JURA EM PROSA E VERSO

BIOGRAFIAS DE PESSOAS FAMOSAS

CIPRIANO BARATA E A CONJURAÇÃO BAIANA de 1798

CIPRIANO BARATA

Rachel Bertol

 

"O historiador Marco Morel imagina o início do possível roteiro: Veridiana Rosa velhinha contando ao neto Agildo Barata, que no futuro se tornaria um famoso comunista, os feitos do pai dela, o temido e heróico Cipriano Barata. Lavrador e cirurgião – ele estudava em Coimbra quando estourou a Revolução de 1789 na França – o pai de Veridiana começou a nascer para a História em 1798, quando se destacou na Conjuração Baiana que, assim como a Conjuração Mineira de Tiradentes, foi uma das mais importantes insurreições pela Independência naqueles anos. Até sua morte em 1838, aos 76 anos, o baiano nunca abandonou seus ideais de liberdade, tornando-se uma legenda, herói em vida, como resgata Morel em ‘Cipriano Barata na sentinela da liberdade’, sexto livro da coleção sobre temas baianos editada pela Academia de Letras da Bahia e pela Assembléia Legislativa do Estado.

No início da biografia, Morel traça uma comparação curiosa. O mártir da Independência, Joaquim José da Silva Xavier, assassinado em 21 de abril de 1792 no Rio por conspirar contra o domínio português, não chegou a ser popular em vida. Sua história seria recuperada somente um século depois, na República recém-criada, quando a memória de Tiradentes serviu para a formação da mitologia nacional.

– Já Cipriano Barata, que foi muito popular, não é hoje bem conhecido nem mesmo entre historiadores. Ele jamais terá a expressão de Tiradentes, que por ser uma figura mais indefinida tem sua memória utilizada de forma bastante abrangente, mas é um personagem que merece ser devidamente dimensionado. Na França, por exemplo, os líderes da Revolução Francesa, como Robespierre, Danton, Marrat, são apresentados em inúmeras biografias e motivo de muitas discussões acadêmicas – afirma Marco Morel, para quem a vida de Barata, carregada de lances dramáticos, poderia ser facilmente transposta para as telas ou retratada numa biografia romanceada.

No livro que escreveu, o mais completo já feito sobre o revolucionário baiano, ele diz que seu principal objetivo foi pavimentar um caminho para outros historiadores conhecerem a vida do homem cujas idéias, em sua opinião, ecoaram por muito tempo no Brasil.

– Na história do pensamento político brasileiro, Cipriano Barata sem dúvida aparece na origem da corrente que, mais tarde, seria denominada a corrente política de esquerda – diz Morel, professor da Uerj.

O interesse do historiador pelo personagem começou há cerca de 20 anos, quando, antes de se decidir pela história, ele quis cursar jornalismo e estudou um pouco sobre a profissão. Deparou-se com a figura de Barata, considerado o mais radical jornalista do período da Independência, e se encantou. Em 1990, defendeu uma tese de mestrado a respeito do redator do ‘Sentinela da Liberdade’ – o jornal que Barata fez circular mesmo estando preso – e agora ampliou o trabalho com novas pesquisas no Rio, em Salvador e Paris. Encontrou muitas novidades e reconhece ter se contido nos momentos mais dramáticos para não dar um tom literário à biografia.

Uma das preciosidades que descobriu, na Biblioteca Nacional do Rio, foi uma carta de oito páginas enviada em 1882 por Veridiana a Alexandre Mello de Moraes, primeiro biógrafo de Barata. Na carta – que foi ignorada por Moraes – ela conta, entre outros episódios, como o pai apazigou em abril de 1831 uma rebelião nas ruas de Salvador contra os marotos, como eram chamadas as pessoas contrárias à Independência. ‘Viva Barata!’, gritavam os revoltosos atrás do homem de idéias radicais, que saiu às ruas vestindo o que Morel identifica como roupa utópica, muito em voga então na Europa. O líder usava casaca preta de algodão da terra, num protesto contra os interesses britânicos, chapéu de palha que simbolizava a adesão à causa patriótica e na mão levava um ramo de café, outro símbolo de afirmação patriótica. Ridicularizadas por adversários, essas roupas eram uma alegoria viva, utópicas porque expressavam um ideal. ‘Diziam os malvados que eu andava lá de camisa e ceroulas de algodão e pé descalço, à frente dos escravos’, escreveria Barata pouco tempo depois.

Seu feito, de forte repercussão, assustou na época a elite baiana. Poucos meses antes, uma multidão no Rio de Janeiro saudara a libertação do aguerrido patriota, que ficara sete anos preso por causa de suas idéias. Não demoraria muito para que fosse novamente detido. Na pesquisa para o livro, Morel descobriu que Barata foi levado de volta para uma prisão no Rio num navio francês – os ingleses não eram os únicos com interesses comerciais no país. O fato, destaca o historiador, revela uma triste ironia histórica.

Em 1798, na Conjuração Baiana, alguns dos conspiradores, entre eles Barata, evitaram a radicalização porque tinham convicção de que os revolucionários franceses enviariam um navio com tropas para lhes dar apoio. O navio francês chegou 30 anos depois, mas com propósitos comerciais, nada revolucionários.

