais perverso e mau que você!

Mesmo ouvindo tantas blasfêmias e injúrias, nada fiz. Ele não sabia mas é claro que ao conceder-lhe a vida eterna eu o estava condenando a uma vida de eterno sofrimento. Só ele não percebia! Eu me vingaria das injurias que estava ouvindo, mas minha vingança seria, lenta, eterna, e mais perversa do que ele poderia imaginar".

Passado alguns dias em que meu servo viveu em euforia, comecei a agir sobre ele. Quando ele passrava pelas ruas da cidade moderna, fiz com que um caminhão o atropelasse violentamente.

O homem, estendido no asfalto quente, com as costelas esmagadas, os braços quebrados, encharcado pelo sangue que lhe jorrava pelas veias dilatadas e pelos brutais ferimentos, ainda se mexia.

Realmente ele tinha o poder da Vida Eterna.

Ao se levantar grotescamente do chão, já cercado por inúmeros, espantados e curiosos mortais, o homem começou a caminhar sem rumo, sendo rejeitado por todos que cruzavam-lhe o caminho.

Sangue brotava de feridas abertas que lhe predominavam a pele, apresentando a todos um aspecto extremamente horrendo, sem poder sequer falar, apenas gemer em agonizante dor.

Até parecia ser coisa do Demônio, sussurravam baixo os mortais curiosos.

Rejeitado por todos, coberto pelo próprio sangue, o homem sofria, eternamente em profunda dor, mas sem morrer jamais.E assim continua a cada dia, até hoje e sempre.

A cada dia  um sofrimento novo, mas sem nunca o alívio da morte.

Ah! Ah! Ah! Ah!

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A morte bate a porta

Numa certa noite de interior, em meio a uma roda com fogueira, muito frio e histórias de horror, um certo garoto lança um desafio ao amigo. Faremos uma aposta, eu duvido que o Marcio entre no cemitério a meia noite???? Marcio então respondeu ao amigo:

- Aceito o desafio e não só entro como ainda trago algo para comprovar que estive lá. Então a meia noite ambos foram ao portão do cemitério, o amigo para ver com seus próprios olhos que Marcio entraria. Marcio entra, e o amigo assustado com a escuridão corre de volta para casa e fica lá com os amigos esperando o retorno de Marcio.

Marcio com muito medo, começa a ouvir passos e vozes, olha para traz e nada vê somente uma enorme escuridão, com muito medo, arranca logo uma cruz do cemitério e corre desesperado de volta para casa...... ao sair do cemitério ao longe escuta gritos de desespero.

Chegando em meio ao amigos, entra em casa sorridente e mostrando a todos sua coragem, com aquela cruz na mão, prova ao amigo que não tem medo de mortos. Os dois ficam rindo da aposta..... quando adentra em casa um dos amigos dizendo:

- Marcio, o João Alves está ai fora te procurando.... ele veio buscar algo dele que está com você.

Marcio olha desesperado para o amigo e diz: - Mas eu não conheço nenhum João Alves, e no mesmo instante os dois olham para a cruz e para espanto dos dois, na lápide havia o nome... "João Alves".

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A Morte é a Liberdade

Finalmente acordou. Sentiu calor e sede. Estava perdido. Olhou a sua volta e viu que estava só, não havia ninguém por perto, pelo menos ninguém vivo. O chão estava forrado de ossos humanos, e não havia nenhuma vegetação. Um cheiro forte contaminava o ar.

César despiu a camiseta e começou a caminhar. A cada passo ossos estalavam no chão. A sede e o calor aumentavam e atordoavam a mente de César. Lutava constantemente com o desespero. Caiu várias vezes no chão, e chegou a se assustar ao ver sua mão suja de sangue. Mas o sangue não era dele.

Depois de muito caminhar sem rumo, enxergou algo no horizonte que parecia ter forma humana. Estava exausto. Gritou. Nenhuma resposta. Gritou novamente. Nada. Parou um pouco, juntou forças e correu cambaleante em direção ao vulto que avistara. O calor tornara-se insuportável. Era movido pela esperança, mas as pernas doíam muito.

Aproximava-se cada vez mais do vulto. Podia agora ver que se tratava de um homem nu que parecia estar bem machucado. Começou a ouvir gemidos.

Logo mais a frente havia um vale. César estava a um passo daquele homem quando olhou para o vale e parou espantado. O homem nu começou a correr para lá.

A cena que presenciava era horrível. No vale havia uma espécie de poço no centro, o qual estava cheio de lava. Várias pessoas mergulhavam lá, mergulhavam para a morte certa. Gritos aterrorizantes eram ouvidos. Em volta do poço, pessoas matavam umas as outras. Algumas comiam carne humana e bebiam sangue. Pedaços de corpos estavam espalhados por todo lado.

César então começou a compreender a situação. Naquele lugar, todos vagavam até a morte, ou até enlouquecerem. A sede, a fome, o calor e o desespero levavam as pessoas à insanidade. César parecia a pessoa em melhores condições por lá.

Algumas pessoas corriam desesperadamente. Penalizado, César começou a empurrá-las no poço, para aliviar o sofrimento delas. Aquele homem que avistara anteriormente correu em sua direção, pulou sobre César e começou a mordê-lo. César, caído no chão e dominado pela dor e pela cólera, pegou o homem pelo pescoço e começou a enforcá-lo com as mãos. Olhou fixamente o homem nos olhos e viu a vida abandonar aquele corpo. Foi uma morte silenciosa.

Ao ver o crime que cometera, César gritou alto e chorou. Ninguém lhe deu atenção. Aquele espetáculo de sangue continuava. Então, ele levantou-se devagar, caminhou até o poço de lava e gritou novamente:

-- A morte é a liberdade!

Fechou os olhos e mergulhou no poço.

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A MORTE NOS UNIRÁ

Porque fez isso? Nós éramos como uma só pessoa. Nossa solidão e nosso silêncio nos unia. Protegíamo-nos mutuamente. Estivemos sempre juntos nos momentos felizes e tristes, mas não no momento mais triste da minha vida... pois agora é o momento mais triste da minha vida e você é a causa dele. Não sei se gostar tanto de uma pessoa assim é egoísmo, mas eu te amava... Quando mais preciso de você, você adoece e morre! Isso é injusto! E eu te avisei: Aonde você for, eu vou!

E você não imagina a minha dor quando vi seu corpo estendido no chão, como se estivesse dormindo... enfim, era o último sono, o sono da morte... E eu te avisei: Aonde você for, eu vou!

E é por isso que estou aqui em cima hoje... Um vento suave sopra em meu rosto. É como se você me tocasse. É uma sensação maravilhosa. não sei se isto é certo... Pulo ou não pulo? Ninguém me observa. Pulo ou não pulo? Que brisa deliciosa! Pulo ou não pulo?...

O vento tenta me segurar no ar, mas a gravidade e a morte me chamam para baixo... esse é o fim! Em breve meu corpo colidirá com o chão e eu morrerei. Me sinto livre... Eu te avisei: Aonde você for, eu vou!

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A Moura de Algoso

Algoso é uma pequena aldeia perdida nas serranias transmontanas.

Diz uma lenda que ainda hoje por lá corre que, em tempos idos, quando os Mouros ainda controlavam esta cidade, existia nos arredores um bruxo famoso, conhecedor de mezinhas milagrosas e sabedor do passado e do futuro.

Vivia num casebre um pouco afastado da povoação, mas nem a pobreza da sua casa, nem o afastamento da mesma obstavam a que ali acorressem quantos acreditavam nas suas capacidades mágicas ou videntes.

Na verdade, ricos e pobres, de longe ou de perto, todos ali acudiam em busca de cura para os seus males, pedindo filtros de amor ou indagando sobre o que lhes reservaria o futuro.

Em certos dias era uma autêntica romaria.

E com tudo isto o bruxo criou fama e proveito de homem rico, apesar de continuar a viver no pobre casebre tentando fazer-se passar por miserável.

 Entretanto, os cristãos venciam ou Mouros em todas as frentes e iam avançando na conquista do resto do território pagão que ainda os Mouros controlavam e estavam a aproximar-se rapidamente de Algoso.

Sabendo disto o bruxo, que não podia prever o seu próprio futuro, calculou que a ocupação cristã não viesse a ser muito demorada e decidiu esconder os seus tesouros, disposto a recuperá-los mais tarde, quando pudesse recuperar o seu oficio.

Assim pensando, escolheu o que poderia carregar consigo, e o restante, as jóias e o ouro, meteu-o num cofre de marfim chapeado a cobre. Feito isto, e como precisava de encontrar um bom esconderijo para a sua fortuna, partiu com o cofre debaixo do braço em demanda do melhor local.

Depois de muito procurar, achou que o melhor sitio era às margens da fonte de S. João, debaixo das raízes de um enorme e belo chorão que derramava a sua sombra as águas. Pegou numa enxadinha e cavou um buraco apropriado ao tamanho do cofre. Meteu-o lá dentro, tapou-o com terra e disfarçou a obra com folhagem e gravetos.

Terminando o trabalho, levantou-se e olhou em volta. Espantado, viu uma mourinha que, descuidada, descia uma vereda da serra cantando uma velha canção.

Convencido que a moura o vira esconder o cofre e estava agora disfarçando o caso com seu canto, o bruxo encaminhou-se para ela, olhou-a com uma estranha fixidez, fez uns sinais misteriosos e, recitando certa oração antiga, lançou sobre a menina um encantamento, de tal modo que ela desapareceu no mesmo instante.

Casquinhando, esfregou as mãos, pegou nos seus haveres e desandou rapidamente para a floresta, donde nunca mais voltou. Nunca se soube o seu paradeiro nem o seu fim.

 A lenda da moura de Algoso foi passando de boca a ouvido, de geração em geração.

A fonte de S. João de resto, continuava ali, lembrando a todos a desdita da mourinha encantada pelo bruxo e desafiando a coragem de quem sonhasse desencantá-la.

Uma noite, muito próxima da de S. João, uma rapaz de Algoso que se apaixonara pela história, sonhou que via a moura na fonte. Mal acordou, decidiu que, desse lá por onde desse, havia de tentar ver na madrugada de S. João se a lenda era verdadeira.

Além disso, dizia-se que se alguém visse a moura nas suas horas felizes, lhe podia fazer três pedidos, os quais seriam atendidos.  O rapaz achou que, apesar do medo, era talvez vantajoso fazer aquela tentativa.

Na véspera de S. João, encaminhou-se para a fonte ainda antes de anoitecer por completo.

Procurou um local para se esconder, um local de onde visse sem ser visto, e preparou-se para esperar pela meia noite sem fazer ruído algum. O velho chorão da fonte, já centenário, continuava lançando sobre a água os seus ramos lacrimejantes.

Do outro lado, havia agora um belíssimo roseiral, donde provinha um perfume intenso quando todas as rosas abriam.

Chegou a meia noite.

De repente o rapaz ouviu uma restolhada vinda das bandas do roseiral.

Era uma enorme serpente que, rastejando, se dirigia para a fonte.

Aí chegada, mergulhou três vezes.

Qual não foi o espanto do moço quando viu aparecer sobre as águas uma menina: a moura da fonte e... mais bela do que a tradição contava.

A moura saltou com leveza da rocha para o solo e, sentando-se na borda da fonte, começou a cantar uma suave canção que o marulhar da água acompanhava, enquanto ela ia passando um pente pelos seus cabelos loiros.

Subitamente, uma corça apareceu vinda da floresta e, sem mostrar qualquer receio, aproximou-se da moura, que a afagou com ternura. A corça, num gesto de agradecimento, lambeu-lhe o corpo de damasco azul.

Era realmente um espectáculo de beleza que o rapaz jamais esperava encontrar, e, acocorado no seu canto, esqueceu os três pedidos que queria fazer, esqueceu tudo, esqueceu-se até de si mesmo; até que, bruscamente, a moura parou de se pentear, debruçou-se no tanque e desatou num pranto irreprimível.

Chorava, talvez, a dor da sua solidão sem fim.

Condoído, o rapaz fez um movimento, como que  para a consolar; uma ânsia de ternura  dele se apoderara, e ele não resistiu, levantou-se no intuito de confortá-la.

Ao erguer-se, porém, fez estalar sob o corpo os ramos da sebe em que se escondera.

A corça ao ouvir o ruído embrenhou-se rapidamente no mato e a moura desapareceu subitamente, evolando-se numa névoa sobre a águas da fonte de S. João de Algoso.

Nunca mais foi vista por ninguém.

O jovem perambulou o resto da sua vida,  sem memória, falando coisas sem sentido, sem nunca poder contar com precisão o que vira.

 

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CONTOS MISTERIOSOS

A pata do macaco (De W. W. Jacobs )

Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas na pequena sala de visitas de Labumum Villa os postigos estavam abaixados e o fogo queimava na lareira. Pai e filho jogavam xadrez: o primeiro tinha idéias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em perigo tão desnecessário que até provocava comentários da velha senhora de cabelos brancos, que tricotava serenamente perto do fogo.

- Ouça o vento - disse o Sr. White, que, tendo visto tarde demais um erro fatal, queria evitar que o filho o visse.

- Estou escutando - disse o último, estudando o tabuleiro ao esticar a mão.

- Xeque.

- Eu duvido que ele venha hoje à noite - disse o pai, com a mão parada em cima do tabuleiro.

- Mate - replicou o filho.

- Essa é a desvantagem de se viver tão afastado - vociferou o Sr. White, com um a violência súbita e inesperada. - De todos os lugares desertos e lamacentos para se viver, este é o pior. O caminho é um atoleiro, e a estrada uma torrente. Não sei o que as pessoas têm na cabeça. Acho que, como só sobraram duas casas na estrada, elas acham que não faz mal.

- Não se preocupe, querido - disse a esposa em tom apaziguador. - Talvez você ganhe a próxima partida.

O Sr. White levantou os olhos bruscamente a tempo de perceber uma troca de olhares entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios, e ele escondeu um sorriso de culpa atrás da barba fina e grisalha.

- Aí vem ele - disse Herbert White, quando o portão bateu ruidosamente e passos pesados se aproximaram da porta.

O velho levantou-se com uma pressa hospitaleira e, ao abrir a porta, foi ouvido cumprimentando o recém chegado. Este também o cumprimentou, e a Sra. White tossiu ligeiramente quando o marido entrou na sala, seguido por um homem alto e corpulento, com olhos pequenos e nariz vermelho.

- Sargento Morris - disse ele, apresentando-o.

O sargento apertou as mãos e, sentando-se no lugar que lhe ofereceram perto do fogo, observou satisfeito o anfitrião pegar uísque e copos, e colocar uma pequena chaleira de cobre no fogo.

Depois do terceiro copo, seus olhos ficaram mais brilhantes, e ele começou a falar, o pequeno círculo familiar olhando com interessante este visitante de lugares distantes, quando ele empertigou os ombros largos na cadeira e falou de cenários selvagens e feitos intrépidos: de guerras, pragas e povos estranhos.

- Vinte e um anos nessa vida - disse o Sr. White, olhando para a esposa e o filho. - Quando ele foi embora era um rapazinho no armazém. Agora olhem só para ele.

- Ele não parece ter sofrido muitos reveses - disse a Sra. White amavelmente.

- Eu gostaria de ir à Índia - disse o velho - só para conhecer, compreende?

- Você está bem melhor aqui - disse o sargento, sacudindo a cabeça. Pôs o copo vazio na mesa e, suspirando baixinho, sacudiu a cabeça novamente.

- Eu gostaria de ver aqueles velhos templos, os faquires e os nativos - disse o velho. - O que foi que você começou a me contar outro dia sobre uma pata de macaco ou algo assim Morris?

- Nada - disse o soldado rapidamente. - Não é nada de importante.

- Pata de macaco? - perguntou a Sra. White, curiosa.

- Bem, é só um pouco do que se poderia chamar de magia, talvez - disse o sargento com falso ar distraído.

Os três ouvintes debruçaram-se nas cadeiras interessados. O visitante levou o copo vazio à boca distraidamente e depois recolocou-o onde estava. O dono da casa tornou a enchê-lo.

- Aparentemente - disse o sargento, mexendo no bolso - é só uma patinha comum dissecada.

Tirou uma coisa do bolso e mostrou-a. A Sra. White recuou com uma careta, mas o filho, pegando-a, examinou-a com curiosidade.

- E o que há de especial nela? - perguntou o Sr. White ao pegá-la da mão do filho e, depois de examiná-la, colocá-la sobre a mesa.

- Foi encantada por um velho faquir - disse o sargento -, um homem muito santo. Ele queria provar que o destino regia a vida das pessoas, e que aqueles que interferissem nele seriam castigados. Fez um encantamento pelo qual três homens distintos poderiam fazer, cada um, três pedidos a ela.

A maneira dele ao dizer isso foi tão solene que os ouvintes perceberam que suas risadas estavam um pouco fora de propósito.

- Bem, por que não faz os seus três pedidos, senhor? - disse Herbert White astutamente.

O soldado olhou para ele como olham as pessoas de meia-idade para um jovem presunçoso.

- Eu fiz - disse ele calmamente, e seu rosto marcado empalideceu.

- E teve mesmo os três desejos satisfeitos? - perguntou a Sra. White.

- Tive - disse o sargento, e o copo bateu nos dentes fortes.

- E alguém mais fez os pedidos? - insistiu a senhora.

- O primeiro homem realizou os três desejos - foi a resposta. - Eu não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi para morrer. Por isso é que consegui a pata.

Seu tom de voz era tão grave que o grupo ficou em silêncio.

- Se você conseguiu realizar os três desejos, ela não serve mais para você Morris - disse o velho finalmente. - Para que você guarda essa pata?

O soldado meneou a cabeça.

- Por capricho, suponho - disse lentamente. - Cheguei a pensar em vendê-la, mas acho que não o farei. Ela já causou muitas desgraças. Além disso, as pessoas não vão comprar. Acham que é um conto de fadas, algumas delas; e as que acreditam querem tentar primeiro para pagar depois.

- Se você pudesse fazer mais três pedidos - disse o velho, olhando para ele atentamente -, você os faria?

- Eu não sei - disse o outro. - Eu não sei.

Pegou a pata e, balançando-a entre os dedos, de repente jogou-a no fogo.

White, com um ligeiro grito, abaixou-se e tirou-a de lá.

- É melhor deixar que ela se queime - disse o soldado solenemente.

- Se você não quer mais, Morris - disse o outro -, me dá.

- Não - disse o amigo obstinadamente. - Eu a joguei no fogo. Se você ficar com ela, não me culpe pelo que acontecer. Jogue isso no fogo outra vez, como um homem sensato.

O outro sacudiu a cabeça e examinou sua nova aquisição atentamente.

- Como você faz para pedir? - perguntou.

- Segure a pata na mão direita e faça o pedido em voz alta - disse o sargento -, mas eu o advirto sobre as conseqüências.

- Parece um conto das Mil e uma noites - disse a Sra. White, ao se levantar e começar a pôr o jantar na mesa. - Você não acha que deveria pedir quatro pares de mão para mim?

- Se quer fazer um pedido - disse ele asperamente -, peça algo sensato. O Sr. White colocou a pata no bolso novamente e, arrumando as cadeiras acenou para que o amigo fosse para a mesa. Durante o jantar o talismã foi parcialmente esquecido, e depois os três ficaram escutando, fascinados, um segundo capítulo das aventuras do soldado na Índia.

- Se a história sobre a pata de macaco não for mais verdadeira do que as que nos contou - disse Herbert, quando a porta se fechou atrás do convidado, que partiu a tempo de pegar o último trem-, nós não devemos dar muito crédito a ela.

- Você deu alguma coisa a ele por ela, papai? - perguntou a Sra. White, olhando para o marido atentamente.

- Pouca coisa - disse ele, corando ligeiramente. - Ele não queria aceitar, mas eu o fiz aceitar. E ele tornou a insistir que eu jogasse fora.

- É claro - disse Herbert, fingindo estar horrorizado. - Ora, nós vamos ser ricos, famosos e felizes. Peça para ser um imperador, papai, para começar, então você não vai ser mais dominado pela mulher.

Ele correu em volta da mesa, perseguido pela Sra. White armada com uma capa de poltrona.

O Sr. White tirou a pata do bolso e olhou para ela dubiamente.

- Eu não sei o que pedir, é um fato - disse lentamente. - Eu acho que tenho tudo o que quero.

- Se você acabasse de pagar a casa ficaria bem feliz, não ficaria? - disse Herbert, com a mão no ombro dele. - Bem, peça 200 libras, então, isso dá.

O pai, sorrindo envergonhado pela própria ingenuidade, segurou o talismã, quando o filho, com uma cara solene, um tanto franzida por uma piscadela de olhos para a mãe, sentou-se no piano e tocou alguns acordes para fazer fundo.

- Eu desejo 200 libras - disse o velho distintamente.

Um rangido do piano seguiu-se às palavras, interrompido por um grito estridente do velho. A mulher e o filho correram até ele.

- Ela se mexeu - gritou ele, com um olhar de nojo para o objeto caído no chão. - Quando eu fiz o pedido, ela se contorceu na minha mão como uma cobra.

- Bem, eu não vejo o dinheiro - disse o filho ao pegá-la e colocá-la em cima da mesa - e aposto que nunca vou ver.

- Deve ter sido imaginação sua, papai - disse a esposa, olhando para ele ansiosamente.

Ele sacudiu a cabeça.

- Não faz mal, não aconteceu nada, mas a coisa me deu um susto assim mesmo.

