JURA EM PROSA E VERSO

BIOGRAFIAS DE PESSOAS FAMOSAS

Alberto Santos Dumont
Por Christiane Angelotti


 



Na minha humilde opinião, muitas vezes, somos ingratos com os nossos gênios. Alberto Santos Dumont, foi um cidadão do mundo, mas também um brasileiro, mineiro, um exemplo de generosidade e perseverança. Todo brasileiro deveria saber disso: quem ele foi, o que fez...
Modestamente, fica aqui registrada a homenagem do Qdivertido ao “PAI DA AVIAÇÃO”.

Alberto Santos Dumont, nasceu no dia 20 de julho de 1873, em Minas Gerais, no sítio de Cabangu, em Palmira, hoje cidade de Santos-Dumont. Era o sexto filho, de oito, que o casal, o engenheiro Henrique Dumont e D. Francisca de Paula Santos, tiveram.
Neto de franceses por parte de pai, daí o sobrenome Dumont, Santos Dumont pertencia a uma família próspera na lavoura cafeeira. Seu pai, comprou uma fazenda próxima à cidade de Ribeirão Preto, na qual obteve grande êxito no cultivo do café.
Alberto Santos Dumont foi alfabetizado por sua irmã Virgínia. Estudou ainda em Campinas, no colégio Culto a Ciência, em São Paulo, nos colégios Kopke e Morton e na Escola de Ouro Preto.
Ainda na infância, Santos Dumont estudava com professoras particulares francesas contratadas por seu pai, vindas diretamente de Paris.
Desde adolescente demonstrou interesse pela engenharia e mecânica. Nessa época, começou a pilotar locomotivas na fazenda de seu pai e ajudar na manutenção das máquinas. Embora não tenha concluído o ensino superior, Santos Dumont era um homem culto em mecânica, física, eletricidade e química. Dominava vários idiomas, como o francês, o inglês e o espanhol, além do português.
Curioso e sonhador, quando criança Santos Dumont adorava observar o céu deitado no chão, de sua fazenda.
Desde cedo, era fã dos livros de Júlio Verne.
Sempre muito interessado em experiências aéreas, conheceu as experiências com balões de ar quente feitas pelos irmãos Montgolfier em 1783 e a de Jean Blanchard e John Jeffries, que realizaram a travessia do Canal da Mancha em um balão, em 1785.
No ano de 1890 seu pai sofreu um acidente de charrete, e em conseqüência do tratamento, vendeu a fazenda de café. Em 1891, Santos Dumont foi com seu pai a Paris e lá pode ver pela primeira vez um motor a gasolina, diferente dos motores a vapor que conhecia. Trouxe para o Brasil um automóvel Peugeot, à gasolina, o primeiro do gênero no Brasil. No ano seguinte, seu pai o emancipou e deu-lhe uma parte de sua herança aconselhando-o a estudar engenharia na França, para que Alberto pudesse desenvolver seu potencial já demonstrado.
Já morando na França, santos Dumont começou a dedicar-se aos balões, sonhava em melhorar o mesmo, já que esse não possuía dirigibilidade.
Em sua busca pela propulsão e dirigibilidade dos balões, dedicou-se aos estudos de Física, Química e Eletricidade. Estudou com o professor Garcia, um humanista espanhol, foi aluno ouvinte na Universidade de Bristol. Em 1897 retornou a Paris e construiu um motor a explosão de dois cilindros , o qual adaptou a um triciclo.
Em 23 de março de 1898 fez, com Machuron, sua primeira ascensão num balão de 750 m3, saindo do Parque de Vaugirard e voaram duas horas até o parque do castelo de La Ferriere, um percurso de 100 km.
Empolgado com a experiência, Santos Dumont encomendou um balão à tradicional Casa Lachambre. Acompanhou todas as etapas da construção, para aprender a técnica e também para implementar inovações. Fez questão de que fosse construído com seda japonesa para reduzir o peso. Tinha um cesto para uma pessoa apenas e corda-pendente mais longa que o costume, além de dimensões reduzidas (103 m3).
Em 4 de julho de 1898, subia ao céu o balão Brasil, que surpreendeu os parisienses pelo seu tamanho reduzido.
Concentrou seus esforços para solucionar a questão da dirigibilidade e propulsão dos balões. Projetou então o seu balão número 1, com forma alongada, de charuto, com hidrogênio e motor de propulsão a gasolina. Fez o projeto de modo a evitar qualquer risco de explosão do hidrogênio no contato com faíscas do motor da hélice. Na primeira tentativa, chocou contra árvores, pois decolou a favor do vento, por sugestão de outras pessoas. No dia 20 de setembro do mesmo ano realizou então, o primeiro vôo de um balão com propulsão própria. Partindo do Jardin d’Acclimmatation, voou sobre Paris, contra e a favor dos ventos. Teve um pequeno acidente ao descer, que não teve maiores conseqüências porque pediu a alguns meninos para usarem o cabo pendente do balão como se fosse uma pipa/papagaio, correndo contra o vento.
No ano seguinte voou com os dirigíveis número 2 e 3. Dumont estava já bastante conhecido, e seus feitos chamaram atenção de um magnata do petróleo chamado Henry Deutsch de la Muerte. Henry ofereceu um prêmio de cem mil francos a quem partisse de Saint Cloud contornasse a torre Eiffel e regressasse ao ponto de partida pelo ar, em no máximo 30 minutos, era o chamado prêmio Deutsch.