– Faço uma aposta de que a Conjuração Baiana será um tema muito estudado por historiadores brasileiros no século XXI. Foi a primeira vez que uma camada pobre da população assumiu a idéia de revolução. Traz à tona muitas questões étnicas, sociais e relativas a projetos de nação. Também enseja a discussão sobre felicidade coletiva em oposição à felicidade individual. Já a Conjuração Mineira tinha cunho mais iluminista, visava mais a combater o mau governo - diz Morel.

O principal documento sobre a participação de Barata na Revolta dos Alfaiates são os Autos da Devassa sobre os conspiradores. Quatro deles acabaram executados e Barata, que na época ficou 14 meses preso, negou durante todo o processo sua participação, confirmada, no entanto, por outros conspiradores. Morel observa que Barata também é um dos poucos a tecer comentários, anos depois, sobre os revolucionários de 1798. Assim como a Conjuração Mineira, a Baiana por muito tempo foi um assunto tabu.

– Alguns historiadores não acreditam na participação de Barata na Conjuração Baiana, mas eu considero que ele esteve no âmago da revolta, estabelecendo uma ligação entre a elite e a plebe.

Federalista, para quem a Bahia era sua pátria, Barata defendia posições consideradas perigosas para o modelo regencial adotado depois da volta de d. Pedro I a Portugal, em 1831. Identificado com os liberais exaltados, nunca se intimidou em esgrimir com opositores no seu ‘Sentinela da Liberdade’, jornal copiado em todo o país, inclusive no Rio Grande do Sul, na Revolta Farroupilha, e até no exterior, como suplemento do ‘Sunday Times’. José Bonifácio, que fora seu colega em Coimbra, e José da Silva Lisboa, o futuro visconde de Cairu, eram seus inimigos. Suas opiniões eram vistas como perigosas porque, além de estimularem separatismos, se aproximavam dos ideais republicanos."

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Alerta! O ‘Sentinela’ conclama as mulheres, copyright O Globo, 21/4/2001

"Figura complexa, Cipriano Barata não tem uma vida livre de contradições. O historiador Marco Morel admite que, quando estudou o personagem pela primeira vez, para sua dissertação de mestrado, passou ao largo de algumas dessas contradições. Uma delas diz respeito à relação de Barata com a escravidão. O herói baiano chegou a ser conhecido como ‘pai dos negros’, mas nunca deixou de ter escravos e mesmo preso, num momento de maior liberalidade, contou com um para lhe atender.

Em ‘Cipriano Barata na sentinela da liberdade’, Morel levanta a questão, mostrando como muitos historiadores enfrentam dificuldade em lidar com essa contradição, comum no início do século XIX. O historiador ressalta as limitações ‘de se forjar um modelo atemporal e a-histórico para o conceito de Revolução que, ao contrário, só tem sentido quando situado historicamente’. Por isso, aceita o personagem em sua contradição, lembrando que escravos também foram detidos na Conjuração e associavam-na ao fim do cativeiro.

De acordo com a pesquisa de Morel, Barata - que teve cinco filhas e se casou duas vezes - foi um dos primeiros a dar espaço às mulheres na imprensa. Outra novidade que encontrou a respeito da vida dele: em seu’Sentinela da Liberdade’, Barata conclamou ‘o belo e venturoso sexo’ a estimular os homens na época do governo de José Bonifácio. ‘Estimulai seus brios, sua honra, seu patriotismo; lançai-lhe no rosto a covardia!’.

Ele incentivou a participação feminina na política e não demorou em receber respostas ao seu chamado. Da Paraíba, chegou em poucos dias um texto assinado por uma centena de mulheres da cidade de Brejo da Areia. ‘Vivam as imortais Espartanas valerosas da Paraíba! Vivam! Vivam’, escreveu Barata, que por algum tempo chegou a ser chamado por adversários de ‘Imperador do Brejo da Areia’.

Nessa época, logo depois de voltar de Lisboa, onde representou o Brasil como deputado, Barata morava em Recife. Lá tinha criado em 9 de abril de 1823 o jornal ‘Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, Alerta!’. Um de seus amigos seria o Frei Caneca, que foi morto ao participar de uma rebelião em 1825 (Morel escreveu uma pequena biografia do frade carmelita, ‘Frei Caneca - Entre Marília e a pátria’, FGV, lançada no ano passado).

O revolucionário que aconselhava a criação de guerrilhas para a proteção das províncias será sempre um desafio para os biógrafos, por sempre ter desenvolvido atividades secretas, o que era comum naquele tempo. Uma questão não resolvida, segundo Morel, é a polêmica se era ou não maçom. Muitos autores, como o desembargador Paulo Garcia, que em 1997 lançou ‘Cipriano Barata, ou a liberdade acima de tudo’ (Topbooks), defendem essa hipótese. Segundo Morel, trata-se de um trabalho muito bem feito de um maçom apaixonado. Ele mesmo, no entanto, não encontrou nenhum documento que comprove definitivamente a participação de Barata na maçonaria."