Eles se sentaram perto do fogo novamente enquanto os dois homens acabavam de fumar cachimbos. Lá fora, o vento zunia mais do que nunca, e o velho teve um sobressalto com o barulho de uma porta batendo no andar de cima. Um silêncio estranho e opressivo abateu-se sobre todos os três, e perdurou até o velho casal se levantar e ir dormir.

- Eu espero que vocês encontrem o dinheiro dentro de um grande saco no meio da cama - disse Herbert, ao lhes desejar boa noite - e algo terrível agachado em cima do armário observando vocês guardarem seu dinheiro maldito.

Ficou sentado sozinho na escuridão, olhando para o fogo baixo e vendo caras nele. A última cara foi tão feia e tão simiesca que ele olhou para ela assombrado. A cara ficou tão vivida que, com uma risada inquieta, ele procurou um copo na mesa que tivesse um pouco de água para jogar no fogo. Sua mão pegou na pata de macaco, e com um ligeiro estremecimento ele limpou a mão no casaco e foi dormir.

II

Na claridade do sol de inverno, na manhã seguinte, quando este banhou a mesa do café, ele riu de seus temores. Havia um ar de naturalidade na sala que não existia na noite anterior, e a pequena pata suja estava jogada na mesa de canto com um descuido que não atribuia grande crença a suas virtudes.

- Eu creio que todos os velhos soldados são iguais - disse a Sra. White. - Essa idéia de dar ouvidos a tal tolice! Como é que se pode realizar desejos hoje em dia? E se fosse possível, como é que iam aparecer 200 libras, papai?

- caindo do céu, talvez - disse Herbert, com ar brincalhão.

- Morris disse que as coisas aconteciam com tanta naturalidade - disse o pai - que a gente podia até achar que era coincidência.

- Bem, não gaste o dinheiro antes de eu voltar - disse Herbert, ao se levantar da mesa. - Estou com medo de que você se torne um homem mesquinho e avarento, e vamos ter de renegá-lo.

A mãe riu e, acompanhando-o até a porta, viu-o descer a rua. Voltando à mesa do café, divertiu-se à custa da credulidade do marido. O que não a impediu de correr até a porta com a batida do carteiro, nem de se referir a sargentos da reserva com vício de beber, quando descobriu que o correio trouxera uma conta do alfaiate.

- Herbert vai dizer uma das suas gracinhas quando chegar em casa - disse ela, quando se sentaram para jantar.

- Com certeza - disse o Sr. White, servindo-se de cerveja -, mas, apesar de tudo, a coisa se mexeu na minha mão; eu posso jurar.

- Foi impressão - disse a senhora apaziguadoramente.

- Estou dizendo que se mexeu - replicou o outro. - Não há dúvida; eu tinha acabado... O que houve?

A mulher não respondeu. Estava observando os movimentos misteriosos de um homem do lado de fora, que, espiando com indecisão para a casa, parecia estar tentando tomar a decisão de entrar. Lembrando-se das 200 libras, ela reparou que o estranho estava bem-vestido e usava um chapéu de seda novo.

Por três vezes ele parou no portão, e depois caminhou novamente. Da quarta vez ficou com a mão parada sobre ele, e depois com uma súbita resolução abriu-o e entrou. A Sra. White no mesmo momento desamarrou o avental rapidamente, colocando-o debaixo da almofada da cadeira. Convidou o estranho, que parecia deslocado, a entrar. Ele olhou para ela furtivamente, e ouviu preocupado, a senhora desculpar-se pela aparência da sala, e pelo casaco do marido, uma roupa que ele geralmente reservava para o jardim. Então ela esperou, com paciência, que ele falasse do que se tratava, mas, a princípio, ele ficou estranhamente calado.

- Eu... pediram-me para vir aqui - disse ele finalmente, e abaixando-se tirou um pedaço de algodão das calças. - Eu venho representando "Maw&Meggins".

A senhora sobressaltou-se.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou ela, ofegante - Acontecem alguma coisa a Herbert? O que é? O que é?

O marido interveio.

- Calma, calma, mamãe - disse ele rapidamente. - Sente-se e não tire conclusões precipitadas. O senhor certamente não trouxe más notícias, não é, senhor - e olhou para o outro ansiosamente.

- Eu lamento... - começou o visitante.

- Ele está ferido? - perguntou a mãe desesperada.

O visitante assentiu com a cabeça.

- Muito ferido - disse. - Mas não está sofrendo.

- Ah, graças a Deus! - disse a senhora, apertando as mãos. - Graças a Deus! Graças...

Parou de falar de repente quando o significado sinistro da afirmativa se abateu sobre ela, e ela viu a terrível confirmação de seus temores no rosto desviado do outro. Prendeu a respiração e, virando-se para o marido, menos perspicaz, pôs a mão trêmula sobre a dele. Seguiu-se um demorado silêncio.

- Ele foi apanhado pela máquina - repetiu o Sr. White, estonteado. - Ah!

Sim.

Ficou sentado olhando para a janela e, tomando a mão da esposa entra as suas, apertou-a como tinha vontade de fazer nos velhos tempos de namoro há quase 40 anos.

- Ele era o único que nos restava - disse ele, voltando-se amavelmente para o visitante. - É difícil.

O outro tossiu e, levantando-se, caminhou lentamente até a janela.

- A firma me pediu para transmitir os nossos sinceros pêsames a vocês por sua grande perda - disse ele, sem olhar para trás. - Eu peço que compreendam que sou apenas um empregado da firma e estou apenas obedecendo ordens.

Não houve resposta; o rosto da senhora estava branco, os olhos parados e a respiração inaudível; no rosto do marido havia um olhar que o amigo sargento talvez tivesse na primeira batalha.

- Devo dizer que "Maw&Meggins" estão isentos de toda responsabilidade - continuou o outro. - Eles não têm nenhuma dívida com a família, mas, em consideração aos serviços de seu filho, desejam presenteá-los com uma certa soma como compensação.

O Sr. White largou a mão da esposa e, pondo-se de pé, olhou para o visitante horrorizado. Seus lábios secos pronunciaram as palavras:

- Quanto?

- Duzentas libras - foi a resposta.

Indiferente ao grito da esposa, o velho sorriu fracamente, estendeu as mãos como um homem cego e caiu, desfalecido, no chão.

III

No enorme cemitério novo, a alguns quilômetros de distância, os velhos enterraram seu morto e voltaram para casa mergulhada em sombras e silêncio. Tudo terminara tão rápido que a princípio nem se davam conta do que acontecera, e ficaram num estado de expectativa como se fosse acontecer mais alguma coisa - algo mais que aliviasse esse fardo, pesado demais para corações velhos.

Mas os dias se passaram, e a expectativa deu lugar à resignação - a resignação desesperançada dos velhos, às vezes chamada erradamente de apatia. Algumas vezes nem trocavam uma palavra, pois agora não tinham nada do que falar e os dias eram compridos e desanimados.

Foi por volta de uma semana depois que o velho, acordando subitamente de noite, estendeu o braço e viu-se sozinho. O quarto estava no escuro e o ruído de soluços baixinhos vinha da janela. Ele se levantou na cama e ficou ouvindo.

- Volte para a cama - disse ele ternamente. - Você vai ficar gelada.

- Está mais frio para ele - disse a senhora, e chorou novamente.

O som de seus soluços apagou-se nos ouvidos dele. A cama estava quente, e seus olhos pesados de sono. Ele cochilava a todo instante e acabou pegando no sono, quando um súbito grito histérico da esposa o despertou com um sobressalto.

- A pata! - gritou histericamente. - A pata de macaco!

Ele se levantou, alarmado.

- Onde? Onde está? O que houve?

Ela correu agitada até ele.

- Eu quero a pata - disse ela calmamente. - Você não a destruiu?

- Está na sala, em cima da prateleira - replicou ele atônito. - Por quê?

Ela chorou e riu ao mesmo tempo e, debruçando-se, beijou-o no rosto.

- Só tive essa idéia agora - disse ela histericamente. - Por que não pensei nisso antes? Por que você não pensou nisso antes?

- Pensar em quê? - perguntou ele.

- Nos outros dois desejos - replicou ela rapidamente. - Nós só fizemos um pedido.

- Não foi suficiente? - perguntou ele, irado.

- Não - gritou ela, triunfante; - ainda vamos fazer um.

Desça, apanhe a pata rapidamente, e deseje que o nosso filho viva novamente.

O homem sentou-se na cama e arrancou as cobertas de cima do corpo trêmulo.

- Meu bom Deus, você está louca! Gritou ele, horrorizado.

- Pegue aquela coisa - disse ela, ofegante -, pegue depressa, e faça o pedido... Ah, meu filho, meu filho!

O Marido riscou um fósforo e acendeu a vela.

- Volte para a cama - disse ele, incerto. - Você não sabe o que está dizendo.

- Nós conseguimos satisfazer o primeiro pedido - disse a senhora, febrilmente. - Por que não o segundo?

- Foi uma coincidência - gaguejou o velho.

- Vá buscar a pata e faça o pedido - gritou a esposa, tremendo de excitação.

O velho virou-se, olhou para ela, e sua voz tremeu.

- Ele já está morto há 10 dias e, além disso, ele... - eu não queria lhe dizer isso, mas... só consegui reconhecê-lo pela roupa. Se já estava tão horrível para você ver, imagine agora?

- Traga-o de volta - gritou a senhora, e o arrastou para a porta. - Você acha que tenho medo do filho que criei?

Ele desceu na escuridão, foi tateando até a sala e depois até a lareira. O talismã estava no lugar, e um medo horrível de que o desejo ainda não expresso pudesse trazer o filho mutilado apossou-se dele, e ficou sem ar ao perceber que perdera a direção da porta. Com a testa fria de suor, ele deu volta na mesa, tateando, e foi-se amparando na parede até se achar no corredor com a coisa nociva na mão.

Até o rosto da esposa parecia mudado quando ele entrou no quarto. Estava branco e ansioso, e para seu temor parecia ter um olhar estranho. Ele sentiu medo dela.

- Peça! - gritou ela, com voz forte.

- Isso é loucura - disse ele, com voz trêmula.

- Peça! - repetiu a esposa.

Ele levantou a mão.

- Eu desejo que meu filho viva novamente.

O talismã caiu no chão, e ele olhou para a coisa com medo.

Então afundou numa cadeira, trêmulo, quando a esposa, com os olhos ardentes, foi até a janela e levantou a persiana.

Ficou sentado até ficar arrepiado de frio, olhando ocasionalmente para a figura da velha senhora espiando pela janela.

O cotoco de vela, que queimara até a beirada do castiçal de porcelana, jogava sombras sobre o teto e as paredes, até que, com um bruxulear maior do que os outros, se apagou. O velho, com uma imensa sensação de alívio pelo fracasso do talismã, voltou para a cama, e um ou dois minutos depois a senhora veio silenciosamente para o seu lado.

Nenhum dos dois disse nada, mas permaneceram deitados em silêncio, ouvindo o tique-taque do relógio. Um degrau rangeu, e um rato correu guinchando através do muro. A escuridão era opressiva e, depois de ficar deitado por algum tempo, criando coragem, ele pegou a caixa de fósforos e, acendendo um, foi até embaixo para pegar uma vela.

Nos pés da escada o fósforo se apagou, e ele parou para riscar outro; no mesmo momento ouviu-se uma batida na porta da frente, tão baixa e furtiva que quase não se fazia ouvir.

Os fósforos caíram-lhe da mão e espalharam-se no corredor. Ele permaneceu imóvel, com a respiração presa até a batida se repetir. Então virou-se e fugiu rapidamente para o quarto, fechando a porta atrás de si.

Uma terceira batida ressoou pela casa.

- O que é isso? - gritou a senhora, levantando-se.

- Um rato - disse o velho com voz trêmula -, um rato. Ele passou por mim na escada.

A esposa sentou-se na cama, escutando. Uma batida alta ressoou pela casa.

- É Herbert! - gritou. - É Herbert!

Ela correu até a porta, mas o marido ficou na frente dela e, pegando-a pelo braço, segurou-a com força.

- O que você vai fazer? - sussurrou ele com voz rouca.

- É meu filho; é Herbert! - gritou ela, debatendo-se mecanicamente. - Eu esqueci que ele estava a 10 quilômetros daqui. Por que está me segurando? Me solte. Eu tenho de abrir a porta.

- Pelo amor de Deus não deixe entrar - gritou o velho tremendo.

- Você está com medo do próprio filho - gritou ela, debatendo-se. - Me solte. Eu já vou, Herbert; eu já vou.

Ouviu-se mais uma batida, e mais outra. A senhora com um arrancão súbito soltou-se e saiu correndo do quarto. O marido seguiu-a até a escada e chamou-a enquanto ela corria para baixo. Ele ouviu a corrente chocalhar e a tranca do chão ser puxada lenta e firmemente do lugar. Então a voz da senhora soou, nervosa e ofegante.

- A tranca - gritou ela alto. - Desça que eu não consigo puxar a tranca.

Mas o marido estava de joelhos no chão, procurando a pata desesperadamente. Se pelo menos conseguisse encontrá-la antes que a coisa entrasse. Uma série de batidas reverberou pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira quando a esposa a colocou no corredor encostada na porta. Ouviu o ranger da tranca quando esta se destravou lentamente, e no mesmo momento encontrou a pata de macaco, e desesperadamente fez o terceiro e último pedido.

As batidas pararam subitamente, embora ainda ecoassem na casa. Ele ouviu a cadeira ser arrastada de volta, e a porta se abrir. Um vento frio subiu pela escada, e um gemido alto e demorado de decepção e tristeza da esposa lhe deu coragem para correr até ela e depois até o portão. O lampião da rua que tremulava do outro lado brilhava numa estrada silenciosa e deserta.

JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

A PERSEGUIÇÃO DA SOMBRA

Quero contar um autêntico caso extraordinário que se passou comigo, no ano de 1942 quando eu morava em Tomás Coelho.

Sendo sócio de Vicente de Carvalho, era e sou bastante conhecido no local, freqüentando sempre reuniões e festas.

Assim é que, todos os sábados ia a meus bailes, sendo dos que ficavam até o fim.

Certa vez, pela meia-noite, saindo de uma dessas reuniões dançantes, em companhia de alguns amigos, dirigimo-nos ao varejo da Estação, a fim de tomar um café.

Após ligeira palestra, cada qual seguiu seu caminho, tendo eu tomado o rumo da Avenida Automóvel Clube.

Embora a noite estivesse escura e não houvesse iluminação por aquele local, eu caminhava despreocupadamente estrada afora.

Justamente quando passava pelo local denominado "Juramento", notei que uma sombra escura seguia ao meu lado direito.

Mesmo vendo que não havia luar naquela noite, parei a fim de me certificar se se tratava ou não de minha própria sombra: movimentei os braços e a sombra, no chão, não se mexeu, ficou imóvel!

Ali parado, sentindo um terrível calafrio, monologuei desta forma:

- Aí do meu lado direito não adianta!

Imediatamente e com a maior surpresa, vi que a sombra dava uma volta por detrás de mim e passava para meu lado esquerdo... Continuei a andar, já apavorado, sempre com o vulto a meu lado. Parei e disse-lhe:

- Aí do meu lado esquerdo, também não adianta!

E comecei a me benzer e a rezar. Só então vi perfeitamente que a sombra se afastava do meu lado, tomando a direção de uma moita de capim que se achava à beira da estrada, sumindo por ali a dentro, provocando enorme barulho.

Aliviado, tirei um cigarro e pus-me a fumar.

Dentro em pouco chegava a casa, batendo na porta e sendo atendido por meu pai, que, ao me ver ainda pálido e trêmulo, perguntou o que acontecera. Contei-lhe o ocorrido, e meu velho então me disse:

- Toma cuidado, rapaz, do contrário ainda verás assombrações a essas horas tardias da noite...

E, desde então, jamais desprezei aquele aviso sensato.

JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

A Procissão

Peru, ano de 1800 e pouco.

 Está história começa numa cidade do interior muito pequena. A cidade era rodeada por fazendas ela comportava uns 900 habitantes a cidade era uma rua.

O povo da aquela época era muito religioso. Eles eram muitos supersticiosos. Acreditavam em tudo. E também havia muitas religiões, tinha as dos pecadores, e dos fiéis.

A religião dos pecadores era a religião que eles usavam o demônio como o deus supremo, e faziam muitas outras coisas, como bruxarias, sacrifícios, muitos diziam que eles até se comunicavam com o demônio e que o demônio é que dizia como eles deveriam viver, como deveria ser o modo de vida deles.

E desde aquela época até os dias atuais, muitos dizem, que quem o demônio quer ele tem, quem ele quiser!

Pode ser homem, mulher, pode ser quem for.

Se ele te escolher você nunca mais será o mesmo.

Voltando a história, nesta cidadezinha havia muitas procissões. Toda a tarde às 17:00 horas, havia uma procissão que aparecia no começo da cidade e ao chegar no fim da cidade, todos as pessoas que caminhavam nessa procissão desapareciam.

E logo no meio da cidade, (quer dizer da rua, porque a cidade era uma rua que dava saída para muitas fazendas) tinha uma casa que morava uma jovem chamada Jéssica de uns 19 anos com sua avó Férula de uns 70 anos e sua mãe.

Porém sua mãe trabalhava, saia cedo antes de clarear o dia para ir trabalhar, ela era vendedora ambulante: vendia cintos, bolsas, coisas da aquela época.

Jéssica ficava com sua avó Férula sentada na janela da casa, que dava para a rua, onde todos os dias, elas assistiam a procissão passar.

 Um dia deu 5:00 horas da tarde e começou a passar a procissão, Jéssica como era de costume foi ver bem de perto e o que vinha conduzindo a procissão, era um homem bem velho ele trazia em sua mão uma vela acesa, e dera á para a Jéssica, mas coitada de Jéssica, mal saberia o mal que estava fazendo, tocando, e ficando com essa vela.

O dia terminou, e a manhã do dia seguinte chegou, quando Jéssica se deu conta, dois dedos de sua mão haviam caídos.

 Jéssica então correu para a avó assustada e sua avó pediu a um rapaz que havia passando para chamar um médico, mas enquanto o médico estava a caminho da casa mais partes do corpo da Jéssica estavam caindo, a hora que o médico chegou já havia caído um braço inteiro, os membros de Jéssica caiam como fossem comidos.

Então começou a cair as partes do outra braço.

Então médico sugeriu que eles chamassem um padre, porque era incrível!!

A hora que o padre chegou já havia caído a outra mão de Jéssica, então Jéssica contou ao padre a história, e ele assustado disse:

- Oh meu Deus aquela procissão é a do demônio, você terá que destruir o demônio, mas ele não deixará de habitar a terra mas sim a forma que ele está (que era o velhinho que conduzia a procissão).

Enquanto isso, já havia caído o outro braço de Jéssica.

O padre então disse:

- O demônio nunca aparece duas vezes no mesmo lugar, você tem que achá-lo na procissão e devolve-lo a vela até o fim do dia de hoje, se não você morrerá que é o que ele quer.

Então deu 17:00 hs e a procissão começou a passar e ela avistou o velhinho no último lugar, então sua avó correu e lhe entregou a vela, e na mesma hora no mesmo minuto que ele tocou na vela, todas as pessoas da procissão desapareceram e nunca mais essa procissão passou por aquela cidade.

E Jéssica não voltou ao normal, ficou sem os dois braços, (quer dizer o demônio comeu os dois braços dela).

Muitas pessoas juram por Deus que está história aconteceu.

Mas acredite quem quiser.

 

JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

Aquela casa

Quando a minha irmã e eu éramos mais novas, nós passamos por coisas assustadoras na casa onde morávamos.

A nossa casa era de um certo modo muito tétrica--você ia andando por ela e sentindo calafrios. Quanto mais entrava nela, você sentia aquele bolo se formando no estômago.

Ela tinha quase uns 50 anos quando nos mudamos para ela.

Precisava de uma reforma urgente, mas era a única coisa que os meus pais podiam pagar na época.

Eu tinha somente 7 anos e a minha irmã tinha 9. Nós duas tínhamos que dividir um quarto já que a casa tinha só 3 quartos e o meu pai tinha que usar um deles como escritório.

Em uma noite quente no verão, eu estava na cama de cima do beliche no meu quarto. Eu podia ouvir a minha irmã roncando na cama debaixo.

Sem saber por que, eu sentei de repente na minha cama. Estava marcando quase 3:00 da manhã no relógio em cima da cômoda em frente ao beliche. Eu não sabia por que eu tinha acordado, mas sabia que tinha alguma coisa estranha lá.

Pouco tempo depois eu comecei a sentir um cheiro ruim, como se tivesse alguma coisa podre ou algum animal morto no meu quarto.

 Eu olhei em volta, mas não dava para ver nada por causa da escuridão. Estranhamente o quarto estava começando a esfriar. Eu estava começando a tremer, mas por algum motivo, eu não conseguia deitar de novo.

 Era como se tivesse algo me forçando a ficar sentada.

Então eu senti como se alguém tivesse tirado as mãos de cima de mim, me deixando deitar novamente.

Eu fechei os meus olhos, mas abri assim que senti algo pressionando o meu peito. Foi como se alguém me apertasse 5 vezes, e logo depois mais 5 vezes.

Eu odiei sentir aquilo.

Quando acabou eu me sentei de novo e vi um flash de uma luz esverdeada, e então alguém sussurrar com uma voz profunda:

- "Eles foram baleados no peito.."

Depois disso eu senti um último cutucão no meu peito, mas dessa vez BEEEM mais forte do que das outras, e então eu senti como se tivessem me jogado um balde de água completamente gelada.

Sendo a garotinha medrosa de 7 anos que eu era, eu comecei a chorar e a gritar pela minha mãe.