Santos Dumont fez experiências com seu dirigível 4, em setembro de 1900, e tentou conquistar o prêmio com o seu dirigível número 5 em 13 de julho de 19001.
Conseguiu decolar, contornou a torre, porém, uma falha no motor fez seu balão ser carregado pelo vento e chocar-se contra as árvores do parque de Edmond de Rothschild.
No dia 8 de agosto do mesmo ano, houve uma segunda tentativa. Com a presença da Comissão Científica do Aeroclube da França, contornou a Torre Eiffel, e partiu de volta a Saint-Cloud, como mandava o desafio. Mesmo com o balão perdendo hidrogênio decidiu prosseguir. Perdendo gás, as cordas de suspensão foram sendo cortadas pela hélice, o que obrigou Dumont a parar o motor. O balão caiu e chocou contra o telhado do Hotel Trocadéro, causando uma grande explosão. Dumont se salvou porque se amarrou à quilha do dirigível, ficando suspenso, dependurado no hotel, de onde foi resgatado por bombeiros Paris.
Em outubro do mesmo ano, convocou novamente os jurados do Aeroclube da França, mas, devido o mau tempo apenas alguns compareceram, entre eles o magnata que propôs o prêmio. No tempo de 29 minutos e 30 segundos, o dirigível número 6 cruza a linha de chegada. Porém, houve muita polêmica, pois o regulamento havia sido modificado e previa também que o pouso fosse feito dentro dos 30 minutos. A polêmica proceguiu,até que, em 4 de novembro o Aeroclube da França declarou-o vencedor. O prêmio, Dumont distribuiu entre a sua equipe e alguns desempregados de Paris.
O então presidente do Brasil, Campos Sales enviou outro prêmio no mesmo valor, com uma medalha de ouro com sua efígie e uma alusão a Camões: Por céus nunca dantes navegados. Em 1902, Alberto I, príncipe de Mônaco, fez um convite irrecusável a Santos Dumont, que continuasse suas experiências no Principado. Oferecia-lhe um novo hangar na praia de La Condamine, e tudo mais que Alberto julgasse necessário para o seu conforto e segurança.
Santos Dumont construiu então, seu dirigível número 7 para uma corrida entre dirigíveis. Pulou o número 8, por superstição. O dirigível número 9 tornou-se bem popular, por ser menor que os outros e por Santos Dumont ter feito diversas apresentações com ele. Dizem que ele usava o dirigível como se fosse um carro, para se locomover em Paris.
Em 14 de julho de 1903, participou das comemorações da queda da Bastilha, desfilando com o dirigível. Pela primeira vez, permitiu que uma outra pessoa o conduzisse, a cubana Aida de Acosta. O dirigível número 10 foi construído para transportar até doze passageiros.
O número onze foi um bimotor com asas. O número doze era semelhante a um helicóptero.
Em 1906, realizou experiências com o número treze, que teve um invólucro com gás de iluminação.
Também em 1906, construiu o número 14. Com ele realizou experiências com seu primeiro avião, o 14- bis que decolava inicialmente acoplado ao dirigível. Nesse ano foi instituída a Taça Archdeacon para um vôo mínimo de 25 metros com aparelho mais pesado que o ar e com propulsão própria. Também foi instituído o Prêmio Aeroclube da França, oferecendo 1500 francos para vôo de 100 metros, ambos com aeronave mais pesada que o ar.
No dia 23 de outubro se 1906, em Bagatelle, na França , fez um vôo de cerca de 60 metros conquistando a Taça Archdeacon, e foi considerada a primeira vez que uma aeronave deslizava e decolava utilizando apenas suas próprias forças.
Em 12 de novembro de 1906, concorreu com Voisin e Blériot, que construíram uma máquina com o mesmo intuído. Cedeu a vez aos concorrentes, que não conseguiram decolar. Em sua primeira tentativa, às 10 horas também não conseguiu decolar. Enfim, na quarta tentativa conseguiu decolar e fez um vôo de 220 metros estabelecendo o primeiro recorde de distância, ganhando o Prêmio Aeroclube.
Depois, ainda construiu o dirigível 15 , com asa de madeira, e o 16, era um misto de avião com dirigível, o 18 deslizava sobre a água. Porém, seus resultados desde o número 15 não o deixaram satisfeito. Construiu, então, uma nova série, chamadas de Demoiselles (senhoritas em francês) com tamanho menor e mais aprimoradas, foram os números 19, 20, 21 e 22.
Santos-Dumont, não patenteou seus inventos exatamente para motivar as inovações, motivou engenheiros e inventores a desenvolverem novos projetos. Voisin fabricou com Léon Delagrange um biplano que voou em Bagatelle, em março e abril de 1907. Blériot também realizava pequenos vôos com seus modelos.
Em 1909 ocorreram dois grandes eventos na França: a Semaine de Champagne, em Reims, que foi o primeiro encontro aeronáutico do Mundo, durante o qual foram disputadas várias provas, com prêmios que somaram 200 mil francos; e o desafio da travessia do Canal da Mancha, lançado a todos os aviadores. Em janeiro desse ano, Santos Dumont obteve o primeiro brevê de aviador, fornecido pelo Aeroclube da França.