Ela veio correndo e me disse que eu estava com o rosto muito pálido e estava gelada. Ela falou que eu tive um pesadelo, mas eu sabia que não tinha sido um sonho aquilo tudo.

 No dia seguinte quando eu estava me preparando para tomar o meu banho, a minha mãe olhou para o meu pescoço e o meu peito e soltou um grito assustada.

Havia marcas de dedos -hematomas- pelo meu corpo, e a marca de uma mão no meu peito.

Eu perguntei por que ela tinha gritado, mas ela só pos a mão na boca e me abraçou.

Mas isso não foi a única coisa que aconteceu naquela casa.

Cerca de dois meses antes disso, na noite do meu aniversário, eu estava indo para o meu quarto, para colocar o meu pijama novo.

A minha irmã estava dormindo na casa de uma amiga, então eu iria dormir sozinha.

 Quando eu fui para a cama, eu vi uma mulher flutuando em cima de mim.

Ela estava usando um vestido roxo, com um lenço branco na cabeça.

Ela não tinha olhos, apenas dois buracos onde os olhos deveriam estar, como se tivessem sido arrancados, e um grande buraco no peito dela.

Os lábios dela estavam se mexendo, mas eu não conseguia ouvir nada. Eu fiquei tão assustada, eu cobri a minha cabeça com o cobertor. Pouco tempo depois eu coloquei a cabeça para fora, mas ela já não estava mais lá.

Agora eu moro na minha própria casa, com os meus filhos. Mas o que me assustou mais naquela casa, eram os sonhos que eu tinha lá. Eu sempre tinha pesadelos sobre pessoas que moraram lá antes de mim, e que levaram tiros no peito.

Hoje, nos meus sonhos, um homem grande e gordo com um longo cabelo negro e olhos pequenos fala para a mulher que flutuava sobre a minha cama :

- 'Eles foram baleados no peito'.

E a voz dele é idêntica à que eu ouvi naquela noite em que eu senti as cutucadas no meu peito.

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CONTOS MISTERIOSOS

As Criaturas da Noite

Isto me aconteceu na semana passada. Pode acreditar.

Numa casa próxima à nossa vivia um vizinho muito estranho. Um velho que se dizia ter mais de 90 anos , chamavam-no de José Goré e que todos sabiam que ali morava a décadas. Diziam os mais velhos que ele tinha dois filhos igualmente estranhos.

Todos tinham medo da casa e ninguém nunca se aproximava.  Ninguém nunca os via, pois a casa vivia sempre totalmente fechada .Inclusive não sei como sobreviviam ou o que comiam, pois não saíam nunca, e não víamos movimentos de pessoas que pudessem abastecer a casa com alimentos.

Uma única vez  os vi.  Os 3 estavam diante da casa, numa madrugada. Tive a impressão de que estavam chegando de uma excursão noturna. Eu estava chegando da noite e por acaso encontrei as figuras horripilantes - no meu bairro ainda hoje  eu conto, mas  duvidam de mim.

- Estavam com as bocas sujas de sangue e os olhos arregalados como se fossem verdadeiros zumbis.

Não parei o carro e continuei seguindo em alta velocidade.

Fiquei desnorteado com o que tinha visto e segui em direção a um posto policial que ficava a uma boa distância do local.

Em um certo cruzamento tive que parar, quando os 3 apareceram na frente de meu carro . (Já estava longe do local onde os tinha visto e dirigia em alta velocidade. Como puderam me alcançar?!).

Aí sim, vi de perto, mas não podia acreditar no que via.

Tinham presas iguais a de lobos, as quais deviam estar sedentas para sugar minha artéria. Um subiu no capô do carro e os outros dois foram para os lados. Encostaram as mãos nos vidros do carro, que por sorte minha estavam fechados. Bateram neles, mas eram resistentes. As caras medonhas me olhavam enfurecidas.

Disparei em alta velocidade, derrubando o que estava sobre o capô, deixando-os para trás agitando freneticamente os braços e continuei sem parar em lugar algum.

Quando cheguei no posto policial só haviam dois guardas, que me informaram que haviam acabado de receber um chamado muito estranho, de que tinham encontrado um rapaz morto, sem nenhuma gota de sangue em seu corpo.

Contei o fato que tinha acontecido comigo e eles hesitaram em acreditar. Um deles me acompanhou até minha casa e mostrei a estranha e lúgubre casa dos pavorosos vizinhos.

No outro dia,  foram fazer uma vistoria na casa e... para minha surpresa e a de vocês também, não havia ninguém e muito menos móveis e nem vestígios de  ter sido habitada há muito tempo. Uma investigação da polícia comprovou que os vizinhos haviam se mudado para local ignorado há mais de oito meses.

Quem seriam as terríveis criaturas com quem me deparei?

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As flores da morte

Conta-se que uma moça estava muito doente e teve que ser internada em um hospital. Desenganada pelos médicos, a família não queria que a moça soubesse que iria morrer. Todos seus amigos já sabiam. Menos ela. E para todo mundo que ela perguntava se ia morrer, a afirmação era negada.

Depois de muito receber visitas, ela pediu durante uma oração que lhe enviassem flores. Queria rosas brancas se fosse voltar para casa, rosas amarelas se fosse ficar mais um tempo no hospital e estivesse em estado grave, e rosas vermelhas se estivesse próxima sua morte.

Certa hora, bate a porta de seu quarto uma mulher e entrega a mãe da moça um maço de rosas vermelhas murchas e sem vida. A mulher se identifica como "mãe da Berenice". Nesse meio de tempo, a moça que estava dormindo acordou, e a mãe avisou pra ela que a mulher havia deixado o buquê de rosas, sem saber do pedido da filha feito em oração.

Ela ficou com uma cara de espanto quando foi informada pela mãe que quem havia trazido as rosas era a mãe da Berenice. A única coisa que a moça conseguiu responder era que a mãe da Berenice estava morta há 10 anos.

A moça morreu naquela mesma noite. No hospital ninguém viu a tal mulher entrando ou saindo.

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CONTOS MISTERIOSOS

A sombra

Na verdade, embora eu caminhe através do vale da Sombra... Davi: Salmos.

VÓS QUE ME LEDES por certo estais ainda entre os vivos; mas eu que escrevo terei partido há muito para a região das sombras. Por que de fato estranhas coisas acontecerão, e coisas secretas serão conhecidas, e muitos séculos passarão antes que estas memórias caiam sob vistas humanas. E, ao serem lidas, alguém haverá que nelas não acredite, alguém que delas duvide e, contudo, uns poucos encontrarão muito motivo de reflexão nos caracteres aqui gravados com estiletes de ferro.

O ano tinha sido um ano de terror e de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais não existe nome na Terra. Pois muitos prodígios e sinais haviam se produzido, e por toda a parte, sobre a terra e sobre o mar, as negras asas da Peste se estendiam. Para aqueles, todavia, conhecedores dos astros, não era desconhecido que os céus apresentavam um aspecto de desgraça, e para mim, o grego Oinos, entre outros, era evidente que então sobreviera a alteração daquele ano 794, em que, à entrada do Carneiro, o planeta Júpiter entra em conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito característico do firmamento, se muito não me engano, manifestava-se não somente no orbe físico da Terra, mas nas almas, imaginações e meditações da Humanidade.

Éramos sete, certa noite, em torno de algumas garrafas de rubro vinho de Quios, entre as paredes do nobre salão, na sombria cidade de Ptolemais. Para a sala em que nos achávamos a única entrada que havia era uma alta porta de feitio raro e trabalhada pelo artista Corinos, aferrolhada por dentro. Negras cortinas, adequadas ao sombrio aposento, privavam-nos da visão da lua, das lúgubres estrelas e das ruas despovoadas; mas o pressentimento e a lembrança do flagelo não podiam ser assim excluídos.

Havia em torno de nós e dentro de nós coisas das quais não me é possível dar conta, coisas materiais e espirituais: atmosfera pesada, sensação de sufocamento, ansiedade; e, sobretudo, aquele terrível estado de existência que as pessoas nervosas experimentam quando os sentidos estão vivos e despertos, e as faculdades do pensamento jazem adormecidas. Um peso mortal nos acabrunhava.

Oprimia nossos ombros, os móveis da sala, os copos em que bebíamos. E todas se sentiam opressas e prostradas, todas as coisas exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que iluminavam nossa orgia. Elevando-se em filetes finos de luz, assim que permaneciam, ardendo, pálidas e imotas. E no espelho que seu fulgor formava sobre a redonda mesa de ébano a que estávamos sentados, cada um de nós, ali reunidos, contemplava o palor de seu próprio rosto e o brilho inquieto nos olhos abatidos de seus companheiros.

Não obstante, ríamos e estávamos alegres, a nosso modo - que era histérico - , e cantávamos as canções de Anacreonte - que são doidas -, e bebíamos intensamente, embora o vinho purpurino nos lembrasse a cor do sangue. Pois ali havia ainda outra pessoa em nossa sala, o jovem Zoilo. Morto, estendido a fio comprido, amortalhado, era como o gênio e o demônio da cena. Mas ah! Não tomava ele parte em nossa alegria! Seu rosto, convulsionado pela doença, e seus olhos, em que a Morte havia apenas extinguido metade do fogo da peste, pareciam interessar-se pela nossa alegria, na medida em que, talvez, possam os mortos interessar-se pela alegria dos que têm de morrer. Mas embora eu, Oinos, sentisse os olhos do morto cravados sobre mim, ainda assim obrigava-me a não perceber a amargura de sua expressão.

E mergulhando fundamente a vista nas profundezas do espelho de ébano, cantava em voz alta e sonorosa as canções do filho de Teios. Mas, Pouco a pouco, minhas canções cessaram e seus ecos, ressoando ao longe, entre os reposteiros negros do aposento, tornavam-se fracos e indistintos, esvanecendo-se.

E eis que dentre aqueles negros reposteiros, onde ia morrer o rumor das canções, se destacou uma sombra negra e imprecisa, uma sombra tal como a da lua quando baixa no céu, e se assemelha ao vulto dum homem: mas não era a sombra de um homem, nem a de um deus, nem a de qualquer outro ente conhecido. E, tremendo um instante entre os reposteiros do aposento, mostrou-se afinal plenamente sobre a superfície da porta de ébano. Mas a sombra era vaga, informe, imprecisa, e não era sombra nem de homem, nem de deus, de deus da Grécia, de deus da Caldéia, de deus egípcio. E a sombra permanecia sobre a porta de bronze, por baixo da cornija arqueada, e não se movia, nem dizia palavra alguma, mas ali ficava parada e imutável. Os pés do jovem Zoilo, amortalhado, encontravam-se, se bem me lembro, na porta sobre a qual a sombra repousava. Nós, porém, os sete ali reunidos, tendo avistado a sombra no momento em que se destacava dentre os reposteiros, não ousávamos olhá-la fixamente, mas baixávamos os olhos e fixávamos sem desvio as profundezas do espelho de ébano. E afinal, eu, Oinos, pronunciando algumas palavras em voz baixa, indaguei da sombra seu nome e lugar de nascimento. E a sombra respondeu: "Eu sou a SOMBRA e minha morada está perto das catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias planícies infernais que orlam o sujo canal de Caronte".

E então, todos sete, erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, trêmulos, enregelados, espavoridos, porque o tom da voz da sombra não era de um só ser, mas de uma multidão de seres e, variando suas inflexões, de sílaba para sílaba, vibrava aos nossos ouvidos confusamente, como se fossem as entonações familiares e bem relembradas dos muitos milhares de amigos que a morte ceifara.

(Edgar Allan Poe).

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ASSOMBRAÇÃO
Quando a maioria das pessoas ouve a palavra assombração elas pensam em uma criatura sem 
pés coberta por um lençol, que causa problemas na vida de alguém. Mas no meu caso a coisa é um pouco diferente. 

Uma noite eu fui para o banheiro para preparar o meu banho de espuma, como eu faço toda sexta feira a noite. Enquanto eu colocava o xampu na banheira para fazer a espuma, eu notei que a torneira estava embaçando como se tivesse alguém respirando em cima dela. Eu tentei me convencer que era só o calor da água, o que teria me convencido, se a torneira não estivesse desembaçando e embaçando de novo.

Eu apenas fiquei olhando decidida a acreditar que era apenas o vapor da água que estava saindo da banheira. Quando ela estava quase cheia, eu coloquei a mão para ver se estava quente. Estava da temperatura perfeita. Eu me virei, fui até a porta, pendurei o meu roupão e voltei para a banheira. No que eu entrei nela um frio tomou conta do meu corpo, e me fez pular para fora dela. A água estava completamente gelada, como se eu tivesse colocado água de geladeira na banheira! Mas antes que eu pudesse sair da banheira, eu senti (só senti, não vi nada) alguma coisa segurando o meu braço e me puxando de volta para a água.

Eu acho que bati a cabeça em algum lugar e fiquei inconsciente, porque eu acordei depois de um tempo ainda na banheira, com a minha cabeça a apenas alguns centímetro acima da água. Eu estava com muito medo de me mexer. Eu só olhava em volta, e não via nada. Quando eu olhei para o meu corpo, ele estava coberto de hematomas, arranhões e alguns pequenos cortes. Depois de um tempo eu juntei coragem para me levantar e sair da banheira. Cada centímetro do meu corpo doía, mas eu sai sem sentir nada de estranho e sem ser atacada de novo.

Até hoje eu não sei o que aconteceu, e eu não tenho idéia do que pode ter me atacado tão brutalmente, por que eu não fiquei lá tempo suficiente para descobrir, eu me mudei algumas semanas depois. Mas a lembrança daquela noite está queimada na minha cabeça.

Alguns psicólogos e terapeutas disseram que eu imaginei tudo, que eu devia estar aliviando alguma experiência traumática de infância. Eu posso não ser médica ou psicóloga, mas eu sei que o que aconteceu lá não tinha nada a ver com alguma experiência traumática de infância. Tinha alguma coisa naquele apartamento que me atacou sem motivo aparente nenhum.

Manuela - SP - São Paulo

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ASSOVIOS NA MATA

Em 1888, foi nomeada professora numa freguesia de Socorro (Santo Amaro), Dona Joaquina, que para ali se mudou, levando em sua companhia a irmã e o filho desta, seu sobrinho Artur, e meu pai, que contava então 8 anos, e era tratado na intimidade pelo tradicional apelido baiano de Ioiô. Meu pai é muito conhecido na Bahia.

Tem dois filhos residentes aqui no Rio, e foi ele o principal protagonista do fato verídico que aqui relato.

Aproximam-se os festejos de Nossa Senhora do Socorro, e a professora encomenda um vestido a certa modista que morava num arraial distante, de nome São Paulo.

Era véspera da festa, e nada do vestido chegar. Notando a preocupação de sua tia, que se lamentava de não ter um portador para ir buscar a encomenda, Ioiô ofereceu-se.

Não era tanto pelo serviço que iria prestar, mas pelo prazer de ir cavalgando a "Mineira", mula que sempre desejara montar... Entretanto, só a muito custo, depois de pedir com enorme insistência, Ioiô conseguiu de sua tia a almejada licença.

E pelas seis horas da tarde, tomava a estrada em direção ao arraial.

O prazer que lhe causava o passeio fez com que nem se receasse de atravessar o enorme bambuzal que lhe surgiu a meio caminho. Em casa da modista foi informado de que o vestido não estava pronto, e Ioiô empenhou-se para que a costureira o terminasse o quanto antes, a fim de que pudesse regressar com alguma luz.

Só às 20 horas, porém, o vestido ficou pronto e o menino imediatamente pôs-se a caminho de volta.

Seguiu estrada afora, num trote picado, mas, já agora, tomado de preocupação, devido ao adiantamento da hora... Tudo correu bem até o lugar chamado Catiúba, quando sua atenção foi despertada por um assovio muito forte, vindo da mata.

O menino sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo e apertou ainda mais o trote da mula. Viajou assim mais alguns instantes, quando um novo assovio, mais forte e mais próximo, se fez ouvir. Logo a seguir sentiu que alguém trepara na garupa do animal que, ao sentir o peso estranho, estremeceu violentamente, desandando em galope mais veloz ainda. Adiante, um terceiro silvo...

Dessa vez a mula manifestou tamanho susto que desembestou tentando desviar-se da estrada, embrenhando-se pela mataria.

Para manter o animal na estrada, assim como para lhe imprimir mais velocidade, Ioiô lhe dava lambadas violentas, atirando o chicote por cima da cabeça, no intuito de atingir o personagem que sentia colado às suas costas.

 Cada vez mais o menino sentia crescer sua assombro, porque ao invés de atingir o personagem na garupa, seu chicote fustigava em seu próprio corpo pelas costas...

Felizmente, pouco além, o animal foi dar uma cancela da fazendola de um senhor chamado Macário, que, achando-se providencialmente por perto, acudiu a socorrer o menino puxando a mula pela rédea.

Lá chegando, o menino nem pode apear, quase desfalecido como estava, pedindo, com voz apavorada, que o deixassem no escuro, pois tinha medo de luz! Com a lufa-lufa causada por sua chegada, naquele estado, ninguém se lembrou da mula, que ficou defronte da porta.

Somente Macário, num hábito muito comum no interior, em dado momento, tirou-lhe os arreios e os deixou de lado, certo de que "Mineira", por instinto, se encaminharia para a cocheira ou o pasto, a fim de passar a noite.

No dia seguinte, logo cedo, ao sair para a missa, passando pela residência da professora, Macário foi encontrar a mula parada, em pé, na mesma posição em que a deixara na véspera. Admirado, gritou para o interior da casa: - Professora, essa mula ainda não saiu daqui?

Enquanto ninguém acudia, o fazendeiro, intrigado com a absoluta imobilidade do animal, pôs-se a observá-lo de perto. Parecia uma estátua, olhos parados. Então, a fim de tirá-la daquela estranha paralisação, Macário encostou-lhe um dedo.

Foi a conta: a mula estateou-se no chão. Estava morta.

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A Triste Solidão de Egberto

Morava num edifício decrépito, no centro da cidade, quase que um cortiço, subia os dez andares todos os dias como uma disposição indescritível para um homem de sua idade, fumava um maço de cigarro por dia, invariavelmente, possuía uma rotina de vida metódica, sem alterações nenhumas, praticamente ia de casa ao trabalho, do trabalho para casa.

Se chamava Egberto, e morava com seu cãozinho um velho Pequinês, já sem os pêlos e quase cego. O apartamento de quarto, cozinha e banheiro fedia urina, e nas paredes podia-se observar uma mancha espessa de gordura amarelada. Morava apenas com seu pequeno companheiro, na solidão; não possuía amigo algum, achava que todos poderiam querem lhe passar a perna.

 Egberto era um velho amargurado, comia os dejetos que encontrava em sua geladeira, quase sempre já criando fungos. Seu apartamento era pouco iluminado, as pesadas cortinas escondiam aquele palácio de podridão em que sua vida estava imersa.

 Não tinha carro, ia todos os dias ao trabalho de ônibus, quase sempre apinhado de gente.

Chegando ao trabalho, era tratado como um ser deprezível, nunca valorizaram sua profissão, era contínuo, trabalhava num escritório de revendas de produtos de limpeza, nada mais massante e repetitivo, carregava caixas e mais caixas o dia inteiro, chegando ao fim da tarde, suas glândulas sudoríparas já produziram substâncias suficientes para que ninguém agüente chegar perto dele.

Pois bem, certo dia, Egberto voltava para seu lar; usava uma camiseta, deixando a mostra parte de seu corpo esquálido e peludo, apóia com uma das mãos no ônibus para não perder o equilíbrio quando avista, um pouco a frente, uma mulher que não tira o olho de sua direção, ele se surpreende, não é nenhuma maravilha, mas é ajeitada, e tem um belo quadril.

Ele começa a encará-la descaradamente, ela, uma morena bronzeada, não muito nova, cabelos meio quebradiços, uma imensa boca carnuda, seios pequenos, quase inexistentes, começa a olhá-lo mais insistentemente, Egberto, que sempre pensou que as mulheres estariam querendo se aproveitar dele, resolve arriscar, a se aproxima com dificuldade, se movendo entre o povo aglomerado como sardinha em lata.

Olha com um ar de tigrão e dispara o galanteio barato:

- Você toma sempre este ônibus?

 - Ás vezes... Ela responde, com um certo ar de menosprezo.

 - Sabe, estava te olhando, e pensei se a gente poderia se conhecer melhor...

- Desculpe, não estou interessada, estava te olhando pois o confundi com um amigo meu.

- Amigo? Mas... Só amigo?

Ela vira o rosto para o outro lado, o cabelo armado bate no rosto de Egberto, ele pode sentir um perfume meio vencido, ela diz:

- Interessa?

- Se estou perguntando é porque interessa. Meu nome é Egberto, mas pode me chamar de Beto, e o seu?

- O meu não!

 Egberto não pode precisar se aquilo era uma piada para quebrar o gelo ou um fora brutal, e insiste, tentando crer que era uma galhofa ingênua:

- Há! Há! Gostei! Adoro mulheres com senso de humor! Mas qual é seu nome?

Ela se vira e fala alto, para todos do ônibus ouvirem:

 - Cara! Vê se se encherga! Eu não quero papo! Sai fora jacaré!

Todos se viram e o rosto de Egberto fica Rubro de uma hora para outra. Ele sussurra no ouvido da mulher:

- Isso não vai ficar assim, não vai, está ouvindo?

Ela puxa a corda para o ônibus parar, e desce no ponto, imediatamente se vira para averiguar, lá estava ele, Egberto, havia descido também, e estava olhando em sua direção.

Ela, sem dizer uma só palavra começa a andar em passos rápidos, tentando encontrar uma pessoa na rua, mas estava tudo deserto, estava anoitecendo, e nenhum carro passava naquela ruazinha.

Ela acelera o passo, tenta correr, quando pensa talvez ter despistado Egberto, lá estava ele, atrás dela, com seus passos firmes e decidido.

Ela entra na pequena portinha de seu prédio que na verdade era um cortiço, Egberto caminha atrás, entra também, ela entra em pânico, não há um vizinho, um porteiro, nada para ajudar, ela começa a subir a escada, mora no décimo primeiro andar, está tudo escuro, então ouve passos a seguindo, Egberto!

Quando ele já está quase alcançando-a, ela se ajoelha no chão, no meio lance de escadas, para e fica lá, prostrada, aguardando seu algoz chegar. Egberto se surpreende ao ver essa cena em sua frente, e diz:

- Hei! O que significa isso?

- Venha, não posso mais suportar essa pressão, me possua, faça o que quiser de mim, mas me deixe em paz, vamos, estou aqui!

A mulher fala, enquanto se despe veementemente e se atira ao colo de Egberto. Lá na escada mesmo acontece o esperado, freneticamente e quase que animalmente se consuma o ato.

 Pouco depois, Egberto diz, enquanto coloca as calças:

- Tenho que te dizer uma coisa: Eu moro aqui, não queria fazer nada com você, estava apenas indo para meu apartamento.

 Ela, com um sorriso maroto no rosto, ainda nua, diz:

- Eu sei disso. Pensa que eu nunca o percebi aqui? Você nunca me viu, mas eu já te vi dezenas de vezes, esperava uma chance de me entregar a você, seu bobo!

Ele, arregalando os olhos, se espanta:

- Então você me enganou? Você me usou? Me fez de palhaço, como todas...

- Como?

Fora de si, Egberto com os olhos faiscando e uma brusca violência, vocifera:

- Todas as mulheres... Todas querem se aproveitar de mim, querem me usar como a um objeto! Avança em direção a mulher, ainda sentada na escada, rodeia seu pescoço com as mãos e vai apertando..., apertando cada vez mais.

- Cof! P-pare! Cof!

 É a única coisa que ela ainda consegue dizer, enquanto Egberto, com um olhar transtornado, sufoca a incauta, com uma indescritível fisionomia de prazer.

Sente o ar se esvaindo, sente que não oferece mais reação, que não pode mais gritar, acabou. Um fio de baba escorre pela boca, semi-cerrada da mulher, a língua está enrolada, não há mais vida.

Lentamente, Egberto a arrasta para seu apartamento, seu cãozinho se alvoroça, balançando o rabo e arfando sem parar, ele abre a porta do banheiro, e com um ar de realização, contempla sua coleção: Na banheira três mulheres, com os corpos já em avançado estado de putrefação, esquartejados, as moscas varejeiras comendo o que sobrara da carne esverdeada, as paredes pintadas com sangue, e no espelho, escrito em vermelho tinto, já coagulado, as seguintes inscrições: "Nunca mais enganado... "

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Viagem para Teresópolis

Teresópolis é uma cidade na região serrana do Rio de Janeiro; eu "ficava" com uma menina, chamada Anna, cuja família tinha uma casa lá, dentro da Granja Comari, onde é a concentração da Seleção Brasileira.

A família dela (mãe, pai, irmão e irmã e os respectivos namorados) haviam me convidado para viajar com eles.

A Anna resolveu não ir naquele dia (ela era sempre do contra); mas como a mãe, o irmão e a irmã dela me adoravam, me obrigaram a ir sozinho e esperar por ela lá.

Como adoro viajar, aceitei. A casa não é muito grande, mas tem 2 andares com 2 quartos em cada andar.

Os pais dela e a irmã e o namorado ficaram no 1º andar e o irmão dela, a namorada e eu ficamos no 2º; obviamente eles em um quarto e eu em outro.

O quarto em que fiquei tinha duas camas, uma ao lado da janela (quase embaixo dela) e a outra ao lado da porta do outro lado do quarto.

O teto era um pouco baixo e era MUITO escuro, de tal forma que a noite não se enxergava nada dentro dele.

Resolvi ficar na cama perto da janela, pois dali poderia ver todo o quarto e como tenho a mania de dormir com a porta fechada (de tanto ver vultos passando à noite) e encostado na parede (sempre longe da porta se possível), poderia ver qualquer um que entrasse, tal era a diferença de luz entre a escuridão do quarto e o lado de fora (corredor).

Antes de viajar tive o impulso (quase uma obrigação) de levar uma lanterna, coisa que eu NUNCA fizera antes.

Passamos o dia numa boa e na hora de dormir cada um foi para o seu quarto e eu resolvi pôr a lanterna do meu lado no chão. Testei várias vezes o local exato aonde poria a lanterna, para não precisar ficar tateando a esmo no escuro.

Mais tarde comecei a ouvir ao longe tambores como nos filmes de Tarzã e de repente ouvi um barulho DENTRO do quarto! Rapidamente meti a mão aonde tinha deixado a lanterna e ela NÃO ESTAVA LÁ!

Comecei a tatear freneticamente e então alguém falou comigo:

-Não precisa se preocupar querido, sou eu.

A voz era bastante rouca e tentava imitar a voz da mãe da Anna que sempre me chamou assim.

 Eu pensei: - O que D. Sueli está fazendo aqui? O que o marido dela vai pensar?

Então me lembrei que era IMPOSSÍVEL entrar no quarto sem que eu visse por causa da diferença de luz entre o quarto e o corredor!

Quando me lembrei disso, a lanterna apareceu no lugar aonde deveria estar! Quando iluminei o lugar de onde vinha a voz, não havia nada lá!

Apavorado, voei escada abaixo e fiquei sentado na sala esperando o dia clarear. Ainda bem que a Anna resolveu ir no dia seguinte e tivemos uma noite sem nenhuma "visita".

Mas... Quem teria me visitado? Seria algum antepassado de Anna, daí a voz e o falar parecido com a D. Sueli?

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A visita dos mortos

Meu nome é Pedro, estou com 36 anos(2004); apesar de ter pavor do sobrenatural, sempre fui muito receptivo para este tipo de coisas. Desde pequeno eu via vultos, sentia presenças e coisas do gênero. Fiquei bastante surpreso em descobrir na Internet, em Sites como este, que várias pessoas viveram situações semelhantes e até muito mais assustadoras que as minhas.

A visita dos mortos

Já tive a sensação de estar sendo agarrado várias vezes quando estava na cama à noite (graças a Deus isto parou), mas uma vez tive uma sensação muito mais tenebrosa, que até hoje não sei explicar.

Foi mais ou menos em 1993, eu estava deitado na cama da minha mãe ao lado dela e estava acordado, olhando para o teto; lembro de ter olhado a hora e fechado os olhos.

Nesta época eu costumava ter  insônia e embora deitado junto a minha mãe, estava BEM acordado.

De repente...  meu corpo enrijeceu todo e fiquei paralisado, me sentindo vendado, braços algemados e amordaçado, em um lugar frio, no meio de um matagal.

O mais estranho é que eu sentia toda a situação, embora sem enxergar, do mesmo modo como,  mesmo de olhos fechados, sabemos os lugares de tudo em nosso quarto.

Junto a mim estava um homem morto, já putrefato. Apesar de vendado eu sentia o contato do corpo frio junto a mim e sentia o mau cheiro do cadáver. Sabia que estava junto de um morto.

Eu estava jogado no chão e, no local, além de nós (eu e o morto), pelas vozes, eu distinguia cerca de 6 ou 7 homens   falando entre si, mas eu não pude entender o que falavam.

Repentinamente, cheio de pavor, eu ouvi os cliques de armas sendo engatilhadas e em seguida os tiros. Descarregaram suas armas em mim. Eu sentia meu corpo sendo perfurado pelas balas, me contorcia, mas não podia gritar!!!

Fiquei me contorcendo a cada impacto das balas, às vezes caindo sobre o morto, mas graças a Deus não sentia dor. Só percebia o frenético movimento do meu corpo, reagindo aos impactos.

Quando as armas silenciaram eu ainda pude percebê-los falando algo, mas sem entender o que diziam.

Depois de vários minutos (que pareceram horas), comecei a me mexer muito lentamente e cutuquei chorando a minha mãe.

 Contei o que aconteceu e ela disse que eu sonhei; mas eu estava acordado! Tratei de ficar "colado" nela para que se algo acontecesse novamente, eu pudesse sacudi-la.

Resolvi ficar de olhos abertos e não dormir para que nada mais pudesse me acontecer.

Passados mais ou menos 20 min, senti novamente a mesma sensação, mas desta vez eu estava de olhos abertos, de pé, olhando meu corpo morto e o do meu companheiro, enquanto vários  repórteres  tiravam fotos dos nossos corpos (meu e do meu companheiro morto).

Tornei a voltar a mim, acordei novamente minha mãe e contei-lhe o desfecho da minha visão. Ela consolou-me repetindo que eu tinha novamente sonhado. Mas eu sei que não sonhei. Eu vivi, de fato, aquela inexplicável situação.

Nunca fiquei sabendo quem me visitou aquela noite,  quem era o morto que estava junto a mim, nem quem eram os homens que atiraram enchendo meu corpo de balas, nem os repórteres, acredito que eram todos fantasmas de pessoas falecidas naquele local, mas espero que agora, onde estiverem, estejam em paz.

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A Viúva junto ao Rio

Estou sentada na margem do rio e Deus está sentado ao meu lado. Estou sentada sobre as ervas. Estico o braço e toco as águas que se aproximam da margem para falarem comigo. Mergulho os dedos e a água é fresca. Ouço as palavras serenas que água me diz. Deus estica o braço e toca o rio inteiro com pontos de luz que dançam.

O corpo do rio agita-se lentamente. Todo o seu corpo é de água. O rio é sempre jovem. Podem passar séculos. Pode passar toda a eternidade. O rio é sempre jovem. Há quarenta anos, o rio era exactamente igual. Eu era diferente. Deus não estava sentado ao meu lado. Há quarenta anos, era de manhã. Havia também pontos de luz na superfície do rio. O seu corpo agitava-se lentamente. Os pontos de luz apareciam e desapareciam nas ondas vagarosas das águas. Havia aqui uma árvore velha e, quando um raio de sol passava entre os ramos, mergulhava na água e atravessava-a, porque a água era límpida. Diante de mim, a água ainda é límpida. Eu e Deus olhamos a água e pensamos. Os nossos olhares mergulham e atravessam a água, como outrora os raios de sol que passavam entre os ramos da árvore velha. Deus sabe aquilo em que penso. Penso nas palavras que o rio me dizia e que, há quarenta anos, quando era de manhã, eu não conseguia entender. Os meus cabelos eram longos e negros. Os meus olhos não sabiam. Era de manhã. A minha mãe tinha-me dito podes ir. As roupas negras da minha mãe no seu corpo, o seu rosto. Podes ir. Antes, a minha voz que era fina e frágil a perguntar. Há quarenta anos, a minha voz era a de uma rapariga. Depois, a voz da minha mãe e as suas roupas negras e o seu rosto. Podes ir. Há quarenta anos, era de manhã e eu sentei-me aqui. O rio era jovem. Havia uma árvore velha. Deus não sabia de mim.

Chegou quando a sua mão me tocou no ombro. Voltei-me para ver um rosto que era o mais bonito que alguma vez havia visto. Perguntou posso sentar-me? Há quarenta anos, quando Deus não sabia que eu era uma rapariga e que para mim todo o mundo era este rio e esta aldeia com canteiros de flores e casas brancas com barras amarelas, chegou um rapaz que me pediu para se sentar ao meu lado. Eu estava sentada sobre as ervas. Era de manhã. Havia uma árvore velha. Não falamos. Olhamos o rio, como eu e Deus o olhamos agora. Eu olhava o rio e sentia a presença do rapaz ao meu lado, o som quase silencioso da sua respiração, as palavras incompreensíveis das águas. Nesse primeiro dia, não falamos. Conhecemo-nos. Um do outro, soubemos que existíamos. O céu também existia. O rio também. O céu era infinito quando, por acaso, olhávamos para ele. O rio era talvez uma vida a passar. Nesse primeiro dia, acreditamos que o rio era talvez uma vida a passar. Estávamos sentados um ao lado do outro. O rio levou a manhã consigo. Levantei-me e saí. Ele ficou. Não falamos. Ao sair, os meus passos na terra e o peso do seu olhar sobre mim.

Em casa, a minha mãe vestida de negro pedia às criadas para trazerem chá. As criadas entravam e saiam da sala onde eu e a minha mãe nos sentávamos e passávamos as horas da tarde. Ouvia a voz da minha mãe apenas quando se dirigia às criadas. A voz da minha mãe era feita de ferro desde que o meu pai tinha morrido. Mas eu estava sentada na sala, o sol atravessava as cortinas e, sem dizer nada, pensava naquele rosto que tinha visto por momentos. Dentro de mim, no meu silêncio, aquele era um rosto de luz quando a manhã precisa de luz, e era um rosto de água quando a boca fica seca e existe água fresca a escorrer de qualquer sítio onde esteja a manhã. Por isso, ficava sentada, a fazer renda. A imagem dele ardia devagar dentro de mim, como um eclipse, como um rosto a brilhar como um sol. Às vezes, olhava apenas a agulha e os meus dedos entre a linha da renda e, às vezes, parecia-me que as formas que a linha tomava eram as formas do rosto dele. As criadas entravam e saíam da sala. A minha mãe continuava sentada. As suas roupas eram negras. A sua voz era feita de ferro.

Um dia, era o fim da tarde. Eu estava no meu quarto. Estava por trás dos vidros das janelas, as portadas estavam abertas. Olhava os homens que atravessavam o pátio com os cavalos e que depois atravessam o pátio com uma mão cheia de palha ou com um balde de água. Olhava os cavalos e os homens que tratavam deles. Estava por trás dos vidros das janelas, as cortinas deslizavam-me devagar pela face, olhava para o pátio, mas quando olhava para os vidros que estavam diante de mim, via-me reflectida. Num instante em que estava a ver o meu rosto nos vidros e em que o pátio era uma indefinição baça, reparei num vulto que avançou devagar pelo meu rosto reflectido. Voltei a deixar que os meus olhos atravessassem os vidros, e era ele que caminhava no pátio. Aproximou-se de um dos homens que tratava dos cavalos e falou com ele. O seu corpo e a sua cara ao longe. Não tentei perceber o que diziam. Tentei fixar cada gesto. Quando se afastaram, ele olhou para mim.

Passaram dias em que a minha mãe, sentada na sala, esperava. Eu imaginava. Fazia renda. Depois de ter passado tempo, numa manhã, pedi de novo à minha mãe. Outra vez a minha voz de rapariga. Outra vez a minha mãe a dizer podes ir, porque a minha mãe não sabia, porque a minha mãe não imaginava. As suas roupas eram negras, a sua voz era feita de ferro. Podes ir. Levantei-me muito devagar, quando me apetecia levantar num impulso. Atravessei o corredor, atravessei o pátio com passos lentos, quando me apetecia correr. Aproximei-me do rio, da árvore velha e sentei-me. Passaram instantes em que o esperei, em que imaginei que ele pudesse não vir, em que o esperei a imaginar que ele podia não vir. O rio continuava o êxodo das coisas belas. Havia águas que eram crianças e que vinham para diante dos meus pés e que me diziam palavras frágeis que eu ainda não entendia, lamentos, lágrimas que eu ainda não entendia. Senti uma mão tocar-me no ombro. Voltei-me e vi o sol. Perguntou posso sentar-me? Sentimos a presença um do outro. O rio sentiu a nossa presença. O meu olhar ia com o rio. Havia uma aragem que trazia a água, que trazia o fresco da água. Senti os seus dedos no meu pescoço, na minha face, nos meus cabelos. Virei-me para ele. O seu rosto aproximou-se. Os seus lábios aproximaram-se lentamente. Em casa, na sala, sentei-me. A minha mãe olhou-me e levantou-se. Ouvi os seus passos no corredor, ouvi a sua voz e ouvi a voz de uma das criadas. A minha mãe entrou na sala. Os seus olhos eram dois incêndios. Agarrou-me o braço com força e disse nunca mais te vais encontrar com aquele rapaz. Apertou-me o braço e disse nunca mais te vais encontrar com aquele rapaz. Passou um instante em que o significado das suas palavras continuou. A minha mãe chamou uma criada. A minha mãe disse-lhe conta o que viste. A criada baixou o olhar e, com uma voz muito sumida, disse vi um rapaz da vila a beijar a menina na margem do rio. A minha mãe agarrou-me de novo no braço e disse nunca mais te vais encontrar com aquele rapaz. Pedi licença, levantei-me e fui para o meu quarto.

Olhei pela janela, os cavalos atravessavam o pátio. O meu rosto reflectido na janela era triste. Fechei os olhos. Toquei os lábios como se os meus dedos fossem os seus lábios e os beijasse assim. Abri uma mala pequena sobre a colcha da cama. Dobrei algumas roupas e arrumei-as na mala. Não fiz nenhum barulho nos corredores. Não fiz nenhum barulho a abrir a porta. Atravessei o pátio encostada às folhas de hera que cobrem as paredes da casa. Sentei-me na margem do rio, debaixo da árvore velha. Pousei a mala ao meu lado. Deus não existia onde eu existi durante aqueles momentos. Esperava. O rio passava com a mesma velocidade que passara no dia em que nos vimos pela primeira vez, com a mesma velocidade que passa agora sob o meu olhar e sob o olhar de Deus. Esperava. Às vezes olhava à minha volta, imaginando que talvez assim o pudesse apressar. Via as casas da vila a subirem a encosta. Via os telhados. Via as flores a agitarem-se devagar, criando assim uma brisa. Esperava e dois homens, dos que costumavam atravessar o nosso pátio com mão cheias de palha e baldes de água para os cavalos, dois homens caminhavam firmes na minha direcção. Cada vez mais perto. Um agarrou-me num braço, o outro agarrou-me no outro braço. As suas mãos eram grossas e ásperas.

As criadas na cozinha com as mãos sobre o colo a olharem para mim. Um dos homens largou a minha mala pequena sobre o chão. Ao cair, a mala abriu-se e as roupas, que tinha dobrado e arrumado, espalharam-se no chão da cozinha. No corredor, a minha mãe estava de pé. As suas roupas negras. Os seus olhos eram dois incêndios. A sua voz era feita de ferro. Sempre a olhar para mim, falou para os homens. Disse levem-na. O meu corpo sem força nas suas mãos. Levaram-me para um quarto onde nunca tinha entrado. Era um quarto que ficava no outro lado da casa. Era um quarto que estava sempre trancado e que, quando eu era pequena e perguntava, a minha mãe dizia não vás para aí. Da janela, via-se o rio, via-se as margens e, ao longe, muito pequena, via-se a árvore velha. Os homens agarraram-me o tornozelo e fecharam-no numa algema de ferro, que estava presa a uma corrente, que estava presa à parede, que entrava dentro da parede. Fecharam a porta. Fiquei deitada no chão. Levantei-me devagar. Aproximei-me da janela. Arrastava o peso das correntes que batiam no chão de madeira. Ao longe, a árvore velha, o rio. Ele estava lá. Estava sentado. O rio continuava o seu caminho eterno. Nada o podia parar.

Passaram-se muitos dias. As criadas entravam e traziam-me comida numa bandeja que pousavam no chão. Eu comia pouco. No espelho do roupeiro, via-me magra e via os meus olhos a tornarem-se negros. Quando conseguia, passava o tempo à janela. Via-o ao longe. Via-o sentar-se de manhã debaixo da árvore velha. Passaram-se muitos dias. Mudaram as estações. A chuva caíu sobre a superfície do rio. Às vezes, a minha mãe entrava no quarto com uma ou duas criadas. Vestiam-me uma roupa lavada e passada. Tiravam-me as correntes e levavam-me para a sala. Sentada com a minha mãe, eu sabia que esperávamos. Chegava um homem que sorria. A minha mãe sorria também. Dizia o meu nome ao homem e eu não o olhava. O homem falava para mim e eu não lhe respondia, nem o ouvia, nem o olhava. A minha mãe começava a zangar-se. Deixava de sorrir. O homem também não sorria, dizia não faz mal. A minha mãe desculpava-se por mim. Depois levavam-me de novo para o quarto e acorrentavam-me de novo à parede. Isto aconteceu muitas vezes.

Passaram-se muitos anos. Debaixo da árvore velha, ele ia envelhecendo. De manhã, sentava-se ali sozinho e ficava a olhar o rio e eu ficava a olhá-lo. Tão longe. As criadas envelheceram. A minha mãe envelheceu. Eu envelheci. Deixaram de vir homens para me ver. Deixaram de me vestir roupas lavadas e passadas, e deixaram de me levar à sala. O quarto permaneceu igual ao dia em que entrei lá pela primeira vez. A cama com os lençóis que as criadas mudavam uma vez por semana, e que me faziam perceber que as semanas passavam. Eu continuava a aproximar-me da janela e a olhá-lo, tão longe, cada vez mais velho. A forma do seu corpo a envelhecer. Os seus gestos a envelhecerem de lentidão. À noite, tudo era mais triste. O rio anoitecia. Não havia nenhuma luz nas casas da vila. Eu não tinha forças para subir para a cama. Dormia no chão. De manhã, doía-me o corpo, mas o corpo já não me interessava. Uma manhã, ele não se sentou debaixo da árvore velha. Essa manhã demorou mais tempo dos que os anos em que, ao acordar, sabia que iria vê-lo lá longe, com os contornos recortados pelo rio. Fiquei toda a manhã a olhar o seu espaço vazio debaixo da árvore velha. Ele não estava lá, mas estava lá a sua ausência. O rio, a árvore, as casas todas da vila sentiam a sua falta. Nas manhãs seguintes, ele não se sentou debaixo da árvore velha. Olhei o céu, e nem o céu, nem os pássaros pareciam saber o que tinha acontecido. A minha esperança só morreu no dia em que chegaram dois homens e, com machados, cortaram a árvore. Em movimentos longos, os machados atravessaram o ar e espetaram-se na madeira velha da árvore como se se espetassem na minha carne, como se cortassem a minha carne e os meus ossos. Ele nunca mais se sentou debaixo da árvore velha. Ele nunca mais se sentou na margem do rio.