No dia 25 de julho de1909,Blériot atravessou o Canal da Mancha, tornando-se um herói na França. Guilherme II, Imperador da Alemanha, disse então uma frase que apareceu na manchete de vários jornais:” A Inglaterra não é mais uma ilha.” Santos Dumont, em carta, parabenizou Blériot, seu amigo, com as seguintes palavras: “Esta transformação da geografia é uma vitória da navegação aérea sobre a navegação marítima. Um dia, talvez, graças a você, o avião atravessará o Atlântico. Blériot, então, respondeu: Eu não fiz mais do que segui-lo e imitá-lo. Seu nome para os aviadores é uma bandeira. Você é o nosso líder.
Santos-Dumont começou a sofrer de esclerose múltipla. Sua aparência estava envelhecida, o cansaço o abateu impedindo-o de continuar competindo com novos inventores nas diversas provas. Encerrou as atividades de sua oficina em 1910 e retirou-se do convívio social.
Em reconhecimento às suas conquistas, o Aeroclube da França o homenageou com a construção de dois monumentos: o primeiro, em 1910, erguido no Campo de Bagatelle, onde realizara o vôo com o 14-Bis, e o segundo, em 1912, em Saint-Cloud, em comemoração do vôo do dirigível nº 6, ocorrido em 1901.
Em 18 de setembro de 1909, realizou seu último vôo em uma de suas aeronaves, voando sobre uma multidão segurava um lenço em cada mão e soltou-os quando passou sobre a multidão.
Em agosto de 1914, a França foi invadida pelas tropas alemãs. Era o início da Primeira Guerra Mundial. Aeroplanos começaram a ser usados na guerra, primeiro para observação de tropas inimigas e, depois, em combates aéreos. Os combates aéreos ficavam mais violentos, com o uso de metralhadoras e disparo de bombas. Santos Dumont viu, de uma hora para a outra, seu sonho se transformar em pesadelo. A partir de então, começaram os questionamentos de Santos Dumont.
Santos Dumont passou a se dedicar ao estudo da Astronomia, residindo em Trouville, perto do mar. Para isso, usava diversos aparelhos de observação, que os vizinhos julgaram ser aparelhos de espionagem, para colaborar com o exército alemão. Santos Dumont foi preso sob acusação de espionagem. Após o incidente ser esclarecido, o governo francês pediu desculpas formalmente.
Em 1915, sua saúde piorou, foi quando ele decidiu retornar para o Brasil.Nesse mesmo ano, participou do 11º Congresso Científico Panamericano nos Estados Unidos, tratando do tema da utilização do avião como forma de facilitar o relacionamento entre os países da América. No entanto, mesmo nas América o avião era utilizado para fins militares, os Estados Unidos produzia 16 aviões militares por dia.
Já sofrendo de depressão, foi morar em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde projetou e construiu seu chalé, chamado "A Encantada": uma casa com diversas criações próprias, como um chuveiro de água quente e uma escada diferente, onde só se pode pisar primeiro com o pé direito. A casa atualmente funciona como um museu. Permaneceu lá até 1922, quando visitou a França chamado por amigos. Não se estabeleceu mais um local fixo. Permanecia algum tempo em Paris, São Paulo, Rio de Janeiro, Petrópolis e na fazenda Cabangu, em Minas Gerais.
Em 1922, condecorou Anésia Pinheiro Machado, que durante as comemorações do centenário da independência do Brasil, fizera o percurso Rio de Janeiro - São Paulo em um avião. Nesse mesmo ano, mandou erguer um túmulo para seus pais e para si mesmo, no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.
Em janeiro de 1926, apelou à Liga das Nações para que fosse impedida a utilização de aviões como armas de guerra. Chegou a oferecer 10 mil francos para quem escrevesse a melhor obra contra a utilização de aviões na guerra. Nesse mesmo ano, inventou um motor portátil para esquiadores, que facilitava a subida nas montanhas. Foi experimentado pela campeã de esqui da França, Srta. Porgés.
Em maio de 1927, chegou a ser convidado pelo Aeroclube da França para presidir o banquete em homenagem a Charles Lindberg pela travessia do Atlântico, feita por ele próprio, mas declinou do convite devido a seu estado de saúde. Passou algum tempo em convalescença em Glion, na Suíça e depois retornou à França.
Em 1931, após ter sido internado várias vezes na Europa, Santos Dumont em delicado estado de saúde, foi trazido ao Brasil pelo seu sobrinho Jorge Dumont Villares. Passaram por Araxá, em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e em maio de 1932 instalou-se no Hotel La Plage, no Guarujá,
Em 1932 ocorreu a revolução constitucionalista, em que o estado de São Paulo se levantou contra o governo revolucionário de Getúlio Vargas. Isso afetou bastante a Santos Dumont, que lançou apelos para que não houvesse uma guerra entre brasileiros. Mas o conflito aconteceu e aviões atacaram o campo de Marte, em São Paulo, no dia 23 de julho. Possivelmente, sobrevoaram o Guarujá, e a visão de aviões em combate pode ter causado uma angústia profunda em Santos Dumont, que nesse dia, aproveitando-se da ausência de seu sobrinho, suicidou-se, aos 59 anos de idade.