A pele caía-me dos braços. Os meus cabelos eram fios de cinza. As minhas mãos perderam a forma. Passava os dias sentada no chão e encostada à parede. Não sei para onde olhava. Numa dessas tardes indistintas umas das outras, Deus entrou no quarto. Mexi a perna e mexeram-se as correntes. Deus sentou-se ao meu lado. Os seus olhos eram tristes. Deus segurou-me na mão e chorámos.. Eu era muito velha. Tinham passado quarenta anos sobre o dia em que encontrei o na margem do rio, tinham passado quarenta anos sobre a minha vida. Eu era muito velha, quando duas criadas abriram a porta do quarto e se pararam a olhar para mim. Soltaram-me das correntes, deram-me um banho num alguidar, limparam-me e vestiram-me umas roupas negras. Eram umas roupas que eram iguais às da minha mãe. Eram as roupas da minha mãe. Deram-me a mão e seguia-as até ao quarto da minha mãe. Com os olhos fechados, com as mãos pousadas no peito, uma sobre a outra, a minha mãe estava morta.

Fiquei algumas horas no quarto sozinha, a olhar para o seu rosto. Depois, dentro de um caixão, levaram-na para o cemitério. Na rua, as pessoas paravam-se nos passeios. Eu ia ao lado do caixão. Além dos criados, eu era a única pessoa que ia com a minha mãe para o cemitério. Cobriram a minha mãe de terra. Atiraram pás cheias de terra sobre a minha mãe. Olhei para os criados, mas ninguém olhou para mim. Voltaram-me as costas e começaram a caminhar para a saída. Também eu voltei para a vila. Fui sentar-me na margem do rio. Sentei-me no sítio onde costumava estar a árvore velha.

Hoje, estou sentada na margem do rio e Deus está sentado ao meu lado. Há quarenta anos, era de manhã. Há quarenta anos, o rio era exactamente igual. Estou velha. Também Deus está velho. Sentamo-nos juntos e pensamos. O tempo é mais leve. Nem eu, nem Deus esperamos nada. Mergulho os dedos e a água é fresca. Ouço as palavras serenas que água me diz. Deus estica o braço e toca o rio inteiro com pontos de luz que dançam. Os meus cabelos já não são longos e negros. A minha pele soltou-se da minha carne. E se eu dissesse agora uma palavra, sei que a minha voz seria feita de ferro.

JURA EM PROSA E VERSO

CONTOS MISTERIOSOS

BERENICE (Por Edgar Allan Poe )

 

"Dicebant mihi sodales,si sepulchrum amicae visitarem,

curas meas aliquantulum fore levatas'

- Ebn Zaiat

DESGRAÇA é variada. O infortúnio da terra é multiforme. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Estendendo-se pelo vasto hori-zonte, como o arco-íris! Como é que, da beleza, derivei eu um exemplo de feiúra? Da aliança da paz, um símile de tristeza? Mas é que, assim como na ética o mal é uma conseqüência do bem, igual-mente, na realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as agonias que existem agora têm sua origem nos êxtases que podiam ler existido.

Meu nome de batismo é Egeu; o de minha família não o mencionarei. E, no entanto, não há torres no país mais vetustas do que as salas cinzentas e melancólicas do solar de meus avós. Nossa estirpe tem sido chamada uma raça de visionários. Em muitos por-menores notáveis, no caráter da mansão familiar, nos afrescos do salão principal, nas tapeçarias dos dormitórios, nas cinzeladuras de algumas colunas da sala de armas, porém mais especialmente na galeria de pinturas antigas, no estilo da biblioteca, e, por fim, na natureza muito peculiar dos livros que ela continha, há mais que suficiente evidência a garantir minha assertiva.

As recordações de meus primeiros anos estão intimamente ligadas àquela sala e aos seus volumes, dos quais nada mais direi. Ali morreu minha mãe. Ali nasci. Mas é ocioso dizer que eu não havia vivido antes, que a alma não tem existência prévia. Vós negais isto? Não discutamos o assunto. Convencido eu mesmo, não procuro convencer. Há, porém, uma lembrança de forma aérea, de olhos espirituais e expressivos, de sons musicais embora tristes; uma lembrança que jamais será apagada; uma reminiscência parecida a uma sombra, vaga, variável, indefinida, instável; e tão parecida a uma sombra, também, que me vejo na impossibilidade de livrar-me dela enquanto a luz de minha razão existir.

Foi naquele quarto que nasci. Emergindo assim da longa noite daquilo que parecia mas não era, o nada, para logo cair nas mesmas regiões da terra das fadas, num palácio fantástico, nos estranhos domínios do pensamento monástico e da erudição, não é de estranhar que tenha eu lançado em torno de mim um olhar ardente e espantado, que tenha consumido minha infância nos livros e dissipado minha juventude em devaneios; mas é estranho que, com o correr dos anos, e tendo o apogeu da maturidade me encontrado ainda na mansão de meus pais; é maravilhoso que a inércia tenha tombado sobre as fontes da minha vida; é maravilhoso como total inversão se operou na natureza de meus pensamentos mais comuns. As realidades do mundo me afetavam como visões, e somente como visões, enquanto as loucas idéias da terra dos sonhos tornavam-se, por sua vez, não o estofo de minha existência cotidiana, mas, na realidade, a própria existência em si, completa e unicamente.

Berenice e eu éramos primos e crescemos juntos no solar paterno. Mas crescemos diferentemente: eu, de má saúde e mergulhado na minha melancolia, ela, ágil, graciosa e exuberante de energia; ela, entregue aos passeios pelas encostas da colina, eu, aos estudos no claustro. Eu, encerrado dentro do meu próprio coração e dedicado, de corpo e alma, à mais intensa e penosa meditação, ela, divagando descuidosa pela vida, sem pensar em sombras no seu ca-minho ou no vôo saliente das horas de asas lutulentas. Berenice! - invoco-lhe o nome - Berenice! - e das ruínas sombrias da memória repontam milhares de tumultuosas recordações ao som da invocação! Ah! bem viva tenho agora a sua imagem diante de mim, como nos velhos dias de sua jovialidade e alegria! Oh! deslumbrante, porém fantástica beleza! Oh! sílfide entre arbustos de Arnheim! Oh! náiade entre as suas fontes! E depois. . . depois tudo é mistério e horror, uma história que não deveria ser contada. Uma doença, uma fatal doença, soprou, como o simum, sobre seu corpo. E precisamente quando a contemplava, o espírito da metamorfose arrojou-se sobre ela invadindo-lhe a mente, os hábitos e o caráter e, da maneira mais sutil e terrível, perturbando-lhe a própria personalidade! Ah! o destruidor veio e se foi! E a vítima. . . onde estava ela? Não a conhecia. . . ou não mais a conhecia como Berenice!

Entre a numerosa série de males, acarretados por aquele fatal e primeiro que ocasionou uma revolução de tão horrível espécie no ser moral e físico de minha prima, pode-se mencionar como o mais aflitivo e obstinado em sua natureza, uma espécie de epilepsia, que, não raro, terminava em transe cataléptico, transe muito semelhante à morte efetiva e da qual despertava ela quase sempre duma maneira assustadoramente subitânea. Entrementes, minha própria doença -pois me fora dito que eu não poderia dar-lhe outro nome - minha própria doença aumentou e assumiu afinal um caráter de monomania, de forma nova e extraordinária, e a cada hora e momento crescia em vigor e por fim veio a adquirir sobre mim a mais incompreensível ascendência. Esta monomania, se devo assim chamá-la, consistia numa irritabilidade mórbida daquelas faculdades do espírito denominadas pela ciência metafísica "faculdades da atenção ". É mais que provável não me entenderem, mas temo, deveras, que me seja totalmente impossível transmitir à mente do comum dos leitores uma idéia adequada daquela nervosa INTENSIDADE DE ATENÇÃO com que, no meu caso, as faculdades meditativas (para evitar a lin-guagem técnica) se aplicavam e absorviam na contemplação dos mais vulgares objetos do mundo.

Meditar infatigavelmente longas horas, com a atenção voltada para alguma frase frívola, à margem de um livro ou no seu aspecto tipográfico; ficar absorto, durante a melhor parte dum dia de verão, na contemplação duma sombra extravagante, projetada obliquamente sobre a tapeçaria, ou sobre o soalho; perder uma noite inteira olhando a chama imóvel duma lâmpada, ou as brasas de um fogão; sonhar dias inteiros com o perfume de uma flor; repetir, monotonamente, alguma palavra comum, até que o som, à força da repetição freqüente, cessasse de representar ao espírito a menor idéia, qualquer que fosse; perder toda a noção de movimento ou de existência física, em virtude de uma absoluta quietação do corpo, prolongada e obstinadamente mantida - tais eram os mais comuns e menos perniciosos caprichos provocados por um estado de minhas faculdades mentais, não, de fato, absolutamente sem paralelo, mas certamente desafiando qualquer espécie de análise ou explicação.

Sejamos, porém, mais explícitos. A excessiva, ávida e mórbida atenção assim excitada por objetos, em sua própria natureza triviais, não deve ser confundida, a propósito, com aquela propensão ruminativa comum a toda a humanidade e, mais especialmente, do agrado das pessoas de imaginação ardente. Nem era tampouco, como se poderia a princípio supor, um estado extremo, ou um a exageração de tal propensão, mas primária e essencialmente distinta e diferente dela. Naquele caso, o sonhador ou entusiasta, estando interessado por um objeto, geralmente não trivial, perde imperceptivelmente de vista esse objeto através duma imensidade de deduções, e sugestões dele provindas, até que, chegando ao fim daquele sonho acordado, muitas vezes repleto de voluptuosidade, descobre estar o incitamentum, ou causa primeira de suas meditações, inteiramente esvanecido e esquecido. No meu caso, o ponto de partida era invariavelmente frívolo, embora assumisse, por força de minha visão doentia, uma importância irreal e refratada. Nenhuma ou poucas reflexões eram feitas e estas poucas voltavam, obstinadamente, ao objeto primitivo, como a um centro. As meditações nunca eram agradáveis, e, ao fim do devaneio, a causa primeira, longe de estar fora de vista, atingira aquele interesse sobrenaturalmente exagerado, que era a característica principal da doença. Em uma palavra, as faculdades da mente, mais particularmente exercitadas em mim, eram, como já disse antes, as da atenção ao passo que no sonhador-acordado são as especulativas.

Naquela época, os meus livros, se não contribuíam efetivamente para irritar a moléstia, participavam largamente, como é fácil perceber-se, pela sua natureza imaginativa e inconseqüente, das qualidades características da própria doença. Bem me lembro, entre outros, do tratado do nobre italiano Coelius Secundus Curio 'De AMPLI-TUDINE BEATI REGNI DEI;" da grande obra de Santo Agostinho, "A CIDADE DE DEUS"; do "De CARNE CHRISTI", de Tertulia-no, no qual a paradoxal sentença: MORTUS EST DEI FILIUS; CREDIBILE EST QUIA INEPTUM EST: ET SEPULTUS RESUR-REXIT; CERTUM EST QUIA IMPOSSIBiLE EST", absorveu meu tempo todo, durante semanas de laboriosa e infrutífera investigação.

Dessa forma, minha razão perturbada, no seu equilíbrio, por coisas simplesmente triviais, assemelhava-se àquele penhasco marítimo, de que fala Ptolomeu Hefestião, que resistia inabalável aos ataques da violência humana e ao furioso ataque das águas e dos ventos, mas tremia ao simples toque da flor chamada asfódelo. E embora a um pensador desatento possa parecer fora de dúvida que a alteração produzida pela lastimável moléstia no estado moral de Berenice fornecesse motivos vários para o exercício daquela intensa e anormal meditação, cuja natureza tive dificuldades em explicar, contudo tal não se deu absolutamente. Nos intervalos lúcidos de minha enfermidade, a desgraça que a feria me mortificava realmente, e me afetava fundamente o coração aquela ruína total de sua vida alegre e doce. Por isso não deixava de refletir muitas vezes, e amargamente, nas causas prodigiosas que tinham tão subitamente produzido modificações tão estranhas. Mas essas reflexões não participavam da idiossincrasia de minha doença, e eram as mesmas que teriam ocorrido, em idênticas circunstâncias, à massa ordinária dos homens. Fiel a seu próprio caráter, minha desordem mental preocupava-se com as menos importantes, porém mais chocantes mudanças, operadas na constituição física de Berenice, na estranha e verdadeiramente espantosa alteração de sua personalidade.

De modo algum, jamais a amara durante os dias mais brilhantes de sua incomparável beleza. Na estranha anomalia de minha existência, os sentimentos nunca me provinham do coração, e minhas paixões eram sempre do espírito. Através do crepúsculo matutino, entre as sombras estriadas da floresta, ao meio-dia, e no silêncio de minha biblioteca, à noite, esvoaçara ela diante de meus olhos e eu a contemplara, não como a viva e respirante Berenice, mas como a Berenice de um sonho; não como um ser da terra, terreno, mas como a abstração de tal ser; não como coisa para admirar, mas para analisar; não como um objeto de amor, mas como o tema da mais abstrusa, embora inconstante, especulação. E agora. . . agora eu estremecia na sua presença e empalidecia à sua aproximação; embora lamentando amargamente sua decadência, e sua desolada condição, lembrei-me de que ela me amava desde há muito e num momento fatal, falei-lhe em casamento.

Aproximava-se, enfim, o período de nossas núpcias quando, numa tarde de inverno, de um daqueles dias intempestivamente cálidos, sossegados e nevoentos, que são a alma do belo Alcíone, sentei-me no mais recôndito gabinete da biblioteca. Julgava estar sozinho, mas, erguendo a vista, divisei Berenice, em pé à minha frente.

Foi a minha própria imaginação excitada, ou a nevoenta influência da atmosfera, ou o crepúsculo impreciso do aposento, ou as cinzentas roupagens que lhe caiam em torno do corpo, que lhe deram aquele contorno indeciso e vacilante? Não sei dizê-lo. Ela não disse uma palavra e eu, por forma alguma, podia emitir uma só sílaba. Um gélido calafrio correu-me pelo corpo, uma sensação de intolerável ansiedade me oprimia, uma curiosidade devoradora invadiu-me a alma e, recostando-me na cadeira, permaneci por algum tempo imóvel e sem respirar, com os olhos fixos no seu vulto. Ai! sua magreza era excessiva e nenhum vestígio da criatura de outrora se vislumbrava numa linha sequer de suas formas. O meu olhar ar-dente pousou-se afinal em seu rosto.

A fronte era alta e muito pálida e de uma placidez singular. O cabelo, outrora negro, de azeviche, caía-lhe parcialmente sobre a testa e sombreava as fontes encovadas com numerosos anéis, agora duna amarelo vivo, discordando, pelo seu caráter fantástico, da melancolia reinante em suas feições. Os olhos, sem vida e sem brilho, pareciam estar desprovidos de pupilas, e desviei involuntariamente a vista de sua fixidez vítrea para contemplar-lhe os lábios delgados e contraídos. Entreabriram-se e, num sorriso bem significativo, os dentes da Berenice transformada se foram lentamente mostrando. Prouvera a Deus nunca os tivesse visto, ou que, tendo-os visto, tivesse morrido!

O batido duma porta me assustou e, erguendo a vista, vi que minha prima havia abandonado o aposento. Mas do aposento desordenado do meu cérebro não havia saído, ai de mim! e não queria sair, o espectro branco e horrível de seus dentes. Nem uma mancha se via em sua superfície, nem um matiz em seu esmalte, nem uma falha nas suas bordas, que aquele breve tempo de seu sorriso não me houvesse gravado na memória. Via-os agora, mesmo mais distintamente do que os vira antes. Os dentes!. . - Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda a parte, visíveis, palpáveis, diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os pálidos lábios contraídos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terrível crescimento. Então desencadeou-se a plena fúria de minha monomania e em vão lutei contra sua estranha e irresistível influência. Os múltiplos objetos do mundo exterior não me despertavam outro pensamento que não fosse o daqueles dentes, Queria-os com frenético desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contemplação. Eles. somente eles estavam presentes aos olhos de meu espírito, e eles, na sua única individualidade, se tornaram a essência de minha vida mental. Via-os sob todos os aspectos. Revolvia-os em todas as suas peculiaridades. Meditava em sua conformação. Refletia na alteração de sua natureza. Estremecia ao atribuir-lhes, em imaginação, faculdades de sentimento e sensação e, mesmo quando despro-vidos dos lábios, capacidade de expressão moral. Dizia-se, com razão, de Mademoiselle de Sallé; que tous ses pas êtaient des sentiments" e de Berenice, com mais séria razão acreditava "que toutes ses dents étaient des idées". Idées! Ah! esse foi o pensamento absurdo que me destruiu! Des idées! ah! eis porque eu os cobiçava tão loucamente! Sentia que somente a posse deles poderia resti-tuir-me a paz, e devolver-me a razão.

E assim cerrou-se a noite em torno de mim. Vieram as trevas, demoraram, foram embora. E o dia raiou mais uma vez. E os nevoeiros de uma segunda noite de novo se adensavam em torno de mim. E eu ainda continuava sentado, imóvel, naquele quarto solitário, ainda mergulhado em minha meditação, ainda com o fantasma dos dentes, mantendo sua terrível ascendência sobre mim, a flutuar, com a mais viva e hedionda nitidez, entre as luzes e som-bras mutáveis do aposento. Afinal, explodiu em meio de meus sonhos um grito de horror e de consternação, ao qual se seguiu, depois de uma pausa, o som de vozes aflitas, entremeadas de surdos lamentos de tristeza e pesar. Levantei-me e, escancarando uma das portas da biblioteca, vi, de pé, na antecâmara, uma criada, toda em lágrimas, que me disse que Berenice não mais. . - vivia! Fora tomada de um ataque epiléptico pela manhã e agora1 ao cair da noite, a cova estava pronta para receber seu morador e todos os preparativos do enterro estavam terminados.

Com o coração cheio de angústia, oprimido pelo temor, dirigi-me, com repugnância, para o quarto de dormir da defunta. Era um quarto vasto, muito escuro, e eu me chocava, a cada passo, com os preparativos do sepultamento. Os cortinados do leito, disse-me um criado, estavam fechados sobre o ataúde e naquele ataúde, acrescentou ele, em voz baixa, jazia tudo quanto restava de Berenice.

Quem, pois, me perguntou se eu não queria ver o corpo ?- Não vi moverem-se os lábios de ninguém; entretanto, a pergunta fora realmente feita e o eco das últimas sílabas ainda se arrastava pelo quarto. Era impossível resistir e, com uma sensação opressiva, dirigi-me a passos tardos para o leito. Ergui de manso as sombrias dobras das cortinas mas, deixando-as cair de novo, desceram elas sobre meus ombros e, separando-me do mundo dos vivos, me encerraram na mais estreita comunhão com a defunta.

Todo o ar do quarto respirava morte; mas o cheiro característico do ataúde me fazia mal e imaginava que um odor deletério se exalava já do cadáver. Teria dado mundos para escapar, para livrar-me da perniciosa influência mortuária, para respirar, uma vez ainda, o ar puro dos céus eternos. Mas, faleciam-me as forças para mover-me, meus joelhos tremiam e me sentia como que enraizado no solo, contemplando fixamente o rígido cadáver, estendido ao comprido, no caixão aberto.

Deus do céu! Seria possível? Ter-se-ia meu cérebro transviado? Ou o dedo da defunta se mexera no sudário que a envolvia? Tremendo de inexprimível terror, ergui lentamente os olhos para ver o rosto do cadáver. Haviam-lhe amarrado o queixo com um lenço, o qual, não sei como, se desatara. Os lábios lívidos se torciam numa espécie de sorriso, e, por entre sua moldura melancólica, os dentes de Berenice, brancos luzentes, terríveis, me fixavam ainda, com uma realidade demasiado vivida. Afastei-me convulsivamente do leito e sem pronunciar uma palavra, como louco, corri para fora daquele quarto de mistério, de horror e de morte. -

Achei-me de novo sentado na biblioteca, e de novo ali estava só. Parecia-me que, havia pouco, despertara de um sonho confuso e agitado. Sabia que era então meia-noite e bem ciente estava de que, desde o pôr-do-sol, Berenice tinha sido enterrada. Mas, do que ocorrera durante esse tétrico intervalo, eu não tinha qualquer percepção positiva, ou pelo menos definida. Sua recordação, porém, estava repleta de horror, horror mais horrível porque impreciso, terror mais terrível porque ambíguo. Era uma página espantosa do registro de minha existência, toda escrita com sombrias, medonhas e ininteligíveis recordações. Tentava decifrá-la, mas em vão; e de vez em quando, como o espírito de um som evadido, parecia-me retinir nos ouvidos o grito agudo e lancinante de uma voz de mulher. Eu fizera alguma coisa; que era, porém? Interrogava-me em voz alta e os ecos do aposento me respondiam "Que era?"