'Os pássaros devem experimentar a mesma sensação, quando distendem suas longas asas e seu vôo fecha o céu... Ninguém, antes de mim, fizera igual'
Alberto Santos Dumont


Fonte
Ver sites: www.santosdumont.14bis.mil.br
http://www.musal.aer.mil.br/
http://www.fab.mil.br/fab/personalidades/sdumont/index.htm
http://www.sobreasondas.com/dumont.html
http://www.cabangu.com.br/pai_da_aviacao/
http://www.santos-dumont.net/


Curiosidades
 Santos Dumont foi eleito Imortal da Academia Brasileira de Letras em 4 de julho de 1931, para a Cadeira 38, cujo Patrono é Tobias Barreto, mas não chegou a tomar posse. Foi o segundo ocupante desta Cadeira.
 Em 31 de julho de 1932 o decreto estadual n° 10.447 mudou o nome da cidade de Palmira, em Minas Gerais, para Santos-Dumont.
 A Lei n° 218, de 4 de julho de 1936, declara 23 de outubro o dia do aviador, em homenagem ao primeiro vôo da história, realizado nesta data, em 1906.
 Em 1976 a União Astronômica Internacional prestou homenagem ao inventor brasileiro, colocando seu nome em uma cratera lunar. É o único brasileiro detentor desta distinção.
 Em 13 de outubro de 1997, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton em visita ao Brasil, discursou no Palácio do Itamaraty, se referindo a Santos Dumont como o pai da aviação.
 Além de pai da aviação, ele também foi uma das figuras mais elegantes e influentes de seu tempo. Algumas das melhores festas de Paris, reunindo a elite mundial, aconteciam em sua casa.
 14bis tem esse nome porque foi testado por Santos Dumont, acoplado ao seu dirigível de nº 14. Dumont preferiu chama-lo de “bis”, ao invés de dar um novo número.
 O relógio de pulso também foi criação de Santos Dumont. Enquanto pilotava seus dirigíveis, Dumont não tinha como acompanhar os segundos e minutos em que permanecia no ar, com o relógio de bolso. O aviador sugeriu então ao amigo relojoeiro Cartier para que adaptasse “alças” ao objeto. O modelo do relógio foi chamado de “Santôs” e existe até hoje.