Sobre a mesa, a meu lado, ardia uma lâmpada e, perto dela, estava uma caixinha. Não era de aspecto digno de nota e eu freqüentemente a vira antes, pois pertencia ao médico da família; mas, como viera ter ali, sobre minha mesa, e por que estremecia eu ao contemplá-la? Não valia a pena importar-me com tais coisas e meus olhos, por fim, caíram sobre as páginas abertas de um livro e so-bre uma sentença nelas sublinhada. Eram as palavras singulares, porém simples, do poeta Ebn Zaiat: "Dicebant mihi sodales, si sepulchrum amicae visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas'. Por que, então, ao lê-las, os cabelos de minha cabeça se eriçaram até a ponta, e o sangue de meu corpo se congelou nas veias?

Uma leve pancada soou na porta da biblioteca e, pálido como o habitante de um sepulcro, um criado entrou, na ponta dos pés. Sua fisionomia estava transtornada de pavor e ele me falou em voz trêmula, rouca e muito baixa. Que disse? Ouvi frases truncadas. Falou-me de um grito selvagem, que perturbara o silêncio da noite. -da acorrência dos moradores da casa. - - de uma busca do lugar de onde viera o som. E depois sua voz se tornou penetrantemente distinta, ao murmurar a respeito de um túmulo violado -- . de um corpo desfigurado, desamortalhado, mas ainda respirante, ainda palpitante, ainda vivo!

Apontou para minhas roupas; estavam sujas de barro e de coágulos de sangue. Eu nada falava e ele pegou-me levemente na mão; havia, gravadas nela, sinais de unhas humanas. Chamou-me a atenção para certo objeto encostado à parede, que contemplei por alguns minutos: era uma pá.

Com um grito, saltei para a mesa e agarrei a caixa que sobre ela jazia. Mas não pude arrombá-la; e, no meu tremor, ela deslizou de minhas mãos e caiu com força, quebrando-se em pedaços. E dela, com um som tintinante, rolaram vários instrumentos de cirurgia dentária, de mistura com trinta e duas coisas brancas, pequenas, como que de marfim, que se espalharam por todo o assoalho.

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BRINCANDO COM OS MORTOS

Brincando com os mortos

Em uma noite iluminada por uma lua minguante num céu sem estrelas, quatro jovens resolvem fazer o famoso "jogo do copo".

Reúnem-se na casa do mais velho, o líder da turma. Depois de uma oração em tom de brincadeira, começa a sessão de perguntas para o pseudo-espírito na mesa.

- Qual o seu nome? Pergunta uma das meninas da turma.

O copo se move para as letras formando a palavra P-A-L-H-A-Ç-O. Todos ficam assustados com o movimento, mas acham estranho que tenha se formado essa combinação. Exceto o líder da turma, que solta uma gargalhada quando a palavra é formada.

- O que você quer? Pergunta o segundo jovem:

P - U - M. É a palavra que aparece no tabuleiro. O jovem líder cai na gargalhada, solta o copo e sai de perto do tabuleiro:

- Essa brincadeira é cretina, estúpida. Fui eu quem fez o copo se mexer. Viram como isso não funciona?

- Cuidado. Não fique brincando com essas coisas. Você pode ser castigado - Retruca a pequena jovem.

Todos vão embora da casa do rapaz, indignados coma brincadeira sem graça do amigo. Como já era tarde, ele se prepara para dormir. Entra em seu quarto, deita em sua cama e começa uma oração. No meio de sua prece, ele sente uma dor muito forte no peito. Seu pijama azul tem uma mancha escura e que vai aumentando. O jovem coloca a mão na boca para conter um grito, mas percebe que sua boca também está sangrando. Seu nariz pinga mais sangue ainda, marcando o chão com poças avermelhadas.

Desesperado, ele vai ao quarto de seus pais e os encontram enforcados, pendurados no lustre sobre a cama, movimentando seus braços em busca do corpo do rapaz. Os gritos e palavras mórbidas ecoam por toda a casa:

- Maldito. Porquê você fez isso?

O jovem corre para fora de casa e bate na porta da casa de seus amigos. Ninguém atende. Seus gritos misturados com suas lágrimas pintam seu rosto de vermelho.

Cansado de gritar, ele fica em silêncio, mas ouve algumas gargalhadas. Tentando descobrir de onde vem as vozes, ele corre em direção ao som, e percebe que saem da garagem de sua própria casa.

Ao abrir a porta, ele se depara com uma cena macabra: Seus três amigos, sentados no chão, fazendo o jogo do copo. As gargalhadas eram assustadores, como crianças que se divertem com um brinquedo novo. Chegando mais perto, o jovem percebe que o copo se movia sozinho, sem nenhum dedo no tabuleiro. O copo fazia movimentos repetitivos para as palavras P-A-L-H-A-Ç-O. Movimentos cada vez mais rápidos formavam a palavra P-A-L-H-A-Ç-O, P-A-L-H-A-Ç-O, P-A-L-H-A-Ç-O, até que o copo explode.

Assustado, suado e com muito medo, o jovem acorda. Sim, foi um sonho. Ele olha a sua volta e não há sangue. O silêncio reina pela casa. Mais calmo, ele vai até o banheiro, onde tem uma surpresa ao se olhar no espelho: Seus olhos e sua boca, vermelhos de sangue, formam uma pintura de palhaço. Mesmo jogando água em sua face, a mancha não sai. Em um ato de desespero, o rapaz corre para o quarto dos pais. Quando ele abre a porta, encontra seu pai de pé, em frente à porta com uma arma na mão. Antes que ele pudesse pronunciar qualquer palavra, um único som toma conta de toda a casa: P-U-M.

No dia seguinte, todos os seus amigos vão ao velório de seu colega: O jovem palhaço que morreu com um tiro na cabeça.

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por Reinaldo Ferraz

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CONTOS MISTERIOSOS

Bruxas

Cristina era uma socióloga respeitada. Especializou-se no estudo da época da inquisição, quando, sob o manto da igreja, pessoas eram queimadas sob acusação de bruxaria.

Através de suas pesquisas concluiu que, na maioria das vezes a perseguição era política, os acusados nunca haviam se envolvido com satanismo.

Alguns casos pareciam típicos de doentes mentais, que mais deveriam ir para o sanatório que para fogueira. Um caso, contudo, chamou-lhe a atenção: Catarina, uma mulher do século XVII, queimada num povoado do interior, conhecida como a maior das feiticeiras.

As lendas que dela se contavam perduravam até os dias atuais, sobre seu poder e maldade. Morrera queimada, jurando vingança. Cristina viajara para a cidade que se desenvolvera perto do antigo povoado onde a bruxa teve seu fim. Verificou que ,apesar dos séculos, as pessoas conheciam histórias sobre ela, havendo inclusive aqueles que jurassem ter visto reunião de demônios comandados por Catarina em um vale próximo.

 Cristina ia assim juntando material para uma nova tese, sobre o imaginário popular. Algumas coincidências, porém, logo chamaram-lhe a atenção.

De tempos em tempos sumiam crianças na região, que nunca eram encontradas.

Assim como começavam, os desaparecimentos terminavam. Catarina era considerada culpada, mesmo séculos após ter morrido.

O fato é que nunca qualquer pista foi encontrada. Justamente após sua chegada na cidade, crianças começam a sumir, sem deixar vestígios.

Havia mais de cinqüenta anos que aquilo não acontecia, portanto não poderia ser a mesma pessoa. Três garotos estavam desaparecidos. Não havia pista alguma, uma testemunha que fosse. Cristina envolveu-se com as investigações.

Sentia que, se desvenda-se aquele crime, poderia explicar a estranha influência que aquela lenda exercia sobre a população daquele lugar. Passado algumas semanas nada de novo havia sido descoberto.

Das outras crianças não mais foram vistas. O delegado local pensava até em pedir ajuda federal.

Cristina não dormia direito, procurando, pela lógica, encontrar uma solução.

Um dia a socióloga aparece na delegacia. Não havia dormido a noite anterior.

Apesar de cientista tinha uma intuição. Visivelmente alterada, pediu ao delegado que a acompanhasse com alguns policiais. Foram ao local onde, pelos relatos que descobrira, Catarina havia cumprido pena.

Era um pequeno vale. Movida por uma força estranha, Cristina, com as mãos escava o sopé de um morro próximo. A terra estava fofa.

Os pequenos ossos não demoraram a aparecer. Ao ver tudo aquilo, o rosto de Cristina se transformou.

À vista incrédula dos policiais, ela começava a gritar palavras incompreensíveis.

Era como se duas almas lutassem por um só corpo. Suas feições iam, aos poucos, se transformando.

Ela despiu-se até que, completamente nua começou a dançar freneticamente, num ritmo cada vez mais rápido, começou a levitar. De seus olhos, emanava o próprio mal.

Cristina havia sacrificado aquelas crianças.

Sem saber, seu corpo fora apossado por Catarina, que assim executava a sua vingança.

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CASARÃO MAL-ASSOMBRADO

Antônio José é nome de um amigo de nossa família, morador de Rio Comprido.

Contou-me que, em 1943, quando ele e sua esposa, Maria das Dores, a filha Maria das Dores, e uma comadre, passaram a residir no número 193 daquela rua, foram vítimas de uma série de casos extraordinários.

Essa casa, que ficava no alto, perto da caixa d'água, e próxima ao morro de São Carlos, estava localizada à beira desse morro, em cujo despenhadeiro se encontrava uma chácara com enorme área arborizada.

Essa área separava justamente a rua Ambiré do morro de São Carlos.

O prédio era de construção antiga, com altos e baixos, sendo que a família ocupava o sobrado, de onde se podia apreciar a vatidão da chácara que se estendia embaixo, tendo de um lado um abismo e , do outro, o morro de São Carlos.

A residência era ótima e seria a habitação ideal, se não houvessem ocorrido os acontecimentos que passo a narrar.

Todas as noites, a família era atormentada de maneira inexplicável, pois assim que se recolhia, começavam a cair pedras no telhado, como se o próprio Belzebu se empenhasse em arrazar aquela vivenda.

Enquanto isso, ouvia-se o ruído característico de forte ventania, que parecia varrer o arvoredo lá embaixo, na chácara.

Era horrível aquela situação: as pedras caindo sobre o telhado e a ventania zunindo nas árvores.

 Assim se passavam noites, sem que a família não mais conhecesse a tranquilidade do sono.

Certa vez, alguém se lembrou de um crucifixo que havia em casa.

Talvez, com ele, poderiam se ver livres de tamanha perseguição! À noite, quando as pedras começavam a cair no telhado e a bater nas janelas, num fragor de ensurdecer, saíram todos para o quintal, um deles empunhando o crucifixo e uma vela acesa, concentrando-se em orações fervorosas. Tudo então silenciou completamente.

Entretanto, o processo serviu somente para acalmar provisoriamente os fenômenos, pois mal a família reingressava na casa, recomeçavam os rumores com todo o cortejo de fatos anormais.

Se as pessoas tornavam ao quintal, repetindo as exortações, novamente tudo silenciava, muito embora os cães pertencentes a uma família que morava ao lado oposto, não parassem de latir, soltando uivos lancinantes, como se alguém os tivesse chicoteando.

Vários meses decorreram assim, sem que qualquer solução fosse dada ao problema.

Antônio José, certo dia, no auge do desespero, lembrou-se de fazer uma promessa a Nossa Senhora das Dores, venerada na Capela do Largo do Rio Comprido: faria uma caminhada, de joelhos, até o Senhor Morto, na 6ª feira da Paixão.

Cumprida a promessa, a partir daquele dia, a casa ficou definitivamente livre daquela perseguição diabólica.

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Colégio assombrado

Estudei em um colégio de padres, onde aconteciam as coisas mais esquisitas que se possa imaginar.

O gabinete do colégio era um deles. Onde os livros caiam das estantes sozinhos. Mas os padres não gostavam que comentássemos nada. Também havia o vestiário em que os chuveiros ligavam sozinhos. Ouvíamos batidas nos armários de ferro do vestiário. Levávamos grandes sustos por lá.

Pelos corredores mal iluminados e principalmente nos andares superiores, as vezes, nós alunos, víamos o fantasma de pessoas vestidas de padres andando solitárias pelos corredores.

Eu vi uma cena destas somente uma única vez.

Em uma noite de tempestade muito forte, acabou faltou luz no colégio, que era tipo internato, e eu e um de nossos amigos de classe pegamos uma vela. A vela estava apoiada em uma espécie de pires. Acendemos a vela e fomos para o alojamento num dos andares superiores.

Trovejava muito nesse momento e quando estávamos andando por um dos corredores compridos do solitário colégio, vimos um padre vindo em nossa direção.

E meu amigo perguntou ao padre se queria que pegasse uma vela para ele. Chegamos perto do padre, e ele falou para nós que não precisava e soprou nossa vela, deixando a gente em total escuridão.

Ficamos ali parados no meio do corredor e logo em seguida eu tateei o pires com a vela e peguei a caixa de fósforos e risquei e o fósforo, acendendo a vela.

Tudo clareou momentaneamente e o corredor estava sombrio. Nós pudemos ver, então,  que não havia ninguém ali perto. E que ninguém poderia ter se escondido. O tempo decorrido (tudo foi muito rápido), não era suficiente para que alguém alcançasse o final do corredor, em ambos os lados, onde havia uma porta fechada. Na posição em que nos encontrávamos no corredor, tínhamos ampla visão de ambos os lados do mesmo.

Estávamos bem no meio do longo corredor e em ambos os lados não era possível, num tempo tão curto, que alguém tivesse alcançado a porta. No corredor não havia qualquer porta de acesso lateral.

Inspecionamos as duas portas e descobrimos que uma estava trancada e a chave conosco, pois nós a trancamos após passar por ela, e  a outra estava também trancada, com a chave na fechadura, por dentro.

Foi um Deus nos acuda.

Ao fazer essa pavorosa constatação saímos em disparada do corredor , atravessarmos a porta que dava para um amplo salão de acesso aos dormitórios.

Esbarramos em um outro colega que saía de um dos quartos e fomos os três para o chão; e na escuridão, pudemos notar que ele estava tão assustado quanto a gente, porque também corria do quarto .

Ele contou-nos que alguma coisa ficou pressionando seu peito e quando conseguiu sair, sentiu algo como puxando levemente o seu braço, e depois a sua perna, quase puxando ele para trás. Estava, como nós, totalmente apavorado!!! Ele ainda estava acabando de relatar isso, quando ouvimos uma gargalhada no escuro e outra vez saímos em disparada, mas agora éramos três apavorados e não apenas dois.

Ao chegarmos na copa, onde os padres faziam as refeições, nós explicamos o que havia se passado a um dos padres e ele apenas aconselhou que esquecessemos tudo o que ocorreu e a não ficassemos falando essas coisas, para as pessoas. Apenas esquecêssemos tudo.

Ficou evidente que ele também já havia passado e presenciado alguns fatos sobrenaturais mas não queria dar o braço a torcer.

Outra vez, estávamos em número de doze alunos e de repente ouvimos um barulho como se tivesse alguém muito ofegante perto da gente e o grande espelho da parede começou a fazer estalos e ao fixarmos o olhar no espelho que ia até quase o teto, pudemos observar que ele começou a trincar lentamente de uma ponta a outra ao mesmo tempo que o barulho de alguém ofegante continuou.

Ficamos todos juntos e muito assustado com tudo aquilo.

Neste colégio também havia nos fundos dele uma espécie de pátio que acabava em uma espécie de bosque. Uma noite estávamos nos fundos do pátio, e ficamos encostados nas janelas dos fundos.

 De repente pudemos avistar ao longe, no meio da vegetação, um vulto que caminhava e trazia consigo algo que brilhava com a pouca luz que havia,( na verdade o colégio era muito mal iluminado, possuindo luzes fracas e amareladas, dando um ar triste a tudo).

E pudemos ver ao longe algo que trazia em uma das mãos e era brilhoso como se fosse a lâmina de uma faca, mas não chegava a vir em nossa direção.

Parecia mais como uma ameaça, mas não chegava a vir até nós. Era realmente apavorante ver aquele vulto por entre as árvores e arbustos de um lado ao outro e aquela lâmina brilhando de vez em quando.

As vezes acordávamos no meio da noite como se houvesse um peso em cima da gente, fazendo com que a gente quase perdesse o fôlego e tínhamos que levantar para melhorar e respirar melhor, mas isso acontecia somente as vezes e com alunos diversos.

Houve uma vez, (mas eu não estava, pois estava passando alguns dias na casa de parentes) em que um padre foi encontrado morto na lateral do prédio e não conseguiram dizer do que havia morrido e segundo contam morreu de olhos esbugalhados.

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Egoísmo

Marcio era um executivo bem sucedido. Tinha uma grande casa, uma bela esposa e duas adoráveis crianças. Ele era diretor de uma grande empresa, que ficava a apenas dois quarteirões de sua casa. Isso o ajudava muito, pois não precisava de carro para chegar ao escritório. Bastava andar em linha reta até a porta da empresa.

Apesar de ser extremamente egoísta, Marcio se considerava religioso. Como havia uma igreja no caminho rotineiro de seu trabalho, ele costumava fazer um sinal da cruz quando passava pela igreja. Essa igreja sempre estava aberta. De manhã, com alguns fiéis na porta e pouca claridade e a noite, quando Marcio retornava para casa e conseguia ver o padre de costas rezando sua missa rotineira.

A vida desse executivo era regada a muito dinheiro. Sempre em festas sociais, eventos e desfiles glamourosos. Quanto mais dinheiro ele conseguisse melhor pois ele ficaria mais rico ainda. Até que um dia, o destino bateu em sua porta.

Antes de sair para o trabalho, um mendigo tocou a campainha de sua casa. Marcio pediu para a empregada ver o que ele queria. Ela disse que ele gostaria de falar com o Sr. Marcio.

- Mas como esse velho sabe o meu nome? Indagou Marcio perplexo.

Chegando ao portão, Marcio encontrou um velho, careca e com barbas longas e grisalhas. Sujo e com roupas rasgadas. O velho quase se arrastava pelo chão, lhe suplicando:

- Por favor. Dê me um real. Deus lhe agradecerá em dobro.

- Fora daqui ! - Gritou Marcio - Que falta de respeito é esse com pessoas honestas e trabalhadoras? Saia já de frente da minha casa ou eu chamarei meus seguranças !

O velho saiu da frente de sua casa se arrastando. Parecia estar machucado ou com muita fome. Mas isso não comoveu Marcio, que com um beijo despediu-se de sua esposa e foi trabalhar.

Foi trabalhar pelo mesmo caminho. Passou pela igreja, fez um sinal da cruz e continuou sua caminhada. Nem sequer lembrara do pobre mendigo.

Depois de mais um longo dia de trabalho, Marcio volta para casa, pelo mesmo caminho de sempre. Passa pela igreja, vê o vulto do padre rezando a missa e entra em sua casa.

No dia seguinte, no mesmo horário, o mendigo aparece novamente na porta da casa de Márcio:

- Por favor. Dê me um real. Deus lhe agradecerá em dobro.

- Mendigo insolente, vou chamar a polícia

- Eu só preciso de um real para comprar comida. Por favor, Deus lhe agradecerá e dobro.

Enquanto Marcio discutia com o mendigo, sua esposa tinha ido buscar alguns pães para dar ao mendigo. Marcio, irritadíssimo com o velho e pela atitude de sua esposa, tomou-lhe o pão e o pisoteou. Depois carregou o saco para dentro de casa dando gargalhadas. Ao voltar para o portão, para ir trabalhar, o mendigo não estava mais lá.

E mais um dia se passou na vida de Marcio. E foi assim por uma semana. O mendigo tocava a campainha na mesma hora da manhã pedindo dinheiro, e Marcio a cada dia humilhava mais o pobre coitado. Mas, em um certo dia, o mendigo não apareceu. Marcio dava graças a Deus que aquele monte de lixo havia percebido que não conseguiria nada e fora embora. O grande executivo toma seu caminho para o trabalho calmamente, assobiando de felicidade.

Ao passar na porta da igreja, Marcio resolveu parar em frente e "agradecer".

- Obrigado Deus, por tirar aquele homem da minha casa.

E seguiu seu caminho para o trabalho.

O dia de Márcio segue tranqüilamente. Até o momento que ele passa pela igreja. Marcio vê um movimento estranho na porta do templo. O padre não está rezando a missa hoje. O que haveria acontecido? Marcio resolve entrar para ver o que acontecia e pergunta a uma das fiéis, que chorava desesperadamente:

- O que aconteceu?

- O padre Gabriel morreu - Responde a jovem emocionada

- Mas morreu como?

- Ele havia feito uma promessa a Deus. Queria mostrar que ainda havia pessoas boas nesse mundo e fez jejum por uma semana, para sobreviver com a caridade das pessoas. Morreu de anemia hoje de manhã.

- Que triste - exclama Márcio - Vou fazer uma homenagem visitando o corpo.

Mas, ao chegar ao lado do defunto, Márcio leva um choque, ao perceber que aquele velho deitado no caixão era a mesma pessoa que lhe pedira dinheiro por uma semana, para comprar comida. Marcio fica aterrorizado com a visão daquele pobre velho, agora limpo, de batina e de olhos fechados, sem dizer uma palavra.

Marcio fica tonto, sua visão começa a ficar distorcida e ele ouve incessantemente a frase que o Padre lhe falou durante uma semana:

- Por favor. Dê me um real. Deus lhe agradecerá em dobro.

- Por favor. Dê me um real. Deus lhe agradecerá em dobro.

- Por favor. Dê me um real. Deus lhe agradecerá em dobro.

Ele não sabe o que fazer, Márcio olha para os lados e vê todas as pessoas a sua volta. Todos olhando para ele, com a fisionomia do velho. Com a barba branca e careca e olhares que pareciam lhe perfurar o coração.

O executivo não sabe o que fazer, e num gesto de desespero sai correndo em direção à rua. Mas não percebe a chegada de um caminhão em alta velocidade que lhe acerta em cheio. Marcio cai no chão ensangüentado, cheio de fraturas no corpo, até que dê seu último suspiro.

Márcio acorda, em um lugar claro, cheio de luzes brancas e amarelas. Uma paz absoluta. Ele vê uma pessoa vindo em sua direção. Uma pessoa vestida de branco. As luzes atrapalham a visão e Marcio não consegue reconhecer quem é. Ao tocar na mão da pessoa, Marcio percebe as rugas, e ao olhar para cima vê o rosto do velho, com um semblante triste no rosto.

- Infelizmente, meu irmão, você não conseguiu salvar sua alma.

- Como assim? Indaga Márcio

- Deus havia lhe dado à chance de lhe salvar. Mandou-me interferir em sua vida para que deixasse de ser egoísta. Mas agora é muito tarde.

- Mas o que vai acontecer comigo?

Antes mesmo de Marcio terminar sua pergunta, dezenas de mãos negras, todas deformadas e queimadas surgem do solo. Todas elas puxando a perna de Marcio. Para não deixar ele escapar, as mãos em decomposição cravavam suas unhas na carne de Marcio. Ele estava sendo puxado para o inferno, onde seria torturado, queimado e ficaria apodrecendo pelo resto de sua vida. Marcio tenta as últimas palavras para que o velho lhe ajudasse, mas a resposta é a confirmação de sua sentença de morte eterna.

- Desculpe, senhor... mas eu não tenho um real....

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por Reinaldo Ferraz

 

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ESPELHO MALDITO

Aviso: A historia a seguir tem causado em muitos leitores e pesquisadores, os chamados "fenômenos parapsicológicos" alucinações derivadas de um estado de excitação do subconsciente, que levam pessoas pré dispostas a terem visões

e ate mesmo a ouvirem vozes. 12345

Se você se impressiona com facilidade, escolha outra pagina do site, pois esta historia possui uma certa energia negativa, uma vez que tem fundamentos reais e não apenas de mera invenção literária..... Nancy Fieldman, uma garota bonita e inteligente, de origem humilde, trabalhava em uma mansão na Inglaterra, juntamente com sua mãe por volta do ano 1870. Segundo a historia, Os senhor, dono da mansão onde Nancy e sua mãe trabalhavam era um homem com sérios problemas de personalidade, um "psicopata" sem escrúpulos, que tratava as duas muito mal, deixando para elas apenas as sobras de seus freqüentes banquetes e um quarto frio onde as duas se acomodavam durante a noite, naquela mansão com inúmeros quartos quentes que ficavam trancados para o uso apenas dos hospedes e convidados. 12345

Devido ao tratamento desumano e também a uma anemia profunda, a mãe de Nancy veio a falecer, deixando para sua filha seus únicos bens materiais, uma pequena boneca de pano e um espelho emoldurado em mármore, deixado por seu pai com o seguinte dizer: "Serei o reflexo de tua alma onde quer que esteja" (entalhado na parte inferior do espelho). Nancy era uma garota tímida, porem muito sorridente, entretanto, com a morte de sua mãe, Nancy entrou em uma forte depressão e queria abandonar a mansão. 12345

O dono da mansão, sabendo de suas intenções, trancou a garota em um porão, de onde ela não podia sair, e o que era pior, a garota passou a ser violentava todas as noites naquele lugar. Certo dia, cansada desse sofrimento e sentindo muitas dores, Nancy tentou reagir as agressões a que era submetida, dando um golpe com sua boneca de pano na cara do homem. O dono da mansão, muito revoltado com a garota, esbofeteou-a e a asfixiou com a própria boneca. A garota derrubou o espelho ao se debater e ainda sem ar disse suas ultimas palavras: "Serei o reflexo de tua alma onde quer que esteja"... Semanas depois o homem foi encontrado com os cabelos completamente grisalhos, morto sem explicação com um pedaço do espelho entre as mãos. 12345

Ate hoje a morte desse homem tem sido um mistério, dizem que muitas pessoas morreram ou ficaram loucas após se apossarem daquele pedaço de espelho, muitos dizem ver o reflexo da pequena Nancy.

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EXPURGAR O MAR

Expurgar o mal

Permitam-me que manche estas páginas níveas que têm pela frente, com o sangue que ainda escorre das minhas mãos assassinas. Eu sempre fui o mais sereno dos homens. Na vila onde vivo, as pessoas fitam-me com alguma compaixão, como se exibisse um cartaz a dizer, “tenham pena de mim”. Sempre foi assim. Em casa, na escola, no emprego. As pessoas têm tendência a tratar-me como um “coitadinho”. O pior é que eu acomodei-me a esta situação desconfortável, e assim tenho vivido.

Naquela noite de verão, eu estava deitado na cama. Fumava um cigarro e tinha o rádio ligado, quando fui perturbado pela visita dele. Irrompeu brandamente pelo meu quarto, como se ali vivesse. Estremeci ao olhar para ele. A primeira ideia que me assombrou foi a de que ele me ia matar. De seguida achei que ele não era humano. Mas mudei de ideias quando fitei os seus olhos ensanguentados.

-Acaba com eles, Vítor. – Grunhiu ele, sabedor do meu nome.

- Com eles, quem? – Redargui eu, com os lábios trémulos.

- Com os que te espezinham com o olhar... – A voz dele ressoara nas antecâmaras da minha mente. Ele sabia o que eu sentia verdadeiramente, quando as pessoas olhavam para mim com aquele ar penoso. Sentia-me espezinhado, sim!

- O que queres que eu lhes faça? – Inquiri cheio de medo.

- Mata-os. Expurga o mal que há neles. Acaba de uma vez por todas com esse teu sofrimento e verás que amanhã serás outra pessoa. Faz o que eu te mando, e serás dono de um poder e de uma força sobrenatural.

Inexplicavelmente, o ser tinha desaparecido do meu quarto com a mesma descrição com que entrara. Não me senti bem, e como estava calor, decidi dar uma volta pela praia. Precisava de apanhar um pouco de ar. Sentia que a loucura se estava a apoderar de mim. Quando cheguei à praia, deitei-me no areal e ali permaneci a contemplar as ondas, que teimavam em enrolar-se numa espuma branca que se desfazia no areal.

O meu momento de nostalgia foi interrompido pelos gritinhos histéricos de duas raparigas que passaram por mim, e que ao fitarem-me ali sossegado, reagiram com se tivessem acabado de ver um insecto. Além de se rirem, ainda se voltaram para trás, e voltaram a rir-se.

Acaba com eles, Vítor... Com os que te espezinham com o olhar – Vociferou a voz dele, do interior da minha alma sombria. Oh, sim. Ele tinha um poder desconcertante sobre mim. Eu era fraco demais para lhe sucumbir. Senti-me na obrigação de lhe obedecer. Olhei de novo, e lá estavam elas a fazer troça de mim. Fui ao carro, e da mala retirei uma chave de grifes de um metro e vinte, que eu usava nos andaimes, e pus-me ao caminho. Ultrapassei um breve caniçal, até as avistar. Lá estavam elas dentro dos carros, com os namorados. Estavam ambas debruçadas sobre eles. Faziam sexo oral.

Mata-os. Expurga o mal que há neles. Acaba de uma vez por todas com esse teu sofrimento e verás que amanhã serás outra pessoa. Avancei num espasmo de loucura perversa, e mesmo antes que eles tivessem tempo de se aterrorizarem com a minha presença, espanquei-os sem clemência. Desferi inúmeros golpes nas suas cabeças, pernas e braços, que nem tiveram tempo para me suplicarem pela vida. Matei-os a todos. -Então, não se riem agora, suas putas? – Grunhi eu, sentindo um prazer infindável a invadir a minha pessoa.

Faz o que eu te mando, e serás dono de um poder e de uma força sobrenatural.

Oh, sim! Ele sabia. O meu visitante misterioso sabia do que falava. Eu agora sentia e experimentava o poder. Ninguém mais ousava olhar para mim daquela maneira. Eu agora, era Deus!

A aurora irrompeu brandamente pela neblina nocturna, quando eu acordei no silêncio do meu quarto. Sentia-me confuso, tivera um pesadelo macabro, em que assassinara quatro jovens, e...Não! Não pode ser! As minhas mãos estão cheias de sangue!...a minha roupa também...Não! Pranteava desesperadamente, quando notei a presença de alguém perto de mim. A primeira ideia que se me afigurou, foi de um polícia com um mandato de prisão. Mas esta ideia desvaneceu-se quando fitei o vulto do ser que me visitara na noite anterior.

- És grande, Victor! Estou muito orgulhoso de ti. – Grunhiu ele, confiante.

- Quem és tu? O que queres de mim? – Indaguei eu, impacientemente.

- Não interessa quem eu sou; mas sim, o que és tu? – Atalhou ele, exibindo um semblante austero e aterrador.

- O que sentis-te, depois de teres esmigalhado a cabeça aquelas putas, hein? Diz-me. Poder, não foi? Confessa lá!

- Sim! É verdade. Senti uma força tão monumental que era capaz de derrubar um exército de cem homens! – Acrescentei eu, colocando-me de pé, de frente para ele.

-Mas não chega Victor. Não é suficiente. Oh, não! Ainda há por aí, muitos pecadores. Muitos veículos do mal. Acaba com eles todos. Não deixes que eles proliferem por aí. – Avisou ele, esgueirando-se de novo sem eu perceber.

Voltei de novo à praia do osso da baleia. Laureei por ali tranquilamente. O reduto dos pecadores e veículos do mal, era ali. Era só uma questão de tempo e dizimava-os a todos. A lua estava absoluta, e iluminava a noite quente. Vi três indivíduos fortes a virem na minha direcção. Eu continuei com a minha marcha, normalmente. Eles estavam cada vez mais perto, e eu senti que a minha bolha de ar estava a ser invadida pela presença daquele grupo. Senti que um deles me deu um encontrão no ombro quando passou por mim, e sem se deter, voltou-se e desafiou-me:

-És gordo? – Indagou com o rosto cheio de reprovação.

- Tu, é que vieste contra mim! – Respondi eu, secamente.

- Vai-te f...pá. Pareces um rato do esgoto! – Proferiu ele, num tom áspero e de desprezo.

Ainda há por aí, muitos pecadores. Muitos veículos do mal.

As palavras dele ribombaram na minha mente, como um trovão numa noite de placitude. E o meu espírito demoníaco e perverso, actuou, mais uma vez, por mim!

- Deves pensar que estás a falar com o cabrão do teu pai! – Vociferei secamente, quando eles já se alongavam, uns metros adiante de mim. Estas minhas palavras fizeram com que eles interrompessem a marcha e se voltassem para mim. Vi com normalidade, os olhos deles, plenos de raiva a procurarem o meu rosto, e de seguida, volveram na minha direcção para me espancar. Mas eu tinha uma surpresa para eles. Em fracções de segundo puxei de duas 6/35, e apontei na direcção deles. Vocês haviam de ver os rostos deles, repletos de terror quando eu dei o primeiro tiro. Depois o segundo, e o terceiro...enfim. Crivei-lhes as caras odiosas e trocistas com balas incandescentes. Oh, sim. Agora já não troçavam de mais ninguém. Eu é que ainda me ri, quando lhes urinei para cima dos cadáveres.

Na manhã seguinte, a porta do meu quarto foi arrombada pela polícia, que me prendeu, acusando-me do homicidio de sete pessoas. -Sete pessoas? Eu nunca matei ninguém. – Barafustei, cheio de confiança. É obvio que os polícias me fixaram com bastante incredulidade. Um deles mostrou-me a chave de grifes que eu conservava debaixo da cama, e que ainda estava suja com sangue. As duas 6/35, também me foram apreendidas, pois permaneciam sob o meu travesseiro, que até deitava um odor a pólvora desconcertante. E, indiscutivelmente, o sangue das vitimas que se conservava nas minhas mãos e nas minhas roupas.

Aleguei que tinha as provas tinham sido forjadas. Descrevi-lhes o individuo que me visitava todas as noites, e que era concerteza o autor daqueles tenebrosos crimes. O comandante, demonstrando grande lucidez, pegou no que me pareceu, um processo policial, e dele libertou uma fotografia.

- É este o individuo que o visita? – Inquiriu ele, exibindo o retrato na direcção dos meus olhos.

-Sim. É este mesmo! – Clamei eu, com um fluxo ávido de alívio, que me ventilou o cérebro que estava quase a rebentar de tanta inquietação.

-Então o senhor confessa ser o autor de todos estes crimes, não é verdade? – Afirmou ele, com grande naturalidade.

-Porquê que havia de confessar? – Inquiri eu, repleto de incredulidade.

Foi quando o Comissário segurou um espelho em frente da minha face, obrigando-me a encarar com o horror a minha outra face demoníaca.

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por Alexandre Faleiro

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Figueira assombrada

Minha avó paterna casou-se duas vezes. Seu primeiro marido chamava-se Giacomo. Os dois, naturais da Itália, conheceram-se na Argentina, casaram e vieram para o sul do Brasil, buscando uma vida melhor. Foram morar na região de colonização italiana. Giacomo ganhava a vida vendendo gado e os produtos que produzia (vinho, queijo, salame, etc.). Ficava vários dias longe de casa, pois viajava por várias cidades do interior do Rio Grande do Sul. Em uma estrada, próxima a Bento Gonçalves, havia uma figueira frondosa. Os moradores do local diziam que, à meia-noite, não era possível passar pela árvore, pois o lugar era "assombrado".

Voltando de uma viagem, cansado e ansioso por chegar em casa, Giacomo chegou na figueira poucos minutos antes da "hora fatídica". Não acreditava em almas do outro mundo, por isso seguiu tranqüilo. Ao aproximar-se da árvore, o cavalo empacou, empinou as orelhas e relinchou, assustado. O cavaleiro, impaciente, fincou as esporas e mandou que o animal avançasse. Não obteve resultado. Exasperado, bateu no cavalo com o relho. Ele não se moveu. Nesse momento, Giacomo sentiu alguma coisa agarrar sua coxa. A sensação foi como se tivessem encostado um ferro em brasa. Foi erguido do cavalo e arremessado para o outro lado da estrada. Tonto, levantou-se, deixou os animais e correu para casa. Lá chegando, aos gritos, chamou minha avó, que, assustada, abriu a porta. Giacomo não falava coisa com coisa. Após algum tempo e um chá de cidreira, ele conseguiu contar o que havia acontecido. Minha avó pediu que ele tirasse a bombacha, para verificar o local. Qual não foi seu espanto, ao ver que a calça estava queimada, e, na pele de seu esposo, havia a marca de cinco dedos!

Meu pai nos contou que vovó Maria dizia que, após esse dia, Giacomo não saiu mais sozinho à noite e quando precisava ir até a latrina, que ficava um pouco afastada da casa, pedia que ela o acompanhasse. A marca permaneceu na pele até sua morte.Meu pai não mentia e muito menos minha avó, por isso só posso dizer, parafraseando Shakespeare, que "entre o céu e a terra existem coisas que a nossa vã filosofia não consegue explicar".

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GARGALHADA SINISTRA

...Nos arredores de Juiz de Fora morava a família Mendonça. Uma família rica e famosa na cidade. Jussara, uma estudante de filosofia da UFJF,trabalhava esporadicamente como baby sitter para os Mendonça quando estes iam à alguma comemoração .Jussara tinha necessidade de cobrir seus gastos.

Certa noite, os Mendonça saíram para um coquetel e seus três filhos ficaram dormindo no andar superior da mansão, enquanto Jussara lia um livro na sala.O silencio era sepulcral. A noite estava escura, sem lua e muito fria. Jussara estava quase pegando no sono quando de repente...

...TRIMMMMM, TRIMMMM, TRIMMM, TRIMMM, ...

O telefone toca como um alarme. Jussara deu um salto do sofá e joga seu livro longe. Ela vai correndo ao alcance do telefone." Alô? " disse Jussara com sua voz rouca. A resposta que ela ouviu foi uma diabólica gargalhada:

...HAHAHA HAHAHA HAHAHA HAHAHA HAHAHA...

_MERDA!! Um trote! Como tem gente desocupada! revoltou-se Jussara."Será que foi o Tarcísio? Não; acho que ele não seria capaz..." indagou a rapariga.

Jussara, mais uma vez ,quase adormecendo, é acordada com o tocar do telefone.

...TRIMMMMM, TRIMMMM, TRIMMMM, TRIMMMM,...

Com receio ela foi até o telefone, ficou um tempo esperando mas achou melhor atende-lo, pois poderia ser os Mendonça. Ledo engano, mais uma vez era aquela voz sinistra a gargalhar:

...HAHAHAHA HAHAHAHA HAHAHAHA HAHAHAHA ...

Jussara inebriada pelo ódio gritou ao telefone.

_Sua hiena filha de uma puta...você come merda, fode uma vez por ano e ainda fica rindo da cara dos outros!!!! Ainda soltando fogo pelas ventas, Jussara bate o telefone com tanta violência, que quase quebra o aparelho.A estudante estava pensativa. A mansão ficava distante do centro e em um lugar muito deserto. Já com medo, ela decidiu ligar para a polícia.

_Alô? É do departamento de polícia? Perguntou Jussara com a voz meio trêmula.

_sim minha filha. E daqui sim; o quê você deseja?" Perguntou o tira com um ar enfadonho.

_Tem um engraçadinho me passando um trote e eu estou meio temerosa pois esta casa fica num lugar meio sinistro... Disse a donzela quase chorando.

O policial pegou todas as informacões necessárias e mandou uma rádio-patrulha rondar o local.Jussara se acalmou e foi até a cozinha beber um copo d`água. De volta na sala de estar, o telefone toca novamente e um frio polar sobe pela espinha de Jussara. Desta vez ela decide em não atender.

... TRIMMMM, TRIMMMM, TRIMMMM, TRIMMMM, ...

_Este cara já esta me enchendo a porra do saco!Pensou Jussara com os seus botões. Nem dois minutos depois, o telefone toca de novo.

...TRIMMMM, TRIMMM, TRIMMM, TRIMMM, ...

_Agora eu vou dar um basta nesta situação. Esporrou a garota pegando o fone do gancho furiosa."Aqui ou seu filho da pu..." ia dizendo Jussara quando a interrompe uma voz gritando a cem decibéis pelo telefone...

_Minha filha!!!!! Saia desta casa imediatamente. Aqui e da polícia ... nós identificamos a chamada e ela vem dai mesmo da outra linha. Fuja logo!!!

Jussara nem esperou o homem terminar e saiu correndo porta fora...

Mais tarde, a patrulha chega ao local e prende o perturbado mental no segundo andar, no quarto das crianças. O maluco tinha trucidado as três crianças e foi encontrado sodomisando a mais nova que tinha três anos. Jussara escapou por pouco. A cada telefonema era uma criança morta; ela seria a próxima. Mas depois, quem ouviria a próxima GARGALHADA SINISTRA ?

WAZIGO

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LEVIATÃ

"Ali passam navios; e o leviatã que formaste para nele folgar"

Salmos, 104, 26

Durante longo tempo nossa vila foi assolada por uma criatura desconhecida, mas hedionda e maligna. Pessoas de bem eram encontradas à beira da praia, seus corpos estraçalhados e maculados. Não havia dúvida: o mal os tocara, deixando neles sua inevitável nódoa.

Com o tempo o medo tomou conta do povoado. Era mister destruir a fera antes que o terror nos destruísse a todos. Tratava-se, evidentemente, de um monstro do mar. Assim, decidiu-se pela organização de uma equipe que daria caça ao bicho. De todos, Afonso era o mais entusiasmado. Não admira, portanto que coubesse a ele a chefia da embarcação.

Sim, havia um velho navio que serviria para o combate. Estranho. Lembro-me que, quando entrei nele pela primeira vez, tive a impressão de que penetrava no próprio covil do demônio. Talvez, pensei, essa impressão fosse causada pelo aspecto da embarcação. E, de fato, a madeira estava velha e rangia como um gigante resmunguento. O convés estava repleto de limo e as velas pareciam ter a intenção de se esfarraparem ao primeiro vento. Uma assustadora carranca adornava a proa.

Embarcamos. Fomos nos afastando da costa na direção do mar, esperando encontrar a fera. Vigiávamos em turnos e aqueles que eram dispensados podiam se recolher aos rudes quartos improvisados sob o convés. Fiquei de sentinela um longo tempo e fui substituído por Afonso, que colocou a mão sobre meu ombro e disse:

- Vá descansar. Deixe que cuidamos da ffera.

Desci e deitei, mas não conseguia dormir. Em certo instante em que fechei os olhos, parecia ouvir arrastar de correntes e gemidos, misturados ao sussurro do mar. Dei-me conta de que já começava a dormir. Estava naquele estado em que nem dormimos, nem estamos acordados... e uma estranha premonição tomou conta de mim... Como se algo estivesse errado.

Então houve como que um estrondo. O navio balançou, rangendo sua estrutura. Subi ao convés, temendo que o costado não resistisse. Uma tempestade tremenda se formava. Ondas de seis metros lambiam o convés. Um vento forte fazia com que o navio balançasse como um velho bêbado.

- Onde está? Onde está o monstro? - perrguntei.

- Não adivinha? - respondeu Afonso, levvantando o rosto para mim.

Só então pude ver seus olhos que brilhavam como chamas, em assombroso contraste com o resto da face, dominada por trevas.

Procurei os outros, em socorro, mas estavam todos no convés, olhando-me do mesmo jeito. Embora o navio balançasse muito, permaneciam simplesmente em pé, os braços ao longo do corpo, os olhos fixos em mim.

- Não adivinha onde está o mal? - troveejou Afonso.

- Não advinha onde está o mal? - repetiiram os outros.

Corri deles, descendo as escadas, atrapalhado pela fúria dos elementos, que sacudia implacavelmente o navio. Percorri todos os lugares, procurando um lugar onde me esconder. Assustadora compreensão me dominava. Eram eles o monstro. Eles, o leviatã.

O mal, encarnado neles, dera cabo de todos os homens bons da vila. Só restara eu. Eles me trouxeram, então, para o navio, a fim de me fazer sucumbir depois de prolongadas torturas.

Estou aqui, agora, trancado nesse cubículo apertado. Ratos e baratas passeiam pelo meu corpo, esperando pelo momento em que estarei fraco demais para resistir ao seu apetite devorador. Lá de cima me vem o som de correntes e o sussurro dos mortos. Penso em Afonso, em esgar de ódio, ansiando pela morte de seu melhor amigo.

Passos. Estão se aproximando. Logo vão me encontrar. Se não o fizerem, morrerei de sede, de fome, ou devorado pelos ratos.

Dentro em breve... eu verei a face do Leviatã...

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Manuscrito Encontrado Em Uma Garrafa

Não costumo visitar praias. Por isso é estranho que justamente eu tenha encontrado a garrafa. O mundo, entretanto, apresenta simetria estranha. Não acredito em destino. Creio, antes, que nossa vida se assemelha a um fractal. O destino é uma linha dividida em duas, que por sua vez se dividem cada uma em duas, até o infinito. Constantemente temos de decidir entre uma situação e outra e, quando fazemos isso, estamos reconstruindo nosso destino. Se, naquela tarde eu não tivesse consentido em acompanhar minha irmã e seu marido à praia, talvez não tivesse encontrado a garrafa. E talvez ninguém teria descoberto seu conteúdo, uma narrativa estranha, como que escrita por um louco. Dela não mudei nada e reproduzo exatamente como a encontrei:

"Espero que alguém encontre este papel que tive a louca idéia de enfiar numa garrafa e lançar ao mar. Talvez assim eu consiga superar a barreira que me separa do mundo.

Já conto um mês que estou aqui. Tenho andado de um lado para o outro e, embora pareça estar num continente, ou numa ilha enorme, jamais encontrei viva alma. Também não encontrei nenhum vestígio humano. Como é possível que, em pleno século XX haja um lugar onde o homem nunca tenha colocado os pés? Não. Isso não é possível A única explicação lógica que encontro é esta: estou em outra dimensão. Por alguma razão, fui transportado a um lugar no qual a noção de espaço é totalmente diversa daquela que conhecemos. E, no entanto, os eventos que me trouxeram a este local foram tão estranhos quanto a situação em que atualmente me encontro.

Eu era jornalista de um famosos periódico e fui enviado para realizar uma reportagem a respeito das ilha litorâneas do Estado de.... Íamos num barco pequeno, de motor de popa. Junto comigo ia o fotógrafo e um nativo da região, que manobrava o barco.

Percorremos várias ilhas, parando aqui e ali. Então, quase no fim da tarde, encostamos o barco em uma tribo indígena. Conversamos com alguns índios, tiramos fotos e eles nos trataram muito bem. Entretanto, quando informamos que pretendíamos voltar ainda naquele dia para o continente, eles pareceram preocupados.

O cacique apontou o céu nublado, ameaçando tempestade e nos aconselhou a não partir. "Além de tudo", ele disse "essas não são águas seguras para se viajar à noite...".

Certamente ele não conhecia a pressa característica dos jornalistas: decidimos voltar imediatamente, antes que a tormenta se formasse. Fomos pegos no meio do mar. O que começara com um simples chuvisco tornou-se uma borrasca infernal. A chuva assemelhava-se a milhares de agulhas perfurando nossa pele. O mar agitava-se em ondas que alcançavam até três metros. Eu e o fotógrafo, instalados na proa para equilibrar o barco, mal conseguíamos nos segurar. O barco subia até a crista da onda e depois despencava com enorme estrondo.

De repente anoiteceu. A tempestade continuou ainda por algum tempo. No fim, já não sabíamos mais onde estávamos e para onde o barco se dirigia. Devíamos estar em alto mar quando a tormenta amainou. O nativo nos informou que nossa única chance era encontrar uma ilha onde pudéssemos passar a noite. Foi quando ouvimos ou pressentimos algo. Olhamos à volta e o que vimos nos alegrou a princípio: era um navio!

Entretanto, à medida em que ele se aproximava meus sentimentos com relação a ele mudava. Era, de fato, um navio. Mas não se parecia com nenhum navio que eu já havia visto. Parecia ter pelo menos dois séculos de existência. Havia alguns grandes mastros, que sustentavam velas rasgadas. O casco de madeira parecia escurecido pelo tempo.

O monstro de madeira singrava calmamente as águas turbulentas... em nossa direção! Eu jurava ouvir vozes vindas do tombadilho. Uma voz mais grave parecia comandar as manobras e outras respondiam às suas ordens. Mas é possível que estivesse delirando, pois quando o navio se aproximou, percebemos que não havia ninguém a bordo.

O nativo precisou ser hábil para desviar, pois a embarcação ameaçava nos despedaçar com sua quilha.

Entretanto, a onda que se levantou à sua passagem quase fez com que sossobássemos. Preocupados em nos agarrar e impedir que o barco afundasse, perdemos o navio de vista. Quando demos por nós ele havia desaparecido... como um fantasma!

Navegamos ainda durante algum tempo, meio perturbados pela estranha aparição. Súbito o navio ressurgiu a menos de 50 metros de nós. Como ele fizera a volta em tão pouco tempo era algo que nenhum de nós conseguia imaginar. Dessa vez o nativo não foi tão rápido. O navio atingiu nossa proa e fui jogado ao mar.

Nada mais sei. Devo ter desmaiado e, quando acordei, estava neste lugar. Desde então tenho andado à procura de pessoas, mas minha busca tem se revelado infrutífera.

Tudo de humano que tenho comigo são minhas roupas e esta garrafa na qual o nativo trouxera um pouco de aguardente com o qual nos esquentávamos durante a tormenta. É essa garrafa que levará minha mensagem. Talvez ela consiga alcançar aquela outra dimensão da qual fui exilado. Que alguém a encontre, leia sua mensagem e acredite em mim já é sinal de que estou vivo. E isso já me basta".

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O BARRIL DO "AMONTILLADO" (Por Edgar Allan Poe )

 

Suportei o melhor que pude mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer idéia de risco. Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu.

Deve compreender-se que nem por palavras, nem por atos, dei motivos a Fortunato para duvidar da minha afeição. Continuei, como era meu desejo, a rir-me para ele, que não compreendia que o meu sorriso resultava agora da idéia da sua imolação.

Tinha um ponto fraco, este Fortunato sendo embora, sob outros aspectos, homem digno de respeito e mesmo de receio. Orgulhava-se da sua qualidade de entendido em vinhos. Poucos italianos possuem o verdadeiro espírito de virtuosidade. Na sua maior parte, o seu entusiasmo é adaptado às circunstâncias de tempo e de oportunidade para ludibriar milionários britânicos e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunato, à semelhança dos seus concidadãos, era um charlatão, mas na questão de vinhos era entendido. Neste aspecto eu não diferia substancialmente dele: eu próprio era entendido em vinhos de reserva italianos, e comprava-os em grandes quantidades sempre que podia.

Foi ao escurecer, numa tarde de grande loucura da quadra carnavalesca, que encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessivo calor, pois bebera demais. Trajava de bufão; um fato justo e parcialmente às tiras, levando na cabeça um chapéu cônico, guarnecido de guizos. Fiquei tão contente de encontrá-lo, que julguei que jamais estreitaria a sua mão como naquele momento.

-- Meu caro Fortunato, disse-lhe eu, foi uma sorte encontrá-lo. Mas, que bom aspecto tem você hoje! Recebi um barril como sendo de Amontillado, mas tenho minhas dúvidas.

-- Como? -disse ele - Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno carnaval!

-- Tenho minhas dúvidas -repeti - e seria tolo que o pagasse como sendo de Amontillado antes de consultá-lo sobre o assunto. Não conseguia encontrá-lo em parte alguma, e receava perder um bom negócio.

-- Amontillado!

-- Tenho minhas dúvidas.

-- Amontillado!

-- E preciso efetuar o pagamento.

-- Amontillado!

-- Mas, como você está ocupado, irei a procura de Luchesi. Se existe alguém que conheça o assunto, esse alguém é ele. Ele me dirá...

-- Luchesi é incapaz de distinguir entre um Amontillado e um Xerez.

-- Não obstante, há alguns imbecis que acham que o paladar de Luchesi pode competir com o seu.

-- Vamos, vamos embora.

-- Para onde?

-- Para as suas adegas.

-- Não, meu amigo. não quero abusar de sua bondade. Penso que você deve ter algum compromisso. Luchesi...

-- Não tenho compromisso algum. Vamos.<<

-- Não, meu amigo. Embora você não tenha compromisso algum, vejo que está com muito frio. E as adegas são insuportavelmente úmidas. Estão recobertas de salitre.

-- Apesar de tudo, vamos. Não importa o frio. Amontillado! Você foi enganado. Quanto a Luchesi, não sabe distinguir entre Xerez e Amontillado.

Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo.

Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído par celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem o pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurar o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma seqüência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega. Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor.

O andar do meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos.

-- E o barril? -perguntou.

-- Está mais adiante - respondi. -- Mas observe as brancas teias de aranha que brilham nas paredes dessas cavernas.

Voltou-se para mim e olhou-me com suas nubladas pupilas, que destilavam as lágrimas da embriaguez.

-- Salitre? - perguntou, por fim.

-- Salitre - respondi. - Há quanto tempo você tem essa tosse?

Meu pobre amigo pôs-se a tossir sem cessar e, durante muitos minutos, não lhe foi possível responder.

-- Não é nada - disse afinal.

-- Vamos - disse-lhe com decisão. -- Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu também o era. Você é um homem cuja falta será sentida. Quanto a mim, não importa. Vamos embora. Você ficará doente, e não quero arcar com essa responsabilidade. Além disso, posso procurar Luchesi...

-- Basta - exclamou-ele. -- Esta tosse não tem importância; não me matará. Não morrerei por causa de uma simples tosse.

-- É verdade, é verdade. - respondi. ---- E eu, de fato, não tenho intenção alguma de alarmá-lo sem motivo. Mas você deve tomar precauções. Um gole deste Medoc nos defenderá da umidade.

E, dizendo isto, parti o gargalo de uma garrafa que se achava numa longa fila de muitas outras iguais,sobre o chão úmido.

-- Beba -disse, oferecendo-lhe o vinho...

Levou a garrafa aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e saudou-me com familiaridade, enquanto seus guizos soavam.

-- Bebo - disse ele - á saúde dos que repousam enterrados em torno de nós.

-- E eu para que você tenha vida longa... Tomou-me de novo o braço e prosseguimos. -- Estas cavernas - disse-me - são extensas.

-- Os Montresor - respondi - formavam uma família grande e numerosa.

-- Esqueci qual o seu brasão.

-- Um grande pé de ouro, em campo azul... O pé esmaga uma serpente ameaçadora, cujas presas se acham cravadas no salto.

-- E a divisa?

-- Nem me impune lacessit.* -- Muito bem! - exclamou.

O vinho brilhava em seus olhos e os guizos retiniam. Minha própria imaginação se animou, devido ao Medoc. Através de paredes de ossos empilhados, entremeados de barris e tonéis, penetramos nos recintos mais profundos das catacumbas. Detive-me de novo e, essa vez, me atrevi a segurar Fortunato pelo braço, acima do cotovelo.

-- O salitre! exclamei. -- Veja como aumenta. Prende-se, como musgo, nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade filtram-se por entre os ossos. Vamos. Voltemos, antes que seja tarde demais. Sua tosse...

-- Não é nada - respondeu ele. --Prossigamos. Mas antes, tomemos outro gole de Medoc.

Parti o gargalo de uma garrafa de vinho De Grâve e dei-a a Fortunato. Ele a esvaziou de um trago. Seus olhos cintilaram com o brilho ardente. P6os-se a rir e atirou a garrafa para o ar, com gesticulação que não compreendi.

Olhei-o surpreso. Repetiu o movimento, um movimento grotesco.

-- Você não compreende? - perguntou. ---- Não, não compreendo. -respondi.

-- Então é porque você não pertence a irmandade. -- Como?

-- Não pertence a maçonaria. -- Sim, siiim. Pertenço.

-- Você? Impossível! Um maçom? -- Um maçom. - respondi.

-- Prove-o - disse ele.

-- Eis aqui - respondi, tirando debaixo das dobras de meu roquelaire uma colher de pedreiro.

-- Você está gracejando! - exclamou recuando alguns passos. -- Mas prossigamos: vamos ao Amontillado.

-- Está bem - disse eu, guardando outra vez a ferramenta debaixo da capa e oferecendo-lhe o braço. Apoiou-se pesadamente em mim. Continuamos nosso caminho, em busca do Amontillado. Passamos através de uma série de baixas abóbadas, descemos, avançamos ainda, tornamos a descer e chegamos, afinal, a uma profunda cripta, cujo ar, rarefeito, fazia com que nossas velas bruxuleassem, ao invés de arder normalmente.

Na extremidade mais distante da cripta aparecia uma outra, menos espaçosa. Despojos humanos empilhavam-se ao longo de seus muros, até o alto das abóbadas, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três do lados dessa cripta eram ainda adornados dessa maneira. Do quarto, os ossos haviam sido retirados e jaziam espalhados pelo chão, formando, num dos cantos, um monte de certa altura. Dentro da parede que, com a remoção dos ossos, ficara exposta, via-se ainda outra cripta ou recinto interior, de uns quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia haver sido construída para qualquer uso determinado, mas construir apenas um intervalo entre os dois enormes pilares que sustinham a cúpula das catacumbas, tendo por fundo uma das paredes circundantes de sólido granito.

Foi em vão que Fortunato, erguendo sua vela bruxulante, procurou divisar a profundidade daquele recinto. A luz, fraca, não nos permitia ver o fundo.

-- Continue - disse-lhe eu. O Amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi...

-- É um ignorante - interrompeu o meu amigo, enquanto avançava com passo vacilante, seguido imediatamente por mim.

Num momento, chegou ao fundo do nicho e, vendo o caminho interrompido pela rocha, deteve-se, estupidamente perplexo. Um momento após, eu já o havia acorrentado ao granito, pois que, em sua superfície, havia duas argolas de ferro, separadas uma da outra, horizontalmente, por um espaço de cerca de dois pés. De uma delas pendia uma corrente; da outra, um cadeado. Lançar a corrente em torno de sua cintura, para prendê-lo, foi coisa de segundos. Ele estava demasiado atônito para oferecer qualquer resistência. Retirando as chaves, recuei alguns passos.

-- Passe a mão pela parede - disse-lhe eu. -- Não poderá deixar de sentir o salitre. Está, com efeito, muito úmida. Permita-me, ainda uma vez, que lhe implore para voltar. Não? Então positivamente, tenho de deixá-lo. Mas, primeiro, devo prestar-lhe todos os pequenos obséquios ao meu alcance.

-- O Amontillado! - exclamou o meu amigggo, que ainda não se refizera de seu assombro.

-- É verdade - respondi - o Amontilladooo.

E, dizendo essas palavras, pus-me a trabalhar entre a pilha de ossos a que já me referi. Jogando-os par o lado, deparei logo com uma certa quantidade de pedras de construção e argamassa. Com este material e com a ajuda da minha colher de pedreiro, comecei ativamente a tapar a entrada do nicho. Mal assentara a primeira fileira de minha obra de pedreiro, quando descobri que a embriaguez de Fortunato havia, em grande parte, se dissipado. O primeiro indício que tive disso foi um lamentoso grito, vindo do fundo do nicho. Não era o grito de um homem embriagado. Depois, houve um longo e obstinado silêncio. Coloquei a segunda, a terceira e a quarta fileiras. Ouvi, então, as furiosas sacudidas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para deleitar-me com ele, interrompi o meu trabalho e sentei-me sobre os ossos. Quando, por fim, o ruído cessou, apanhei de novo a colher de pedreiro e acabei de colocar, sem interrupção, a quinta, a sexta e a sétima fileiras. A parede me chegava, agora, até a altura do peito. Fiz uma nova pausa e, segurando a vela por cima da obra que havia executado, dirigi a fraca luz sobre a figura que se achava no interior.

Uma sucessão de gritos altos e agudos irrompeu, de repente, da garganta do vulto acorrentado, e pareceu impelir-me violentamente para trás. Durante breve instante, hesitei... tremi. Saquei de minha espada e pus-me a desferir golpes no interior do nicho; mas um momento de reflexão bastou par tranquilizar-me. Coloquei a mão sobre a parde maciça da catacumba e senti-me satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede e respondi aos gritos daqueleque clamava. Repeti-os, acompanhei-os e os venci em volume e em força. Fiz isso, e o que gritava acabou por silenciar.

Já era meia-noite, a minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona e a décima fileiras. Havia terminado quase toda a décima primeira - e restava apenas uma pedra a ser colocada e rebocada em seu lugar. Ergui-a com grande esforço, pois que pesava muito, e coloquei-a, em parte, na posição a que se destinava. Mas então, saiu do nicho um riso abafado que me pôs os cabelos em pé. Seguiu-se uma voz triste, que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz dizia:

-- Ah! ah! ah!... eh! eh! eh!... Esta ééé uma boa piada! Vamos rir muito no palazzo por causa disso... ah! ah! ah!... por causa do nosso vinho... ah! ah! ah!

-- O Amontillado! - disse eu.

-- Ah! ah! ah!... sim sim... o Amontillllado. Mas não está ficando tarde? Não estarão nos esperando no palácio... a Sra. Fortunato e os outros? Vamos embora.

-- Sim - respondi - vamos embora. -- Pelo amor de Deus, Montresor!

-- Sim - respondi - pelo amor de Deus!

Mas esperei em vão qualquer resposta a estas palavras. Impacientei-me. Gritei alto:

-- Fortunato!

Nenhuma resposta. Tornei a gritar: -- Fortunato!

Ainda agora, nenhuma resposta. Introduzi uma vela pelo orifício que restava e deixei-a cair dentro do nicho. Chegou até mim, como resposta, apenas um tilintar de guizos. Senti o coração opresso, sem dúvida devido à umidade das catacumbas. Apressei-me para terminar o meu trabalho. Com esforço, coloquei em seu lugar a última pedra - e cobri-a com argamassa. De encontro à nova parede, tornei a erguer a antiga muralha de ossos. Durante meio século, mortal algum os perturbou. In pace requiescat!**

Notas:

* Ninguém me fere impunemente.

** Descanse em paz!

Eu e uns quatro ou cinco amigos curtíamos uma noitada na nossa pequena cidade que prefiro não revelar o nome. Resolvemos ir até uma cabana onde todos diziam que havia morrido um assassino lá dentro. Nunca acreditamos nessas coisa, até aquele dia.

Todos diziam que a cabana sempre estava trancada, e ao tentarmos abrir a porta da cabana, ela sem que ninguém tocasse, abriu sozinha ficamos com medo, ninguém demonstrava, e resolvemos entrar assim mesmo. Lá dentro havia uma mesa redonda uma vela apagada em um pires, como não havia luz elétrica acendemos a vela que clareou um pouco a cabana começamos a rir muito com isso dizendo que o assassino que viveu lá era um porquinho pois a casa estava precisando de uma limpeza e coisa assim, até que nos paramos de rir quando a vela caiu e pos fogo no tapete,tentamos apagar mas não conseguimos e o fogo se alastrava, tentamos correr, mas a porta parecia estar emperrada. Não conseguindo abri-la e nos escondemos num canto e nisso, de dentro do fogo vimos como se as chamas mostrassem letras:

V-O-C-E-S Z-O-M-B-A-R-A-M- D-E- M-I-M- A-G-O-R-A- P-O-D-E-R-E-I- S-E-R- O -V-E-R-D-A-D-E-I-R-O- C-U-L-P-A-D-O- D-A-M-O-R-T-E- D-E- J-O-V-E-N-S- A-T-R-E-V-I-D-O-S -N-A-D-A- T-E-N-H-O- A- P-E-R-D-E-R- A-G-O-R-A !!!

Nisso começamos a chorar e minha prima teve coragem e disse: "desculpe invadir seu território deixe-nos ir?" as letras continuaram N-Ã-O E ela disse "podemos te ajudar?" De repente o fogo parou e era como se nada tivesse sido queimado e olhamos bem sobre a mesa e vimos um envelope, abrimos e nele havia um bilhete que dizia:

'Desculpe não queria matar apenas livrar o mundo de minha presença que incomoda a muitos...desculpe se prejudiquei a cidade com o incêndio. Me tornei uma pessoa má depois da morte de minha melhor amiga, me perdoem..ASS Cleodinei dos Anjos Arruda".

Achamos melhor perguntar o que fazer e Silvinha perguntou, levamos a carta até as autoridades?

Nisso a porta se abriu e fomos entrega-la á polícia local completamente chocados.

Depois de muito tempo voltamos até a cabana estava trancada e não se abriu de forma nenhuma acho que ajudamos aquele espírito a se livrar da culpa e nos salvamos de virar churrasco.

Na minha cidade ninguém mais brincou com coisas do além...ninguém...